2.3. Temel Kavramlar
2.3.7. Dizgeci-İşlevsel Dilbilgisi Çerçevesinde Tarih Metin Tipleri
O primeiro texto13 sobre a qual vamos nos debruçar foi produzido por Joselina Garzão dos Santos, moradora do Leonardo Ilha e coordenadora do grupo de Mulheres Unidas Venceremos.
A foto mostra uma cena em preto-e-branco, marcada centralmente pela presença de três personagens: um homem e dois meninos. O homem tem cabelos longos, usa um macacão e está sem camisa. Os meninos posicionam- se ao seu lado, um à direita e outro à esquerda. O menino que segura a mão direita do homem é um pouco mais alto que seu par infantil e tem a sombra projetada pelo sol na parede da casa vizinha. Eles vestem camisetas e bermudas claras.
O enquadramento da cena corresponde ao que, tecnicamente, chamamos de grande plano geral, apontando não apenas para as personagens dramáticas, mas organizando a imagem em dois blocos: a metade inferior, que apresenta um maior número de elementos cênicos, e a metade superior, que valoriza o céu. As três personagens, em primeiro plano, estão na frente de uma casa, visivelmente posando para a fotografia.
É uma construção de madeira, sem pintura. O tom cinza das paredes e as falhas entre as ripas indicam o estado de deterioração do imóvel, possivelmente em razão do tempo de existência e da falta de manutenção. A disposição das portas e janelas assemelha-se àquela adotada pelas crianças em garatujas, na idade pré-escolar, e revela o interior da casa, marcado pela ausência de luminosidade.
Ainda em terceiro plano, na porta da frente, encontra-se uma figura feminina, que veste roupas claras e segura uma cuia de chimarrão14. A direção do seu olhar, apesar de embaçado, aponta para o fotógrafo e/ou para o leitor da imagem. Dizemos que esta mulher está em terceiro plano porque, entre as personagens centrais e a casa, existe um pequeno pátio de terra, sobre o qual vemos esparsos tufos de grama. Também notamos um varal de roupa, de arame farpado, onde estão pendurados alguns cobertores e toalhas. Não há cerca envolta da casa nem qualquer outro dispositivo de proteção, apenas troncos dispersos fincados no chão e um poste de luz.
Dito isso, temos uma rápida descrição da cena registrada, mas para iniciar sua leitura recorremos à categoria Discurso, que, segundo Barthes (1978), refere-se à capacidade de dizer alguma coisa sobre algo combinando signos. É pela produção e leitura de discursos que o homem estabelece elos com as manifestações socioculturais que lhe são distantes no tempo e no
espaço; que se certifica de seu conhecimento de mundo e dos outros homens e amplia os saberes que daí decorrem, permitindo-lhe compreender seu papel como sujeito histórico.
No caso desta etapa da pesquisa, o discurso é apresentado ao outro através de um plano de expressão particular, a Fotografia. Por isso, esta será nossa primeira subcategoria de análise.
Segundo o autor, o fotógrafo só encontra o real num único momento: no ato do registro. Qualquer sentido que possamos produzir acerca dele, possivelmente, depende das escolhas que este fotógrafo fez naquele momento. Isso aponta para dois pressupostos essenciais do processo comunicativo: a intenção e a preocupação com o modo de construção e leitura da mensagem.
Para que haja comunicação, não basta que Joselina autora do retrato, produza um texto fotográfico, é preciso que o “outro”, o “público”, o “leitor” possa, de algum modo, construir significados a partir dele. Aliás, Barthes (1973) diz que, se escrevemos um texto, não importando a substância que utilizamos para isso, é porque desejamos que seja lido, e, com ele, um pouco de nós, das nossas idéias de mundo.
Nesse sentido, destacamos a centralidade das personagens na foto, indicando a ênfase da cena. A protagonista do texto fotográfico não é a casa ou o estado material da construção, mas a figura humana, que fala a partir desse espaço físico e das condições em que vive nele. É um recorte delimitado pelo enquadramento, pela perspectiva com que o fotógrafo capta o referente.
Além disso, podemos destacar a utilização do filme preto-e-branco para registro. Ele situa a imagem no plano da realidade idealizada, do conceito que cada autor tem sobre essa realidade, manifestando-o em signos icônicos. Assim, ou o elemento referente destaca-se (banhado de luz), como é o caso das personagens dramáticas, ou esconde-se (ofuscado pelas variações de cinza), como o interior da casa. Entretanto, esconder, ainda, não é o mesmo que excluir, pois tudo o que mostramos numa imagem ganha significação na medida em que é relativizado por tudo o que deixamos de mostrar.
Outro elemento que ganha destaque nas reflexões barthesianas sobre a subcategoria Fotografia é a postura das próprias personagens diante da câmera. Barthes (1984) afirma que somos camaleões e que nos revestimos de
um outro eu quando nos percebemos fotografados. Isso pode ser observado na imagem captada por Joselina.
Nela as personagens da cena estão olhando para a câmara, e o homem, que representa a figura paterna, segura os filhos pela mão e oferece o texto ao público. Não se trata apenas do olhar do fotógrafo e do referente que ele optou por registrar, mas do olhar das personagens sobre o gesto de registro e a imagem que, naquele instante, constroem. A leitura será, então, circunstanciada não apenas pela intenção do fotógrafo, mas, também, do fotografado.
Como espectadores, somos atingidos por essa exigência de duas formas: através do Studium e do Punctum. O Studim, papel cultural do discurso que o fotógrafo produziu, está relacionado à propagação da idéia de abandono e carência e à construção da imagem da própria comunidade; desse modo, compreendê-la significaria reconhecer o outro, mas esse reconhecimento surge quase como uma obrigação social.
A palavra “obrigação” parece-nos pertinente porque não há emoção provocada pela presença dos dois garotos na imagem, ou pelas péssimas condições em que a casa se apresenta. Essa é quase uma imagem comum, estereotipada e mitológica, próxima a tantas outras que circulam no espaço social. No entanto, contrariando o interesse apenas sensato, há na Fotografia algo que pica, que nos acorda para sua existência. Um detalhe que, possivelmente, não está ligado às questões essenciais, propostas pelo fotógrafo, nem é uma obviedade, mas desperta nossa afetividade: a sombra do menino projetada na parede.
Ficamos inquietos diante do pequeno recorte vazio de seu contorno, como uma folha vazada; e o desaparecimento da figura do pai, que, diante da situação de abandono que parece viver, também abandona. A sombra do menino acorda na foto o próprio menino; desprotegido do sol, desprotegido do pai, desprotegido da foto, desprotegido da lembrança do momento único em que sua imagem foi capturada e imobilizada pela fala fotográfica. A este detalhe que punge Barthes chama de Punctum.
Além disso, nesta imagem a combinação de signos não é aleatória, pois estrutura-se a partir da intenção revelada pelo fotógrafo. Entretanto, como sujeito histórico, seu discurso está impregnado pelos vícios dos outros textos
que formam sua bagagem cultural e filtram seu olhar sobre a realidade, como os Estereótipos. Se observarmos, por exemplo, as opções do operador ao registrar uma família sob certas circunstâncias estéticas (macacão sem camisa, roupas claras encardidas e puídas, cabelos compridos e despenteados, cobertores listrados no varal de arame, casa de madeira), podemos identificar a formação de uma figura estereotipada da pobreza.
Disfarçada de natural, pois costumeiramente aparecem em imagens veiculadas pela mídia, a deformação do signo incorporou-se espontaneamente na fala do fotógrafo. A primeira impressão que temos ao lançar um olhar pouco aguçado à imagem é de que se trata de uma família pobre. Significado este presente no discurso pela repetição: o formato da casa, semelhante àquele estimulado por professores na infância e reproduzido naturalmente pelos alunos; a ausência de proteção, no que se refere ao pátio (sem muros ou cercas); a roupa desbotada, rasgada ou velha; os cobertores pendurados em arame farpado e a cor acinzentada da vida. Os signos aparecem como sinônimo de pobreza e a família acaba rotulada pela carência.
Esses mesmos sentidos também têm relação com os Mitos reconhecidos no discurso fotográfico. Barthes (2001) lembra que eles se dividem em sete tipos diversos, porém aqui nos dedicamos a falar de apenas três: o da Omissão da História, o da Constatação e o da Identificação.
O modo como essas personagens são representadas leva a uma leitura segunda, conotada, a do desemprego. Lemos com naturalidade sua ligação com a pobreza, porque a história foi omitida. Barthes (2001), falando sobre uma exposição chamada “A grande família dos homens”, lembra que os modos de existência não são naturais, mas históricos.
Todos os bairros periféricos em diferentes cidades do país podem abrigar famílias ou moradores desempregados. A questão é: a família registrada é o modelo de família do bairro Leonardo Ilha? Por que estão na situação em que estão?
Conteúdo e fotogenia das imagens, discurso que as justifica, tudo aqui visa a supressão do peso determinante da História; somos detidos à superfície de uma identidade, impedidos, pela própria sentimentalidade, de penetrar nessa zona ulterior dos comportamentos onde a alienação histórica introduz essa ‘diferença’ que aqui serão denominadas simplesmente injustiças (p.114).
Essa idéia nos leva a outros dois Mitos: o da Constatação, uma vez que a leitura conotada se apresenta como uma circunstância inalterável do mundo (pobre logo desempregado), e o da Identificação, pois o fotógrafo dá voz às personagens, registra-as, porque concordam com ele, porque pertencem ao mesmo lugar, são iguais.
Já a categoria Poder, no contexto desta imagem, pode ser compreendida com base em diferentes elementos, entre os quais o pai, o referente e o próprio fotógrafo. O primeiro está vinculado à força da figura masculina, do chefe de família e, talvez, ao paternalismo exigido do Estado como poder institucional maior; o segundo, como uma força de intimidação, utilizada pelas personagens dramáticas, que perpassa a autorização do registro e aponta para o autor/leitor através do olhar, com o objetivo de ser reconhecido pelo outro, como outro; e há, também, a potencialidade do fotógrafo, intermediada pela ação de fotografar, de dizer algo, de fazer escolhas, recortes.
Por fim, temos o Socioleto, última categoria proposta, a priori, por essa pesquisa, que se caracteriza como uma forma de fala peculiar da comunidade moradora do bairro Leonardo lha. São signos, estruturas e significados construídos num contexto cultural com o qual um dado grupo de pessoas se identifica e por meio do qual se comunica. No caso desta Fotografia identificamos um discurso Acrático, pois aparece como uma forma de resistência.
Podemos observar isso, por exemplo, a partir de uma duplicidade de sentido que se entrecruza ao longo do texto. Se, por um lado, temos como recorte os personagens no centro da cena determinada pelo fotógrafo, por outro, temos a fala dos próprios retratados no momento em que exigem o reconhecimento do leitor, ao dirigirem-se diretamente a ele através do olhar inquisidor para a câmera. A foto aparece, então, como um texto produzido tanto pelo operador como pelo próprio referente, que requer a atenção de alguém.
Essa postura, associada à pobreza física do espaço sobre o qual fala o fotógrafo, ao desbotamento da imagem marcada pelo preto-e-branco e aos panos pendurados em arames farpados, conota um tecido social que se desfaz
em pedaços e aponta para a idéia de cidadãos abandonados pelo Estado, deserdados, sem garantia de retorno.
Entretanto, essa configuração não significa ausência de figuras Encráticas. É um discurso que também reconhece a linguagem dominante e não a exclui, porque se sabe dependente dela para ser ouvido. A Fotografia, reforçada pelo olhar exigente das personagens, reconhece o papel do “carente”, que lhes cabe de acordo com o discurso da classe hegemônica que circula e atribui aos outros o papel de “ajuda”. São sujeitos que, aos poucos, podem deixar de reclamar sua autonomia, vagando por um fluxo descontínuo da rua, perdendo, gradualmente, a consciência do direito de ter direitos e depositando no outro a sua sustentabilidade.