O município de Passo Fundo foi emancipado em 1857, no entanto o território que hoje o constitui já fez parte da Província Jesuítica das Missões Orientais do Uruguai, cujas ruínas se localizam junto aos rios Ijuí e Ijuizinho, no atual município de Santo Ângelo.
Conforme Rodigheri et al. (2004, p. 77), os índios dos grupos tupi- guarani e jê, com destaque para os caingangues, foram os primeiros moradores desta região. Só em 1827 e 1828 chegaram os habitantes brancos, acompanhados da família, dos escravos e de agregados. Eram “homens com espírito aventureiro que partiam da fronteira oeste do território sulino e das Missões à procura de terras devolutas, chegando à região serrana e aproximando-se de Passo Fundo”.
Os autores relatam ainda que, por isso, a organização econômica, social e política dominante na fase inicial desse povoamento (não oficial) pode ser caracterizada como latifundiária, pastoril, patriarcal-militar e escravocrata. Como era um espaço de riqueza natural, com vantajosa situação geográfica para a criação de gado e plantação de ervais, rapidamente se expandiu. Em pouco tempo, constituía-se um território de mais de 80.000 km² e com população estimada em 7.586 habitantes.
Entretanto, a emancipação do distrito não ocorreu apenas por causa do crescimento populacional e econômico, mas também por razões políticas e administrativas. Na época, Jerônimo Coelho era presidente da província e criou a “freguesia de Passo Fundo”. Rodigheri et al. (2004) relatam que, na oportunidade, foram empossadas as lideranças da Câmara Municipal. Nesse sentido, toda a sua estruturação administrativa se deu nos moldes republicanos, o que explica, como veremos posteriormente, por que a história da Imprensa na cidade estava ligada, inicialmente, a esses ideais.
Ribas (2004) também lembra que foi a construção da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande do Sul que acentuou o desenvolvimento econômico do município entre 1898 e 1905, impulsionando o progresso, estagnado até 1897 em razão das dificuldades de transporte e de Comunicação. “A passagem da estrada de ferro e a instalação ferroviária no centro de Passo Fundo mostram que o trem modificou o eixo de expansão urbana, atraindo colonizadores e comerciantes” (p. 101).
Na década de 1940, ou seja, trinta e cinco anos depois desse movimento migratório, o resultado foi um processo gradual de esvaziamento do campo. Bertol (2001) relata que num município de economia agrária, como quase todo o estado rio-grandense, 70% da população ainda estava na zona rural, mas começava a se dirigir para os centros urbanos. Entre os fatores que contribuíram para essa configuração está o desenvolvimento tecnológico, que chamou a atenção para as cidades, ao mesmo tempo em que mecanizou a lavoura, desempregando os trabalhadores rurais.
Nas décadas seguintes, a população de Passo Fundo cresceria rapidamente, chegando a oitenta mil habitantes, e assistiria a uma reviravolta no palco político. De acordo com Bertol (2001), no início de 1950, enquanto Getúlio Vargas era eleito para presidente, através do voto popular, outro candidato da mesma sigla vencia as eleições municipais, rompendo com a soberania local do Partido Social Democrático, que há anos detinha a administração pública. “Foi nessa época que o setor educacional ganhou um novo impulso. Com o ensino de segundo grau já consolidado, a sociedade passo-fundense começava a preocupar-se com o ensino universitário” (p. 44).
Em 1956, representantes da comunidade fundaram a Sociedade Pró- Universidade, que resultaria no curso de Direito e, mais tarde, no surgimento da Universidade de Passo Fundo (UPF). Aos poucos, a pequena cidade foi se consolidando como pólo na região, o que nos remete à situação atual do município.
Conforme o censo demográfico realizado em 2000, pelo IBGE, no início do século XXI a população passo-fundense já totaliza 168.440 habitantes, dos quais 95% tem entre zero e 59 anos. Essa população está distribuída numa área de 759,40 km², mas concentrada principalmente, na região urbana, mesmo que o município mantenha, desde seu surgimento, um perfil urbano- agroindustrial.
Além das empresas ligadas à agricultura, a UPF é uma das principais instituições responsável pelo fluxo de capital no município, pois mobiliza todo o setor de serviços para atender os mais de vinte mil alunos da instituição, quase a metade deles vindas de outras cidades do Planalto Médio. Essa concentração pode ser a responsável pelo alto índice de desemprego apontado pelos relatórios do instituto. Mesmo que a cidade tenha muitas empresas de
médio porte, nos últimos anos os diagnósticos econômicos demonstram queda na contratação de mão-de-obra para a indústria local. Por isso, a renda per capita média de seus habitantes é de R$ 405,65. Em contrapartida, 84% da população é alfabetizada (IBGE, 2004, [s/p]). Parte dessa população, mora no bairro Leonardo Ilha, um dos recortes de nossa análise.
1.3.1 O bairro Leonardo Ilha
Localizado às margens da BR 285, o bairro10 é um espaço de constituição pública recente. Não existem documentos que relatem sua formação, apenas as escrituras dos terrenos arquivadas na Prefeitura Municipal. Por isso, para resgatar elementos importantes da sua história, recorremos aos depoimentos de alguns moradores mais antigos.
Distante do centro comercial da cidade, até 1997 o lugar consistia apenas num campo de terra dividido em lotes, que começava a ser ocupado por poucas famílias. Santos (2005, [s/p]) relata como era esse espaço:
Olha, quando eu cheguei aqui, em 97, eu vim porque meu marido trabalhava em Passo Fundo e ele comprou um terreno aqui no Leonardo Ilha para construir uma casa. Vim morar pra cá em março de 97 e no Leonardo Ilha não tinha nada, nem casa. Na rua onde eu moro tinha uma casa só.
De acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento, a região está destinada à instalação de indústrias ou empresas de grande porte (depósitos, estacionamento de caminhões e ônibus). Por isso, o objetivo não era vender todos os espaços para a construção de moradias, mas aproximar algumas famílias das fábricas, que possivelmente iriam se instalar na região. Nesse sentido, Veiga (2005) declarou “O Leonardo Ilha é um loteamento, um refúgio, pra quem não pode morar no centro”.
Alheio a isso, em 2005, oito anos depois do início da venda dos terrenos, o lugar já contava com quase três mil habitantes e um movimento comunitário organizado, principalmente em comparação aos demais bairros do
10No período em que as Fotografias foram realizadas, o Leonardo Ilha recebia a denominação de “loteamento”, mas em 2004 a Prefeitura Municipal de Passo Fundo fez um novo estudo sobre as regiões da cidade, setorizando-as, então o este espaço teve a nomenclatura alterada, passando a se chamar bairro, pois sua população e extensão haviam crescido consideravelmente. A nova denominação parece pertinente ao nosso trabalho, por isso a adotamos, uma vez que não se relaciona apenas à idéia de lotes de terra, mas de espaço dinâmico onde transita e convive uma comunidade.
município. Essa mobilização começou quando um grupo de moradores decidiu limpar as ruas. Santos (2005) conta que por ser um bairro distante e pouco habitado, a vegetação havia crescido, o que atrapalhava o trânsito e resultaria num nicho propício para a instalação de répteis e insetos que poderiam prejudicar a população local.
Entretanto, a ação coletiva não se restringiu à limpeza, logo envolvendo outras reuniões e debates. A moradora explica que uma das primeiras discussões foi sobre o alto valor dos juros cobrados pela imobiliária no pagamento dos lotes e, em seguida, o planejamento de uma associação de moradores, entidade cujo fim seria trabalhar pelos interesses da comunidade.
É uma coisa interessante, porque é muito bonito isso que acontece aqui dentro. Claro que não são todos os moradores, mas a maioria tem aquele espírito de solidariedade, de companheirismo, de que viver em comunidade é isso. Sabe, não é você viver isolado no teu mundo, viver em comunidade é trocar idéias, é conversar, é discutir com os outros, é ajudar (SANTOS, 2005, [sp]).
Por conta dessa organização, a população que reside no bairro já conta com creche e biblioteca comunitárias, construídas e mantidas pelos próprios moradores através de doações e serviços voluntários, sem interferência e/ou ajuda da administração municipal. Sobre o assunto Anholeto (2005) elucida: “A creche é um dos orgulhos do Leonardo Ilha. Foi construída com a força da comunidade, somente da comunidade, e de alguns empresários que doaram o material” ([s/p]). A creche foi inaugurada em 1998 e hoje já tem sede própria, atendendo a 63 crianças em regime integral (manhã e tarde).
Já o Espaço Cultural Jorge Amado, inaugurado em março de 2000, ocupa uma casa residencial alugada e tem 278 pessoas cadastradas, entre adultos e crianças, todos moradores do bairro. Além do empréstimo de livros – contando, em 2005, com aproximadamente mil exemplares – o espaço oferece cursos de costura, crochê, reforço escolar e informática. O atendimento aos leitores é feito por voluntários e por um bolsista cedido pela Universidade de Passo Fundo. O espaço localiza-se na rua Dalsídia Gasparoto, principal rua de circulação do bairro, bem próximo à Escola Municipal de Ensino Fundamental Eloir Pinheiro Machado e dos mercados que atendem à população.
Ambas as instituições são coordenadas pelo Grupo de Mulheres Unidas Venceremos, que ainda desenvolve outras atividades junto às crianças e
idosos da região; Entre as quais está a alfabetização de adultos, a preparação para o ensino supletivo do 1º grau e a organização de cursos profissionalizantes.
Outro empreendimento organizado pela comunidade é a Fábrica de Roupas11. Santos (2005) revela que a sua criação teve como objetivo ajudar as mulheres desempregadas do bairro, bem como produzir peças de vestuário a baixo custo para as pessoas que moram nas proximidades. A produção está instalada na garagem da casa de uma moradora, que cedeu o espaço temporariamente. No mesmo ambiente as roupas são produzidas e vendidas.
Entretanto, apesar de todo esse empenho e da aparente prosperidade, Veiga (2005) afirma que há mais de um ano grande parte dos serviços públicos obrigatórios não chega ao bairro. Para ele, os principais problemas são a ausência de um ambulatório médico, a falta de calçamento ou asfalto, de fiscalização de terrenos baldios e a substituição de lâmpadas em postes públicos. Observa, ainda, as insistentes tentativas da Prefeitura Municipal em interditar os serviços locais, ou em transferir para si a coordenação da creche e do espaço cultural.
Por causa dessa configuração e das discussões a partir dela provocadas, o trabalho realizado pelos moradores ganhou um espaço privilegiado nos veículos de comunicação da cidade. Em quatro anos, foi o bairro de maior destaque na Imprensa local, principalmente nas páginas dos jornais O Nacional e Diário da Manhã.
Já saímos diversas vezes em matérias na imprensa, mas eu quero mostrar mais uma vez que eu não estou mentindo, que quando eu vou pra imprensa e digo que lá no Leonardo Ilha tem um povo que trabalha, que se organiza, que criou uma creche e que mantém a creche, tem um espaço cultural, uma biblioteca própria, tem uma fábrica de roupas, não tem um esgoto, não tem uma escola decente pros seus filhos, não tem iluminação direito nas ruas e não tem asfalto nas ruas (SANTOS, 2005, [s/p]).
11 O nome oficial da microempresa é Leonardo Ilha Confecções, mas o espaço é chamado,
coloquialmente, pela comunidade, de Fábrica de Roupas. Outra variação que vamos encontrar em uma das notícias analisadas é a expressão Confecções Leonardo Ilha. Considerando estes aspectos, ao estudar as fotografias feitas pelos moradores, utilizaremos a expressão corrente entre eles; já ao nos debruçarmos sobre os textos do jornal nos apropriaremos da expressão publicada em suas páginas. Estas distinções de nomenclatura e seus sentidos serão discutidos posteriormente, no agenciamento dos dois Socioletos.
Considerando os elementos desse contexto, buscamos refletir sobre como essa comunidade produz sentidos, marcados pelas suas condições de vida e de identidade em sociedade.