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Yol Gösteren Kılavuz Kurt

3. Türk Kültür ve Mitolojisinde Kurt

1.3. Yol Gösteren Kılavuz Kurt

O conceito de cultura política é importante para a problemática aqui abordada por permitir uma análise dos aspectos sociológicos da participação política.

Sharma & Sharma (2007, p. 331) apresentam a seguinte compilação acerca da definição de cultura política:

a) A. R. Ball (Modern politics and government, p. 56): a cultura política é composta pelo conjunto de “atitudes, crenças e valores da sociedade que se relaciona com o sistema político e com as questões políticas”;

b) Beer and Ulam (Patterns of government, p. 32): a cultura política relaciona-se a certos aspectos da cultura geral da sociedade ocupados em como o governo deve ser conduzido e o que ele deve fazer;

c) Lucian Pye: (Aspects of political development, p. 104): cultura política refere-se ao

27 Dorsey, John T., Jr. “The bureaucracy and political development in Viet Nam” in Joseph LaPalombara (ed.),

conjunto de atitudes, crenças e sentimentos que dão ordem e significado a um processo político e que fornece a base, os pressupostos e as regras que regem o comportamento do sistema político;

d) Dennis Kavangh (Political culture, p. 10): cultura política pode ser definida como a expressão abreviada para designar o ambiente emocional e comportamental dentro do qual o sistema político opera;

e) Almond e Powell (Comparative politics, p. 50): cultura política é o sistema de atitudes, normas, símbolos, crenças, valores e aptidões comuns a toda uma população e que orienta os membros de uma determinada comunidade em relação à política e define a situação em que a ação política acontece. Os membros de uma sociedade civil compartilham uma natureza humana comum, como unidade emocional, capacidade intelectual e perspectivas morais. A natureza humana comum se manifesta sob a forma de certos valores, crenças e atitudes emocionais que são transmitidas de uma geração para outra, embora com modificações maiores ou menores, constituindo a cultura geral da sociedade.

Almond e Verba (1963)29 distinguem três tipos de cultura política:

a) cultura paroquial: comum em sociedades menos complexas, nas quais os papéis e as instituições políticas são poucos definidos ou coincidem com os papéis e com as estruturas de caráter econômico e religioso. Refere-se à sociedade tradicional;

b) cultura de sujeição: conhece-se a existência do sistema político, tem-se consciência dele, mas fica-se passivo a seu respeito, considerando-o como exterior e superior. Esperam-se os seus serviços e benefícios e receiam-se as suas exações, sem se pensar que se pode participar da sua ação;

c) cultura de participação: nesse tipo de cultura estimula-se o envolvimento das pessoas com a política. Os ‘sujeitos’ tornam-se ‘participantes’, cidadãos. Atuam sobre o sistema político, alterando-o por meio de eleições, manifestações, petições etc.30

28 Pye (1966, p. 41-42) considera que essa visão “deixa sem resposta como a ordem é necessária ou desejável e

para que finalidade a mudança deve ser direcionada”.

29 Campos (2005, p. 22) chama a atenção para as críticas dirigidas ao trabalho de Almond e Verba,

especialmente por tomarem como parâmetro a forma democrática anglo-saxônica (norte-americana, principalmente) e também por terem a estabilidade política como base da avaliação do sistema político. Isto levou os críticos a vislumbrarem um traço conservador no modelo proposto. Apesar disso, a obra de Almond e Verba tornou-se referência e exerceu bastante influência sobre os estudos que procuravam modelos explicativos para as orientações do comportamento político, bem como na busca de um padrão cultural capaz de caracterizar a cultura política dos países.

30 A participação é tão importante à democracia que, levando em conta o modo como os termos democracia e

ditadura têm sido empregados historicamente, Dahl (1988, p. 14) afirma parecer apropriada a definição de democracia como “um sistema político em que a oportunidade de participar das decisões é compartilhada por todos os cidadãos adultos”, enquanto uma ditadura é um “sistema político em que a oportunidade de participar

É importante ressaltar que nenhuma cultura é homogênea. Os três tipos de culturas políticas (paroquial, de sujeição e de participação) evidenciam-se em alguns contextos de forma isolada, sendo comum, contudo, apresentarem-se combinadas, mistas: paroquial- sujeição; sujeição-participação; e paroquial-participação. Assim, toda cultura política comporta, em proporções desiguais, elementos paroquiais, de sujeição e de participação, embora um elemento tenda a predominar sobre os demais.

Ao se analisar a cultura política de uma dada localidade é necessário, também, considerar a estrutura política onde ela está inserida, porque existe uma congruência entre “cultura” e “estrutura” política, conforme alerta Schwartzenberg (1979, p. 157-158):

Cada tipo de cultura está em correspondência, em harmonia com um tipo de estrutura. Tal cultura convém melhor a tal estrutura. Sem esta congruência, o sistema político funciona mal e é vulnerável. Uma cultura política paroquial corresponde a uma estrutura tradicional descentralizada. Uma cultura de sujeição convém a uma estrutura autoritária e centralizada. Uma cultura de participação ajusta-se a uma estrutura democrática.

2.2.7.2 Traços da cultura política brasileira

A cultura política brasileira se caracteriza, historicamente, pela sujeição, passividade e corrupção, dificultando a criação de relações de confiança entre os atores sociais e o Estado e fazendo com que este último se distancie da sociedade e seja visto como um instrumento para atender aos interesses privados, enquanto o “público” é tomado como sinônimo de “sem dono”, visão que compõe a cultura política brasileira (cf. Lima, 2001, p. 46), eivada de clientelismo, coronelismo e mandonismo.

Adotaremos a conceituação e distinção feita por Carvalho (1997, p. 233) entre clientelismo, coronelismo e mandonismo:

Os autores que vêem coronelismo no meio urbano e em fases recentes da história do país estão falando simplesmente de clientelismo. As relações clientelísticas, nesse caso, dispensam a presença do coronel, pois ela se dá entre o governo, ou políticos, e setores pobres da população. Deputados trocam votos por empregos e serviços públicos que conseguem graças à sua capacidade de influir sobre o Poder Executivo. Nesse sentido, é possível mesmo dizer que o clientelismo se ampliou com o fim do “coronelismo” e que ele aumentou com o decréscimo do mandonismo. À medida que os chefes políticos locais perdem a capacidade de controlar os votos da população, eles deixam de ser parceiros interessantes para o governo, que passa a tratar com os eleitores, transferindo para estes a relação clientelista. Assim, enquanto o coronelismo envolve um tipo de relação entre atores políticos que trocam benefícios por apoio político e votos, consistindo em uma complexa rede de relações das decisões é limitada a uns poucos”.

envolvendo compromissos recíprocos (em que cada chefe político mantém autonomia quase irrestrita na condução do governo local), o clientelismo refere-se ao poder de mando de um chefe político em uma determinada localidade e sua barganha com o governo estadual e federal. De modo geral, o clientelismo indica um tipo de relação entre atores políticos que envolve “concessão de benefícios públicos, na forma de empregos, benefícios fiscais, isenções, em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto” (Carvalho, 1997, p. 233).

O mandonismo, por sua vez, refere-se à existência local de estruturas oligárquicas e personalizadas de poder. O mandão (ou chefe) “é aquele que, em função do controle de algum recurso estratégico, em geral a posse da terra, exerce sobre a população um domínio pessoal e arbitrário que a impede de ter livre acesso ao mercado e à sociedade política” (idem, p. 231).

A vida política brasileira é marcada pela presença dos mediadores políticos na distribuição de bens públicos e por práticas de assistencialismo, clientelismo, mandonismo e centralização.

Tais práticas, durante muito tempo enraizadas na cultura política brasileira, são nocivas, pois impedem o florescimento de um clima de confiança entre os atores sociais. Porém, como todo componente cultural, ele é passível de mudança, conforme analisaremos na próxima seção.

2.2.7.3 Transitando da cultura política de sujeição para a de participação política popular A participação propõe as questões - difíceis de serem enfrentadas francamente pelos dirigentes políticos e planejadores - de quem está optando, como as opções são postas em prática, e se o estilo de desenvolvimento encara a participação, principalmente, como um meio, como um fim, ou como um componente essencial. Quando a participação é algo imposto de cima, converte-se em mobilização, em meio de conseguir fazer as coisas. Quando vem de baixo, comumente focaliza a distribuição, fazendo-se também um meio, do ponto de vista dos grupos capazes de participar, de obter imediatamente uma porção maior dos frutos do desenvolvimento. A autêntica participação criadora, que intensifica a consciência dos participantes quanto aos valores, temas e possibilidades de fazer opções, influenciando o conteúdo do desenvolvimento, gerando novos meios de fazer as coisas e, além disto, protegendo o direito dos participantes a uma porção equitativa dos frutos do desenvolvimento, continua a ser uma aspiração esquiva - porém, sua transformação em realidade pode, muito bem, demonstrar-se afinal o requisito mais essencial de um estilo de desenvolvimento que aumente a capacidade da sociedade para funcionar a longo prazo em prol do bem-estar de seus membros. (Wolfe, 1976, p. 32) Abordaremos a participação a partir da definição elaborada por Almond e Powell (1972, p. 194), como o envolvimento de grupos da sociedade nos processos de tomada de

decisões do sistema político.

A participação política é um elemento obrigatório em qualquer sistema político. Em todas as sociedades, embora o poder político esteja concentrado em poucas mãos, é feita uma tentativa de participação do número máximo de pessoas no sistema político, o que aumenta a estabilidade política e confere legitimidade à autoridade política: “em uma sociedade onde a participação política é muito limitada e poucas pessoas participam das atividades políticas, existe mais possibilidade de uma revolução violenta” (Sharma & Sharma, 2007, p. 350).

A participação política dos cidadãos, portanto, dá sanção pública ao governo e é um requisito básico na teoria política, sendo também uma das características fundamentais das democracias contemporâneas e uma dimensão fundamental da democratização, segundo Dahl (2005).

A participação é considerada, de forma geral, como um dos componentes do desenvolvimento, ao lado da autonomia, da produção, do consumo e da distribuição (cf. Wolfe, 1976, p. 31).

Podemos elencar doze tipos de participação do indivíduo na atividade política (cf. Verba e Nie, 1972 apud Dahl, 1988, p. 104):

1. Votação regular nas eleições presidenciais; 2. Votação regular nas eleições locais;

3. Participação em pelo menos um grupo atuante no campo dos problemas comunitários; 4. Cooperação com outras pessoas na busca de soluções para problemas comunitários; 5. Tentativa de persuadir outras pessoas a votar em determinado candidato;

6. Participação na campanha de um candidato ou partido, durante eleição; 7. Contato com autoridade do governo local a propósito de algum problema; 8. Participação em pelo menos um comício político nos últimos três anos;

9. Contato com autoridade do Governo Federal, ou Estadual, a propósito de algum problema; 10. Formação de grupo para tentar resolver algum problema local;

11. Contribuição financeira para algum partido ou candidato durante campanha eleitoral; 12. Participação atual em algum clube ou grupo político.

Elencamos, a seguir, outras formas de participação política apontadas por outros autores:

1) exercício de uma função ou cargo público:

[...] o exercício de uma função pública sempre pode ser encarado como uma forma de participação política. [...] de excepcional importância [...] quando uma função pública está relacionada com a solução de um problema social

relevante ou com um propósito de mudança social. (Dallari, 1985, p. 65) 2) atividades que influenciam o comportamento das demais pessoas ou, dito de outra forma, “[...] o exercício de divulgação habitual de opiniões políticas por meio da comunicação boca- a-boca com outros cidadãos” (Sharma & Sharma, 2007, p. 351):

[...] todas as atividades, de indivíduos, de grupos ou de instituições, que influem sobre o comportamento das pessoas, ou para que aceitem passivamente as decisões de outras ou para que resistam a elas, ou para que conservem a ordem estabelecida ou para que procurem mudá-la, ou para que apóiem o governo ou para que se oponham a ele, são atividades políticas. [...] há uma responsabilidade política implícita no exercício de todas essas atividades. Exercê-las é também uma forma de participação política. (Dallari, 1985, p. 83)

3) apoio a grupos de pressão, eventualmente sendo um membro deles (Sharma & Sharma, 2007, p. 351);

4) comunicar-se diretamente com os legisladores.

A participação política foi classificada como sendo de dois tipos, ativa e passiva, conforme Sharma & Sharma (2007, p. 353). Esta classificação baseia-se em tempo, energia e meios utilizados. Quem não quer dedicar tempo, energia ou dinheiro para as atividades políticas não pode ser chamado de participante ativo e é reconhecido como participante passivo. Em outras palavras, é apenas um espectador, enquanto aqueles que criam o espetáculo são os participantes políticos ativos.

Outra análise da participação política é baseada na finalidade. Do ponto de vista do seu propósito, a participação política é vista como “instrumental” e “expressiva”:

Na participação política instrumental as pessoas têm como meta alcançar objetivos definidos, como a vitória de um partido político nas eleições, a aprovação de um projeto de lei no Legislativo ou o aumento do campo de influência de um líder específico. Por outro lado, a participação política expressiva não tem objetos definidos. Ela visa apenas a satisfação ou a expressão de um sentimento. Algumas pessoas votam para alcançar a vitória de um candidato específico, enquanto a maioria dos eleitores votam pela satisfação de usar o seu direito de voto. (Sharma & Sharma, 2007, p. 353) Podemos nos perguntar: o que faz com que o indivíduo se sinta inclinado a participar da vida política? Dahl (1988, p. 102) aponta seis pontos básicos que estimulam os indivíduos à participação política:

1) atribuir valor às recompensas esperadas;

2) achar que as alternativas à sua frente são importantes;

3) ter confiança em que pode contribuir para alterar os resultados da atividade política; 4) acreditar que, se não agir, esses resultados serão insatisfatórios;

6) precisar superar poucos obstáculos para agir.

Os sentimentos de autoconfiança e de eficácia pessoal estão associados em alto grau à participação política (cf. Dahl, 1988, p. 110), e caso essas condições não sejam atendidas, os indivíduos se sentirão menos inclinados à participação política.

A análise do processo brasileiro de organização societária revela que somente nos anos 1970 começaram a se consolidar novas formas de ação coletiva, com a formação de associações comunitárias independentes do sistema político e a criação de associações comunitárias (que se multiplicaram como parte de um movimento associativo generalizado de reação ao autoritarismo), botando em questão o padrão disponível de relação entre Estado e sociedade e introduzindo elementos de renovação cultural, tais como a organização democrática local.

Com o advento da Constituição de 1988, marcada por um processo de inovação constitucional, com elementos como a descentralização das políticas sociais voltadas para o município, eleva-se o município à condição de ente federado, ao lado dos Estados e da União e muda-se o sentido das políticas públicas que, até aquele momento, era desarticulado, pois concentrava recursos e poderes no âmbito federal e atribuía competências e autonomia residuais aos Estados e municípios.

Nos anos 1990 o Estado brasileiro passou por mudanças significativas, caracterizadas pela descentralização administrativa, privatização de empresas estatais e serviços públicos e rígido controle fiscal, resultando na implementação de políticas para o desenvolvimento socioeconômico que, ou reproduziam localmente políticas federais descentralizadas, ou experimentaram programas próprios (Lima, 2001, p. 63).

Grande parte deste processo de mudanças da cultura política, que se tornou mais participativa, pode ser melhor compreendida com o auxílio de alguns conceitos tocquevillianos, como a arte da associação e a virtude cívica, conforme abordaremos na próxima seção.

2.2.7.3.1 A arte da associação: do interesse próprio ao interesse coletivo

A participação social e popular na vida política é valorizada por vários sociólogos e cientistas políticos31.

31 Além de Tocqueville, outro autor que se destaca pela defesa veemente da participação popular é Putnam

(2005, p. 191): “Eis uma lição a ser tirada de nossa pesquisa: o contexto social e a história condicionam profundamente o desempenho das instituições. Quando o solo regional é fértil, as regiões sustentam-se das tradições regionais, mas quando o solo é ruim, as novas instituições definham. A existência de instituições eficazes e responsáveis depende, no jargão do humanismo cívico, das virtudes e práticas republicanas.

Um autor que se tornou referência clássica neste assunto é Tocqueville (1977, p. 188), que comenta a reação dos habitantes de alguns países, que só aceitam com “uma espécie de repugnância os direitos políticos que a lei lhes concede; parece que é roubar-lhes o tempo, gastá-lo com os intereses comuns, e preferem encerrar-se num egoísmo estreito do qual quatro paredes sobrepostas por um teto constituem o exato limite”. Os norte-americanos, ao contrário, diz o autor francês, se ficassem reduzidos a ocupar-se apenas de seus próprios negócios, metade de sua existência lhes seria arrebatada e eles sentiriam um vazio imenso nos seus dias e haveriam de se tornar incrivelmente infelizes.

Inspirando-se na experiência norte-americana, Tocqueville (1977, p. 414) conclui que somente quando a prática pública integra-se ao mundo dos interesses privados se pode esperar um envolvimento maior por parte da população na vida política32:

Um americano ocupa-se dos seus interesses particulares como se estivesse sozinho no mundo, e, no momento seguinte, entrega-se à coisa pública como se os houvesse esquecido. Ora parece animado pela cupidez mais egoística, ora pelo patriotismo mais vivo.

O autor de A democracia na América (p. 399) acreditava que “os homens jamais

poderiam viver em sociedade sem se entregar a alguma empresa comum”, sem buscar o bem- estar público na sociedade. Afinal, um povo cujos cidadãos perdessem o poder de fazer isoladamente grandes coisas “sem adquirir a faculdade de produzi-las em comum, logo retornaria à barbárie” (idem, ibidem).33

A arte da associação é anunciada como algo inalienável à liberdade individual: depois da liberdade de agir sozinho, é natural ao homem “combinar os seus esforços com os esforços de seus semelhantes e agir em comum” (Tocqueville, 1977, p. 149). Por isso, o direito de associação34 parece “quase tão inalienável quanto a liberdade individual”35.

Tocqueville tinha razão: diante de uma sociedade civil vigorosa, o governo democrático se fortalece, em vez de enfraquecer”.

32 Para combater o individualismo é necessária a busca de um corpo político-social apoiado em laços fortes de

solidariedade, só alcançáveis por uma prática de ampla participação da população no processo político, fundamental para se criar ou salvaguardar a liberdade e alcançar o bem comum.

33 Segundo Tocqueville (1977, p. 394), a condição do desenvolvimento e aprimoramento do espírito humano

está na convivência, na interação, na ação recíproca de cada um com cada um: “entre as leis que regem as sociedades humanas, existe uma que parece mais precisa e mais clara que todas as outras. Para que os homens permaneçam civilizados ou assim se tornem, é preciso que entre eles a arte de se associar se desenvolva e aperfeiçoe na mesma medida em que cresce a igualdade de condições”. Assim, o homem só se desenvolve plenamente no convívio com seus semelhantes. O autor denomina “bárbaros” os povos em que os indivíduos não reconhecem os interesses coletivos e não respeitam os direitos dos demais. A condição propriamente humana impõe a convivência cooperativa entre os homens, o que lhes permite desenvolver não só a liberdade, mas a própria civilização.

34. Nos Estados Unidos, o direito de associação é uma importação inglesa e tem existido na América em todos os

tempos: “o uso desse direito, hoje em dia, introduziu-se nos hábitos e nos costumes” (Tocqueville, 1977, p. 149). Vários autores, como Olson (1999, p. 33), criticam Tocqueville e sua crença de que o norte-americano seja um adepto do associativismo: “pesquisas empíricas [...] mostram que, tipicamente o homem médio na verdade não

Para melhor compreender a crítica tocquevilleana ao individualismo é necessário situá-la à luz de sua análise acerca da igualdade, conceito que, àquela época – no contexto da contrarrevolução francesa – tinha um sentido diferente do atual. Imaginava-se que o excesso de igualdade (por exemplo, a igualdade de acesso à terra) conduziria ao individualismo, à falsa ideia de que as pessoas não dependiam umas das outras: “nos séculos de igualdade, todos os homens são independentes uns dos outros, isolados e frágeis” (Tocqueville, 1977, p.