• Sonuç bulunamadı

se refere, originariamente, ao Estado, mas ao povo e, como tal, refere-se ao espaço em que as pessoas habitam, realizam seus negócios, isto é, o espaço do mundo, feito pelo homem.

Essa “con-vivência” das pessoas no mundo significa ter uma miríade de coisas interpostas entre os que nele habitam em comum. Como todo intermediário o mundo, ao mesmo tempo, separa e estabelece uma relação entre os homens:

A esfera pública, enquanto mundo comum, reúne-nos na companhia uns dos outros e contudo evita que colidamos uns com os outros, por assim dizer. O que torna tão difícil suportar a sociedade de massas não é o número de pessoas que ela abrange, ou pelo menos não é este o fato fundamental; antes, é o fato de que o mundo entre elas perdeu a força de mantê-las juntas, de relacioná-las umas às outras e de separá-las. (Arendt, 2000, p. 59-62)

A esfera pública é o espaço potencial da aparência entre homens que agem e falam, é o espaço que existe sempre que os homens se reúnem na modalidade do discurso e da ação, é o “modo de ser originário de onde brotam a política e o poder que mantém a existência da esfera pública” (Arendt, 2000, p. 212).

A esfera pública é, assim, o espaço da aparência72, lato sensu, o espaço no qual eu apareço aos outros e os outros a mim; onde os homens assumem uma aparência explícita, ao invés de se contentarem em existir meramente como coisas vivas ou inanimadas. É o espaço da ação e do discurso.

Na disputa dos pares entre si, os melhores se destacam e conquistam a sua essência: a imortalidade da fama, o que remete à época dos gregos, conforme lembra Arendt (2000, p. 65), em que os homens ingressavam na esfera pública por desejarem que algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas vidas terrenas: “talvez o mais claro indício do desaparecimento da esfera pública na era moderna seja a quase completa perda de uma autêntica preocupação com a imortalidade”, o que é atestado pela atual identificação da busca da imortalidade com o vício privado da vaidade, segundo a autora.

No contexto grego cada um procurava destacar-se (aristoiein), ser virtuoso. As virtudes, cujo o catálogo de Aristóteles codifica, se mantêm apenas na esfera pública; somente lá elas encontram o seu reconhecimento.

Privar-se de participar deste espaço público significa, para Arendt (2000, p. 210) privar-se da realidade que, humana e politicamente, é o mesmo que a aparência. Para os homens, a realidade do mundo é constituída pela presença dos outros, pelo fato de aparecem a todos, aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos: “chamamos de Existência àquilo que aparece a todos; e tudo o que deixa de ter essa aparência surge e se esvai como um sonho – íntima e exclusivamente nosso, mas desprovido de realidade” (Aristóteles, Ética a

Nicômaco, 1172b36 apud Arendt, 2000, p. 10).

O espaço da aparência existe sempre que os homens se reúnem na modalidade do discurso e da ação e, portanto, precede toda e qualquer constituição formal da esfera pública, bem como as várias formas de governo, isto é, as várias formas possíveis de organização da esfera pública. Sua peculiaridade reside no fato de que desaparece com a dispersão dos homens e também com o desaparecimento ou suspensão das próprias atividades (cf. Arendt, 2000, p. 212).

É interessante lembrar que o termo “governo” está relacionado tanto com a antiga arte de dirigir, quanto de se autodirigir. A palavra grega para o piloto ou timoneiro de um

72 Habermas (1984, p. 15-17), da mesma forma que Arendt, também ressalta a importância da esfera pública,

como espaço de aparência: “só à luz da esfera pública, para os gregos, é que aquilo que é consegue aparecer, tudo se torna visível a todos. Na conversação dos cidadãos entre si é que as coisas se verbalizam e se configuram”.

barco era kybernetes. “Governador” e “governo” provêm deste termo, assim como a palavra para a ciência da comunicação e controle, cibernética73, em função do que se tem admitido a semelhança entre as tarefas de guiar e de governar, desde quase os primórdios do pensamento político74 (cf. Deutsch, 1983, p. 23).

A construção de uma esfera pública não estatal é um espaço para a aprendizagem coletiva e para a participação efetiva da sociedade, que não deve se restringir a decisões pontuais. Essa esfera pública não estatal pressupõe a comunicação, o diálogo, a articulação das diferenças, com regras preestabelecidas para que a deliberação ocorra em bases iguais para todos os participantes. A emergência dessa esfera torna possível tratar dos conflitos e tensões comumente reprimidos ou anulados na história do Brasil (Lopes, 2001, p. 43), surgidos a partir dos irreconciliáveis interesses que, com a ampliação do público, afluem a essa esfera75.

No entender de Habermas (1984, p. 180), a “fuga” do Estado para fora do Direito Público, com a transferência de tarefas e competências da administração pública para empresas, estabelecimentos, corporações, encarregados de negócios semioficiais, resulta em um processo de “socialização do Estado e de estatização da sociedade”, ampliando a autoridade pública a setores privados e levando à substituição do poder público pelo poder social.

Surge assim uma nova esfera, que não pode ser entendida “nem como sendo puramente privada nem como sendo genuinamente pública” (Habermas, 1984, p. 170), fruto de uma interpenetração de Estado e sociedade, permitindo uma expansão da esfera pública.

A ampliação crescente da esfera pública76 tem feito com que muitos assuntos que, no passado, eram de domínio particular e não constavam na pauta dos temas políticos, hoje se

73 Deutsch (1983, p. 23) cita o Third New International Dictionary, de Webster, para explicar que a palavra

govern vem do francês antigo governer, derivada do latim gubernare (guiar, pilotar, governar), que, por sua vez, vem do grego kybernan.

74 Deutsch (1983, p. 23) refere-se, especificamente, à A República, de Platão, em que o filósofo grego

desenvolve a analogia entre dirigir e governar em sua “parábola do navio”.

75 Nesse sentido, Habermas (1984, p. 169) afirma: “a esfera pública burguesa desenvolve-se no campo de

tensões entre Estado e sociedade”. A esfera pública pode ser compreendida, no sentido estrito, como campo de tensão entre mundo da vida, por um lado, e sistemas político e jurídico, por outro. Estamos corretos em considerar a esfera pública e a sociedade civil como mediações entre representados e representantes, como se reduzissem a distância e a tensão entre eles. Esta mediação permite que os representantes se informem sobre o estado de espírito do eleitorado. Assim, eles são capazes de responder rapidamente à opinião pública, testar as consequências do abandono de certos programas e promessas, reverter o curso da ação quando necessário e tentar persuadir o público por meio de palavras e atos: “nesta interação, os setores do eleitorado que se preocupam com determinados temas conseguem influenciar de modo antecipado e prospectivo o curso político. Por meio da sociedade civil e da esfera pública a democracia recupera parte do seu caráter participativo que havia se perdido” (Arato, 2002, p. 96).

tornem públicos, além de envolver um número cada vez maior de pessoas no debate de temas como o meio ambiente, a água, a propriedade da terra ou o uso que dela é feito (cf. Campos, 2005, p. 19).

Alarga-se, pois, o conceito de esfera pública: entende-se que a cidadania não se restringe ao âmbito do Estado, que a “vida pública” não é feita apenas de atos de governo, mas também de ações de grupos, instituições e indivíduos que têm por fim atender objetivos sociais. Essa nova concepção de cidadania se constitui num controle público não estatal sobre o Estado, o mercado e sobre a própria sociedade: “trata-se de agregar, processualmente, à democracia representativa, elementos reais da democracia direta, participativa, que valorizam o cidadão com iniciativa – uma livre iniciativa da cidadania capaz de revalorizar a cena política” (Silva, 2005, p. 400-401).

A ampliação da esfera pública significa, também, a ampliação da discussão e da ação coletiva pública, o que pode exercer grande influência sobre a formação de valores estabelecidos, validados e reconhecidos por meio da discussão social e criativa (cf. Sen, 2000, p. 310).

Estes âmbitos da ação e discurso, que expõem o indivíduo na esfera pública, estão imbricados com a liberdade, conceito entendido por Arendt (1997, p. 199) enquanto condição de agentes dos homens: “ser livre e agir são uma mesma coisa”. Por isso, o lado mais significativo da liberdade é a liberdade política, decorrente da possibilidade de ação entre os homens: “só onde há vida política há liberdade, e só onde há liberdade há vida política propriamente dita. A política e a liberdade têm uma origem comum, são um mesmo processo inseparável” (idem, ibidem).

A esfera política está incluída numa esfera muito mais ampla, a esfera da sociedade em seu conjunto. Não existe decisão política que não esteja condicionada ou determinada por aquilo que acontece na sociedade civil. Portanto, ampliar a ação das pessoas no espaço público é, também, ampliar a democratização da sociedade, é permitir às pessoas a experiência da liberdade, condicionada à existência de um âmbito público politicamente assegurado sem o qual falta à liberdade o espaço concreto onde aparecer: “a liberdade como fato demonstrável e a política coincidem e são relacionadas uma à outra, como dois lados da mesma matéria” (Arendt, 1997, p. 195).

Em que pese sua importância, porém, nenhum homem pode viver permanentemente nesse espaço. Para Arendt (2000, p. 81), uma existência vivida inteiramente em público, na

presença de outros, torna-se superficial, retém a sua visibilidade, mas perde a qualidade resultante de vir à tona a partir de um terreno mais sombrio, terreno este que deve permanecer oculto a fim de não perder sua profundidade num sentido muito real e não subjetivo: “o único modo eficaz de garantir a sombra do que deve ser escondido contra a luz da publicidade é a propriedade privada – um lugar só nosso, no qual podemos nos esconder”.

Sem uma esfera privada protetora e sustentadora o indivíduo “cai na torrente da esfera pública, que, no entanto, passa a ser desnaturada exatamente através desse processo” (Habermas, 1984, p. 188).

A distinção entre o privado e o público indica que “há coisas que devem ser ocultadas e outras que necessitam ser expostas em público para que possam adquirir alguma forma de existência” (Arendt, 2000, p. 83-84).

Outro aspecto que merece ser analisado em relação à ampliação dos espaços públicos de poder refere-se à institucionalização que tais espaços dão à vida política, transformando estruturas e sistemas políticos simples em complexos, pois quanto mais complexa é uma organização, mais institucionalizada ela se torna:

A complexidade pode envolver tanto a multiplicação de subunidades organizacionais em bases hierárquicas e funcionais, como a diferenciação entre os diversos tipos de subunidades. Quanto maior o número e a variedade de subunidades, maior a capacidade da organização de assegurar e manter a lealdade dos seus membros. [...] uma organização que possui muitos objetivos pode adaptar-se melhor à perda de um deles do que uma organização que possui apenas um objetivo. A corporação que diversificou suas operações é evidentemente menos vulnerável do que a que produz apenas determinado produto para determinado mercado. (Huntington, 1975, p. 30)

Os espaços públicos de poder e deliberação não-estatais fortalecem o desenvolvimento político de uma localidade, pois tornam mais complexas as relações de poder existentes.

A ampliação do espaço público reconfigura, então a estrutura de poder político local, por meio da criação de fóruns e arenas para a elaboração de diretrizes e possíveis consensos que permitam avançar no enfrentamento de problemas comuns da comunidade.

O debate sobre democracia deliberativa alcança novos contornos, já que, acusando as fragilidades da democracia representativa e a redução da legitimidade do processo decisório ao resultado eleitoral, a democracia deliberativa advoga que a legitimidade das decisões políticas advém de processos de discussão que, orientados pelos princípios da inclusão, do contra a cantilena neoliberal dos últimos anos, que defende um modelo de desestatização e de Estado mínimo.

pluralismo, da igualdade participativa, da autonomia e do bem-comum, conferem um reordenamento na lógica de poder tradicional.

A democracia deliberativa constitui-se como processo de institucionalização de espaços e mecanismo de discussão coletiva e pública, tendo em vista decidir o interesse da coletividade, cabendo aos cidadãos reunidos em espaços públicos a legitimidade para decidir, a partir de um processo cooperativo e dialógico, as prioridades e as resoluções levadas a cabo pelas arenas institucionais do sistema estatal, em consonância com o princípio advogado por Bohman (1977, p. 57) de que “a razão pública é exercida não pelo Estado, mas na esfera pública de cidadãos livres e iguais”.

A ênfase na questão da participação está assentada, portanto, no critério de legitimidade: as decisões políticas devem ser tomadas por meio do debate público por aqueles que estarão submetidas a elas. A sociedade civil ocupa, então, lugar de destaque por impulsionar, reivindicar e mediar estes debates.

Transcorridas mais de duas décadas de implementação e institucionalização desses espaços participativos, como aponta Lüchmann (2008), surgem várias críticas endereçadas ao modelo da democracia deliberativa, com respeito aos riscos de populismo, elitismo, coerção da maioria, força e sobreposição dos interesses privados ou egoístas e manipulação das preferências por grupos com mais poder político e econômico.

No caso da realidade brasileira, acrescente-se a essa listagem o problema das desigualdades sociais, que interpela diretamente a dimensão (tão cara à democracia deliberativa) da igualdade política. Os mais pobres e destituídos de recursos políticos são também aqueles que mais provavelmente estarão ausentes de experiências participativas e deliberativas. E, mesmo presentes, suas condições subalternas na sociedade tendem a conferir menos eficácia discursiva frente aos setores dotados das ferramentas (linguagem e cognição) exigidas na comunicação pública plural.

Entretanto, como sabemos, inclusão política combina muito bem, na prática, com desigualdade política ou distribuição desigual de poder. No balanço geral, a conclusão é de que o pressuposto da participação (da democracia deliberativa) é viável e necessário se quisermos transcender o modelo democrático pautado exclusivamente na legitimidade eleitoral. Assim, inverte-se o argumento: a inclusão da população mais pobre nos espaços participativos, afora todos os riscos e as dificuldades, ao contrário de significar uma ameaça à democracia deliberativa, é condição sine qua non para a mesma.

A participação permite a exposição de relações de poder que de outra forma permanecem ocultas ou camufladas pelos discursos e mecanismos da política institucional (Lüchmann, 2008).

Na seção seguinte analisaremos o poder como um componente fundamental da política e das relações humanas na esfera pública.

3.1.1.1 O poder como elemento fundamental da Política

A política pressupõe decisão e ação, sendo, em parte uma ciência, em parte uma arte: “em certa medida é um dom e em parte um caso de decisão pessoal. A política é, em certo sentido, a tomada de decisões por meios públicos, em contraste com a tomada de decisões pessoais” (Deutsch, 1983, p. 21).

A política, entendida desta forma, não trata exclusivamente do poder, mas das maneiras variáveis que as pessoas encontram para trabalharem e viverem juntas: “um governo usa do seu poder para executar algumas das decisões que as pessoas querem que sejam executadas, mas, na verdade, o poder do governo provém do apoio da população” (Deutsch, 1983, p. 171)77.

A essência da política é, portanto, as relações humanas que se estabelecem entre-os- homens (cf. Arendt, 1999, p. 23), tanto que o idioma romano empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines esse) e “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere)78.

Em resposta à pergunta “o que é a Política?” Arendt (1999, p. 21-23) responde: “a política baseia-se na pluralidade dos homens, trata da convivência entre diferentes”.

A dimensão política está sempre presente em toda ação, de forma que a esfera

77 Sobre a relação entre política e governo, Deutsch (1983, p. 199) entende que se referem a um único complexo

de atividades, encarado a partir de perspectivas diferentes, mas sobrepostas: “a política enfatiza as demandas competitivas e a alocação de valores, isto é, de resultados, recursos ou bens e oportunidades repartidos entre elas. O governo enfatiza a direção e o controle. A política ocupa-se da clássica pergunta de Harold Lasswell: - quem controla o que, quando e como?”.

78 O homem não é um animal político, por natureza. A política, portanto, não é algo natural; ela nasce criada pela

associação dos homens com o objetivo de instaurar, cultivar e conservar entre si a vida social (cf. Bobbio, 1987, p. 64). O caráter natural, presente na definição aristotélica do homem enquanto ser político, explica-se pelo fato de a polis ter determinado, de maneira decisiva, tanto em termos de idioma como de conteúdo, a concepção européia do que seria política originalmente e que sentido ela tem. Para Aristóteles, a palavra politikon era de fato um adjetivo da organização da polis e não uma designação qualquer para o convívio humano, não achava, de maneira nenhuma, que todos os homens fossem políticos ou que a política, ou seja, uma polis, existisse em toda parte onde viviam homens. De sua definição estavam excluídos não apenas os escravos, mas também os bárbaros asiáticos. Ele julgava ser apenas uma característica do homem o fato de poder viver numa polis e que essa organização da polis representava a forma mais elevada do convívio humano. Portanto, a política na acepção de Aristóteles não é algo natural e não se encontra, de modo algum, em toda parte onde os homens convivem. Ela existiu, segundo a opinião dos gregos, apenas na Grécia e mesmo ali num espaço de tempo

política resulta diretamente da ação em conjunto, da “co-participação de palavras e atos”. A ação não apenas mantém a mais íntima relação com o lado público do mundo, comum a todos nós, mas é a única atividade que o constitui: “é como se os muros da polis e os limites da lei fossem erguidos em torno de um espaço público preexistente, mas que, sem essa proteção estabilizadora, não duraria, não sobreviveria ao próprio instante da ação e do discurso”. (Arendt, 2000, p. 210-211)

A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens, corresponde à condição humana da pluralidade. Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente a condição de toda a vida política. Mais ainda, o agir em conjunto, típico da política, conduz a um dos elementos mais importantes da política: o poder, que só existe entre os homens quando eles agem juntos, e desaparece no instante em que eles se dispersam (cf. Arendt, 2000, p. 212).

Usamos, nesta tese, o termo “poder” como Arendt (2000, p. 213) o concebe, resultante da ação em comum fundada na livre troca de opiniões divergentes: “O poder só pode ser gerado e atualizado a partir da potencialidade de um ser-com discursivo em que palavras e atos não se separaram, e na dependência de um ‘acordo frágil e temporário de muitas vontades e intenções’, correspondendo, portanto, à condição humana da pluralidade”.

O poder só pode surgir, assim, na convivência entre os homens, único fator material indispensável para a sua geração. O poder só subsiste quando há a coexistência das pessoas, vivendo tão próximas umas das outras que “as potencialidades da ação estão sempre presentes” (Arendt, 2000, p. 213). Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência, renuncia ao poder e se torna “im-potente”, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam suas razões79.

O isolamento contradiz a condição humana essencial da pluralidade, o fato de os homens agirem em conjunto, requisito de todas as formas de organização política, razão de Arendt (2000, p. 214) ressaltar a importância de Montesquieu, a quem ela atribui ser “o último pensador político seriamente preocupado com o problema das formas de governo”, vez que percebeu que a principal característica da tirania era o fato de ela se basear no isolamento – o isolamento do tirano em relação aos súditos, e dos súditos entre si por meio do medo e da suspeita generalizada.

relativamente curto.

79 Se o poder fosse algo mais que essa potencialidade da convivência, se pudesse ser possuído como a força ou

exercido como a coação, ao invés de depender do acordo frágil e temporário de muitas vontades e intenções, “a onipotência seria uma possibilidade humana concreta”, afirma Arendt (2000, p. 213-214).

Em síntese, como elemento transformador, o poder produz domínios de objetos e rituais de verdade, possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma positividade.

É necessário, entretanto, notar que, entre os meios predominantes do poder está o de controlar e manipular o consentimento dos homens, conforme alerta Mills (1965, p. 25), presente em quaisquer decisões tomadas pelo homem sobre as condições de sua vida e sobre os acontecimentos que constituem a história de sua época.