• Sonuç bulunamadı

Kurt Derisi/Yelesi

5. Hayvanlardan Yararlanmada Kurt

5.3. Malzeme Sağlama

5.3.3. Savaş Aletleri

5.3.3.2. Kurt Derisi/Yelesi

Os homens são livres para fazer a história, mas “certos homens são de fato muito mais livres do que outros, e a razão disso é que tal liberdade exige o acesso aos meios de decisão e de poder pelos quais a história pode, na atualidade, ser feita”, conforme propugna Mills (1965, p. 27).

Se os homens não fazem a história, tendem cada vez mais a tornar-se instrumentos dos fazedores de história, objetos dela, e não seus “protagonistas”, termo de origem grega, junção de proto (o primeiro, o principal) e agon (luta, disputa, daí “agonista”, lutador), cujo significado é, literalmente, “o lutador principal”.

A temática do protagonismo127 nos remete ao conceito de “autogoverno” ou de “governo civil”, expressão cunhada por Tocqueville para designar a capacidade que os atores locais possuem de gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação.

A capacidade de se governar a si mesmos (autogoverno) talvez seja, inclusive, a mais notável de todas as propriedades dos sistemas políticos e, como salienta Deutsch (1983, p. 176): “é esta capacidade de autodireção, de autonomia, que torna os governos e as comunidades políticas importantes e eficazes”.

Na acepção geral do termo, a palavra “autogoverno” tem dois significados. Refere- se, por vezes, a uma unidade que se governa a si mesma em todos os aspectos, inclusive nas suas relações com o mundo exterior, mas, como nos lembra Deutsch (1983, p. 177) em outros casos, “pode querer dizer respeito a qualquer unidade que decida acerca de seus assuntos internos por processos próprios, mesmo se os seus negócios externos são dirigidos por algum sistema político maior”.

Uma pergunta se faz necessária, ao enveredarmos na questão do autogoverno: o que leva as pessoas a tomarem para si a responsabilidade acerca do governo e da direção de suas vidas, em vez de apelarem para o Estado ou alguma outra entidade?

Em resposta a esta questão Deutsch (1983, p. 197) argumenta que as pessoas se juntam para resolver os problemas coletivos, bem como para definir objetivos e metas a serem alcançadas pelo grupo, comunidade, localidade, por quererem exercer sua capacidade de estabelecer objetivos e de mantê-los, de tomar decisões e implementá-las, por meio da ação, aspecto intrinsecamente ligado ao autogoverno.

Comparando a realidade que vivenciara na Europa àquela que conhecera na América do Norte, Tocqueville (1977, p. 76) responderá a seus contemporâneos europeus, partidários da centralização, que acreditam que o poder governamental administra melhor as localidades do que elas próprias o poderiam fazer:

isso talvez seja verdadeiro, quando o poder central é esclarecido e as localidades não têm o mesmo saber, quando ele é ativo e elas inertes, quando tem o hábito de agir e elas o de obedecer. [...] De qualquer forma, quanto mais aumenta a centralização, mais cresce essa dupla tendência: mais se tornam evidentes a capacidade de uma parte e a incapacidade da outra. Nego, porém, que tal se dê quando o povo é esclarecido, despertado para os seus intereses e habituado a meditar, como se faz na América.

127 Apesar de Tocqueville não falar utilizar o termo “protagonismo”, ele ressalta a importância da ação humana

O autor de A democracia na América128, entretanto, se diz convencido de que “a força coletiva dos cidadãos terá sempre mais poderes para produzir o bem-estar social do que a autoridade do governo” (p. 76).

Tocqueville não apenas cunhou uma nova expressão (“governo civil”), mas também abriu uma linha de pensamento e uma nova visão sobre a sociedade civil, uma sociedade que subsiste por si mesma129.

Várias análises de Tocqueville são ainda hoje corroboradas pelos teóricos modernos, como Dahl (2005, p. 149), que chama a atenção para a importância das ações cooperativas e relaciona a confiança com a capacidade de um povo de engajar-se livre e facilmente em ações cooperativas e com as chances de se construir uma poliarquia: “o que nos interessa são as crenças que as pessoas têm sobre as perspectivas de cooperação e conflito entre atores relevantes da vida política, sejam eles indivíduos, organizações ou outros”130.

Segundo Limongi (2005, p. 22), o autor de Poliarquia abre espaço para que estes atores políticos passem a fazer parte do quadro explicativo da política, vez que valoriza seu papel, suas escolhas e suas decisões: “[...] esses atores tomam decisões, antecipam as consequências de seus atos, escolhem instituições; em uma palavra, agem politicamente. E a maneira como atuam desempenha um papel decisivo na obtenção e na manutenção da democracia”.

Na abordagem do protagonismo dos atores locais as pessoas são ativamente envolvidas, tendo a oportunidade de criar seu próprio destino, não sendo vistas como beneficiárias passivas das ações do Estado ou dos agentes de desenvolvimento. Nesta perspectiva, Estado e sociedade têm papéis igualmente importantes na definição dos rumos que as pessoas e a vida em conjunto devem tomar.

Em razão disso, a abordagem do protagonismo contribui para a revitalização e

128 Obra de Tocqueville que apresenta as observações feitas pelo autor em sua viagem para conhecer a

experiência de democracia da Nova Inglaterra (EUA), tendo vindo à luz, originariamente, na segunda metade da década de 1830.

129 Esse modelo de sociedade, que subsiste por si mesma, é o contrário do modelo hobbesiano de Estado (cf.

Hobbes, 1997), no qual é necessária a presença do monopólio do uso da força, pelo Estado, para resolver os dilemas da ação coletiva, sem o que os seres humanos, deixados à sua própria sorte, acabariam travando uma guerra de todos contra todos.

130 Outro autor que em vários pontos se alinha a Tocqueville é Lipset que, em seu O homem político (1967, p.

67) arrola estudos do comportamento individual para demonstrar uma clássica tese tocquevilleana segundo a qual “os homens que pertencem a associações têm mais probabilidade do que outros de participarem ativamente na política”. Segundo Lipset, o estudo feito por Tocqueville sugeriu ao autor francês duas instituições que poderiam combater o novo Leviatã: o autogoverno local e as associações voluntárias, em função do envolvimento e participação popular em tais instituições, o que constituía uma condição para a estabilidade do sistema democrático, por disseminar ideias e fomentar o consenso entre os seus integrantes, e, no decorrer de tal processo, limitando, igualmente, o poder central.

consolidação da democracia, além de fortalecer a própria comunidade local, desfazendo a ideia de que a vida política, com seus problemas e soluções é dever exclusivo dos políticos profissionais.

A pregunta que se coloca, portanto, é a seguinte: como despertar as pessoas para que exerçam tal protagonismo?

A “dispersão do poder” na comuna americana, relatada por Tocqueville (1977, p. 59), apresenta-se como fundamental para se despertar o interesar das pessoas pela coisa pública, pois as pessoas se interessam por aquilo que elas podem influenciar131. Ao se criar novos e autônomos “centros de poder”, no qual cidadãos comuns se sentem protagonistas de seus destinos, este modelo acaba por ajudar a “treinar líderes potenciais de oposição no exercício das habilidades políticas” (Lipset, 1967, p. 24).

O estímulo ao protagonismo favorece a condição de “agente” dos indivíduos, termo que, na acepção usada por Sen (2000, p. 32), significa “alguém que age e ocasiona mudança e cujas realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos”. Os indivíduos, assim se portando, entendem que as condições de vida não são fixadas inevitavelmente, e percebem que podem alterá-las por meio de sua ação, uma vez que agindo coletiva e coordenadamente, podem solucionar os problemas que enfrentam, pois tais problemas são passíveis de serem resolvidos por meio de sua ação e “[...] não mais precisam ser deixados por conta do destino” (Almond e Powell, 1972, p. 67).

Um dos fatores que estimulam a ação humana é a responsividade do sistema político, tema que trataremos na próxima seção.