Considera-se como ponto de partida para a identificação da necessidade de atuação coletiva, a existência de situações comuns entre os municípios, sejam estas positivas ou negativas. Uma vez identificadas as situações ou assuntos que organizam as demandas na região metropolitana, parte-se para as soluções, composições e possíveis encaminhamentos. Como reconhecem os autores Klink (2005), Lefévre (2009), Spink, Teixeira e Clemente (2009) algumas políticas públicas só fazem sentido se forem tratadas no âmbito regional. Isso porque a capacidade de resposta dos municípios através de soluções cooperadas favorece não só a eficácia das ações, como também a eficiência no uso dos recursos públicos. No entanto, somente o reconhecimento de que a resolução dos problemas num dado município depende da atuação ou envolvimento de demais não é suficiente para se alterar uma realidade.
Observa-se no caso da Região Metropolitana da Baixada Santista a identificação de problemas comuns entre os municípios desde a década de 1960, como é o caso dos problemas e demandas por saneamento básico e resíduos sólidos, que, no entanto, não foram amplamente discutidos e resolvidos no âmbito regional. Em contrapartida, soluções pontuais nas áreas de transporte e melhoria de estrutura turística são as que tiveram maiores encaminhamentos, pois são consideradas áreas estratégicas para as atividades econômicas dos municípios da região.
Em 2002 foram mapeados no Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado (PMDI) os principais problemas regionais, identificados e caracterizados em áreas de atuação, a saber:
• Planejamento Integrado, uso e ocupação do solo;
• Transporte e sistema viário regional;
• Habitação;
• Saneamento básico;
• Meio ambiente;
• Desenvolvimento econômico;
• Atendimento social (ênfase à saúde e educação) (EMPLASA, 2002, p. 13).
Além do que está posto neste documento, os próprios entrevistados também elencam políticas que deveriam ser tratadas no âmbito regional, como é o caso do entrevistado Célio Nori, coordenador do Fórum da Cidadania, ao afirmar: “há políticas que necessariamente têm que ser metropolitanas, como a questão ambiental e o transporte”. Para o entrevistado, a atuação coletiva na área de transporte é necessária, pois o cidadão da Baixada Santista tem na sua rotina o deslocamento entre os municípios da região para desempenhar as atividades de trabalho, estudo, lazer e moradia, como descreve no trecho a seguir: “não dá para discutir transporte somente em Santos, quando se tem um indivíduo que mora em Praia Grande, trabalha em Cubatão e estuda em Santos.”
Para a secretária de Planejamento e Meio Ambiente de Itanhaém, Rosana Bifulco, se determinados assuntos não forem reconhecidos como demandas regionais e, portanto, trazidos para discussão coletiva e planejamento comum, podem gerar soluções individuais conflitantes entre os municípios e o próprio governo estadual.
Como exemplo, alguns entrevistados reconhecem que uma política de segurança pública só será efetiva se todos os municípios estiverem dotados de infraestrutura e orientados por um sistema estratégico coletivo contra o crime e o tráfico de drogas. Caso contrário, como os entrevistados afirmam, pelo fato de o criminoso não reconhecer as fronteiras territoriais dos municípios, o problema originado em um dos territórios poderá transcorrer aos demais. A mesma lógica reflete-se também nos problemas ambientais, de uso e ocupação do solo, e destinação final do lixo.
É evidente que existem alguns assuntos mais “populares” como transporte e turismo, no entanto, persistem ainda demandas de grande complexidade técnica e impacto regional que não tiveram soluções implementadas. Isso é verificado de maneira geral quando se observa o que foi feito na RMBS, em termos de projetos20, e o que se pretendia atingir desde a sua criação. Para esta análise, foram levantados todos os projetos validados com o recurso do Fundo e classificados quanto às áreas de políticas públicas ao qual se destinavam. Como inúmeros projetos são transversais, utilizou-se como método para definição da área especifica a orientação de sua atividade finalística. Como exemplo, tem-se dentre os projetos
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validados inúmeras obras, em orlas, via de acesso, iluminação de praias, postos de saúde, entre outros. Para não criar a classificação “Obras” e perder a qualificação dos projetos em áreas de políticas públicas, identificou-se como “obra em postos de saúde” como área de Saúde, “recapeamento de vias de acesso aos municípios” como área de Transporte, “iluminação de praias” e “obra em orlas” como área de Melhoria urbana. Abaixo estão organizados em uma tabela todos os municípios da Região Metropolitana, as áreas de políticas públicas que tiveram projetos validados pelo Fundo com a identificação em quais municípios estes aconteceram.
Tabela 17: Projetos classificados conforme as áreas de políticas públicas
Áreas Bertioga Cubatão Guarujá Itanhaém Mongaguá Peruíbe Praia
Grande Santos São Vicente Acessibilidade X Assistência Social X Educação X Esporte X X Meio Ambiente X X X Saúde X X X X X Segurança Pública X X X X X X X X X Transporte X X X X X X X X X Turismo X X X X X X X X X Melhoria Urbana21 X X X X
Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados obtidos do Fundo/RMBS.
Observa-se a partir da tabela 17 que todos os municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista tiveram ações nas áreas de segurança pública, transporte e turismo. Todos os municípios da região, sendo Cubatão o menos expressivo, apresentam atividades econômicas voltadas ao turismo, e esse fato explica a priorização de ações nessa área. Além disso, a realidade conurbada dos municípios da RMBS demanda ações que favoreçam a integração e a melhoria na mobilidade urbana. E pelo fato dos municípios receberem muitos turistas, a questão da segurança pública também é tida como primordial, principalmente para não afastar esses turistas de veraneio que tanto movimentam o setor de serviços na Baixada Santista. No entanto, poucas ações são verificadas nas áreas de: Planejamento
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Entende-se nesta classificação como “Melhoria urbana”: projetos de iluminação, obras de urbanização de orlas e praças.
Integrado, Uso e Ocupação do Solo; Saneamento Básico; Meio Ambiente; Atendimento Social (ênfase à saúde e educação); Habitação, trazidas no PMDI e reconhecidas no capítulo anterior como grandes desafios para os municípios da região.
Considerando os dados do Fundo até 30/11/2010, nos 14 anos de existência da RMBS foram validados 148 projetos “metropolitanos”, sendo que 91 projetos já foram concluídos e 57 estão em andamento. Com o intuito de qualificar alguns projetos, destaca-se: a única iniciativa verificada na área de Educação refere-se a uma obra para abrigar o “Restaurante Escola” no município de Santos; os projetos de Meio Ambiente estão relacionados a melhoria nas estruturas do Horto Florestal de São Vicente, do Orquidário de Santos e implantação do Núcleo de Educação Ambiental em Cubatão; o único projeto na área de Acessibilidade é em Bertioga, para construção de travessia para portadores de deficiência; e o único projeto na área de Assistência Social é para a implantação do Restaurante Popular Metropolitano em Santos.
Desta forma, observa-se que, apesar de identificados os problemas e assuntos que organizariam as ações coletivas, muitos se canalizam somente em pequenas obras de melhoria urbana, sem ações de alto impacto ou de grandes modificações da realidade regional. Talvez seja por essa inexpressiva realização de projetos que alterem e melhorem a qualidade de vida do cidadão da Baixada Santista que pouco se reconhece a importância dos órgãos instituídos e pouco se tem interesse em participar destes fóruns.