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Yargılamaya Esas Rapor Düzenlenmesi

Belgede SAYIŞTAY HESAP YARGISI (sayfa 128-131)

Quando uma criança adquire a linguagem materna, ela o faz justamente a partir de um contato prolongado com a língua na sua concretude. Da mesma forma, o início da aprendizagem musical no contexto da cultura popular se dá através do contato prolongado com a música em sua realização concreta.

50 Na linguagem musical, considero as suas dimensões materiais os instrumentos, vozes, sons e suas

propriedades. Nas dimensões simbólicas, incluo os seus sentidos, valores e suas funções como mediadora entre os atores sociais e entre estes e a sua realidade.

Em ambos os casos, o processo de aprendizagem se dá através de uma vivência oral e auditiva, proporcionada pela estrutura social da qual o indivíduo faz parte.

Se a música é uma forma de discurso, então é análoga também, embora não idêntica, à linguagem. A aquisição da linguagem parece envolver muitos anos e, principalmente, vivência auditiva e oral com outros languagers. Temos de olhar para o equivalente, para o engajamento com outros musicers, muito antes de qualquer texto escrito ou outras análises daquilo que já se sabe intuitivamente (SWANWICK, 2003, p. 68-69)51.

No cavalo-marinho, a aprendizagem musical acontece de maneira contextualizada com o universo da brincadeira, onde o que prevalece é a vontade, o desejo de brincar.

Mestre Antônio Teles afirma que ninguém nunca lhe ensinou a tocar ou cantar o repertório do cavalo-marinho, discurso sempre enfático e muito comum entre os mestres desse folguedo em Pernambuco. Conforme seus depoimentos, ele conheceu o cavalo-marinho ainda na infância, iniciando sua aprendizagem musical através da observação. Durante muito tempo, ele se posicionava junto ao banco durante as brincadeiras, observando o canto dos toadeiros e a forma como os instrumentos eram tocados, sobretudo a rabeca, memorizando tudo o que via e ouvia.

Eu era menino [...] Ninguém me ensinou nada. O povo brincava e eu ficava olhando e ouvindo (mestre Antônio Teles, entrevista concedida ao autor em Condado, 22.10.2013).

Essa mesma realidade foi vivenciada por sua filha Nice e posteriormente por seus netos, Natan e Totó, ao presenciarem, desde a tenra idade, as brincadeiras em que mestre Antônio Teles participava.

Durante sua infância, Nice conviveu de perto com o universo da brincadeira. Na época, seu pai era mestre do cavalo-marinho de Severino Memézio em Condado, e sempre levou a família para assistir às sambadas desse grupo.

É de fundamental importância hoje ter guardado esse momento de quando saíamos todos os sábados pra acompanhá-lo até o cavalo-marinho, onde acontecia sempre lá na rua do Cabeção, ou no bar do Cabeção, onde se fala muito hoje. E ali a gente ficava a noite inteira assistindo e ouvindo aquelas melodias [...] As pessoas tudo se reunia sempre lá em casa antes da

brincadeira. Então quando conversavam bastante, os demais saíam. E aí

minha mãe fechava a porta e saíamos nós os cinco da casa: eu, meu pai, minha mãe e meus outros dois irmãos. E aí a gente ia pra lá ficar assistindo

51 Swanwick utiliza o termo languagers para referir-se às pessoas que falam entre si. Já o termo musicers refere-se às pessoas que fazem ou apreciam a música.

até a hora que me dava sono, né? Mas quando era na hora do Boi, aí eu me levantava e ficava ali no meio só achando bonito e correndo, porque o Boi fica dando carreira52 atrás de todo mundo. E ali eu me encantava. Eu achava

lindo o amanhecer do dia, e era prazeroso ter aquela noite toda de oito da noite até cinco da manhã (Nice, entrevista concedida ao autor em Condado, 29.10.2013).

Um pouco mais de duas décadas depois, Natan e Totó, ainda na infância, começaram a sentir o desejo de estar presente e de frequentar as brincadeiras do cavalo-marinho de Biu Alexandre em Condado, onde o avô participava como rabequeiro.

A minha infância no cavalo-marinho começou vendo o meu avô tocar no cavalo-marinho de Biu Alexandre. Ele tocava rabeca lá. No começo eu nunca me interessei [...] Eu ficava em casa. Aí teve um dia que eu me interessei de vez e fui ver ele brincando, tocando [...] E daí fui me interessando pela brincadeira [...] Aí meu avô saiu de lá e montou uma

brincadeira pra ele, aí comecei a me interessar mais (Natan, entrevista

concedida ao autor em Condado, 12.11.2013).

Rapaz, a minha vida dentro do cavalo-marinho começou quando tinha

brincadeira de cavalo-marinho em Biu Alexandre e sempre meu avô ia,

porque ele tocava rabeca, e eu sempre também ia, e lá comecei dançando com o pessoal. Depois despertei o interesse em mim de aprender a tocar rabeca. Aliás, comecei tocando pandeiro, daí despertou o interesse em mim de tocar rabeca (Totó, entrevista concedida ao autor em Condado, 12.11.2013).

Esse processo de observação, no entanto, não se restringe aos momentos da brincadeira, mas envolve também as relações familiares cotidianas. Nice e seus filhos afirmam que desde a infância já eram acostumados a ver e ouvir em casa o mestre Antônio Teles cantar e tocar o repertório do cavalo-marinho.

[...] ele ficava com a rabeca dele e chamava a atenção da gente quando em dia de domingo, assim à tardinha, ele pegava a rabeca e ficava tocando em cima de um banquinho. A gente não tinha móveis, não. A casa era bem simples, um modelinho chalé, de taipa, na rua lá embaixo. E aí ele sentava naquele banquinho, e ali a gente ficava, às vezes até com lata de leite vazia batendo. Ele ficava na rabeca, e a gente batendo naquela lata. Às vezes ele tocando e cantando, e a gente batendo o margúio no meio da casa. Parece que fico vendo um filme, sabe? (Nice, entrevista concedida ao autor em Condado, 29.10.2013).

Meu avô sempre tocava e cantava em casa, e às vezes me chamava também. Às vezes ele fazia aquela batucada na frente de casa com outras pessoas, aí eu sempre ia pra lá, pra casa do meu avô (Natan, entrevista concedida ao autor em Condado, 12.11.2013).

52 Correr atrás, perseguir.

Ele ficava aí no terraço ou colocava o banquinho lá fora e tocava, às vezes chamava eu e meu irmão [...] Ele tocava na rabeca, às vezes eu pegava o pandeiro e meu irmão pegava a bage (Totó, entrevista concedida ao autor em Condado, 12.11.2013).

Em todas essas situações, pode-se ver um aprendizado fundamentado em uma lenta familiarização proporcionada por uma vivência, um contato prolongado com o universo da brincadeira e de sua música, resultando em um aprendizado natural e inconsciente, fruto do acúmulo de um capital de experiências.

Sobre essa realidade, o etnomusicólogo ganês Kwabena Nketia afirma que a organização da música tradicional na vida social permite que o indivíduo adquira seu conhecimento musical em lentas etapas e amplie essa experiência cultural a partir dos grupos sociais ao qual ele está inserido (NKETIA, 1974, p. 59-60).

Nessas situações, a apreensão musical se dá através de presenças, relações e interações humanas, cuja atenção volta-se aos sons e movimentos, onde a música pode ser aprendida, mesmo que não ativamente ensinada (RICE, 1985, p. 117).

Entretanto, a aprendizagem da linguagem musical não envolve apenas a sua apreensão enquanto fenômeno social, mas a compreensão e o compartilhar de suas estruturas, formas, seus significados e sentidos.

Belgede SAYIŞTAY HESAP YARGISI (sayfa 128-131)