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ÇEŞİTLER

4.8. Yaprakta Bor

No caderno especial intitulado Tempo Novo15, do Diário da Manhã, além dos projetos para as outras áreas, Marconi deixava expresso que suas intenções para a cultura goiana não eram de deixá-la relegada ao segundo plano e anunciou apoio e incentivos. Idealizava a formação de pólos e corredores culturais nas cidades do interior, com a intenção de atrair o turista, conseqüentemente aumentar a arrecadação de impostos e o investimento no próprio setor.

Padre César Garcia, ex-coordenador da campanha de Marconi Perillo e então secretário de Cultura de Goiânia, reforçou a estratégia:

O novo tempo que Marconi Perillo se propôs a instalar na área cultural de Goiás vai além do objetivo de valorizar as produções artísticas. Se tivermos uma produção cultural de qualidade, como bons espetáculos, os pólos turísticos de Goiás vão atrair mais turistas. Isso significa mais ICMS para o Estado. E com maior arrecadação maior poderá ser o gasto com a cultura goiana (D.M., 01/01/1999, p. 22).

Depois da vitória nas eleições de 1998, Perillo escolheu e nomeou o historiador e letrista Nasr Chaul para dirigir a cultura do estado. Dentre as metas de melhorias para a cultura goiana estavam a criação da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e a transformação da Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira (FUNPEL)

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O caderno Tempo Novo foi um suplemento do jornal Diário da Manhã, do dia 01/01/1999, em que se comentou a vitória de Marconi Perillo e os novos planos para o governo do estado.

em Secretaria de Cultura. Em entrevista ao mesmo jornal, o próprio Nasr Chaul enfatiza a necessidade de o órgão ser uma Secretaria, pois, assim, seria dotado de um orçamento próprio e maior. Porém, não foi o que aconteceu. Na Reforma Administrativa, em novembro de 1999, a FUNPEL realmente foi extinta, mas deu lugar a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (AGEPEL).

Assim que assumiu a presidência, Chaul nomeou o escritor e compositor Carlos Brandão para a direção do Centro Cultural Martim Cererê, a atriz Tetê Caetano para a direção do Teatro Goiânia e Yeda Schamaltz para a direção do Instituto Goiano do Livro.

Na lógica do discurso de modernização, introduzido pelo “tempo novo”, Chaul demonstrou preocupação em inserir a arte goiana no cenário nacional, “fazendo circular um capital artístico acumulado no estado, investindo o retorno financeiro na própria cultura” (D.M., 02/01/1999, p. 1). Idealizou, então, uma linha de realizações que pretendia cumprir, pautadas da seguinte forma:

Tabela I: Planos de Nasr Chaul para a cultura goiana

(Fonte: Entrevista de Nasr Chaul ao jornal Diário da Manhã, 02/01/1999, p.1). 1. Fundir as orquestras do Estado e do município, projeto a ser negociado com

o secretário municipal de cultura, padre César e o maestro Joaquim Jayme;

2. Incentivar as manifestações culturais do interior e trazê-las para a capital;

3. Deslocar o zoológico para o parque ecológico, em convênio com a prefeitura, para transformar o espaço atual num Centro de Cultura, a exemplo do Parque Ibirapuera;

4. Cesta Básica da Cultura: shows multiculturais em praças e teatros;

5. Bienal do Centro Oeste;

6. Resgatar o potencial de humor regionalista do estado;

7. Intercâmbio Cultural entre Goiás e outros estados;

8. Revista Cultural periódica, com artigos literários, artes visuais e plásticas, cinema e fotografia;

9. Publicação de obras históricas em CD-Rom;

10. Círculos de debates com intelectuais de vários estados. Nomes de peso nacional para fazerem circular idéias do que está acontecendo em Goiás e no mundo;

11. Usar o CERNE como veículo de comunicação da cultura;

12. Incentivar famílias a doarem livros para as bibliotecas, premiando-as com placas nominais nas estantes;

Algumas destas idéias não chegaram a sair do papel, como a transferência do zoológico, a fusão das orquestras municipal e estadual e a Revista Cultural periódica; outras foram cumpridas e muitas outras ações, que não constam neste plano, foram introduzidas ao longo do período de governo, como veremos adiante.

Uma das iniciativas do novo presidente foi convocar e se reunir com representantes da classe artística para elaborarem planos setoriais de ação e implementação das idéias na área cultural, na tentativa de não priorizar nenhum setor específico. Reuniu-se, por exemplo, com Valter Mustafé, então presidente do Sindicato dos Músicos, e Delgado Filho, então diretor da Federação de Teatro do Estado de Goiás (FETEG), além de outros representantes como das áreas de artes plásticas, literatura, dança e cinema (D.M., 02/01/1999, p. 22).

O clima era de muita esperança e mudança. As palavras de ordem eram “ebulição” e “efervescência” da cultura goiana. Em entrevista, Nasr Chaul revela que encontrou uma Fundação desestruturada, com pouca verba e um caldeirão cultural represado, talvez por décadas; porém, “topou a parada”, aceitando o convite feito por Marconi, pois acreditou que o novo governo poderia mudar esse quadro. Além da amizade e da identificação familiar, revelou que os motivos que o levaram à FUNPEL era saber do comprometimento de Perillo, como político e como pessoa, com as questões culturais e também a necessidade de extrapolar os muros da universidade, onde escrevera muito a respeito da cultura goiana, podendo contribuir de fato, naquele momento, dando uma guinada também em sua vida profissional16.

A escolha de Chaul para o cargo foi idéia de Fernando Perillo, primo primeiro de Marconi e parceiro de Nasr em diversas composições. O primeiro encontro de Chaul e Perillo se deu em 1976, no Sirius Bar, depois disso se tornaram amigos e parceiros de letras de música, foi quando Chaul se descobriu letrista17.

A relação com Marconi foi iniciada logo depois da chegada deste a Goiânia. Vindo de Palmeiras de Goiás, aos catorze anos de idade, Marconi dividiu o quarto com Fernando e desde esta época se mostrava interessado por cultura:

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Entrevista de Nasr Chaul, concedida a esta autora em 21/09/2009. Todas as demais citações se referem a este documento.

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Atualmente Nasr Chaul conta com mais de trezentas composições e cerca de cento e noventa letras gravadas.

Ele cresceu ouvindo nossas canções, ouvindo as nossas idéias, trocando relações inter-pessoais durante muitos anos. [...] essa relação inicial se deu na casa da dona Conceição, a mãe do Fernando, era cotidiana, era diária. Depois Marconi virou um político, para nossa surpresa total e um ser político que se descortinara no governo do Santillo, nos alegrando muito com sua atuação e depois quando Marconi foi candidato e eleito deputado estadual, coincidiu da gente morar no mesmo prédio, no edifício Cayenne, na Rua 2, no Setor Oeste, eu morava no 501 e ele no 701, o que estreitou, já na outra fase, ainda mais os nossos laços (CHAUL, entrevista, 21/09/2009).

Esta ligação política, embasada na amizade, faz-nos crer que as relações de poder em Goiás se estabelecem muito assentadas nas relações inter-pessoais, nas amizades e na camaradagem, cerne também da política de Chaul para a cultura, baseada na escolha de nomes conhecidos do seu círculo de amigos, para serem os primeiros responsáveis e beneficiados das mudanças ocorridas no tempo novo da cultura. Aqueles que o ajudaram estiveram presentes também nas composições feitas entre uma boa prosa de bar e uma cantoria.

Chaul assumiu a FUNPEL em meio ao burburinho do tempo novo, tendo a responsabilidade de levar a cabo as propostas e promessas de Marconi para a cultura e a oportunidade de oferecer também a sua contribuição. E isto ele fez com um viés da História, pelo olhar de um historiador, por meio do seu conhecimento acadêmico e artístico sobre Goiás.

A política para a cultura adotada no primeiro ano de Governo Marconi Perillo foi influenciada, até certo ponto, pela concepção de uma política neoliberal e mercadológica adotada pelo governo FHC. Isto se revela pela criação do Programa Goyazes, praticamente dentro dos mesmos moldes da Lei Rouanet, que é a lei Federal de Incentivo à Cultura.

A administração da FUNPEL tem a “cara” do período: mudanças internas, lei de incentivo à cultura, maior visibilidade do governo através da cultura, atração do empresariado para investimentos no setor, projeção internacional por meio do cinema (aqui nos referimos diretamente ao Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental – FICA), restauração e valorização do patrimônio histórico e artístico, modernização e inserção do estado no contexto econômico nacional etc.

Era preciso se mostrar, era preciso valorizar o estado e suas manifestações artísticas, era preciso ser visto. Naquele momento o historiador não queria apenas recuperar as raízes identitárias do seu povo, mas como em seu livro Caminhos de

Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade (1997), desconstruir a

idéia do atraso e entrar nos limites da modernidade “arrastando” culturalmente todo o estado.