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2. GENEL BİLGİLER

2.7 Endüstri 4.0’ın Yangın Güvenliğinde Kullanılan Bileşenleri

2.7.2 Yapay Zeka (AI) ve Makina Öğrenmesi (ML)

Verne se coloca como historiador, o autor se apropria inteiramente da História para mostrar aos leitores os problemas encontrados ao longo das expedições, descrevendo suas batalhas. A proposta principal de Verne é desvelar o modelo de conquistador que ele encontra no herói. Um homem que domina tão bem as questões políticas que consegue tudo o que quer. A competição e o interesse pessoal do conquistador constituem em sua obra o sujeito político que melhor soube explorar o Novo Mundo.

Cortès trabalha com a sua imagem para conseguir a conquista. Ele se apresenta para a Corte Espanhola, para Montezuma, para outros conquistadores e para os índios como um conquistador digno de confiança e como um homem de fé: verifica-se que, em sua primeira carta, ele tenta construir sua imagem diante do Rei para que o mesmo lhe permita continuar as expedições. Cortès tenta convencê-lo de que os índios precisam ser instruídos na fé católica e que se o Rei da Espanha permitisse teria também suas vantagens. E para convencê-lo, Cortès descreve não somente os sacrifícios, como também mostra à Sua Majestade as vantagens que ele obterá com essa conquista. (Ver também páginas 21-22):

E deixei na vila de Vera Cruz cento e cinquenta homens construindo uma fortaleza, que já está quase pronta. Esta província de Cempoal é

formada de cinquenta vilas e fortaleza, tendo até cinquenta mil homens de guerra, os quais ficaram muito seguros e pacificados, como leais vassalos de vossa majestade como agora são, porque eles eram súditos daquele senhor Montezuma. E segundo fui informado, o eram pela força e de pouco tempo para cá, e como por mim tiveram notícia de vossa alteza e de seu real grande poder, disseram que queriam ser vassalos de vossa majestade e meus amigos, e que os defendesse daquele grande senhor que os mantinha pela tirania e que tomava seus filhos para matar e sacrificar a seus ídolos. (CORTEZ, 2007: 34).

“É certo que se servissem a Deus com tanta fé e dedicação, muitos milagres obteriam e é certo que esta gente veria mais facilmente o verdadeiro caminho da fé porque vivem politicamente melhor que outra gente por estas partes temos visto”. (CORTEZ, 2007: 31).

E para legitimar-se como governador dessas terras, o conquistador pede diretamente ao Rei que não nomeie Diego Velásquez, descontruindo a imagem do outro conquistador e mostrando como ele, Cortès, é “fiel” a sua coroa:

Com nossos procuradores... há um pedido para que, em nosso nome, supliquem a vossas majestades para que de nenhuma maneira faça de Diego Velásquez, tenente de almirante da Ilha Fernandina, o adiantado31 ou o governador desta região, nem tampouco o executor da justiça, porque a vontade de vossas altezas é defendida nestas terras pelo que aqui praticamos... Cremos que não seria vontade dele enviar ouro, prata e joias a vossas altezas reais como nós estamos fazendo. Isto ficou muito claro quando quatro criados de Velásquez nos disseram que deveríamos enviar para ele o que agora estamos enviando a vossas altezas. (CORTEZ, 2007: 32).

Estes tipos de discursos são nomeados pelo linguista Charaudeau como estratégia para o discurso político. No capítulo “Ethos, uma estratégia para o discurso político”, na obra O Discurso Político, o autor nos evidencia como o homem político trabalha sua imagem para colocar-se diante dos espectadores. Cortès mostra-se “digno de fé” ao entrar no Castelo do Imperador Asteca, dando prova de ponderação (a phronésis), de

31Um adiantado ou adelantado era um funcionário do Reino de Castela que tinha a máxima autoridade judicial e governativa sobre um distrito

simplicidade sincera (a arétê) e de amabilidade (a eunóia) (CHARAUDEAU, 2008: 113). Estas estratégias, descritas por Charaudeau, podem ser observadas na segunda carta escrita por Cortès à Coroa Espanhola onde descreve sua chegada diante do Imperador, nos evidenciando em suas atitudes o que faz para ganhar a confiança de Montezuma, o Imperador Asteca.

Montezuma vinha pelo meio da rua, ladeado por dois senhores, um que viera me falar nas montanhas e o outro que era seu irmão, que também já se encontrara comigo. Aproximei-me para abraçar Montezuma mas os dois me impediram, mesmo assim todos os três fizeram a cerimônia de beijar o solo. Ele pediu ao senhor que o acompanhava que me tomasse pelo braço, para que seguíssemos caminhando. Antes disso coloquei em seu pescoço um colar de diamantes. (CORTEZ, 2007: 53).

Ao discorrer sobre a construção do ethos, Charaudeau diz que sujeito linguageiro é um ser feito de discurso e ao mesmo tempo um sujeito social empírico. O que significa que o ethos, enquanto imagem, se liga àquele que fala, não a uma propriedade exclusiva dele; ele é antes de tudo a imagem de que se transveste o locutor a partir daquilo que diz. “O

ethos relaciona-se ao cruzamento de olhares: olhar do outro sobre o que fala, olhar daquele

que fala sobre a maneira como ele pensa que o outro vê”. Ora, para construir a imagem do sujeito que fala, esse outro se apoia ao mesmo tempo nos dados pré-existentes ao discurso – o que ele sabe a priori do locutor – e nos dados trazidos pelo próprio ato de linguagem.

(CHARAUDEAU, 2008: 115). Podemos dizer então que, aquilo que o sujeito de fala é, pode ou não aparecer no discurso.

Verne nos mostra que o Imperador Asteca tinha medo da figura do conquistador, pois ele sempre enviava seus súditos até Cortès para dar-lhe presentes e convencê-lo a não ir encontrá-lo:

Mais, le lendemain du débarquement, Teutile, gouverneur de la province, envoyé par Montézume, se trouva assez embarrassé pour répondre à Cortés, qui lui demandait de le conduire sans retard devant son maître. Il savait toutes les inquiétudes et les craintes qui hantaient

l’esprit de l’empereur depuis l’arrivée des Espagnols.32 (VERNE, 2005: 48).

Todavia, sabemos que esse processo de convencimento se dá de maneira sutil; Montezuma precisava convencer Cortès de que seus produtos oferecidos: ouro, pedras preciosas, colares, etc. deveriam ser suficientes para que o conquistador desistisse de entrar em suas terras. Contudo, como podemos ver no relato da segunda carta do conquistador, isso só fazia aumentar a vontade de Cortès de conhecer essas terras.

E que adiante eu veria se era verdade ou não o que me dizia e pedia que não fosse à sua terra, porque era estéril e padeceríamos necessidades, podendo eu, onde quer que estivesse, pedir o que precisasse que ele mandaria. Eu respondi que não poderia deixar de ir à sua terra, porque precisava enviar um relato dela a vossa majestade. (CORTEZ, 2007: 49).

Em Linguagem e Discurso: Modos de Organização (2010) , Patrick Charaudeau mostra, na seção “Definição e função do narrativo”, onde fala sobre os

papéis dos sujeitos, que o sujeito narrador desempenha essencialmente papel de uma

testemunha que está em contato direto com o vivido (mesmo que seja de maneira fictícia), isto é, com a experiência na qual se testemunha como os seres se transformam sob o efeito de seus atos. (CHARAUDEAU, 2008: 157). Verne mostra uma sucessão de ações segundo uma lógica com que ele constrói sua trama. Muitas vezes o autor faz uso de algumas estratégias, tais como a persuasão, a manipulação e o envolvimento para provocar efeitos em seu destinatário: “Alors pour donner à ces pauvres Indiens une idée de sa puissance, Cortès fit manoeuvrer ses soldats et tirer quelques pièces d’artillerie, dont les décharges les glacèrent de terreur.” (VERNE, 2005: 49).

32 Tradução:

Mas no dia seguinte ao desembarque, Teutile, governador da província, enviado por Montezuma, viu-se sem jeito para responder a Cortés, que lhe pediu para levá-lo ao seu senhor sem demora. Ele conhecia todas as preocupações e medos que assombravam a mente do Imperador desde a chegada dos espanhóis. (VERNE, 2005: 48).

Observamos em Verne um narrador com caráter persuasivo que toma partido ora dos indígenas, como “Pauvres Indiens”, ora de Cortès, “sa puissance”, transformando Cortès em um grande guerreiro. Por outro lado, nas cartas de Cortès, observa-se que o conquistador procurava sempre mostrar aos Astecas que sua força era muito superior e que eles deveriam respeitar a sua Coroa. No exemplo a seguir, Cortès havia sido traído pelos enviados de Montezuma e decide então guerrear, porém sua fama tomara grandes proporções e os enviados lhe pedem clemência e uma última chance.

Reuni os mensageiros de Montezuma que iam comigo e lhes falei da traição urdida por seu líder, dizendo que não era digno de tão grande senhor como ele enviar-me representantes tão honrados a dizer que é meu amigo e depois me atraiçoar. E que diante disto eu queria mudar meu propósito e não iria mais conversar com ele mas guerrear como inimigo, fazendo-lhe todo dano que pudesse. (CORTEZ, 2007: 48).

Para Charaudeau (2008: 117) em “Ethos e imaginário social”, no capítulo de seu livro Discurso Político, é preciso lembrar que a questão da identidade do sujeito passa por representações sociais. Cortès, ao discursar sobre o que ele faria deste momento em diante, segue sua conquista em busca de aliados, ouro e territórios. Para isso, o conquistador posiciona seu discurso primeiramente de acordo com a realidade por ele presenciada ao longo do percurso que já havia percorrido. Sendo assim, durante seu processo de formação do imaginário social, percebe os problemas existentes entre as tribos distintas e que poderia aproveitar-se de suas guerras e o faz. Charaudeau (2008: 117) explica que o sujeito falante não tem outra realidade além da permitida pelas representações que circulam em dado grupo social e que são configuradas como imaginários sócio-discursivos. O autor acrescenta que essas representações sociais dizem respeito tanto a indivíduos quanto a grupos. Verne, em sua narrativa, mostra que Cortès era um grande orador e que por conta disso ele consegue seus aliados e sua conquista. O autor relata que a conquista se faz porque Cortès soube trazer aliados para sua causa e se aproveitou do fato de que muitas tribos disputavam entre si: “Puis, il

reçut les envoyés de la ville de Zempolla qui venaient solliciter son alliance et sa protection contre Montézuma, dont ils supportaient le joug avec impatience’’ (VERNE, 2005: 53).

Segundo Charaudeau, os políticos devem agir de maneira eficaz, pois é pela visão do conjunto do percurso de um politico que se pode julgar seu grau de competência. O politico possui sempre um discurso de justificação que equivale a navegar entre a intenção e o resultado. O que significa dizer que sua ação é legítima apesar do resultado obtido. A eficácia da palavra está ligada à autoridade do orador, seja um enunciador tanto da forma oral quanto da forma escrita.(AMOSSY, 2013: 143). Na realidade, o poder das palavras deriva tanto da função social do locutor quanto de seu discurso: o discurso não pode ter autoridade se não for pronunciado pela pessoa legitimada a pronunciá-lo em uma situação legítima, portanto, diante dos receptores legítimos. É assim com o sermão, com a entrevista coletiva, com o poema, enfim com todas as formas de discurso que circulam em uma sociedade. (AMOSSY, 2013: 120). Sendo assim, o sujeito que ocupa o lugar de orador possui uma legitimidade que foi conquistada. Cortès constrói sua imagem utilizando de forma brilhante seu discurso. Na tentativa de chegar à casa de Montezuma Cortès busca um entendimento com seus soldados para que esta caminhada se faça sem atritos, no entanto, Montezuma tentava resistir dizendo que em seu reino nada tinha de interesse para Cortès. Mas Cortès era muito determinado a percorrer todo o caminho que ele havia traçado, e isso incluía também as terras do Imperador asteca.

Trouxeram-me até três mil pesos em ouro e o pedido de Montezuma, mais uma vez, para que não entrasse em sua cidade, porque era muito pobre em comida e que estava toda em água, não podendo chegar lá a não ser em canoa, além de outros inconvenientes. Eu os recebi muito bem, dei-lhes algumas coisas da nossa Espanha, especialmente ao que dizia ser irmão de Montezuma, mas insisti que havia vindo a esta terra a mando de vossa majestade e que a principal coisa que me mandara fazer era um relato de Montezuma e de sua cidade, da qual vossa

alteza havia tido notícia. E que rogava que minha ida fosse por bem. (CORTEZ, 2007: 50-51).

Como pudemos observar, Cortès é um locutor que utiliza argumentos para valorizar seu poder, sua finalidade é conseguir chegar à casa de Montezuma. Ele busca atrair a atenção do Imperador, mostrando que ele é o mais forte, pois já havia conseguido neste momento muitos soldados que estavam em guerra como Montezuma. Colocando-se como referência nesse critério, Cortès é visto como uma figura de destaque em relação aos outros. Tudo ocorre através do discurso de um conquistador forte e determinado: para Cortès o predominante neste momento é chegar ao Imperador, e assim ele busca atuar de forma que Montezuma não tivesse como recuar, o discurso de Cortès impõe uma resposta positiva da parte do Imperador, do contrário ele encontraria a guerra:

E que adiante eu veria se era verdade ou não o que me dizia e pedia que não fosse à sua terra, porque era estéril e padeceríamos necessidades, podendo eu, onde quer que estivesse, pedir o que precisasse que ele mandaria. Eu respondi que não poderia deixar de ir à sua terra, porque precisava enviar um relato a vossa majestade. E portanto, mesmo se quisesse ou não quisesse iria vê-lo e que me pesaria qualquer restrição por parte dele. Vendo minha determinação, pediu que eu viesse em boa hora que ele me esperaria naquela grande cidade onde estava, tendo mandado muitos dos seus para me acompanhar. (CORTEZ, 2007: 49).

O discurso de Montezuma tem a finalidade de fazer Cortès e seus homens recuarem, no entanto ele não consegue, pois a determinação e a vontade de vencer eram maiores e o conquistador segue suas conquistas. Montezuma se vê sem poder e não sabendo o que poderia fazer naquele momento, ele pede então que Cortès venha a seu encontro. Temos assim um discurso subentendido que seria: ou você me recebe por bem, ou você e seu povo terão grandes problemas, caso eu entre à força em seu território. Cortès joga com o imaginário do Imperador, este fragmento nos traz a imagem que os índios têm de suas conquistas até o momento. O problema também é

criado por Montezuma, pois cada vez que tentava afastar Cortès, ele despertava no conquistador uma curiosidade em relação àquelas terras. As primeiras tentativas de abordagem foram sem sucesso, a influência deste último discurso antes de invadir Tenochtitlán trouxe exclusivamente benefícios para Cortès e seus homens que ocupavam mais especificamente a cidade de Churultecal (Cholula) bem próxima da cidade de Tenochtitlán. No caso do nosso estudo, estão apresentadas a seguir a rota de Cortès até a conquista e o Império Asteca respectivamente.

Mapa ilustrando o tamanho do Império Asteca na época da invasão.

A partir deste momento, Cortès, determinado a entrar, segue sua rota atrás dos mensageiros de Montezuma. Os mapas acima mostram a quantidade de terras por onde Cortès teve que passar até chegar finalmente em Tenochtitlán. Este momento se passa em harmonia e tensão:

Aproximei-me para abraçar Montezuma mas os dois me impediram, mesmo assim todos os três fizeram a cerimônia de beijar o solo. Ele pediu ao senhor que o acompanhava que me tomasse pelo braço, para que seguíssemos caminhando. Antes disto, coloquei em seu pescoço um colar de diamantes. Enquanto seguíamos caminhando um de seus servidores trouxe-lhe um colar com oito camarões de ouro, feitos com muita perfeição, que ele colocou em meu pescoço. (CORTEZ, 2007: 53).

O modo argumentativo e fortemente persuasivo de Cortès, e sua representação; no caso dos valores ideológicos e dos interesses reais de um grupo, em nome do bem comum e de sua doutrina ideológica influenciaram na busca de suas conquistas. Independentemente dos pontos de vista do Imperador, ou de informações compartilhadas a seu respeito, neste momento Cortès é o que ele representa, ele procura

sobrepor-se em nome dos interesses do rei e de seus soldados. Passados seis dias nesta nova terra, Cortès, como todo bom político, se ajusta a novas circunstâncias, faz do Imperador seu prisioneiro:

... e depois de ter visto muitas coisas, senti que convinha ao real serviço de vossa majestade e à nossa segurança que aquele senhor Montezuma ficasse em meu poder e não em sua total liberdade. E assim determinei prendê-lo e colocá-lo no aposento onde eu estava, que era muito forte e seguro.(CORTEZ, 2007: 55).

No entanto, tudo isso estava numa dinâmica social que permitisse que Cortès ficasse com o poder sem que Montezuma se visse como prisioneiro e antes que seu povo desconfiasse deste fato, Cortès se mostra maleável e joga com seu discurso:

... falei-lhe a respeito do que ficara sabendo que ocorrera na cidade de Almería, onde, por ordem dele haviam matado alguns espanhóis que ali estavam. O próprio senhor daquela cidade, Qualpopoca, confessou que como seu vassalo só cumpria suas ordens. E disse-lhe que eu não acreditava que isso fosse verdade, mas que o fato iria desagradar profundamente a vossa majestade e, por isto, pedia que buscasse qualquer senhor de Qualpopoca para esclarecer os fatos... Então eu disse que ele deveria ficar em minha pousada até que se esclarecesse a verdade, salientando que ele não ficaria como preso, mas com toda liberdade, podendo usar seus serviçais... E assim o mantivemos sob o nosso controle sem causar qualquer problema nem reação da população. (CORTEZ, 2007: 55).

O herói da conquista possui grandes objetivos e quer que a sua decisão se imponha acima das necessidades elementares dos outros. Seu discurso político tem por finalidade a persuasão do outro, a afirmação do outro enquanto prisioneiro, para que aconteça o percebimento do outro, ele necessita de argumentação que envolva um raciocínio que procure seduzir o outro sem mostrar-lhe que, a partir deste momento, ele fora feito prisioneiro, pois é isso que o discurso político faz, ele é baseado na retórica e na oratória. Orientado para convencer o outro, o herói que destacamos aqui é um grande

político. É sem dúvida aquele que procura impor as suas ideias, os seus valores e projetos, recorrendo à força persuasiva. Nada disso teria valor, se nesse jogo do poder Cortès não tivesse modulado sua fama, a imagem que os outros tinham dele era a de um homem poderoso e determinado, sendo assim, ir contra todo esse poder que ele representava, era praticamente impossível na época.

É importante destacar neste trabalho que Cortès não falava as línguas indígenas em uso naquela época. Em Tabasco ele recebe uma escrava chamada Doña Marina33 que passa assim a ser sua tradutora oficial. Nem tudo vinha somente de seu dom estratégico de um sujeito político. Os historiadores dizem que Marina teve um papel fundamental na conquista. Tradutora oficial e mulher de Cortès, Doña Marina ajudava

Cortès em suas expedições, assim como Geronímo de Aguilar34 que ficou prisioneiro

dos índios durante oito anos. Dos meios pelos quais se chegou à conquista, já citados neste trabalho, nos cabe ainda elencar mais um. É certo que Cortès se legitima provando tudo o que fez, colocando a coroa e seu país como beneficiários de suas ações. Tudo que ele diz é comprovado, ele exerce a posição de representante da coroa através de um discurso de autoridade, o poder que ele pratica é em função da coroa.

Mas como foi possível realizar este poder sem falar a língua destes povos? O estudo mostra as extensões do ethos baseado na hipótese do papel do corpo para tal. Mais detalhadamente, é importante postular que Cortès se coloca como sujeito político através de seus interlocutores e seus tradutores. Ele não falava a língua, mas sua atitude, o tom de voz, e sua força diante dos seus interlocutores, nos fazem acreditar que estes teriam sido fatores primordiais na busca por sua credibilidade e legitimidade. Sua força

33

Malintzin, também chamada de Malinche ou Doña Marina, nome que ganhou depois de seu batizado, índia dada aos espanhóis em Tabasco. Intérprete excepcional; amante de Cortès. Mãe de seu primeiro filho Martín Cortès. Malinche (nascida em 1496 – morta em 1529, apesar de algumas fontes citarem o