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YAKLAŞIMLAR Nimet Haşıl KORKMAZ

A filiação da ASCD com a Sociologia para a Mudança Social delineia-se a partir de uma abordagem teórica que aponta uma fecunda discussão sobre um paradigma que lança lentes de explicação para a construção identitária, atrelado ao que Bajoit (2008) chama de mudança sociocultural.

Para o autor, discutir a temática mudança social implica levar em consideração os contextos sociais, nos quais as práticas relacionais individuais e coletivas ocorrem. Nessas práticas, os significados que permeiam a teia social são construídos, expressos por meio das subjetivações dos sujeitos e as razões para as interações diante dos intercâmbios socioculturais. Tudo isso contribui para a constituição de identidades e representações sociais.

A dimensão da mudança sociocultural compreende um acontecimento negociável e processa-se por meio de vários intercâmbios num dado momento sociocultural, materializados pelo jogo de interesse que (re)configura a esfera social, uma vez que “somente existem sentidos culturais e ideológicos produzidos pelos atores. A história não tem outro sentido, não busca outro caminho nem tem outro significado – além daqueles que os atores lhe dão” (BAJOIT, 2008, p. 252).

A teorização de Bajoit (2008) sobre mudança sociocultural evoca o papel social ativo dos atores diante dos objetivos que pretendem alcançar no processo de interação com seus pares. Esse fato ocorre por meio dos intercâmbios cooperativos, conflititivos, competitivos e/ou contraditórios. O autor destaca que, de maneira individual ou coletivamente, “esta busca da realização da identidade pessoal obedece a motivações que são ao mesmo tempo conscientes e inconscientes, e as ações que delas resultam são tanto voluntárias como involuntárias” (BAJOIT, 2008, p. 252).

Para uma melhor compreensão desses intercâmbios nas práticas e mudanças socioculturais, vejamos o quadro 1.

Quadro 1 - Representação dos intercâmbios de mudança sociocultural e sua dimensão simbólica

INTERCÂMBIOS DIMENSÃO SIMBÓLICA

Cooperativos

Representam o grau de contribuição que cada ator social se propõe a cooperar com as finalidades das relações sociais. Por meio das ações cooperativas ocorre um jogo de interesse mútuo que dialoga rumo aos problemas vitais da vida comum. Neste processo de interatividade, a constituição das identidades coletivas sofre menos tensões, uma vez que os atores compartilham os mesmos jogos de interesses sociais.

Conflititivos

Referem-se às representações de lutas que há entre os grupos e atores sociais, quando estes buscam liderar e dominar os demais, caucionando relações de tensões e comprometendo as condições de reprodução das relações socais. Por meio das relações sociais, ocorre imposição de interesses individuais e, por vezes, parcialmente coletivos, criando um percurso social perverso que tende a ser excludente e constitutivo de relações de poder. Nesse tipo de intercâmbio, os atores e grupos sociais que não compartilham com mesmos interesses das mudanças socioculturais são eliminados do jogo, e a liderança social fica restritiva ao grupo hegemônico que busca imprimir veementemente suas finalidades, provocando mudança sociocultural que tende a afetar a todos, quer seja por meio das vantagens como dos prejuízos advindos de tais transformações.

Competitivos

Compreendem as relações sociais respaldadas no fenômeno competição que há entre os atores. Cada um busca o triunfo em relação ao outro, destaca suas competências para se colocar entre os melhores. Suas ações sociais buscam combater, vencer e deslegitimar possíveis ações contraditórias que venham a “ameaçar” seus interesses nas relações sociais. Eles delineiam o poder que os atores sociais adquirem para superar e, às vezes, eliminar os seus “concorrentes” diante das tramas que vão configurando as mutações sociais.

Contraditórios

Colocam em xeque a própria sobrevivência dos atores sociais. Seguem a mesma lógica dos intercâmbios competitivos, porém não são regidos por regras. Há um forte interesse por inovações, por novas descobertas, conquistas e criatividade técnica, social e cultural que tem como objetivo maior a luta para sobreviver. Eles representam perigo e a morte – física ou social – dos mais fracos, pois, não detendo o poder ou estando desprovidos de condições que lhes permitam entrar no jogo da criatividade para obter sua sobrevivência, acabam sendo esmagados ou marginalizados pelas próprias transformações que emergem do seio social.

O resultado desses intercâmbios é um estado das relações sociais em um tempo e um estado determinado (BAJOIT, 2008), expresso pelas vias da mudança sociocultural.

Sobre uma discussão mais específica sobre a natureza da mudança sociocultural, Bajoit (2008) apresenta um quadro de fatores que ilustram o que deve ser compreendido como mudança na dimensão social e cultural. O autor menciona que os intercâmbios contribuem decisivamente para a ocorrência da mudança. A esse respeito, ele destaca que a mudança sociocultural ancora-se nos seguintes aspectos da vida social:

a) Modificação de um estado das relações sociais;

b) Mudança das coações pelas quais se resolvem os problemas vitais da vida comum;

c) Mudança dos princípios de sentido invocado para legitimar estas coações; d) Mudança das identidades coletivas que resultam da prática das relações

sociais;

e) Mudança das lógicas de gestão de si pelas quais os indivíduos resolvem as tensões que atravessam suas identidades pessoais;

f) Mudança das lógicas de ação nas quais se comprometem, individual ou coletivamente (BAJOIT, 2008, p. 252).

As mudanças socioculturais, conforme o autor, não ocorrem numa confluência de percursos. Elas podem, diante do estado das relações sociais, assumir caminhos distintos, relacionados a categorias específicas, a saber: evolução, reforma, revolta e revolução. As duas primeiras situam-se na esfera da mudança por mutação, enquanto as duas últimas inserem-se no eixo da ruptura.

A evolução está associada aos intercâmbios cooperativos e competitivos. Ela acontece entre membros de categorias sociais não organizadas, cujo foco são as decisões que são tomadas individualmente, atitude que não gera conflito nem contradição. Ao se concretizarem, tais decisões desencadeiam uma abertura para novas mutações sociais.

As mudanças socioculturais que ocorrem diante das evoluções nascem de um interesse particular de um referido grupo social, detentor do poder e forças hegemônicas, endereçadas a uma transformação social, representada por questões econômicas, culturais e sociais, e alongam-se às demais camadas sociais conferindo, desta forma, que a sociedade ganhe novas configurações.

A reforma compreende mudança sociocultural respaldada na ação voluntária de um ator coletivo organizado. Seu interesse é a negociação que busca estabelecer com os demais atores com a finalidade de firmar alguns contratos sociais e políticos. Esse tipo de mudança é

bastante representativo de questões políticas e econômicas e seu estabelecimento nas relações sociais depende das decisões que são gerenciadas coletivamente.

Quanto à revolta, Bajoit (2008) destaca que ela acontece mediante ações de mobilização espontânea de grupos sociais em prol de questões de interesse coletivo. Tal mobilização assenta-se nos intercâmbios conflititivos ou contraditórios. Por meio da revolta, as identidades coletivas são construídas.

Sobre a revolução, o autor aponta que se refere ao processo de mudança sociocultural calcado na ação solidária organizada. Por meio dessa modalidade de transformação social, os atores se empenham em intercâmbios conflititivos e contraditórios, revelando atitudes de negociação para alcançar mudanças que tragam inovação social.

Os caminhos bem como os intercâmbios da mudança sociocultural estabelecem relação estreita, conforme dinâmica e interesse de atores sociais. A figura 5 apresentada a seguir torna mais didático o entrecruzamento que há entre eles e nos permite o alcance de uma visualização mais concreta.

Figura 5 - Representação da conexão entre modalidades e intercâmbios da mudança sociocultural

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Bajoit (2008)

Diante das dimensões simbólicas entre categorias e intercâmbios de interesses que geram a configuração de uma nova ordem social, a mudança sociocultural é resultante de um

M UT A Ç ÃO RUPU TUR A

processo tenso, constante e necessário. Ela é motivada pelo desejo que atores têm de constituir poder por meio das relações sociais, vinculando suas ações às disputas sociais que travam e se submetem com foco na liderança que pretendem exercer em relação ao outro. Diante dessas motivações, cada um se esforça para produzir, conservar e aumentar seu controle sobre as finalidades, os recursos e as competências, as retribuições e as formas de dominação sobre os outros.

A respeito da constituição de poder nas mudanças sociais e culturais, Pedrosa (2014), destaca que a ASCD, por meio da recontextualização das noções de poder em Bajoit (2008), apresenta uma categorização para o termo, compreendendo-o como: Poder-Estado; Poder- Autoridade; Poder-Influência e Poder-Hegemonia. No quadro 2, há uma descrição dessas categorias.

Quadro 2 - Dimensão, finalidades e tipo de poder

DIMENSÃO FINALIDADE/TIPO

MODO DE PRODUÇÃO (administrar a produção de riquezas) E POTÊNCIA

O modo de produção envolve a administração da produção e a utilização social das riquezas de uma coletividade. Como nem sempre as riquezas são suficientes, geram-se conflitos entre as classes de gestores e de produtores (pode-se solucionar o problema também através da elaboração): aqueles desejam controlar a produção em benefício próprio. Quanto ao tipo de força exercida, denomina-se PODER-POTÊNCIA.

TIPO DE REGIME POLÍTICO (administrar a ordem interna) E O

PODER

A administração de uma ordem interna envolve: legislar (poder legislativo) – decidir sobre o permitido e o proibido; julgar (poder judicial) – avaliar as condutas conforme as leis; reprimir (poder repressivo) – aplicar a decisão do poder judicial; governar (poder executivo) – intervir na ordem instituída. Os atores políticos envolvidos são as elites estatais e os cidadãos. Neste caso, o tipo de coerção é PODER-ESTADO.

MODELO DE INTEGRAÇÃO SOCIAL (administrar a socialização de seus membros)

AUTORIDADE

Este modelo dá conta da socialização dos membros da coletividade de acordo com as regras que se adotou para o corpo social, como: prescrever e incutir as regras; garantir a autoridade da hierarquia; avaliar as condutas dos dirigidos e castigar o desvio social. Os

atores sociais são as hierarquias e os dirigidos. A esta “capacidade

de obrigar os membros de uma coletividade a conformar-se com

um modelo de integração” (BAJOIT, 2008, p. 38) chama-se

PODER-AUTORIDADE. TIPO DE CONTRATO

SOCIAL (administrar o consenso e a solidariedade) E A

INFLUÊNCIA

Tipo de relação social em que se estabelecem, negociam e garantem os compromissos, bem como a existência entre os diferentes grupos. Os atores sociais envolvidos são os grupos instalados e os grupos minoritários. A relação de coerção que envolve, acima de tudo, a negociação é denominada de PODER- INFLUÊNCIA.

O MODELO DE ORDEM SOCIAL (administrar suas relações com outras coletividades)

E A HEGEMONIA

Este modelo se refere ao modo de administrar as relações entre as coletividades nos âmbitos regional e mundial. Os atores envolvidos são: coletividades hegemônicas e coletividades dependentes. A relação de coerção, em que a coletividade mais forte impõe (por

diplomacia ou guerra) seus interesses políticos e econômicos sobre outras, mais fracas, chama-se PODER-HEGEMONIA.

Fonte: Elaborado pelo autor conforme ideias de Pedrosa (2014, p. 34-35)

A concretização das categorizações de poder, conforme postulados teóricos da ASCD, vai depender da dinâmica das práticas interacionais discursivas, atreladas ao jogo de interesse individual e coletivo de atores sociais, demarcando, assim, (re)construção de mudança tanto no âmbito social como no cultural.

Diante dessa dimensão, os construtos teóricos da ASCD, delimitados pela perspectiva da Sociologia para a Mudança Social, apresentam um papel científico que contribui para melhor constatação dos eventos sociodiscursivos, fortalecendo o posicionamento crítico e reflexivo sobre a (re)construção identitária de atores sociais por meio das múltiplas atividades de linguagem.

Essa perspectiva teórica da ASCD, a respeito dos aspectos que agenciam a mudança sociocultural, pontua uma reflexão que contribui significativamente para o estudo das relações sociais de grupos marginalizados, por exemplo, população em situação de rua no contexto brasileiro. Isso porque lança lentes de compreensão para a maneira como esses grupos devem e podem adotar estratégias e mecanismos que constituam relações de poder no sentido de gerir mudança sociocultural, dirimindo laços de dominação, exclusão social e discriminação. Sobre a contribuição da ASCD para o estudo das identidades, empenharemos uma discussão na seção que procede.