Na literatura de natureza sociológica, podemos encontrar a definição de alguns termos que estão ligados ao fenômeno população em situação de rua, os quais foram abordados de modo genérico na seção anterior quando abordamos as raízes do surgimento do fenômeno. Dentre os termos principais e que merecem uma atenção mais detalhada de suas concepções, estão desigualdade, pobreza e exclusão social. Esses termos são fios que se entrecruzam com o fenômeno, assumindo uma relação intrinsecamente associada à existência de grupos humanos que sobrevivem às margens de extremas condições de inferioridade na hierarquia social como as pessoas atingidas pelo fenômeno população em situação de rua.
Nascimento (2003) aponta uma importante abordagem sobre esses termos, conceituando-os da seguinte maneira:
O conceito de desigualdade social refere-se, como é conhecido, à distribuição diferenciada, numa escala de mais a menos, das riquezas materiais e simbólicas produzidas por uma determina sociedade e apropriadas pelos seus participantes. Pobreza, por sua vez, significa a situação em que se encontram membros de uma determinada sociedade de despossuídos de recursos suficientes para viver dignamente, ou que não tem condições mínimas para suprir as suas necessidades básicas (NASCIMENTO, 2003, p. 58).
9A referida pesquisa foi realizada para “responder às demandas levantadas pelos movimentos sociais,
associações, ONGs e órgãos governamentais, que atuam com essa população, apontadas especialmente durante o I Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua, realizado em setembro de 2005. Ao mesmo tempo, a pesquisa alia-se ao interesse do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em discutir estratégias, levantar desafios e recomendações, objetivando a formulação de políticas públicas dirigidas especificamente para esse segmento populacional” (BRASIL, 2009, p. 85).
Nessa mesma esteira de pensamento, Vieira, Bezerra; Rosa (2004) salientam que a pobreza não se limita a uma questão exclusiva de ordem econômica, é definida também como elemento de avaliação social. Diante disso, a população em situação de rua, que indiscutivelmente se encontra em situação de extrema pobreza, tem seu lugar social demarcado, estigmatizado pela sociedade como um todo e pela classe trabalhadora em particular.
Em relação ao conceito de exclusão social, Nascimento argumenta que diverge dos conceitos de desigualdade e pobreza. A exclusão social reflete o ato de colocar um ator social às margens do sistema, causando uma ruptura dos seus vínculos sociais, os quais podem ser: rupturas com os valores e representações sociais próprios a uma determinada sociedade (vínculos societais); com os laços e relações de afeto e parentesco (vínculos comunitários) e com a capacidade de comunicação com o exterior (vínculos individuais). Nesse sentido, o termo trata “de uma representação que tem dificuldades de reconhecer, no outro, direitos que lhe são próprios, como se representando e representado não fossem semelhantes” (NASCIMENTO, 2003, p. 60). Quando um ator social é excluído do vínculo societário desenvolve novas relações sociais com base em vínculos comunitários particulares para garantir uma nova maneira de sobrevivência na sociedade, para preencher as rupturas.
Numa perspectiva sociológica, ainda com base no pensamento de Nascimento (2003), podemos compreender o termo exclusão social a partir de três acepções: num primeiro momento, numa concepção mais ampla e mais genérica, temos o conceito de exclusão próximo ao de discriminação. Aqui a pessoa é excluída porque suas diferenças não são aceitas e, por vez, não são toleradas. Esse tipo de exclusão recai sobre os traços raciais, sexuais ou religiosos.
Na segunda acepção, temos a exclusão de direitos, quando se nega a uma população as mesmas oportunidades de inserção no mundo do trabalho para que esta possa garantir condições mínimas de vida. “São grupos sociais – trabalhadores pobres, mendigos, biscateiros – que não têm uma clara integração no mundo do trabalho” (NASCIMENTO, 2003, p. 61).
Por último, temos uma categoria denominada de nova exclusão quando o não- reconhecimento da pessoa recusa sua condição de ter direito aos seus direitos cidadãos. Sob essa condição, grupos humanos não são reconhecidos como semelhantes e a tendência é expulsá-los do convívio social, da órbita da humanidade por meio de uma possível “higienização social”. Nessa categoria, enquadram-se as pessoas em situação de rua. Um fato que ilustra um caso de extermínio desse grupo humano no Brasil é o Massacre na Praça da Sé,
São Paulo, no ano de 2004, quando 7 pessoas em situação de rua foram assassinadas, legitimando, assim, o não reconhecimento de direitos cidadãos que elas têm sob as mesmas condições em relação as demais populações.
Não devemos deixar de destacar que desigualdade, pobreza e exclusão social não são problemas de idade contemporânea. Se não são tão antigos quanto à própria história da humanidade, remontam-se ao nascimento das cidades no início do capitalismo, uma vez que esse sistema econômico global produz conduções de vida que giram em torno de uma marcha social que vai da desigualdade à exclusão. Nessa marcha, o mundo vai rumando para uma ruptura social entre incluídos e excluídos. Frente a essa conjuntura social, deparamo-nos com pessoas que passam a viver em situações precárias, as quais geram redes de exclusão.
Ao longo do século XX, por exemplo, no Brasil, o capitalismo provocou acirradas mudanças nas relações de trabalho. Sobre essa questão, Bursztyn (2003) aponta que houve um aumento nas disparidades e nas incertezas, na medida em que a pobreza extrema se acentuava.
Como consequência da ação do sistema capitalista, segundo o mesmo autor, parcelas das populações que viviam no patamar inferior dos circuitos econômicos foram jogadas para fora do sistema. Dito com outras palavras, foram excluídas do processo de geração de riquezas (emprego) e da distribuição de seus frutos (consumo). Conseguiram sobreviver, porém valendo-se apenas de um acesso precário a mecanismos públicos, como a assistência social e os serviços de saúde e, de forma assistemática, também, a caridade privada, a filantropia ou as entidades assistenciais religiosas. Quanto à infraestrutura privada, como habitação, foi tornando-se algo distante, inacessível. As populações trabalhavam, muitas vezes, mas não exerciam vínculos empregatícios. Obtinham alguma renda, mas de forma assistemática e pouco convencional. Toda essa dinâmica social, fruto da presença do poder econômico capitalista, acabou por induzir as populações a transformarem o espaço público – as ruas – em seu universo de vida e de sobrevivência.
Era de se esperar que com a inserção do capitalismo no controle dos meios de produção econômica, populações empobrecidas fossem sendo empurradas no rumo da exclusão, na medida em que a sociedade enveredasse por uma lógica econômica que era capaz de propiciar um incremento notável de produção, paralelamente a uma brutal redução do emprego de trabalho humano (BURSZTYN, 2003).
As consequências das mudanças ocasionadas no mundo do trabalho no final do século XX e início do século XXI repercutiram no agravamento do desemprego, na precariedade das relações de trabalho e na queda da renda média real dos trabalhadores. Na sequência deste
movimento histórico, houve um aumento das desigualdades sociais e dos níveis de pobreza da classe trabalhadora. A população excedente nas cidades tomou várias formas de denominação, que variam conforme o ciclo industrial, podendo assumir a forma de população flutuante, latente ou estagnada.
A população flutuante reflete a movimentação dos trabalhadores nos centros industriais, que ora eram atraídos pelo mercado de trabalho, ora eram repelidos por ele, sendo formada, em sua maioria, por jovens. Na forma latente, temos população migratória que é constituída pelos trabalhadores rurais para os centros industriais. Por sua vez, a população em sua forma estagnada é representada pela classe de trabalhadores em atividade, mas que possuem ocupações irregulares e vivem em condições muito abaixo dos padrões médios da classe trabalhadora, com jornadas de trabalho excedente, salários baixos e sem garantia de proteção social.
Diante dessa conjuntura social, o capitalismo acabou marcando desigualdades sociais, que afloraram o surgimento da pobreza no contexto urbano, que por sua vez, contribuiu para a exclusão daqueles que não conseguiram garantir condições mínimas de sobrevivência.
Em se tratando da presença da população em situação de rua em cidades que atraem um sem-número de migrantes pobres, pesquisas apontam que o êxodo rural tem relevância determinante no crescimento da população nessa situação (BURSZTYN, 2003). Neste sentido, percebe-se que a origem da pobreza no contexto brasileiro deu-se no campo e direcionou-se para as cidades, fenômeno esse denominado de metropolização da pobreza. A partir do momento em que as grandes cidades tornaram-se pontos de atração para as populações pobres, outra dimensão da pobreza começou a figurar: a periferização da pobreza. A configuração da pobreza no contexto brasileiro sinaliza uma dinâmica que reflete os pares campo-cidade e cidade-periferia. Diante desse movimento, o meio urbano transforma-se em espaço privado da população em situação de rua.
Devemos frisar que a presença de pessoas em situação de rua reflete um estado transitório, o que nos permite considerar que aqueles que são atingidos pelo fenômeno, diante de variados fatores determinantes, utilizam as ruas momentaneamente, seja a curto, médio ou longo prazo, fazendo dela um lugar de sobrevivência, batalha por condições de vida, procurando conquistar ações de cidadania que lhes garantam usufruir dos direitos, valores e materiais simbólicos que configuram o espaço social. Procurando discutir um pouco sobre esse estado transitório das pessoas em situação de rua, vejamos alguns apontamentos apresentados na seção que segue.