Em sua perspectiva transdisciplinar, a ACD está filiada a uma abordagem de investigação relacionada à linguagem no período da globalização. A transdisciplinaridade compreende uma relação estreita entre campos teóricos, sobretudo entre a Teoria Social – TSC – e a Linguística Sistêmico-Funcional – LSF - a fim de orientar estudo voltado para questões de linguagem que delineiam outros fatores da vida social.
Nesta perspectiva, o elo entre mundo social e linguagem é movido por construção de sentidos da ordem das transformações socioeconômicas na sociedade, o que favorece/direciona maior aproximação entre ACD e as ciências sociais, conforme especificidade de cada investigação.
A TSC operacionaliza uma perspectiva teórica que objetiva investigar as transformações sociológicas mediante ações analíticas que contemplam as mudanças em redes, ou seja, os fatores econômicos e culturais dos quais subjazem lutas hegemônicas e relações de poder em escala global.
Nesse mesmo direcionamento, a LSF de Halliday aborda a compreensão de que os eventos linguísticos são flexíveis à vida social, defendendo os textos não só como estruturados no sistema, mas também potencialmente inovadores do sistema.
Como assinala Fairclough (2006), a ACD dialoga tanto com os construtos teóricos da TSC bem como com o pressuposto teórico-analítico da LSF, objetivando dá conta das práticas sociais, a saber, sistemas econômicos, relações sociais, poder e ideologia, instituições, mudança social que agenciam mudanças socioculturais.
Na modernidade recente, a abordagem transdisciplinar da ACD traz grandes contribuições para a compreensão crítica dos processos sociológicos e modelos econômicos que (re)constroem novas práticas discursivas, atentando para as transformações por que passam as práticas sociais. Isso porque “pesquisas que investigam a relação entre aspectos discursivos e não discursivos de práticas sociais possibilitam explorar a materialização discursiva de problemas sociais” (RESENDE; PEREIRA, 2010, p. 1-2).
Na abordagem transdisciplinar da ACD, o termo discurso pode ser concebido a partir de duas acepções. “Como substantivo mais abstrato, significa linguagem e outros tipos de semiose como momento irredutível da vida social ao passo que, como substantivo mais
concreto, significa modos particulares de representar parte do mundo” (RAMALHO; RESENDE, 2011, p. 41).
Como um dos momentos da prática social, o discurso está imbricado a outros elementos da vida social: fenômeno mental, relações sociais e mundo material. A figura na sequência traz a denotação dessa representação de discurso filiado aos elementos mencionados.
Figura 2 - Representação de discurso como momento da prática social
Fonte: Adaptada de Chouliaraki; Fairclough (1999)
Esse imbricamento de elementos corresponde à forma pela qual as pessoas se utilizam de recursos do mundo material para manter interação com seus pares, firmando relações sociais por meio do uso de linguagem.
Quanto à acepção de discurso como modo particular de representar parte do mundo, a atividade discursiva compõe-se de elementos internos que formam o momento semiótico denominado de ordens do discurso para retratar realidades específicas e situadas de cada campo ou atividade social. Tais elementos são: gêneros, discursos e estilos, conforme a figura 3.
Figura 3 - Momentos internos da atividade discursiva
Fonte: Adaptada de Ramalho; Resende (2011, p. 42).
Os elementos internos da atividade discursiva são importantes para a compreensão e análise da prática social que por seu turno liga-se a fatores econômicos, modelos sociológicos e outras questões inerentes à vida em sociedade. Diante disso, “os agentes sociais produzem novos discursos híbridos, gêneros e estilos que poderão, de acordo com os interesses dos
DISCURSOS ESTILOS GÊNEROS ATIVIDADE DISCURSIVA RELAÇÕES SOCIAIS PRÁTICA SOCIAL ATIVIDADE MATERIAL FENÔMENO MENTAL Ordem do discurso
agentes sociais, ser relacionados, retidos e incorporados a novas ordens do discurso” (ORMUNDO, 2010, p. 15).
Fairclough (2006) debate que, no momento semiótico ordem do discurso, um discurso é uma maneira particular de representar algum aspecto ou área da vida social. Em relação ao gênero, destaca que é uma forma particular de agir (que equivale a pessoas interagindo) comunicativamente. A respeito de estilo, o autor argumenta que é o momento discursivo de um ‘modo de ser’, isto é, de uma identidade social ou pessoal.
Ao conceber discurso dessa maneira, tanto em seu aspecto abstrato quanto concreto, a ACD contribui para o fortalecimento de estudos voltados para as transformações socioculturais. Tal contribuição advém da motivação em “investigar as práticas discursivas como formas materiais de ideologia” (FAIRCLOUGH, 2008, p. 116), e “a prática social a partir de uma visão da linguagem investida de poder e ideologia, capaz de constituir as dimensões sociais do conhecimento, das relações de identidade social” (MAGALHÃES, C., 2001, p.16). É por meio dos discursos que as visões de mundo são representadas e negociadas em uma sociedade, agenciando relações de poder mediadas pelas lutas hegemônicas.
Resende e Ramalho (2006) apontam que, diante dessa configuração que o discurso assume, ele possui três dimensões sociais e constitutivas: ele colabora para a construção de identidades sociais, fortalece as relações sociais, permitindo o posicionamento dos sujeitos e atua na formação de conhecimentos e crenças. Sob esse viés, o discurso corrobora para a sustentação ou transformação de relações de dominação, as quais servem para reproduzir a ordem social que favorece indivíduos e grupos dominantes.
Esses aspectos constitutivos do discurso correspondem a três funções da linguagem e as dimensões de sentido que coexistem e interagem em toda prática discursiva: função da linguagem identitária (relacionada ao estilo) focaliza as representações das identidades subjacentes no discurso; função relacional (associada ao gênero) corresponde às relações sociais, ou seja, como os papéis sociais são representados e negociados no discurso; e a função ideacional (associado ao discurso) representa os modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações (FAIRCLOUGH, 2008).
Por seu turno, essas três funções dialogam com três tipos de significados presentes no discurso: o significado identificacional (modo de ser), o significado acional (modo de agir) e o significado representacional (modo de representar).
Para encerrar a discussão desta seção, é necessário ainda acrescentar que a ACD enquanto campo teórico-metodológico de estudo da linguagem/discurso se define a partir de
várias abordagens de investigação. A respeito dessa questão, vejamos a explanação teórica na próxima seção.