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Gürol Pehlivan 1 *

3. Tezin yaklaşımı

crescer, como se crescer significasse um par de belas asas que a fizesse conhecer e viver o mundo e transformar a sua própria vida.

1.1 Uma Menina Tem que Caminhar é Assim, Viu?!

Dentro de mim há uma criança que se recusa a morrer

(Tove Ditlevsen)

Para a reflexão sobre as narrativas da infância de Rubi, Safira, Ametista, Pérola, Cristal e Esmeralda, remeto-me a um pensamento de Antonin Artaud, que diz: “Desde a origem da existência humana, o outro é a condição do sentido. Ele é o fundador da alteridade, do laço social. Estamos em nosso corpo como num cruzamento habitados por todo mundo.”14 Nesse sentido, compreendo que as protagonistas deste trabalho vivem nas e pelas relações sociais. Relações sociais que produzem normas, valores e “verdades”. Elas são quem são devido às relações que estabeleceram no curso da vida. Tanto é assim que, a todo instante, nas narrativas sobre seus corpos, elas evocam (e com que força!) as pessoas com quem conviveram e aprenderam. Dessa forma, só posso compreender o modo particular pelo qual cada uma vivenciou o seu corpo na infância a partir das relações que estabeleceram tanto com os adultos como com as outras crianças.

Antes de refletir sobre as relações que elas estabeleceram no âmbito familiar e a forma como vivenciaram seus corpos a partir dessas relações, é preciso esclarecer de que maneira a família, no curso desta pesquisa, será compreendida. Seguindo os ensinamentos de Barros (1987), compreende-se a instituição familiar como sendo “[...] um grupo de pessoas que, unidas pelos laços do parentesco e de afinidade, estabelecem entre si códigos próprios, capazes de fazer fluir inúmeras facetas de relacionamentos” (BARROS, 1987, p. 20). Essa escolha se deve à minuciosa pesquisa de campo, à observação participante, a certo convívio que estabeleci com os familiares dos sujeitos da pesquisa e, principalmente, aos discursos e entendimentos que cada um deles tem sobre a família.

Sigo, também, os ensinamentos de Osterne (2001), que reconhece o modelo de família ocidental como fenômeno social com uma história descontínua, não linear, não homogênea, que é construído numa tensão dialética entre a diversidade e a história. A autora

(2001) aponta que a família transmite nome, patrimônio material, ensinamentos, hábitos, costumes, crenças, ideologias, princípios, mas orienta que a forma como isso ocorre varia de acordo com o contexto histórico, econômico, cultural de cada grupo familiar. Portanto, ao falar em família, é importante questionar de qual família se está falando? De qual estrato social? De qual momento? Vale mencionar que, no fazer desta pesquisa, procurei acionar esses questionamentos.

Lembremos dos passos firmes e do olhar severo do pai de Rubi, sempre por perto, verificando se ela estava agindo de maneira feminina, quieta, reservada, comportada, discreta; da postura enérgica de Dona Graça, mãe de Safira, exigindo que ela agisse de acordo com as aulas de etiqueta, impedindo-a, terminantemente, de ficar suada, despenteada e descomposta e do pai, mesmo ausente, exigindo, tanto dela como de suas irmãs, porte, elegância e feminilidade em tudo que fizessem; da avó de Ametista, que, de braço dado com ela, saía pela vizinhança chamando a atenção para sua beleza, bradando aos quatro ventos: “Olha a minha neta como é mimosa”, “Olha como ela é linda” e da postura incisiva de seu pai dizendo “Mulher é pra ficar em casa cuidando das coisas!”; da voz da mãe de Pérola, que nas palavras desta, “Plantava o terror” para que ela se prevenisse da obesidade; dos pais de Cristal, que falavam em alto e bom som “Nada de extravagâncias!”; da voz preocupada da mãe de Esmeralda, recomendando que ela saísse do meio da rua e fosse para casa estudar para ser gente.

Estas são apenas algumas das muitas passagens nas narrativas apresentadas que revelam claramente que os corpos das protagonistas deste trabalho, desde a mais tenra idade, foram instruídos para que empreendessem o caminhar da vida de determinada maneira. Os seus corpos, quando crianças, vivenciaram, no cotidiano familiar, um processo educativo responsável pelo aprendizado de uma bateria de padrões, modelos, crenças, juízos de valor que tinham como intuito integrá-las aos modos de viver, pensar e sentir do dado contexto social e cultural que vivenciaram. Mauss (1974), Barros (1987), Coutinho (1994), Louro (1997) (2001), Mead (1998), Benedict [19--].

Os pais, as mães, os parentes que apareceram nas cenas descritas comunicam tanto por meio de conselhos, palavras amenas, gestos de incentivo e carinho, como mediante palavras reprovativas, carões, ameaças de castigo e surras para que uma menina caminhe na vida de determinado modo. Uma menina tem que falar vestir, agir, sentir, interagir, lidar com as situações cotidianas de determinada forma.

A propósito, muitas vezes, mesmo antes de virem ao mundo, já são criadas expectativas sobre os modos como seus corpos devem ser. Lembremos de uma passagem da

narrativa de Rubi em que ela conta que sua mãe pensou em abortar na décima terceira vez que engravidou, devido ao número de filhos que, a seu ver, era demasiado, mas foi impedida pelo marido que argumentou que poderia ser uma menina. Afinal de contas, suas filhas mulheres estavam todas casadas ou prestes a casar, e ele precisaria de alguma para cuidar dele na velhice. Na concepção do pai de Rubi, o modo como ela empreenderia seu caminhar na vida estava demarcado antes mesmo dela vir ao mundo. Rubi seria preparada desde menina para exercer a função de cuidar dele.

Retomo a frase que Rubi ouviu muitas vezes de seu pai no curso de sua infância: “De uma boa menina, se faz uma boa moça”, para enfatizar, de acordo com Rangel (1999), que as expectativas e pretensões dos familiares em relação às crianças teriam como finalidade última a formação do adulto. Aliás, fica evidente, nas narrativas das seis protagonistas, que, desde cedo, seus pais, mães, avós objetivaram preparar o terreno para a trajetória da vida de cada uma delas.

As expectativas e pretensões dos adultos em relação aos corpos das crianças se fazem em referência a um dado contexto histórico, mas é preciso levar em consideração que tais expectativas e pretensões se fazem, também, em referência às particularidades das condições sociais, econômicas e culturais que os indivíduos vivenciam, bem como às suas individualidades, estilos e subjetividades. Ora, se o intuito, neste momento do trabalho, é compreender as vivências dos corpos das protagonistas quando crianças, não podemos deixar de seguir o ensinamento de Sant’Anna: “O conhecimento do corpo é por excelência histórico, relacionado aos receios e sonhos de cada época, cultura e grupo social.” (2000, p. 237).

Uma vez captado o precioso ensinamento de Sant’Anna (2000), convido o leitor a olhar mais de perto as expectativas e intenções que povoavam o contexto social quando as mulheres com quem interagi em pesquisa eram meninas que aprendiam com seus familiares a dar seus primeiros passos nessa aventura humana que é a vida: Que direções eram indicadas? Como seus corpos eram educados para traçarem esse trajeto? Quais as expectativas, intenções, discursos, práticas corporais que as cercavam?

Estou propondo ao leitor uma viagem conduzida por alguns autores das Ciências Sociais, que, por meio de suas publicações, nos fazem fluir em tempos e espaços plurais, nos fazendo ver, perceber e sentir “os sonhos e os receios” e as exigências sociais das diferentes épocas em que as mulheres que dão sentido a estas páginas começaram a descobrir o mundo. Faço minhas as palavras de Bassanezi: ”Isso não quer dizer que todas as mulheres pensavam e agiam de acordo com o esperado, e sim que as expectativas sociais faziam parte de sua realidade, influenciando suas atitudes e pesando em suas escolhas”. (2006, p. 608).

O propósito inicial é perceber, justamente, suas formas particulares de viver diante de tudo que estava sendo dito. Perceber como cada uma atualizou e atualiza as crenças e técnicas corporais do meio cultural em que vivenciaram suas infâncias, bem como do contexto social que vivenciam atualmente. Afinal, elas são artefatos da cultura, mas também contribuem para a construção desta. (MALYSSE, 2002).

A partir desse exercício, poderemos, inclusive, perceber em que medida as expectativas e intenções que compuseram o processo educativo que cada mulher vivenciou na infância divergem, se assemelham, dialogam, convivem, se ressignificam, se reeditam em relação aos valores e expectativas vivenciados pelas outras protagonistas. Tudo isso para compreendê-las melhor, para compreender os contextos sociais que vivenciaram, para compreender a dinâmica da construção de seus corpos em suas caminhadas na vida e, por que não, para pensarmos também no nosso próprio caminhar e nas paisagens que o cercam.

A forma de pensar do pai de Rubi era comum no contexto da época, fins dos anos de 1940, quando muitas meninas eram desejadas ao nascer por sua “utilidade” de fazer companhia à mãe, pelo apoio que deveriam oferecer nas tarefas domésticas e pela atitude servil que assumiriam diante do pai. Muitas eram orientadas, de forma nem sempre suave, a construir seus corpos de maneira apropriada às funções de dona-de-casa, mãe e esposa exemplares, prendadas, obedientes, plenas de comedimento e indulgência, sempre prontas a servir. Elas eram, também, estimuladas a sonhar com um bom casamento, não só a sonhar, mas a se preparar para ele. Fundamentando-se nos estudos de Friedan (1971), Bruschine e Rosemberg (1980), Wolf (1992), Bezanessi (1994; 2006), Coutinho (1994) e Del Priore (2005), percebe-se que todos os ensinamentos passados para as meninas eram considerados imutáveis, como se as referidas características e funções fossem típicas, naturais da sua condição de sujeito feminino.

Seria uma simplificação grosseira não reconhecer que, nesse período, havia, no Brasil, concepções e formas diferentes de educar os corpos das meninas, mas a idéia de que elas nasciam para ser mães, esposas e donas-de-casa dedicadas era amplamente produzida e propagada pelos discursos religiosos, pedagógicos, científicos, jurídicos e faziam parte da mentalidade dominante do referido contexto histórico. Desse modo, esse estereótipo se fazia presente na maior parte dos processos educativos familiares. De modo geral, a menina tinha seu corpo orientado para que ficasse atenta a qualquer poeirinha que caísse sobre os móveis, atenta para adivinhar as vontades e insatisfações de seu pai e, depois, de seu marido, antes que estes as expressassem, atenta para saber qual parte da galinha cada membro da família merecia ganhar, atenta para atender as expectativas e necessidades das pessoas em sua volta.

Comumente, por essa época, não importava se a menina quando crescesse iria se casar com um homem de alto poder aquisitivo que pagaria os serviços de uma empregada para cuidar da casa. O esperado era que ela, independentemente de sua classe social, aprendesse desde a mais tenra idade a ter pleno domínio das atividades domésticas: soubesse ornamentar a casa com destreza, tivesse conhecimento de culinária, soubesse receber as visitas com requinte, dentre outras habilidades. Eis o caso de Dona Graça, mãe de Safira, e o da Dona Odete, mãe de Rubi, ambas nascidas em famílias abastadas, casaram-se com pessoas de alto poder aquisitivo, tiveram sempre empregados à sua disposição e dominavam as mencionadas atividades com destreza e se orgulhavam disso. Dona Graça até hoje faz questão de inspecionar os serviços das empregadas, baseada em seus conhecimentos “irretocáveis” sobre prendas do lar. Dificilmente elas conseguem corresponder às suas expectativas.

Segundo as referidas autoras, no tempo em que Rubi era uma menina, geralmente cabia mais às mães do que aos pais mostrar aos seus filhos a forma como seus corpos deveriam caminhar na vida. As filhas deveriam dedicar-se à apreensão desses ensinamentos para que seus corpos pudessem crescer sadios e aptos a trilhar “o caminho certo”. As mães ensinavam às meninas a serem mães e esposas primorosas e aos filhos a trabalharem fora. E se, por acaso, estes teimassem e saíssem do rumo esperado socialmente, elas eram duramente criticadas, tachadas de irresponsáveis e negligentes, e uma culpa desmedida costumava recair sobre seus ombros.

A respeito disso, cito uma passagem da narrativa de Safira na qual ela relata a cobrança intensa de Dona Graça, sua mãe, para que se mantivesse sempre arrumada, enfeitada, limpinha e comportada. Afinal de contas, disso dependia o julgamento que os outros fariam a respeito de como Dona Graça desempenhava o seu papel de mãe. Um julgamento de valor inestimável para ela. Afinal, segundo as idéias correntes dessa época, uma mulher deveria ser duramente criticada se fracassasse no papel para o qual ela “nascera” para desempenhar, o de mãe. Relembre, leitor, o seguinte comentário de Safira: “Ave! Na cabeça da minha mãe, ela só podia ser vista como uma boa mãe se as pessoas me vissem assim como uma boneca de porcelana”. Se atentarmos à passagem da narrativa de Esmeralda, que relata as críticas da vizinhança em relação ao seu comportamento, acusando-a de “menina sem limite” e apontando a educação negligente de sua mãe como o fator principal dessa conduta, podemos constatar que tais exigências que recaíam sobre a mãe ainda ocorrem nos dias atuais.

De acordo com as expectativas sociais mais correntes dos anos dourados, época em que Rubi vivenciou sua infância, a menina aprendia, desde muito cedo, que, além de ser

responsável pelo bom êxito do caminhar na vida dos filhos, era responsável pelo caminhar na vida do seu bem-amado e, para isso, deveria se empenhar ao máximo, inclusive ajudando-o a trilhar uma bela carreira profissional. Ela deveria colaborar com o vestuário do seu esposo, auxiliando-o a se vestir elegantemente, deveria ser especialista em organizar uma bela recepção em casa para que seu esposo pudesse levar os seus colegas de trabalho, deveria ter um comportamento elegante para acompanhá-lo nos locais públicos e em eventos, sabendo representá-lo socialmente. Tudo isso era decisivo na elevação social do seu marido.

Além de donas de casa, mães e esposas perfeitas, era esperado socialmente que elas fossem belas. Sant’Anna (1999), numa acurada reflexão que empreende sobre embelezamento feminino no Brasil, esclarece que, na primeira metade do século XX, a beleza era considerada socialmente como um dom concedido por Deus, algo natural, não uma conquista alcançada com esforço. Até porque a mulher que era muito afeita às praticas do embelezamento poderia, na visão corrente, ser considerada de moral duvidosa. Como expressa o seguinte ditado popular da época: “A mulher de mais má pinta é a que mais a cara pinta”. Trago uma passagem da narrativa de Safira que se afina com esse pensamento: “A pobre [mãe dela] era muito submissa a meu pai. Pra ter uma idéia, ela não cortava o cabelo, não usava roupa curta e maquiagem tinha que ser muito discreta se não ele mandava ela limpar o rosto.” Como afirma a referida autora: “[...] nestes tempos se esperava comprovar a austeridade do caráter e da virtude da alma por meio da manutenção de aparência pouco submetida à ação dos ‘artifícios de sedução feminina.” (SANTANNA, 1995, p. 125).

No entanto, ainda na primeira metade do século XX, havia, segundo Sant’Anna (2002), muitos apelos publicitários em torno da cura dos problemas de beleza, uma diversidade de remédios existentes para embelezar a mulher como num passe de mágica. A beleza era exaltada e vista como um critério relevante por parte de muitos rapazes na escolha de suas futuras esposas e, segundo Del Priore (2000, p.71-72): “[...] um controle sobre a aparência era exigido até nos empregos ocupados por mulheres. A chamada boa aparência impunha-se.” Diante disso, algumas mulheres lançavam mão dos produtos de embelezamento, mas de uma forma velada, disfarçadamente, para que os efeitos parecessem naturais. Algo interessante que ocorria era que os segredos de beleza eram sutilmente partilhados entre elas. Como expressa Sant’Anna: “[...] a beleza era um acontecimento coletivo e feminino, um segredo vivido entre amigas, uma aventura entre mulheres, experimentadas em ocasiões especiais.” (1995, p. 131).

Mas como a beleza é uma construção social e, por isso, dinâmica, se manifestando de formas diversas, e, aos poucos, se modificando ao longo do tempo, já na segunda metade

da década de 1950 a beleza passou a ser, como indicam os estudos de Sant’Anna: “[...] um direito inalienável de toda mulher”. (1995, p. 130). Algo que poderia e deveria ser conquistado com disciplina e determinação. A beleza torna-se um dever de cada uma. E ai daquela que negligenciasse essa tarefa, pois seria facilmente tachada de desleixada. Esse era um ensinamento passado para as meninas desde muito cedo na educação familiar. Lembremo- nos, de Dona Odete, mãe de Rubi, a se arrumar diante do grande espelho de seu quarto olhando com altivez para a menina e a estimulando a ser bela.

Por esta época, os corpos começam a ser mais expostos nos momentos de lazer. Corpos com trajes um tanto mais ousados do que de costume desfilam na areia, corpos que se banham nas marés, que se rendem ao banho de sol no campo e que, por isso, são mais bem cuidados para que sua exibição seja avaliada positivamente. Mas Castro explica direitinho essa história:

Devido à expansão do tempo de lazer e à explosão publicitária no pós-guerra, ser esportista passa a ser, cada vez mais, um imperativo: férias remuneradas, popularização do acesso às praias, dos campings, contribuem, a partir da segunda metade dos anos 50, para a revolução de veraneio, que imporá um novo conceito de férias de verão, em que a exposição do corpo ocupa espaço central. (2004, p. 3).

Nessa época Martha Rocha, Sophia Loren, Elizabeth Taylor, Marylin Monroe expõem suas imagens, nas páginas das revistas denominadas femininas e tornam-se referência para muitas mulheres que almejam não só ter uma forma física semelhante, mas também ter vestidos semelhantes aos delas. A publicidade teve uma intensa participação na propagação de práticas cotidianas de cuidado com o corpo, tanto em relação à beleza, à higiene, quanto a práticas esportivas. Muitas dessas atividades eram indicadas por médicos e moralistas burgueses, como contam as autoras Bessanezi (1994; 2006), Del Priore (2000; 2005) e Castro (2004).

Segundo Bessanezi (1994), as referidas revistas transmitiam muitas das normas e representações sociais referentes às idéias dominantes relativas à maneira como os corpos de homens e mulheres deveriam agir, pensar e conviver. Não só reproduziam como contribuíam para a construção dessas idéias.

Betty Friedan (1971), ao observar o cotidiano das mulheres americanas na década de 1950, constatou que os corpos das mulheres que eram submetidos às imensas exigências do papel de dona-de-casa, entre elas, serem esposas, amantes, mães, companheiras, cozinheiras, motoristas, enfermeiras, educadoras, consertadoras de utensílios, decoradoras, nutricionistas e belas acabavam tendo o bem-estar físico, emocional e social de suas vidas seriamente lesado.

Não quero dizer, com isso, que as mulheres donas de casa eram todas submissas, sofridas e subservientes, e seus maridos dominadores. Del Priore (1995) empreendeu um minucioso trabalho sobre as condições femininas, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia e Coutinho (1994), realizou um estudo muito detalhado sobre as relações familiares das mulheres no Brasil, enfatizando as décadas de 1950, 1960 e 1970, desnaturalizando a idéia do homem dominador e da mulher vítima, oprimida e submissa. Essa idéia é limitada, pois não compreende as formas sutis com que mulheres plurais lançavam mão para deter o poder e controlar os eventos que afetavam suas vidas e as vidas das pessoas próximas a elas. Quando suas vozes bradavam que homem não tinha nascido para cuidar de casa, que só sabiam atrapalhar o serviço doméstico, que não tinham o menor jeito com crianças, elas conseguiam garantir o controle sobre os maridos e os filhos. Além disso, essa visão reducionista, que pensa todo homem como dominador e toda mulher como submissa, desconsidera as mulheres que se recusaram a exercer a maternidade como era idealizada em tais períodos, bem como as lutas que muitas empreenderam para subverter os discursos vigentes e transformar as práticas que ditavam a forma como deveriam encaminhar suas vidas.

É importante destacar que, apesar de o processo educativo, no tempo em que Rubi, era criança, de uma forma geral, orientar fortemente as meninas para serem donas de casa exemplares, algumas construíam seu cotidiano de forma diferente. Havia mulheres pertencentes às famílias de camadas populares que eram obrigadas a trabalhar fora para garantir a sobrevivência e completar a renda familiar. Havia, ainda, aquelas que trabalhavam