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Berat Samet Kahraman * 1

1. Akraba ve evliliğin sistematik yapısı

Até o momento conversamos sobre como Rubi, Safira, Ametista, Pérola, Cristal e Esmeralda, no cotidiano da vida familiar, nos cursos de suas infâncias, aprenderam que a beleza é algo fundamental na vida de uma mulher, aprenderam a identificar as características de um corpo socialmente belo, aprenderam as técnicas para aproximar os seus corpos o máximo possível desse padrão. Pois bem, as narrativas biográficas indicam que diante de todos esses ensinamentos, elas ainda crianças disciplinavam os seus olhares em relação aos seus próprios físicos e praticavam cotidianamente uma auto-avaliação. E é justamente sobre as angústias, as incertezas, as inseguranças, as alegrias e satisfações que vivenciavam nestes momentos de auto-avaliação de suas imagens que conversaremos a seguir.

Recordemos as passagens das narrativas de Rubi e Ametista em que elas partilharem momentos de suas infâncias nos quais ficavam mirando suas imagens frente aos espelhos: “Quando eu era menina eu me olhava tanto no espelho, me achava linda, era aquela vaidade mesmo bem forte, e as pessoas diziam que eu era bonita, e eu corria lá no espelho pra ver se eu era e acabava me convencendo” (Rubi). “Eu adorava me arrumar, botar lenço na cabeça, gostava demais de botar lenço na cabeça. As meninas não podiam se pintar não, mas eu me pintava. Eu subia numa cadeira (para alcançar o espelho), eu passava rouge nas bochechas.” (Ametista).

Vale ressaltar que quando cada uma delas está diante do espelho, no aconchego de seu lar, mesmo que pareçam tão sozinhas naquela ação, estão presentes naquele momento todos os ensinamentos culturais que serão importantes para a avaliação de sua própria forma física. Cada uma mira detalhadamente sua imagem frente ao espelho e a avalia, em referência, a forma particular de seu contexto social lidar e ver os corpos sociais. Naqueles espelhos que Rubi e Ametista se miravam, também era refletida a cultura a qual os corpos das mulheres geralmente são percebidos e classificados na vida cotidiana em função de certos critérios estéticos (MALYSSE, 2006), a qual para as mulheres a beleza é representada como um dever (NOVAES & VILHENA, 2005).

Os gestos da pequena Ametista frente ao espelho como passar batom, passar rouge nas bochechas e brilhantina para, segundo ela, “o cabelo ficar engomado, duro” eram gestos muito praticados pela sua irmã mais velha, Joana, e pelas outras mulheres presentes no seu cotidiano infantil. Da mesma forma, os gestos, as atitudes, as posturas de Rubi diante do espelho a alinhar a roupa nos contornos de seu corpo e a passar uma maquiagem se assemelhavam às práticas corporais que sua mãe realizava. Estas cenas mostram os

ensinamentos que estas meninas receberam referentes aos modos como deveriam tratar seus corpos ganhando cor, ganhando vida! Tais cenas também remetem a Mauss (1974), quando desenvolve o conceito de imitação prestigiosa que consiste justamente no fato dos indivíduos, desde a mais tenra idade, imitarem os comportamentos, as atitudes e os corpos que em seu grupo social alcançaram êxito e que viram ser bem-sucedidos. (MAUSS, 1974, p. 215).

Pelo que pude constatar, esse gesto de analisar o rosto e o corpo de forma minuciosa (de frente, de lado e de costas) diante do espelho é um gesto contundente para as vidas dessas mulheres. É um momento em que avaliam as transformações físicas que já ocorreram e as que estão ocorrendo com a prática da musculação e com os demais gestos que embelezam. Muitas comentaram que ao olharem suas imagens refletidas pensam nas mudanças físicas desejadas. Para algumas mulheres, mirar-se no espelho é um momento de parar e refletir sobre a passagem do tempo. Muitas fazem planos para reorganizar seu comportamento, com o objetivo de conseguir um corpo mais belo (“Vou melhorar minha alimentação”, “vou freqüentar a academia com mais freqüência”, “vou cuidar mais da minha pele, do meu cabelo”…). A maioria delas faz daquele momento um momento de preparação minuciosa de si para o olhar do outro. Enfim, é um instante que pode acarretar alegria ou tristeza, alívio ou desconforto, segurança ou insegurança, baixa auto-estima ou alta auto- estima.

Diz Pereira (2006, p. 129) que o espelho permite não só vermo-nos mas tentar ver-nos como somos vistos e darmo-nos a ver como entenderíamos ser vistos. Por outro lado, há uma tomada de consciência do próprio corpo que é consubstanciada numa comparação constante com os demais. (PEREIRA, 2006, p. 128).

Um dado observado nas muitas andanças que empreendi pelas ruas dos bairros Jangurussu e Palmeiras tanto para a realização de pesquisas de campo (PONTE, 2005) como para vivenciar as atividades de um projeto social da prefeitura da qual fiz parte como facilitadora, situado no Palmeiras, é que os discursos acima mencionados não chegam apenas ao ciclo de pessoas abastadas.

Para Medeiros (2008), que empreendeu uma pesquisa sobre a representação da imagem e os significados que as classes populares fazem do corpo e da beleza, a estética da beleza já é no Brasil um padrão nacional que passa por todas as classes, idades, e agora também sexo. Medeiros reflete sobre um sentimento de igualação, necessidade de afirmação social de todas as classes, que passa pela necessidade de identificação com valores estandardizados na sociedade dominante. (MEDEIROS, 2008, p. 3).

Retomemos a interpretação sobre as meninas Rubi e Ametista e suas avaliações sobre seus físicos diante dos espelhos. As suas narrativas da infância indicam que elas se consideravam belas e isso era motivo de felicidade e orgulho para suas vidas. Afinal, aprenderam na educação familiar desde o início de sua caminhada na vida, que ser bela é motivo de celebração. No entanto, é importante chamar atenção para o fato de que mesmo se considerando belas, elas diariamente “consultavam os espelhos.” O fato de se sentirem belas não as tornava completamente relaxadas. Verificavam seus aspectos físicos constantemente e empreendiam gestos que embelezavam para proteger e aumentar sua beleza, mesmo que estes fossem enfadonhos e cansativos.

Por mais que sejam consideradas bonitas, atraentes, dignas de todos os olhares, elas sempre sentem que têm algo a melhorar em seus físicos e nunca tomam o fato de serem consideradas belas como algo pronto e acabado, estão permanentemente preocupadas, vigilantes, atentas em empreender ações para manter e/ou ampliar a beleza. Desse modo, chamo a atenção para o tamanho dessa exigência pela busca da beleza e corroboro com Wolf (1992), quando diz que, “muito além de ditar as características físicas do corpo, o mito da beleza dita os comportamentos.” (WOLF, 1992, p.17).

Pérola, uma das protagonistas, em uma de nossas longas conversas, mostrou-me fotos de seu tempo de infância. Aproximadamente oito fotos, que ela guarda dentro de uma caixinha como se fossem verdadeiros tesouros. Contou-me, também, a dificuldade que era, no seu tempo de criança, tirar fotos. Segundo ela, máquina fotográfica era coisa cara e quase ninguém que conhecia possuía uma e os fotógrafos profissionais que apareciam nos eventos de que participava, segundo ela, cobravam “o olho da cara numa foto.” Disse também que insistia muito com seu pai para que ele fizesse um esforço e pagasse os serviços dos fotógrafos.

Em um de nossos encontros ela foi mostrando as fotos e narrando os acontecimentos e fez isso com um evidente ar de orgulho, que expressava o quanto se sentia linda quando criança: ela dançando no seu grupo das “paquitas”, ela desfilando, ela à beira do mar catando conchinhas, algo que amava fazer e que abandonou recentemente por vergonha de usar biquíni. Em todas as fotos reluziam os seus olhos negros e a covinha na bochecha que fica bem acentuada quando sorri.

Mas por detrás desse sorriso havia medo e insegurança. Pérola revelou-me em sua narrativa que vivia com medo de que essa beleza se desfizesse e temia muito que a tal da “sina” da obesidade, que sua mãe tanto comentava, adentrasse em sua vida de um momento para o outro. Chegou a ter pesadelos com isso: “Eu sonhava que eu tava gorda e aí acordava

apavorada, em tempo de botar os ‘bofe’ pra fora, aí pegava no meu braço pra ver se tava fino, na minha bochecha” (Pérola). Outra sensação muito recorrente em sua infância era a culpa. Sempre achava que não estava fazendo o suficiente para se manter bela e por mais que procurasse comer pouco para não engordar, sempre achava que acabava comendo mais do que deveria. Seu comentário: “Eu me sentia assim, tipo culpada”. Este sentimento que Pérola vivenciou e vivencia é melhor compreendido quando voltamos o olhar para o meio social que, como apontam Novaes e Vilhena (2005), tem como um de seus imperativos a idéia de que cabe ao indivíduo a responsabilidade no agenciamento de si, determinando, vigiando, balizando e vigiando suas próprias ações e seu comportamento.

Esse sentimento de culpa que tanto afligiu Pérola na infância e a acompanha até os dias atuais e também aflige as outras protagonistas dessa pesquisa e muitas outras mulheres com quem interagi em pesquisa, segundo Castro (2003), tornou-se uma exigência social.

Acompanhemos agora como Esmeralda se avaliava do ponto de vista físico quando criança. Ao contrário de Pérola, que transmitia orgulho ao mostrar suas fotos, Esmeralda fez questão de escondê-las. Ela disse-me: “A mãe tem umas fotos [...], eu com cinco, seis anos. Eu já disse pra ela, que se ela num guardar bem guardadinha, eu rasgo ‘tudim’, que nem eu fiz com as outras”. Com um tom de voz, uma expressão facial e uma expressão corporal que expressavam nitidamente incômodo e insatisfação, ela tece suas características na época: “Eu era uma tripa seca com o cabelo pixaim, um dragãozinho, ‘catrevage mermo’ [mulher feia, menina feia]! Sério!”

Depois que Esmeralda empreendeu uma transformação em sua aparência física, inclusive tornando-a esculpida pelo exercício e transformando seu cabelo, que era castanho e um tanto crespo para louro e liso, ela decidiu rasgar e queimar muitas fotos da época que antecedem esse momento de sua vida, como uma forma de esquecer e até de negar a sua antiga forma física. As poucas fotos que sobraram de sua infância, foi sua mãe quem fez questão de guardar.

O gesto de Esmeralda, de queimar e rasgar as fotos tem todos os componentes que marcam simbolicamente a situação de passagem. Van Gennep ensina que: “A idéia contida no ritual de passagem é a de que a pessoa sai do mundo anterior para entrar em um mundo novo.” (VAN GENEPP, 1977, p.36). Assim, observo que Esmeralda sai de um mundo onde ela se avaliava como “tripa seca, dragãozinho”, para um mundo novo, no qual se sente bem, com auto-estima elevada, bonita e se considera digna de ser admirada. Assim, por meio da transformação da sua aparência física ocorre uma mudança em seu modo de viver. Campos nos fala sobre isso: “O corpo narcísico é a fonte de alimento do nosso amor próprio, e é, ao

mesmo tempo, usado como imagem de troca tornando-se um indicador do sujeito do qual dependerá a aceitação e a inclusão social.” (2004, p.12).

Pensemos também na seguinte passagem da narrativa biográfica de Esmerada: “Por isso que eu sempre digo, era muito mais fácil ter nascido filha de uma ‘lorona’ [aumentativo de loira] e de um ‘lorão’ alto, olho azul, cabelo liso. Aí pronto, eu nem precisava penar tanto pra ser assim [bonita, sarada,]!”.

O casal que Esmeralda gostaria de ter sido filha possui características físicas que se aproximam das “imagens-norma” transmitidas socialmente tanto pela mídia, como pelo mercado da beleza. O antropólogo Malysse (2006), que empreendeu um estudo minucioso sobre alguns usos sociais do cabelo megahair no contexto particular de Salvador, Bahia revela que, “No Brasil, como em muitas outras culturas, o loiro e o liso dominam a escada estético-social da beleza capilar.” (MALYSSE, 2006, p. 21). Vale dizer, que na concepção de Esmeralda as palavras ‘lorona’ e ‘lorão’ não estão referidas somente à cor dos cabelos e da pele, mas também à forma física. Isso ficou evidente pela gesticulação de Esmeralda ao mencionar a palavra ‘lorona’ quando partilhava o seu pensamento: ela movimentou as duas mãos desenhando no ar os contornos de uma silhueta, algo parecido como os contornos de um violão.

Wolf (1992) nos fala que o mito da beleza faz com que as mulheres queiram se parecer cada vez menos com suas familiares e passem a desejar ser parecidas com mulheres consideradas belas que estampam as capas de revistas, por exemplo. Muitas vezes, mulheres desejam se tornar parecidas com modelos que se diferenciam demasiadamente de suas próprias estruturas físicas. A esse respeito, cito aqui um acontecimento ocorrido em uma das vezes em que visitei a casa de Esmeralda: sua mãe se encontrava, como de costume, debruçada sobre uma máquina de costura, trabalhando concentrada, e Esmeralda estava andando de lá para cá com uma escova, a pentear de forma frenética o cabelo, me dizendo que a raiz do seu cabelo precisava ser pintada e estava aborrecida porque sua mãe não tinha o dinheiro para ela comprar a tinta. Neste ínterim, Esmeralda disse: “A culpa é dessa aí (se referindo à mãe), porque esse cabelo ‘véi’ ruim, eu puxei dela”. E nesse momento, a mãe de Esmeralda voltou o olhar para a menina suspirou fundo, fez uma expressão de cansaço e tristeza e voltou a costurar. Diante disso, acredito que é importante que se faça uma reflexão sobre o quão contundente é essa imagem-norma que faz com que Esmeralda, que demonstrou muitas vezes gostar de sua mãe, deseje ser filha de outra pessoa para herdar suas características físicas.

Outro ponto da fala de Esmeralda revela que a anatomia não é o destino e como diz Malysse, “o corpo é um produto social e mesmo se as suas características morfológicas parecem ser dadas pela natureza, elas são (re)modeladas pela cultura, pelos tipos de vida” (MALYSSE, 2006, p. 9). Também Le Breton (2003) afirma “A anatomia não é mais um destino, mas um acessório da presença, uma matéria-prima a modelar, a redefinir, a submeter ao design do momento.” (LE BRETON, 2003, p. 27-28). Podemos vislumbrar o quanto Esmeralda transformou, esculpiu o seu físico. E para isso, como ela mesma diz, precisou penar, ou seja, dedicar tempo, energia e dinheiro. E no caso de Esmeralda, que enfrenta muitas limitações financeiras, este último item foi ainda mais complicado. É importante mencionar, o tom, a postura de Esmeralda ao partilhar em sua narrativa, o que durante muito tempo ela fez questão de esconder, “o fato de ela ser feia na infância”. Mais do que um desabafo, seu tom e postura traduziam certo poder e orgulho, porque o seu corpo era fruto do seu trabalho, ela fez dele o que bem quis.

Assim como Esmeralda, Cristal também se incomodava intensamente com o seu físico na infância. Com os olhos marejados, ela revelou:

Bom, assim, eu sempre fui uma criança magra até, mais ou menos, os onze anos. Eu era muito magra, tinha umas pernas finas, muito finas mesmo e, assim, eu era totalmente sem graça, sempre fui muito tímida. Desde criança, eu sempre fui muito tocada pela questão de achar que as pessoas não gostavam de mim, eu achava: ah! Todo local que eu chego ninguém me percebe, ninguém me nota, ninguém gosta de mim e, se ninguém gosta de mim, eu associava alguma coisa que tinha a ver com feiúra. (CRISTAL).

Não só as palavras, mas a expressão corporal de Cristal, ao narrar como se sentia em relação ao seu físico no tempo da infância revelam um sofrimento pungente. Ela se sentia feia e só. Uma solidão que acreditava piamente ser fruto “de sua feiúra”. O modo de pensar de Cristal se harmoniza com sentidos e significados expressos no meio social que, como enfatizam Novaes e Vilhena (2005), é um contexto em que a feiúra é uma das formas mais presentes de exclusão social. Cristal se sentia “desapercebida”, “apagada”, “sem graça” num contexto social em que aparecer, brilhar, chamar atenção, principalmente pelos atributos físicos, é um imperativo, é algo importante para a aceitação social plena.

Algo bem marcante nas narrativas da infância de Cristal é justamente o fato de ela desejar com intensidade a atenção, o olhar de admiração de seus pares. O desejo de ter uma faixa de rainha revela bem isso. Afinal de contas, conquistar uma faixa de rainha significa ser eleita, escolhida, o centro das atenções, admirada. Retomemos uma passagem da sua narrativa que revela o quanto almejava essa faixa: “Meu sonho era ter uma faixa! É tanto quando uma

amiga minha foi rainha da escola dela, eu ficava pegando na faixa, não com inveja, mas com aquela vontade de ter uma faixa. Poxa! Quando eu vou ter uma faixa!?”.

Cristal cansou de esperar e resolveu ela mesma organizar, juntamente com suas amiguinhas da vizinhança, um desfile em que a premiação era uma faixa. E como ela mesma diz: “uma faixa muito feia de papel higiênico, que era horrível mesmo, porque a gente mal pegava e já rasgava e era um cuidado pra fazer bem bonito o com o nome ‘rainha’. Eu queria tipo que fosse como as faixas da escola, bem trabalhadas”. Enfim, para Cristal não importava tanto a beleza da faixa, mas a beleza do que ela acreditava que vinha com ela, a popularidade e o olhar de admiração de seus pares. E ela tinha esperanças de conquistá-la.

No entanto, mesmo criando a idéia do desfile e estando à frente de sua organização, Cristal conta com tristeza na voz que, nenhum dos meninos que integravam o júri votou nela: “Eu tirei o último lugar e eu rasguei a faixa com muita raiva. Foi um dia muito ruim pra mim! Percebi que este dia ficou marcado em sua vida!” Tanto é assim, que o relato desse dia foi tecido com a voz frágil e pastosa e o semblante tenso.

Diante disso, é de extrema importância avaliarmos cuidadosamente os efeitos que os imperativos da beleza causam nas subjetividades das pessoas. Não podemos deixar de associar a menina Cristal, que passou esse dia ruim e que mais tarde seria uma moça que colocaria a saúde em risco pela busca do corpo perfeito, tomando vinagre mais do que podia suportar, praticando regimes severos, se exercitando em excesso.

Outro fato que destaco na narrativa de Cristal, consiste na auto-avaliação que empreendia sobre o seu corpo, não ligada somente aos seus atributos físicos. Ela empreendia constantemente uma auto-avaliação a respeito da forma como seu corpo estava vestido e adornado.

Não só Cristal, as narrativas biográficas da infância das demais protagonistas desta pesquisa, mostram que elas se avaliavam não só fisicamente, mas estavam constantemente preocupadas com vestidos e adornos.

Sobre o modo como Safira avaliava sua aparência física no seu tempo de infância, observemos como relata que tinha tudo para ser a menina mais feliz do mundo, pois teve os brinquedos, as roupas, as viagens que desejou. Porém, não era tão feliz assim porque até os doze anos se considerava “[...] uma menina muito gordinha”. Uma das dores mais contundentes para ela, nesse tempo de sua vida, era o fato de sua obesidade entristecer sua mãe. Ela se sentia culpada e triste porque enxergava com muita facilidade nos olhos da sua mãe a decepção pelo fato de ela não ser magrinha como suas irmãs. Inclusive, Safira revelou que costumava observar os corpos de suas irmãs e observar seu corpo num movimento de

comparação e isso costumava resultar: “numa forte dor no peito”. Safira reflete que não era inveja e sim uma infelicidade em relação a sua aparência, pois o que ela via refletido no espelho a desagradava: “Mesmo quando eu era só uma menina, a primeira coisa que vinha na minha cabeça, assim que eu acordava, era: eu tenho que emagrecer (silencia um pouco), virei mocinha, me tornei mulher e ainda hoje esse é o meu primeiro pensamento do dia.”

A trajetória de Safira aponta que esse desconforto intenso que ela vive desde a infância em relação ao seu corpo, não está ligado a questões físicas e de saúde somente, mas, sobretudo ele é proveniente do modo como um corpo obeso é visto em nosso contexto. Como diz Campos: “O desconforto com o corpo está principalmente relacionado com a gordura, ao excesso de peso, ao que é esteticamente inadequado e ao que dificulta uma boa performance, além de representarem riscos à saúde.” (CAMPOS, 2004, p. 12).

Safira aprendeu desde pequenininha, tanto com dona Graça, como com sua professora em suas aulas de etiqueta, que o corpo bonito e elegante é o corpo magro e que ela