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Assim como os estímulos para a busca da beleza física e as características que a definem estão intimamente vinculados aos aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos de um determinado contexto histórico, as técnicas para alcançá-la também, e sobre elas discorreremos a seguir.

Riviére (1996) chama atenção para o fato de cada cultura construir estratégias diferenciadas para tornar os corpos dos indivíduos bonitos de se ver. “Alguns se cobrem de bosta de vaca, deformam os pés ou a caixa craniana, esticam o pescoço, ou transformam latas

de conserva em pulseiras.” (RIVIÉRE, 1996, p.194). Del Priore (2004) também nos permite refletir sobre isso, mencionando, inclusive, que comumente familiares de diferentes culturas lançam mão de técnicas para que o corpo da criança recém-nascida se harmonize com os padrões estéticos valorizados em seu grupo: “As mães africanas costumavam esmagar os narizinhos de seus pequenos, dando-lhes uma forma que lhes parecia mais estética.” (DEL PRIORE, 2004, p.86).

Nas narrativas biográficas das infâncias das protagonistas deste trabalho, o gesto de maquiar-se é compreendido como um gesto de embelezamento, de vaidade, um artifício para chamar atenção, conquistar olhares, como expressam as seguintes passagens narrativas: “Então eu lembro que eu botei batom muito cedo, até antes da hora. Então, porque aquilo já me fazia bem, eu achava que ali eu ia ser vista ser mais desejada pelos meninos, mais admirada” (Rubi); “Eu fui ficando cada vez mais vaidosa [...], vivia agarrada nas maquiagens da Joana, minha irmã mais velha.” (Esmeralda); “Eu acho lindo uma mulher que se maquia, quem faz assim uma pintura no olho, realça o olhar, acho lindo!” (Cristal).

No entanto, no livro intitulado As mulheres de Cabul, realizado pela fotógrafa inglesa Harriet Logan (2006), pode se perceber mulheres atribuindo um sentido completamente diferente ao ato de maquiar. A autora conseguiu captar em imagens fotográficas os dilemas, as dificuldades, as resistências, as esperanças de mulheres do Afeganistão que vivenciaram o regime repressor do Taleban, em 1996. Um regime que, dentre outras coisas, decretou a proibição das fotografias, das músicas, das danças, do riso em público, das brincadeiras com pipas e pássaros. As mulheres eram terminantemente proibidas de freqüentar escolas, trabalhar fora do lar, usar cosméticos, adornos e trajes elegantes. Vale mencionar que as fotos realizadas por Logan, foram feitas de forma secreta, no interior da casa de mulheres afegãs, com a cumplicidade destas. Segundo Logan, elas arriscaram suas próprias vidas ao desobedecer às leis do regime Taleban aceitando ser fotografadas “[...] porque acreditavam que o mundo tinha que saber o que acontecia com elas.” (LOGAN, 2006, p.14). E era neste contexto de repressão e dor que mulheres afegãs maquiavam seus rostos como uma forma de resistência. Acompanhemos o que diz Fersitta: “a maquiagem é proibida pelo Taleban, mas eu uso mesmo assim - lápis e batom. Fazemos disso um símbolo de resistência. É a nossa forma de desobedecer aos Talebans.” (LOGAN, 2006, p.13). Como o leitor pode observar, lábios e olhos são pintados como uma forma de resistência e de luta. O que não impede que elas se sentissem mais bonitas lançando mão das maquiagens também.

No curso das narrativas biográficas, podemos vislumbrar técnicas corporais criadas socialmente que visam o embelezamento de cada parte da aparência física. Da cabeça aos pés, nenhum detalhe escapa. O que se pode observar com muita recorrência, ao acompanhar as narrativas biográficas estudadas, é o fato dessas técnicas ou gestos que embelezam serem partilhados ou até mesmo impostos pelas mulheres mais velhas às mais novas.

Sobre isso, podemos citar os regimes que as mães de Pérola e Safira as obrigavam praticar. E a postura enérgica da avó de Ametista que a disciplinava para que se dedicasse aos cuidados da aparência: ela passava areia e juá em seus dentes para que o seu sorriso ficasse branquinho e impecável, assim como, diariamente, passava a água na qual o arroz tinha acabado de ser lavado como uma forma deixar o seu rosto livre de espinhas. A avó de Ametista também a intimava a nadar no rio para que a sua silhueta não ficasse obesa e a comer muito feijão com arroz para não ficar magra demais. Andar sempre calçada era outra exigência desta avó, pois pé bonito era o fino e o delicado. A mãe de Rubi a estimulava a andar sempre penteada e arrumada.

Pensando nos modos como as protagonistas deste trabalho eram conduzidas a cuidarem de seus corpos, por essas mulheres significativas em suas vidas relacionei os acontecimentos àqueles que Clastres (1978) relata quando descreve um ritual de iniciação vivido por alguns membros nas sociedades sem escrita.

Clastres (1977) conta que a comunicação entre os indivíduos e sua forma de expressar as leis estão escritas nas superfícies de seus próprios corpos. Cada membro da coletividade traz inscrito, em seus corpos, as marcas da cultura e do ethos tribal. O autor relata, em seu trabalho, os rituais de iniciação – passagem da criança para a fase adulta – nessas coletividades. Nos rituais, as pessoas que estão vivendo a passagem para a fase adulta são submetidas a uma série de atos que, em nossa cultura, classificaríamos como tortura: “Com furos pelo corpo e estiletes enterrados nas chagas, enforcamento, amputação, a derradeira corrida, carnes rasgadas.” (CLASTRES, 1978, p.126). As pessoas que ferem os jovens utilizam-se de inúmeras técnicas para causar a dor e o sofrimento. Fazem isso até o jovem, como eles diriam, ficar morto, ou seja, desmaiado. Para esses indivíduos, essas técnicas não são consideradas formas de tortura e os jovens iniciados vivem todo esse processo com serenidade e bravura. Fazem isso porque disso dependerá sua inserção no grupo. As cicatrizes vão proclamar um pertencimento social e todas as vezes que eles olharem uns às cicatrizes dos outros, nenhuma palavra precisará ser dita para que possam afirmar: “És um dos nossos e não te esquecerás disso.” (CLASTRES, 1978, p.128).

Os membros experientes da coletividade querem que o noviço viva uma série de aprendizados focalizados em seu próprio corpo. E a partir deste aprendizado vivido com cada parte do corpo, seja pintando-as, seja marcando-as com feridas, a pessoa sente-se integrada a seu grupo.

Nas narrativas aqui apresentadas vemos, justamente, que as mulheres mais experientes vão transmitindo para as mais novas as técnicas necessárias para os cuidados e embelezamento corporais. Vão transmitindo, além disso, o ensinamento de um novo olhar sobre o corpo. As protagonistas desta pesquisa, quando crianças iam aprendendo, de forma muitas vezes desconfortável e dolorosa, dia após dia, a dar atenção a cada parte do corpo de uma forma especial. Podemos verificar nas passagens narradas da infância, em que elas começam a avaliá-las, medi-las, compará-las com as partes dos corpos das outras crianças, das outras pessoas. Enfim, começam a discipliná-las. Então vemos que, ainda pequenas, passam a querer usar os produtos de beleza e roupas que as mulheres mais velhas usam, a praticar determinados gestos que embelezam e que aquelas praticam. E assim, a cada dia, elas vão tecendo um olhar sobre o seu corpo semelhante aos olhares que aquelas mulheres significativas em suas vidas tecem sobre os delas. E quando elas menos esperam estão completamente em harmonia com a linguagem, com as técnicas, com as angústias, desejos, dilemas e alegrias, que perpassam a busca de um corpo, considerado socialmente como belo e, mais do que isso, passam a vivenciar e construir, mais e mais, seu contexto social.

Inclusive, observamos que muitos dos elementos utilizados para embelezar os corpos como roupas e adornos podem ser comparados ao valor atribuído às cicatrizes das sociedades sem escrita mencionadas por Clastres (1978), pois a meu ver as protagonistas desta pesquisa expressam por meio de suas roupas, seus adornos os valores sociais inscritos em seus corpos. Da mesma forma vejo os músculos esculpidos pelos exercícios físicos. O corpo, como se vê, retém em si uma história a contar.

Vale enfatizar que, além das protagonistas deste trabalho aprenderem na educação familiar a cuidar dos cabelos, do rosto, da forma física, da pele, das unhas, para que cada detalhe pudesse se aproximar ao máximo dos padrões estéticos vigentes, algumas delas eram ensinadas a perfumar esse corpo, bem como a trabalhar uma postura para esse corpo. Que o diga Safira, com as aulas de etiqueta que vivenciava na infância. E também Ametista, que sempre que estava sentada de uma forma desleixada, sua avó vinha com um pauzinho e batia em suas costas para que ela se sentasse de forma considerada elegante.

Há uma idéia muito recorrente em nossa cultura de que um corpo belo não deve ser só aquele que porta atributos físicos que convergem com os padrões estéticos valorizados,

deve ser também um corpo limpo e perfumado, que se porta de uma forma elegante. Comumente se pensa a beleza como parte de um conjunto, como expressa Ametista ao explicar porque sempre era eleita nos concursos de beleza: “Além de ser bonita, eu sabia andar, sentar, ser graciosa, ser feminina, minha roupa tinha muito babado, meu cabelo era penteado. Aí tinha o ‘tchan’ do conjunto!”

Ainda refletindo sobre os gestos que embelezam, vimos que Ametista, Pérola, Cristal e Esmeralda enfrentavam situações financeiras difíceis, mas isso não as impedia de cuidar de seus embelezamentos com vigor e dedicação. Isso quebra uma idéia, que ainda é bastante corrente, de que a preocupação e investimento na beleza são coisas que só competem às pessoas mais abastadas. As narrativas mostram que elas lançavam mão da criatividade para desenvolver suas técnicas de embelezamento como a água do arroz para prevenir espinhas.

No entanto é fundamental chamar atenção para o fato destas receitas de beleza ditas mais baratas, caseiras também fazerem parte do cotidiano das pessoas com alto poder aquisitivo. Nas narrativas, vimos as irmãs de Safira, que pertenciam a uma das famílias mais abastadas da cidade de Fortaleza, passando abacate para o cabelo ficar brilhoso e casca de banana no rosto para tirar as manchas. Vale observar que a época não havia a quantidade extraordinária de produtos de embelezamento que temos atualmente, mas mesmo hoje as receitas caseiras continuam sendo utilizadas.

Mencionemos o caso de Safira, que atualmente manda trazer de fora do país, alguns de seus cosméticos, mas não abre mão de pepinos cortadinhos colocado sobre as pálpebras para tirar as olheiras. Rubi também compra produtos caríssimos para ficar mais bela, mas não abre mão de passar babosa no cabelo para ficar brilhante. E com todos estes anos que dediquei a observar as mulheres e os seus gestos que embelezam tanto nas academias de musculação, como fora delas, posso afirmar que estas receitas caseiras estão presentes no cotidiano de mulheres pertencentes aos mais diferentes segmentos de nossa sociedade.

É importante que se diga que, da mesma forma que não podemos generalizar afirmando que estas tais receitas de beleza mais baratas só estão nas casas de pessoas de baixo poder aquisitivo, não podemos também dizer que produtos caros divulgados pela mídia só estão na posse de pessoas ricas. Acompanhei de perto pessoas que tinham recursos tão escassos que sentiam dificuldades de comprar alimentos, mas que, ainda assim, se esforçavam ao máximo para obter alguns destes produtos.

É preciso sempre lembrar que o fortalecimento dessa idéia tão recorrente de que “a beleza é fundamental” há muito vem fomentando com intensidade uma indústria de

cosméticos, do rejuvenescimento, do vestuário, entre outras. A historiadora Rúbia Sant Anna (2008) aponta que, na sociedade ocidental, desde o pós-guerra, a indústria e os meios de comunicação de massa passaram a difundir vigorosamente a importância dos gestos que embelezam e junto disso, lançavam toda sorte de produtos. Ela diz que especialmente as mulheres, consumidas pelas imagens de beleza que os meios de cultura de massa difundiam e pelas promessas de felicidade que os produtos portavam tornavam-se outras, adquiriam status social e a importância entre os seus pares.

De lá pra cá, essas indústrias só se expandiram. A cada dia criam mais e mais produtos que prometem tornar os corpos mais belos e saudáveis. Muitos indivíduos, seduzidos por essas promessas, vão consumindo demasiadamente. Castro (2003) enfatiza em sua pesquisa sobre culto ao corpo que, “[...] enquanto quase todos os setores industriais perderam sistematicamente postos de trabalho, o setor de higiene, perfumaria e cosméticos aumentou o nível de emprego.” (CASTRO, 2003, p. 7).

Alguns dados divulgados pela instituição ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos): o Brasil é o terceiro mercado mundial de cosméticos, perfumes e higiene pessoal. Em 2007, o Brasil consumiu em torno de R$ 19,6 bilhões - R$ 2,1 bilhões a mais que em 2006, denotando um crescimento de 12%. Nos últimos 12 anos, a indústria cosmética alcançou um crescimento médio de 10,9%, enquanto que o Produto Interno Bruto (PIB) Total e o mercado em geral cresceram de 2,8%. A ABIHPEC também chama atenção para o crescimento dos setores de importação e exportação dos produtos de embelezamento. Obtiveram crescimento médio de 19,7% e 21,5%, respectivamente, nos últimos cinco anos.

É importante perceber os efeitos dos discursos desta megaindústria da beleza no dia-a-dia das pessoas, porque nem sempre eles causam somente satisfações, bem-estar, melhoria da qualidade de vida, mas ocasionam, certas vezes, desconforto, inseguranças, dificuldades, tensões. Principalmente porque o indivíduo, depois de tanto se esforçar para seguir o que esses discursos impõem e consumirem toda sorte de produtos, não conseguem atender às expectativas dos padrões estéticos impostos. Assim, muitos acreditam que estar em harmonia com esses padrões é fundamental para ter uma vida feliz, realizada. Ao refletir sobre as narrativas biográficas de Rubi, Safira, Ametista, Pérola, Cristal e Esmeralda, neste trabalho, pretendemos justamente mostrar e refletir, entre outras coisas, sobre os efeitos desses discursos, sobre os bastidores desta busca pela beleza física vista como ideal.