2.1. Ekonomik Bağımlılık Teoremi
2.1.3 Yakınsama Hipotezi
Com a retirada das tropas de ocupação, já era possível enxergar com mais clareza as consequências do conflito para o Império e seu impacto direto nos anos que se seguiram até a queda da monarquia. As perdas de aproximadamente 50 mil mortos brasileiros foram trágicas, em um país que contava com uma população de nove milhões de habitantes, desses 139 mil participaram da guerra, ou seja, 1,5% da população. A guerra também foi o ápice do Império e sua obra de unificação, tornando-se um fato de fortalecimento da identidade nacional a existência de um inimigo. (DORATIOTO, 2002, p.458-461)
O Brasil pouco ganhou da Guerra com o Paraguai, que arruinado pelo conflito, sequer pode pagar uma parcela da dívida de guerra. (PRADO JR., 1974, p.193) A longa e árdua campanha, em pleno processo de sua formação
econômica, colocou o Império em uma situação delicada. No terreno econômico os resultados foram nulos, já que não havia lucro possível em uma guerra contra um vizinho militarmente equipado e economicamente fraco, que não representava ameaça a sua própria economia. Do ponto de vista do desenvolvimento, o único resultado positivo da vitória foi a ocupação de pequena área de fronteira, e assegurar a navegação dos rios Paraná e Paraguai, com grande importância para as comunicações com a província do Mato Grosso. O conflito também comprometeu as finanças públicas, já que as grandes despesas causaram profundos desequilíbrios na vida financeira do país. Apesar de o próximo decênio a guerra ser de volta promissora do crescimento econômico, prova que o Império seria naquele momento um organismo vivo em pleno crescimento, e as repercussões imediatas foram agudas.
No plano regional, os anos seguintes de política do Partido Conservador foram determinantes para evitar que a Argentina se apossasse de todo o Chaco, como estava estipulado no Tratado da Tríplice Aliança, especialmente pela opção deliberada na Distensão externa. A preocupação sempre foi em evitar o aumento da fronteira com a Argentina, obrigando o Império a aliar-se com o vencido para impedir a concessão territorial argentina por direito. Apesar da hegemonia brasileira no Prata estar enfraquecida durante os acordos entre o Paraguai e a Argentina, em 1876, os objetivos do Império foram alcançados. O território em disputa foi retomado por solução arbitral dos Estados Unidos e a autonomia do Paraguai garantida, sendo esse último o desejo mais explícito da diplomacia Imperial.
Quanto à questão da indenização de guerra, essa provocou grandes discussões, especialmente no Conselho de Estado. Pelo Tratado Definitivo de Paz assinado em Assunção entre o Império e o Paraguai, ficou estipulado que uma convenção especial iria se reunir para decidir quanto o Paraguai deveria pagar ao Brasil, sendo que o Governo se comprometeu a usar de benevolência nessa decisão. As discussões são esclarecedoras, e mostram como a diplomacia usou dessa matéria para neutralizar a posição argentina. No parecer do Conselheiro de Estado Bernardo de Souza Franco, a preocupação era evidente:
As exigências do Império parece que devem limitar-se, por um lado, pelas considerações tiradas da impossibilidade em que ficou o Paraguai de satisfazer uma dívida muito avultada e da má figura que faria o Império em exigi-la. Do outro lado, está a grande conveniência de não aliviar de todo o Paraguai de encargos que tornem menos cobiçada a sua absorção por alguns dos países vizinhos. (CONSULTAS DA SEÇÃO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS,1871-74, p.164)
O parecer do Conselheiro de Estado Barão das Três Barras também ia na mesma direção:
Os cálculos do Tesouro elevam as despesas da guerra a 500 mil contos: seria grande generosidade do vencedor reparti-las em partes iguais com o vencido, dando-lhe longos prazos de modo a acomodar o pagamento às circunstâncias financeiras do devedor. Mas a questão do dinheiro não é a que deve preocupar o Brasil, até porque a insolubilidade do devedor tira-lhe toda a importância. Cumpre atender a outros interesses maiores. Pouco importa averiguar nosso estado financeiro, quando o devedor não pode contribuir para melhorá-lo. O que vale liquidar uma grande dívida, quando ela é puramente nominal? Quanto ao do Paraguai, sabemos que é deplorável no presente; e todos os cálculos relativos ao futuro serão falíveis. (CONSULTAS DA SEÇÃO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS, 1871-74, p.165-166)
Para finalizar, o parecer duro do Conselheiro de Estado Francisco de Paula de Negreiros Sayão Lobato:
(...)é mais do que suspeita a Confederação Argentina, para se pronunciar sobre a matéria, estreme do impulso do próprio interesse: é de primeira intuição que, adquirido o Chaco, pela sua parte, terá a Confederação alcançado sobeja indenização dos gastos da guerra, tão inferiores aos do Brasil e, pois, lhe é muito fácil a generosidade na aparente renúncia de toda a indenização dos gastos da guerra, como custosa ao Brasil a extrema redução de indenização dos enormes gastos, no que dará prova de verdadeira generosidade (CONSULTAS DA SEÇÃO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS, 1871-74, p.169)
Como se pode ver, usando o expediente das indenizações, o Brasil diminuiu infinitamente seu valor para um patamar muito mais crível de pagamento, apesar de considerar a dívida apenas nominal. O perdão dela também não era positivo para os objetivos do Império, uma vez que a sua
existência garantiria que a Argentina não ameaçasse o Paraguai o anexando, o que consequentemente faria dela responsável pela enorme quantia da dívida para com o Brasil.
Ano após ano, a morosidade das comissões para julgar os valores de indenização era retratada pelo Governo Imperial. Conforme os dispositivos da paz de 1872, as dívidas de guerra eram públicas, Paraguai ao Império e para com os particulares prejudicados pelo conflito, podendo o Governo apenas diminuir a parte que lhe cabia, ou seja, as dívidas para com o Estado Brasileiro. Algumas reclamações sequer haviam sido julgadas em 1879 e o relatório de 1880 trazia a situação trágica em que se encontrava o governo guarani:
Por falta de recursos para remunerar sufficiente numero de empregados confiou o ser o serviço da expedição (de apólices de pagamento) a um só, e esse, o Contador Geral, sobrecarregado de trabalho, não póde desempenhar a sua commissão com breviedade. (RRNE, 1879, p.6)
A situação elucida a situação precária que irá se encontrar o Paraguai nos anos que se seguiram até o final do Império e além. A derrota foi causa de uma ruptura definitiva do modelo de crescimento econômico que era realizado no país, além de minar todas as bases de expansão capitalista em todo o seu sistema produtivo. A reorganização levou décadas, e em termos comparativos com os vizinhos, o Paraguai não conseguiria alcançar os mesmos patamares do período pré-guerra. Para o Uruguai, as repercussões da guerra foram menores, apesar de o país ter sido o pivô central dos eventos que culminaram no conflito. Algumas convulsões internas se sucederam, mas em geral as consequências foram pequenas. (DORATIOTO, 2002, p.483-485)
Na Argentina, o descontentamento do interior do país com o conflito e da aliança com o Império, contribuiu para a eclosão de várias rebeliões contra o Governo Central, que ao conseguir reprimi-las, consolidou definitivamente o Estado e suas bases de legitimação. Com os presidentes Bartolomé Miltre (1862- 68) e Sarmiento (1868-74), a Argentina organizava pela primeira vez um exército nacional e permanente, reprimindo as dissidências federalistas. O presidente
Nicolás Avellaneda (1874-80) deflagrou a campanha para extermínio dos índios, promoveu a federalização de Buenos Aires, isto é, elevando a cidade como capital da Argentina. Com a estruturação do Estado, a rivalidade com o Brasil continuou a acirrar-se, levando em 1882 o general Julio A. Roca, então presidente da Argentina afirmar ser “inevitável” uma guerra contra o Brasil, uma “guerra fatal a que ambos os países estariam destinados por contraposição de interesses e choque de civilizações”, especialmente pelo acirramento de litígios de fronteira. (BANDEIRA, 2003, p.48-51)
Se para a Argentina, as relações internacionais platinas durante os anos imediatos ao final do conflito constituíam-se como sendo um fracasso territorial e dos seus interesses regionais, a consolidação estrutural interna vai criar uma geração na década de oitenta que será lembrada como uma era de ouro na sua história. Com um crescimento econômico espetacular, mantido a uma taxa anual de mais ou menos cinco por cento, a Argentina impulsionou seu lugar de destaque no contexto regional e até mesmo global. Sua transformação foi em grande parte resultado das mudanças que ocorreram na América e na Oceania e na corrente principal do comércio mundial. De forma geral e sintética, a Argentina se beneficiou enormemente do estabelecimento das novas rotas de comércio, a redução dos custos de transporte, o aumento do comércio mundial, além do movimento agudo iniciado pelo deslocamento de capital e trabalho para a periferia do sistema.
A contenda pela região de Missões será então o palco do último grande embate com o Brasil durante o período Imperial, apenas resolvido por laudo arbitral pelo presidente Cleveland, em 1895, portanto já na República Brasileira, dando ganho de causa ao Brasil. Até essa resolução, embora efetivamente os dois lados não quisessem a guerra, e a corrida armamentista iniciada no período após a guerra levaria a um acirramento das tensões, só houve um recrudescimento das relações em 7 de setembro de 1889, quando em Buenos Aires a negociação do Tratado que iria submeter a região à resolução arbitral foi assinado.
Apesar da rivalidade com a Argentina, as relações do Império para o todo platino será de uma vigilância a distância, apenas comparecendo em caso de necessidade. Com relação ao Paraguai, a partir de 1876 até o fim da monarquia, ela deixou de ser prioritária, embora a sua importância como contrapeso à influência argentina fosse extremamente importante. As relações próximas com o Uruguai, na mesma matriz de pensamento com relação ao Paraguai, se mantiveram nos últimos anos do Império. De forma geral, a política para a região seria norteada pela Distensão externa, nos moldes apresentados anteriormente nesse estudo, apesar dessa configuração só poder ser vista em todos os seus contornos após a retirada das tropas brasileiras de Assunção, em 1876.