2.1. Ekonomik Bağımlılık Teoremi
3.1.1. Büyük Buhran Sonrasında Arjantin Ekonomisi
Para entender a relação do Império com os movimentos de integração, especialmente os Bolivarianos, se faz é necessário um breve recuo histórico. A Doutrina Monroe, antes dela, foi um alicerce fundamental na gênese do processo interamericano. Na declarada Guerra de Independência das antigas colônias espanholas em todo o continente (1810), as Treze Colônias já se constituíam como uma república organizada no norte do continente americano. Com o reconhecimento da independência das novas nações nascidas do escombro do Império Espanhol pelos americanos, ocorreu um processo nascente de solidariedade que foi intensificado com a manifestação política de proteção continental anunciada pelo presidente Monroe. (LOBO, 1939, p.3-4) Segundo Delgado de Carvalho, a Doutrina Monroe, nascendo nos primórdios da
independência dos países latino-americanos, despertou o “entusiasmo e aprovação, esperanças e fé.” (CARVALHO, 1959, p.295)
Na obra, História Diplomática do Brasil, Delgado de Carvalho (1959, p. 282) afirma que a “Doutrina Monroe nos dá a impressão de um instrumento de música cujas cordas desprendem árias diferentes, segundo a inspiração de quem as tange”. A figura desenhada por ele demonstra a amplitude com que o
monroísmo foi entendido, já que seu conceito é tão difícil de definir que, durante
toda a história do presidencialismo americano, nunca a interpretação feita por dois presidentes americanos consecutivos foi idêntica, apesar de todos se sentirem na obrigação de dar sua visão ao conceito.
De forma sintética, podemos caracterizar a doutrina como sendo a obrigação moral dos Estados Unidos em se interessar e intervir nos assuntos do continente americano, e não ver com indiferença o interesse que outros países, especialmente da Europa, poderiam vir a manifestar. (CARVALHO, 1959, p.282- 283) Sua aplicabilidade à realidade continental e aos inúmeros ataques sofridos por sua eficácia e verdadeiras intenções por trás do discurso americanistas, fez com ela adquirisse uma áurea de pouca credibilidade, quase sempre sendo citada como exemplo perigoso de um imperialismo disfarçado em princípios de direito internacional. O fato é que a doutrina se confunde com a própria história da construção dos Estados Unidos e da América Latina e sua aplicabilidade muito se deve aos momentos políticos dos norte-americanos.
A doutrina Monroe surge com a tentativa da Santa Aliança, que reunia as potências vencedoras da Guerra contra Napoleão Bonaparte, de suprimir a revolução na Espanha de 1820. Porém esta doutrina contou com a oposição britânica, que não estava disposta a apoiar qualquer intervenção reformista no hemisfério ocidental e o ministro de Negócios Estrangeiros Britânico, George Canning, propôs uma ação conjunta com os Estados Unidos para manter a Santa Aliança fora do alcance das colônias espanholas na América. Do ponto de vista geopolítico, a Grã-Bretanha queria manter a América Latina fora do alcance de outra potência europeia, já que isso mudaria a dinâmica da política mundial. O
argumento britânico era de que a Espanha, com ou sem suas colônias, era uma potência de segunda ordem, mas se outra força europeia assumisse o controle do antigo Império Espanhol, a posição tanto dos Estados Unidos quanto da Grã- Bretanha ficaria seriamente afetada.
No radar britânico também estava à ameaça restauradora, que após a invasão da Espanha pelos franceses, comandados por Napoleão Bonaparte, havia deixado as colônias a seus próprios recursos e livre iniciativa. A posterior restauração dos Bourbon no trono Espanhol configurava, assim, uma ameaça às conquistas realizadas sobre a maioria da antiga rede de comércio espanhol e que beneficiava, sobretudo, aos ingleses. Entretanto, as vitórias de San Martin e de Simon Bolívar haviam demonstrado que a presença europeia não era condição essencial para a manutenção de sistemas políticos razoavelmente estáveis na América Latina, sendo possível, sim, reconhecer aqueles movimentos como legítimos aos povos sul-americanos.
Os Estados Unidos compreenderam a gravidade das preocupações britânicas, mas não confiaram em uma aliança para ações conjuntas com a ex- metrópole. Sentindo-se forte, pela conjuntura política do momento, o presidente Monroe e Quincy Adams, seu Secretário de Estado, proclamaram em 1823 a Doutrina Monroe, que excluía o colonialismo europeu a partir de uma decisão unilateral:
Com a doutrina Monroe, proclamada em 1823, o oceano que separava os Estados Unidos da Europa tornou-se um fosso. Até esse momento, a regra principal da política externa americana tinha sido a do não envolvimento nas disputas europeias de poder. A doutrina Monroe deu o passo seguinte, declarando que a Europa não devia envolver-se nos assuntos americanos. E a noção de Monroe do que constituía os assuntos americanos era, na realidade, extensiva: compreendia todo o hemisfério ocidental. [...]. Declarou que os Estados Unidos considerariam qualquer extensão do poder europeu a qualquer porção deste hemisfério como perigosa para a paz a segurança nacional. (KISSINGER, 2007, p.26)
Se, em 1823, os Estados Unidos avisaram aos europeus de que deveriam se afastar do hemisfério ocidental, já em 1845 a explicação da
incorporação do Texas foi tratada como sendo necessário para prevenir que um estado independente se tornasse aliado ou dependente de uma potência estrangeira, ameaçando a segurança nacional dos Estados Unidos. Em outras palavras, a doutrina Monroe justificava a intervenção americana não só contra uma ameaça existente, mas contra qualquer possibilidade de desafio aberto – assim como os europeus fizeram com o equilíbrio de poder. (KISSINGER, 2007, p.27)
A Doutrina Monroe muitas vezes está ligada a uma tentativa de enfrentamento dos Estados Unidos a graves situações. Uma política cujo objetivo essencial é o paradigma de segurança dos Estados Unidos. Se os dois princípios que regeram os ideais de 1823 tivessem se mantido intactos, o do não restabelecimento de colônias europeias na América e o da não intervenção, poderiam até supor que a doutrina teria sido uma base aceitável para uma verdadeira política pan-americana, ou mesmo um sistema de regulação do ainda emergente sistema interamericano. O fato é que os preceitos defendidos e recepcionados, em um primeiro momento com grande euforia pelos políticos emergentes dos diversos estados americanos, se transformaram em decepção e sinônimo de uma crescente assimetria de poder no continente.
O diplomata boliviano Gaston Nerval (pseudônimo), citado por Delgado de Carvalho (1959, p.287), afirma que há duas Doutrinas Monroe, “a autêntica, original na Mensagem de 1823, e a outra, a dos sucessores de Monroe, mal compreendida, mal interpretada e mal empregada”. Desta forma, não se pode considerar a Doutrina Monroe como uma base para uma política interamericana, já que seu caráter unilateral e absolutamente não afirmativo vai de encontro a qualquer ideia de unidade continental. Interessante assinalar que a própria extensão geográfica da exclusão pretendida variou, sendo que o presidente James K. Polk em 1845 reduziu a “zona de proteção americana” apenas à América do Norte.
A doutrina transformava-se, assim, em uma ferramenta de grande elasticidade, casada a cada necessidade conjuntural política da sua época. Até o
final do século XIX, a doutrina seguiu com usos diversos, mas sem criar maiores expectativas acerca do seu projeto interamericano. Entretanto, como seus autores visavam resolver contingências momentâneas e favorecer interesses americanos, ao invés de fomentar uma noção de unidade continental, a doutrina passou a ser vista como uma prática nociva para a manutenção da paz e da autonomia continental. Os políticos das novas nações independentes não aceitavam a ideia de trocar uma dominação de uma potência europeia por outra, dentro do seu próprio continente.
Dessa forma, os movimentos de integração feitos na América espanhola recém-emancipada, tinham três grandes sentimentos: permitir a manutenção e o fortalecimento das conquistas das guerras de independência, conquistar real autonomia politica-institucional para os novos estados, rompendo ideologicamente com o Velho continente, ou seja, com o modo europeu de fazer politica e por fim estabelecer uma autonomia aos Estados Unidos.
A Carta da Jamaica, escrita em 1815 pelo Libertador Simón Bolívar, é um marco inicial nesse processo de construção de um sentimento interamericano, independente e absolutamente novo. Bolívar propunha formar no Novo Mundo uma única nação, com vínculos que ligassem suas partes entre si e como um todo. Mais do que uma simples confederação, a base da sua proposta explicitava uma unificação clara e formal, baseada no que seria “para si” essa América: os países hispano-americanos, já que eles tinham uma origem única, uma língua hegemônica, costumes próximos e uma mesma religião. O ideal de se formar uma unidade fundamentada juridicamente em um Governo, para os diversos Estados que viriam a formar essa Confederação, mostrava uma noção política diferente de América, já que nessa proposta estavam excluídos o Brasil e os povos de origem anglo-saxã, ao norte. (BOLÍVAR. Carta da Jamaica-1815)
Para Bolívar, e explicitado com muita preocupação, a escolha do melhor regime de Governo era crucial para que pudesse assegurar os ganhos da guerra de independência, garantir a prosperidade e, acima de tudo, garantir a capacidade de guerra em uma eventual tentativa de reconquista espanhola, que
àquela altura estava extremamente presente na mente das elites criollas. O projeto de Bolívar era amplamente apoiado pelo Repúblicanismo, já que, para ele, as pequenas Repúblicas eram regimes de Governo mais confiáveis pelo seu caráter durável, e melhor para assegurarem os ideais americanos que todos os povos hispano-americanos tanto almejavam. No ideal do Libertador, todas as pequenas repúblicas partilhariam assento em uma Confederação com um único Governo, tendo sua sede no Panamá, onde as diversas nações poderiam dialogar entre si e com o resto do mundo sobre a paz, a guerra e as demais questões internacionais:
¡Qué bello sería que el istmo de Panamá fuese para nosotros lo que el de Corinto para los griegos! Ojalá que algún día tengamos la fortuna de instalar allí un augusto Congreso de los representantes de las repúblicas, reinos e imperios a tratar y discutir sobre los altos intereses de la paz y de la guerra, con las naciones de las otras tres partes del mundo.” (BOLÍVAR. Carta da Jamaica-1815). 21
Os ideais de Simon Bolívar e suas iniciativas resultaram em uma vertente diferente daquela de segurança continental estipulada pelo Governo de Washington. Ainda, no seu período embrionário, já davam uma dimensão nova e evidenciavam, entre outras coisas, um novo modo de se fazer política internacional. O americanismo Bolivariano nasce como paradigma ainda hoje não realizado por completo:
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Que bonito seria se o istmo do Panamá fosse para nós o que foi Corinto para aos gregos! Esperemos que algum dia nós tenhamos a sorte de instalar ali um augusto congresso dos representantes das repúblicas, reinos e impérios, para deliberar sobre os altos interesses da paz e da guerra, com as nações das outras três partes do mundo. (Bolívar. Carta da Jamaica-1815 - Tradução nossa)
Tinha sem dúvida o pan-americanismo Bolívariano grandiosos ideais a perseguir: implantar soberanias temperadas por interesses comuns supranacionais, regulamentados por acordos de comércio, por meios de se evitar a guerra, de superar os conflitos de fronteira, de uniformizar o direito público, de conciliar os litígios por arbitramentos obrigatórios, em suma, a criação do direito internacional americano, visando compensar o esfacelamento político regional resultante das independências políticas. (CERVO & BUENO, 2008, p. 142)
Bolívar organiza e inicia um movimento que se repetiria por quase todo o século XIX. Com o Congresso do Panamá, em 1826, iniciava uma série de reuniões que seriam a base de atividade interamericana, funcionando como um fórum onde as proposições poderiam ser colocadas em pauta e as ideias poderiam sair do campo teórico para adquirir contornos na realidade.
O Congresso se inicia por proposta do próprio Bolívar, (que não compareceu, por se encontrar envolvido com problemas no Alto Peru) sendo essa a primeira reunião com intuito claro dos plenipotenciários de criar uma organização supra estatal, dotada de códigos de conduta e regulamentação para todos os Estados representados. Encabeçados pelos Estados Unidos da Colômbia (Colômbia, Venezuela e Equador), o convite foi enviado por Bolívar para Buenos Aires, México, Peru e Chile. Por sua vez, Francisco de Paula Santander, libertador da Colômbia, estendeu o convite aos Estados Unidos, ao Império do Brasil e à Guatemala. (CARVALHO, 1959, p. 296)
Aceitaram o convite, mas deixaram de comparecer, os Estados Unidos, o Brasil, o Chile e Buenos Aires. As razões foram diversas: Buenos Aires não aceitava nenhuma autoridade supranacional; os Estados Unidos discutiram tanto no Senado a questão, que seus representantes não chegaram a tempo; o Chile também chegou tarde. Quanto ao representante nomeado pelo Brasil, ele nem sequer chegou a partir:
Tendo desejos de entrar em relações com as novas repúblicas e trabalhar em concerto com elas para a prosperidade geral da América, como se expressou, evitava o Brasil comprometer-se em projetos de anfictiônia, como os que se anunciavam, além de saber que, nos planos políticos do Libertador, se continha, a propósito de nossa guerra na Cisplatina, o de uma coligação para arrancar da América a planta exótica, isto é, nossa Monarquia. (LOBO, p. 11-12, 1939).
No dizer de Delgado de Carvalho, referindo-se aos resultados do Congresso do Panamá “só se pode dizer que foram um glorioso fracasso”. (CARVALHO, p. 297, 1959). De todas as matérias discutidas e não ratificadas, tratou-se de solução de litígios por arbitramento, de abolição do tráfico, de garantias de integridade territorial, de incremento das relações comerciais, da criação de ações e práticas para tornar efetiva a Doutrina Monroe. Apesar do não avanço nessas importantes questões, cada vez mais com o afastamento do tempo da reunião ocorrida no Istmo do Panamá cresce a importância e o valor que aqueles delegados ainda não estavam em condições para compreender.
Com o fracasso de suas ideias, Hélio Lobo nos conta que Bolívar teria exclamado “He arado en el mar”22. O andamento da história mostraria, no entanto,
que o Congresso do Panamá lançaria sementes do que viria a ser o direito interamericano moderno e foi o primeiro de uma série de congressos que se realizariam sempre sobre a égide e inspiração das ideias do Libertador.
Aproximadamente vinte anos depois foram feitas novas tentativas, cabendo ao Peru à iniciativa. Novamente o perigo da reconquista pairava sobre as Repúblicas da região e um pacto defensivo se fazia necessário para conter a ameaça externa. Em dezembro de 1847 reuniram-se em Lima os representantes da Bolívia, Chile, Equador e Nova Granada. Assim como no Panamá, vários dispositivos deixaram de ser assinados, mas mantiveram-se as ideias Bolivarianas, fazendo com que algumas questões referentes ao comércio, guerra e direitos fossem discutidos.
Após esse encontro, teríamos mais alguns outros Congressos interamericanos, todos tratando de temas de interesse regional e sempre permeados da questão de segurança e ameaça externa. Uma segunda Conferência de Lima foi reunida em 1864 e outra de fins jurídicos realizada em 1878. Todas tomadas pelo ideal americano criado por Bolívar, mas sem realizar os ideais do Libertador. O sistema americano de estado estaria sempre norteado
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pelas forças da assimetria entre a Grande República do Norte e os países do Sul, e pelas múltiplas tentativas de criar na América algo que na Europa não foi possível: um verdadeiro instrumento de regulação entre os Estados que aqui nasceram.
De todos os congressos interamericanos, Panamá (1826), Lima (1847- 1848), Santiago (1856), Washington (1856), Lima (1864-1865) e novamente Washington (1889-1890), o Brasil somente participou do último desses encontros - a Primeira Conferência Interamericana, convocada pelos Estados Unidos. O Governo Imperial, desde 1826, ocasião do Congresso do Panamá, entendia que essas iniciativas poderiam ser uma fonte de resistência. O Governo era norteado pela Distensão histórica que resultava na ambivalência de entender que, ao mesmo tempo, poderia se tornar uma frente comum contra os interesses brasileiros e, também, pelo receio de se ver excluído, caso algumas das iniciativas propostas alcançassem sucesso.
Além disso, o Império foi na América, pelo menos até 1889, um grande problema para uma configuração segura do continente na visão dos seus vizinhos. O Brasil e sua monarquia bragantina, foi um dos destaques de um quadro marcado por Repúblicas, e especialmente na América do Sul viam na antiga colônia portuguesa uma ameaça constante à manutenção da independência e no Imperador brasileiro um possível instrumento da Santa Aliança nos assuntos americanos. Apesar de a história diplomática dar pouco suporte a essa tese, essa lógica permeou todo o período Imperial brasileiro. Apesar disso, as originalidades dos instrumentos aqui empregados fizeram do sistema interamericano um dos menos intempestivos, e mesmo com alguns conflitos de largas proporções, nunca vivenciou um estado de guerra geral que arrastasse todos os membros para a destruição mútua.
A explicação para a excepcional firmeza e consistência da política americanista do Império está, como já mostramos, na natureza de legitimação do Estado Brasileiro em contraste com seus vizinhos americanos. A adoção de um regime monárquico condicionava a política externa brasileira para temer e por
vezes repudiar as iniciativas interamericanas. Ao adotar o modelo de legitimação, como sendo o princípio dinástico, os vizinhos americanos passaram a representar, no imaginário, o Império como sendo o outro irreconciliável. Deve-se ressaltar que a identidade das Repúblicas americanas nascia exatamente na ideia de ruptura com o Antigo Regime e metaforicamente com a Europa. A noção de Novo e Velho Mundo, América e Europa, influenciava decisivamente as iniciativas interamericanas, tornando para o Império a tarefa de associar-se muito difícil, sem colocar em xeque sua própria base de legitimidade:
O Império via-se civilizado e europeu, e assim de uma natureza distinta daquela de seus anárquicos vizinhos. Integrar-se a eles seria pôr em risco a própria essência de sua identidade. Se a ideia de civilização propagada pelas elites brasileiras era, estranhamente, compatível com a escravidão a exclusão da maioria da população do corpo politico da nação, a adoção do nacionalismo e da cidadania como fonte de legitimação do Estado era potencialmente explosiva em uma sociedade fracamente integrada regionalmente e com população composta em grande parte por escravos. (SANTOS, 2004, p.28)
O Brasil sentia enorme dificuldade em integrar-se com seus vizinhos, que tinham como principal bandeira a ideia de ruptura com os antigos laços, uma síntese ideológica pautada na diferença entre América e Europa, nascida especialmente nos movimentos pela independência ocorridos em toda a América. No continente americano, ao lado dos Estados Unidos, o Brasil representava uma variante linguística e de costumes. No ponto de vista da política externa, a Guerra Cisplatina e a Guerra do Paraguai foram, diversas vezes, interpretadas como um movimento do Império em realizar suas ambições egoístas e expansionistas. O Governo Imperial chegou a reconhecer a fugaz experiência do Império de Maximiliano no México, uma precipitação que não colaborou para melhorar a imagem ou ao menos evitar tensões desnecessárias com as Repúblicas vizinhas.
A própria constituição do quadro político brasileiro não propiciava a integração continental. Os estadistas brasileiros do século XIX, formados na escola de pensamento conservador, eram essencialmente realistas. Para o corpo institucional e político brasileiro, a ordem resultaria do primado da autoridade sobre os ideais. As instituições pretendidas pelos hispânicos e tidas como
utópicas pelos imperiais, não lhes davam garantias, resultando em um deliberado afastamento ou Distensão. Por isso, não acreditavam que as relações interamericanas pudessem fluir de forma harmônica, oriunda de estatutos jurídicos convencionados pelos Estados, negando participarem do Congresso de Lima (1878) e aceitando a contragosto participar do convite americano de 1881 para uma conferência, que não aconteceu por causa da guerra do Pacífico. (CERVO & BUENO, 2008, p.142)
O realismo brasileiro também denotava uma habilidade fundamental para a diplomacia no período. O Governo Imperial nunca se obstou categoricamente a qualquer iniciativa pelo temor de que qualquer movimentação nesse sentido evoluísse para um foro puramente hispânico e antibrasileiro. A ameaça de reconquista espanhola e as rivalidades entre as Repúblicas diminuíam a eminência desses perigos, mas convinha ao Governo acompanhar congresso por congresso, ponderar sobre a decisão de participar ou não, dependendo das conveniências e conjunturas políticas do momento, e protelar ao máximo a presença brasileira:
Aceitou o convite para participar do Congresso do Panamá, mas seu enviado não chegou. Acompanhava desde 1840 o possível ‘congressos geral de plenipotenciários dos Estados americanos’,