2.3. Kaçınma
2.3.4 Yaşantısal Kaçınma
Assim como os diálogos de Anchieta apresentavam uma nova dinâmica de conversação em língua tupi, as obras poéticas de sua autoria também trouxeram uma nova formatação do discurso na língua dos nativos, com a introdução de rimas.
Anchieta aproveitou-se de cantigas dos colonos e das que já eram populares em Portugal, muitas consideradas “profanas” ou “lascivas” pelos eclesiásticos, e, com perícia, pôs-lhes letras em tupi, português, espanhol e latim.
Já nos seus primeiros anos no Brasil, Anchieta pôs-se a adaptar letras de cunho religioso a essas cantigas, e, mandando copiá-las, as fazia cantar pelas crianças e jovens, nas praças, povoados e lavoura dos colonos e dos índios.110 Cardoso (op.cit: 76) ressalta que o conjunto de obras líricas anchietanas, ao contrário de sua composição teatral, é mais espiritualizado: na temática, Anchieta pouco recorreu ao ambiente físico que rodeava os indígenas, enfocando principalmente elementos da alma111. Vejamos o trecho de uma de suas poesias:
“Ejorí xe angekýia tasóne nde ropesýka nde robaké uiguapíka pecado suí uixýia” 112
(Vem para arrebatar minha alma
110
Anchieta, Pe.Joseph de, Lírica Portuguesa e Tupi. Introdução, versão e notas do Pe. Armando Cardoso, S.J., São Paulo, Edições Loyola, 1984. p. 76.
111 Idem. 112
“Da Assunção” in Anchieta, José de. Poesias. São Paulo, Edusp, 1989. p. 576. Tradução para o português de Eduardo de Almeida Navarro.
para que eu vá te adorar assentando-me diante de ti, dos pecados tendo medo)
Em suas obras poéticas encontra-se também o apelo ao amor aos filhos, algo que o jesuíta observou ser notável entre os indígenas. Lê-se na poesia Pitangĩ:
“Pitangínamo ereikó Tupánamo eikóbo be. Nasopotári mamõ
Nde pýri guitekoboñe.” 113 (És uma criancinha sendo Deus também Não quero ir para longe, estando a teu lado.)
Tanto a poesia Pitangĩ como Pitangĩ Porangeté apresentam em várias passagens a utilização do sufixo “ ‘ĩ ”, que designa o diminutivo. Anchieta propositalmente o utiliza, em referência ao pueril e ao infantil.
Ao todo, Anchieta compôs vinte e quatro poesias:
1. Pitangĩ Morausubára 2. Pitangĩ Porangeté 3. Oré rausuba Jepé 4. Tupána Kuápa 5. Jandé Jára Ariré 6. Jandé Rubeté Jesu 7. Ave Maria Poránga 8. Eva Jandé Sy Ypý
113 “Pitangĩ”. In: Anchieta, José de. Poesias. São Paulo, Edusp, 1989. p. 586. Tradução para o português de Eduardo de Almeida Navarro.
9. Pejorí Xe Irû Etá 10. Ára Angaturameté 11. Sarauájamo Oroikó 12. Ybytýripe Uitekóbo
13. Paratiý, Reritiba, Tupinambá (parte do Auto do ‘Dia da Assunção’) 14. Reritýba Xe Retáma
15. Tupansy Porangeté (Por “O Sem Ventura”) 16. Tupansy Angaturama
17. Ko Oroiko Oroporaséia 18. Jabaeté Pái Jesú
19. Dos Mistérios do Rosário de Nossa Senhora 20. Perory (parte do auto de ‘São Lourenço’)
21. Ko Aikó Nde Pytybómo (parte do auto de ‘São Sebastião’) 22. Ko Oroikó Oroñemborýpa (parte do auto de ‘São Sebastião’)
23. Xe retáma Moorypa (parte do auto ‘Recebimento do Pe. Marçal Beliarte’) 24. Xe Moajú Marangatú (parte do auto de ‘São Lourenço’)
Uma característica recorrente nessas obras é o apelo do mundo espiritual cristão, através de temas como o Menino Jesus, Eva e Nossa Senhora. Parte de suas composições poéticas são complementos a suas obras teatrais e nelas nota-se uma forte influência do trabalho do Marquês de Santillana. 114
A poesia de Santillana apresenta o mesmo conteúdo didático-moral e a mesma ideologia cristã medieval, sendo comum aos dois autores um extraordinário senso de disciplina e recolhimento. 115
114
Iñigo Lopes de Mendoza ou Marquês de Santillana, nasceu em Carrión de los Condes em 1398, sendo o mais poderoso senhor feudal de sua época e um representante de destaque dos valores e virtudes que representavam o ideal cortesão renascentista. Foi conhecedor da poesia italiana de Dante e Petrarca, obras das quais faz muitas referências em seus escritos ("Comedieta de Ponza", "Infierno de los enamorados"). Entre suas obras mais conhecidas estão "Canciones y dezires" e as "Serranillas" que reúnem graça, musicalidade e o espírito refinado renascentista. É o autor do primeiro tratado de crítica literária em língua espanhola, a "Carta proemio al Condestable Pedro de Portugal" e de obras didático-moralistas como o "Diálogo de Bías contra Fortuna, "Proverbios" e "Refranes que dicen las viejas tras el fuego". É considerado um dos melhores poetas do século XV. Faleceu em 1458.
115
Lê-se no último capítulo do livro Los Provérbios de Santillana:
Si dixieres por ventura Que la humana
Muerte non sea çercana, Grand locura
Es que piense la criatura Ser nascida
Para siempre en esta vida De amargura.
Ca si fuese en tal manera, Non sería
Esperada el alegría Que s'espera;
Nin la gloria verdadera Del Señor
Jhesú, nuestro Redemtor, Duradera.
Pues di: ¿por qué temeremos Esta muerte,
Como sea buena suerte, Si creemos,
Que pasándola seremos En reposo
En el templo glorioso Que atendemos?
Qu'el remedio
De todos vicios es medio Ser contigo,
Si tomares tal amigo, Vida inmensa
Vivirás, e sin ofensa Nin castigo. 116
A mensagem incisiva, clara e acessível de Santillana é escrita de forma simples e alegórica. Estão presentes os elementos místicos, imanentes e medievais da mesma forma em que os encontramos na poesia de Anchieta. Na obra Cantiga por o Sem Ventura a Nossa Senhora do autor canarino, a semelhança com Santillana é evidente:
Tupansy porangeté, oropáb oromanómo ore moingobé jepé nde membýra moñyrómo inongatuábo;
oré rarómo
oré ánga pysyrómo
(Mãe de Deus muito formosa, morrendo nós chegamos ao fim, faze-nos tu viver
aplacando o teu filho; pacificando-o,
guardando-nos
salvando a nossa alma)
Ejóri, oré resé
116
Santillana, Iñigo López. Obras Completas de El Marques de Santillana. Disponível em: www.cervantesvirtual.com/FichaObra.html?Ref=18913. Acesso em 7 de outubro de 2005.
nde membýra mongetábo toroekatú taujé
añanga rausu peábo imomoséma
imomoxyábo
jangaipába momburuábo
(Vem para rogar por nós a teu filho, para que possamos logo,
afastar o amor ao diabo, acossando-o,
arruinando-o,
amaldiçoando suas maldades)
Nde porangatú rausúpa tekóaíba aramombó nde resé memé oroikó nde robá repiakaúpa nde rapekóbo, nde su, nde súpa oré ybýime nde rerúpa
(Amando a tua grande beleza, renunciamos ao vício,
Contigo sempre vivemos, Tendo saudades de tua face, Freqüentando-te,
Ficando a visitar-te,
No nosso interior fazendo te estar.)
oroé pabē endébo Jorí, nde porausubára mojaojaóka orébo, oré rausupa, oré mboébo oré ánga resapébo
(Misericordiosa,, dizemos todos a ti, Vem, tua compaixão repartindo conosco, amando-nos, ensinando-nos,
iluminando o nosso espírito)
Emojerekuáb
Iesu, nde membý poránga Teikatú oré ánga
serobya sausubetebó, imombeguábo, aré arébo
indibé nde moetébo
(Faze para nós benigno Jesus, teu filho formoso, Que possa nossa alma crer nele, amando-o muito, proclamando-o,
com Ele louvando-te) 117
Conforme observa Araújo (2003:28), “o livro ‘Los Proverbios’ antecipa o desprendimento
das coisas mundanas em troca da possibilidade da vida eterna, verdadeiro ‘leit-motiv’ da composição lírica e dramática de Anchieta”.
Dois outros trechos da poesia anchietana ilustram a presença dessa característica comum à obra de Santillana:
Asopotá nde retáme Nde porangatú repiáka eike korí xe ñyáme xe keranáma mombáka, xe momaémo,
xe moobaybáka, nde kotý xe rerobáka
(Quero ir para tua terra, para ver tua muita beleza, entra hoje em meu coração,
acordando-me de meu pesado sono, fazendo-me enxergar,
fazendo-me erguer o rosto,
fazendo-me voltar em tua direção.) 118
Osó, ko ára pupé, Tupã rorypápe oséma, jandé reõ mokañéma, jandé moingobébo nhẽ
117
“Cantiga por o sem ventura a Nossa Senhora” in Anchieta, José de. Poesias. São Paulo, Edusp, 1989. p. 569 – 570. Tradução de Eduardo de Almeida Navarro.
118
“Cantiga por el sin ventura” in Anchieta, José de. Poesias. São Paulo, Edusp, 1989. p. 574. Tradução para o português de Eduardo de Almeida Navarro.
(Ela vai, neste dia,
partindo para o reino dos céus, afugentar de nós a morte, fazendo-nos viver.) 119
A poesia dos dois autores apresenta a firme crença nas benesses celestiais, a deserção da vida terrena, o senso de elevação ingênua e a submissão ao dogma. Semelhante à produção de Anchieta, “a perspectiva de ‘Los Provérbios’ é a de um reforçado e renitente antidialogismo, próprio do curial místico. Os versos trazem uma base rítmica e melódica característica do nivelamento medieval, num claro maniqueísmo (pecado versus santidade; luz versus trevas; bem versus mal; humano versus divino) que antecipa o Barroco e que este aproveitaria singularmente na forma de uma angústia metafísica, traduzida em altos e baixos relevos espirituais, nas sinuosas ambigüidades pós-renascentistas.” 120
A estrutura poética da Cantiga por o sem Ventura a Nossa Senhora caracteriza-se por cinco sétimas; estas são formadas da união de um quarteto e um terceto. São versos de redondilha maior com pé quebrado, totalizando 25 versos setissilábicos e 10 versos quebrados sem qualquer irregularidade.
A rima da Cantiga por o sem Ventura a Nossa Senhora segue duas seqüências distintas:
1a seqüência: a – b – a – b / c – b – b:
Tupansy porangeté, (a) oropáb oromanómo (b) ore moingobé jepé (a) nde menbýra moñyrómo (a) inongatuábo; (c)
oré rarómo (b)
119
“Da Assunção” in Anchieta, José de. Poesias. São Paulo, Edusp, 1989. p. 575. Tradução para o português de Eduardo de Almeida Navarro.
120
oré ánga pysyrómo (b)
2a seqüência: a – b – b – a / c – a – a:
Nde porangatú rausúpa (a) tekóaíba aramombó (b) nde resé memé oroikó (b) nde robá repiakaúpa (a) nde rapekóbo, (c)
nde su, nde súpa (a) oré ybýime nde rerúpa (a)
Através dessa nova modalidade de criação de textos em língua indígena, Anchieta traduzia a tradição literária ibérica para a cultura do nativo. Em suas poesias, a rima, a métrica e o ritmo são característicos da versificação românica e a sonoridade é tupi.
A criação poética anchietana nos proporciona o seguinte paradigma: por parte do conquistador, no caso os portugueses e mais especificamente o jesuíta, ocorria a valorização da própria missão divina que propunham desempenhar, incutindo a mensagem cristã na língua vernácula, o objeto de apropriação. Por parte do conquistado, a valorização de sua própria língua, que era arranjada e disposta em uma nova estrutura, nesse caso, a dinâmica poética criada em tupi. A apropriação que os nativos seriam - ou deveriam ser - capazes de realizar era a do próprio dogma cristão, ou seja, aos nativos seria permitida a obtenção da “palavra da verdade”.