As experiências clínicas descritas no capítulo II confirmaram todas as assertivas acima e mostraram que a ampliação e inovação instauradas pelo método dialógico foram acionadas sempre por uma meta-posição que surgia no encadeamento das narrativas. Mais do que uma posição, a meta- posição confirmava o caráter metafórico da construção humana de sentido e identidade. Ela é posição e não é posição na medida em que se põe de fora e faz a leitura dos diálogos que emergem e inovam o self. No entanto, o mais paradoxal e marcante de tudo o que vi e ouvi foi compreender o conceito de depositioning, palavra que não traduzi para evitar uma má apreensão do que Hermans e Konopka (2010, p. 170) desejavam transmitir. A palavra está diretamente ligada à capacidade ou “condição receptiva do eu”. Em sentido rigoroso não se deve falar de depositioning como posição de eu, por não se tratar de posição e sim de condição. Porque nós humanos recebemos o mundo, o ambiente, a cultura original? Como fazemos esta recepção? Como acontecia que no decorrer do tratamento o surgimento de outros ‘eu’- pessoas, símbolos, rituais ou estórias- iam moldando e reformulando o self, passou a ser essa a tarefa e o objetivo central das conversas psicoterapêuticas: nomear e elencar cada um deles e colocá-los à disposição do cliente. É sobre isto que discorri no segundo capítulo e pretendo agora retomar de modo reflexivo.
Temos uma condição receptiva e ampliamos a consciência dessa condição a medida em que recebemos e percebemos o que está em redor de nós. Ampliar a consciência passa a ser mais importante na construção do self que a condição receptiva humana. Desse modo, a depositioning ganha status de agente fortalecedor do eu em suas ilimitadas posições.
Assim se passou com Melcquior que, no penúltimo e-mail, sugere ter sido a psicoterapia a garantia de sua sobrevivência (“obrigado por ajudar Melcquior a sobreviver”) e, no último e-mail apresentado, diz com todas as letras: “tenho tudo e não sou nada”. Passou a habitar no sem lugar algum com a alegria e relativa segurança almejadas desde sempre em seu frustrante ambiente materno. Naquele
tempo em que não tinha consciência de si e tampouco do mundo ao redor, ainda assim estava recebendo o que hoje tem de mais caro: o diálogo com aquilo que transcende o cotidiano concreto. Assim, não é pai tal como seu pai foi mas é pai uma vez que “padrinho também é pai”; acredita em Deus-Pai mesmo não tendo tido um pai tal como desejava pois entendeu a construção metafórica mas absolutamente real da representação de Deus como pai.
Assim também se deu com Balthazar que se encontrou em meio à estranheza de meu consultório, sentindo-se de posse de tudo e, principalmente, do sentimento de alegria pela proximidade da celebração de mais uma etapa de sua vida institucional. E esta etapa coincidia com a evolução de seu self: “Estou feliz com minha ordenação sacerdotal”. Para alguém que, ao lhe perguntar como estava, respondia “poderia estar pior” um passo havia sido dado da posição de eu pessimista para a posição de eu otimista, esta última vista como algo próprio dos incultos. Assim, a vida consagrada deixou de ser para ele um anexo desconfortável e passou a constituir seu novo self, um self agora em permanente construção, com suas inevitáveis mazelas e alegrias.
Do mesmo modo, Gaspar ao recordar-se do fato vivido ao final de sua infância: deitou-se na areia à beira do mar, olhou por longo tempo para o céu azul tal como os caiçaras faziam, e curou-se. Tão difícil na versão concreta - já que precisou estar vivendo uma crise psicossomática e ainda, de uma dose de cachaça e menos complicado na narrativa recordada ao longo do processo psicoterapêutico, em que a reflexão arrematou a lembrança. Vale lembrar ainda que Gaspar recebeu a notícia da interrupção de nossas conversas terapêuticas com certa tranqüilidade. Transitou com agilidade da posição de eu cinzenta, raiva contida (“eles vão me tirar daqui, da psicoterapia”) para a posição de eu rubra, indignada (“é assim mesmo, quem manda é a chefia”) e o fez com a agilidade de um avião pronto para decolar.
Na ocasião concluiu que o almejado silêncio estava a seu dispor quarto em que “morava”dentro do seminário que abrigava todos os confrades. Queria dizer que os diálogos foram úteis e trouxeram resultado e consolo, mas o que de fato ampliava seu ser era o silêncio orante que tomava conta de seu eu na solidão do quarto. Estou certa de que nenhum de meus três reis magos chegou ao estado de pura consciência ao qual Santa Teresa D’Avila (1515-1582) teria chegado75. O que digo é
75 Cf James, 1991, p. 256-257; Hermans e Konopka, 2010, p. 170. As referências ao estado descrito por Santa Tereza falam de consciência pura em que o corpo e suas funções permanecem suspensos
que vislumbraram este estado, tiveram consciência de sua impossibilidade no mundo conturbado de hoje e assumiram o desafio de viver a concretude da vida institucional de olhos abertos para horizontes maiores. Suas posições de eu ‘desejante’ se solidificaram com os diálogos clínicos. Desejar é também ser no mundo e com Deus. Os tempos são outros e hoje em dia atingir a condição neuro- psicológica que leva ao estado de pacificação narrado pelos grandes místicos é uma utopia que seus selves em contínua expansão tornam presente no aqui e agora de cada decisão que deverão tomar como representantes da Igreja.
Melcquior se viu reconhecido por seu pai e comunidade quando fez as exéquias de sua inspiradora avó. Balthazar, ao ficar feliz em preparar um leigo para a ação pastoral, o que fez é exatamente o que deve ser feito e não uma maneira de se livrar de compromissos pastorais. O self ampliado de um pastor da Igreja deseja e permite que outros (não consagrados) exerçam funções para as quais tem vocação sem assumir todas as normas de quem é instituído. Essa posição de eu ‘ponte’ evita os exageros do perfeccionismo e da culpa associada ao não cumprimento das exigências internas (vindas de posições do eu escondidas) e daquelas externas (vindas das normas institucionais incorporadas como posição de eu). Um padre não tem que fazer tudo aquilo que se exige de um bom cristão, têm sim é que propiciar aos ‘outros’76o exercício de atos e atitudes cristãs. Gaspar de certo modo ensinou seu colega a respeitar os idosos em sua fala indignada e impositiva, o que é muito bom para qualquer processo formativo, ou seja, diálogo e confronto entre pares.
O que os três reis magos adquiriram foi um relativo estado de equilíbrio –que pode ser perdido e retomado sempre- e lhes permite aceitar a vida tal como ela é. Este estado se deve a variadas posições da consciência: consciência de si mesmo e dos próprios limites, consciência da presença do outro, consciência de que os limites entre o eu e o outro são flexíveis, consciência de que o outro é também as coisas do mundo da qual só nós humanos nos apropriamos. O mundo externo e o mundo interno, quando se amplia o acesso a eles, são parte da consciência humana. Self em construção é consciência de que variadas posições internas e externas se organizam para dar consistência ao existir.
não havendo sequer condições para a respiração. Ela tampouco via, ouvia ou compreendia nesse pequeno lapso de tempo. Seria um EAC?
76 Hermans e Konopka ( 2010, p. 181) referem-se à amplitude do self que abarca o outro e gera um espaço partilhado em que vários se conectam.
Referindo-se especificamente a depositioning, Hermans eKonopka (2010, p.168-170) falam de três degraus no desenvolvimento da consciência que vão de posições específicas do eu ao eu como consciência. Não por acaso, utilizam o termo ‘místico’. No estágio de união (unitive mystical state) com a variedade de objetos, organismos e pessoas do meio circundante parece haver em certo momento uma identificação total. O eu não está mais aprisionado nem localizado em nenhuma posição específica com suas preocupações, memórias e antecipações e é capaz de mover-se de uma posição a outra num espaço ampliado de ação. Note-se aqui que não se falou de papeis, o que nesse patamar seria exercido com tranqüilidade já que nenhuma posição tiranizaria outra prejudicando a atuação. Assim se daria em qualquer profissão: um médico atenderia com ética e paciência seus pacientes mesmo se estivesse vivendo dificuldades em algumas esferas de sua vida. Um padre saberia separar seu mundo interno com conflitos e problemas a serem solucionados e manteria intactas suas funções sacerdotais. Talvez mais do que isso, aquele que atingiu este estágio teria consciência do momento de interromper suas atividades quando não se sentisse apto para exercê-las.
No estágio do dualismo (dualistic mystical state ) o eu toma forma de consciência e tem como centralidade o silêncio, distanciando-se da vida cotidiana. É dualístico por se tratar de dois mundos, o interno e o externo com exata clareza do alcance de cada um. As ações práticas não seriam afetadas nessa condição e haveria distância temporal entre as posições de eu emergentes. A “depositioning” já começa aí a falar mais alto que qualquer posição de eu. Como exemplo que confirma esse estado a solidão de Gaspar – equilibradora e reorganizadora- fala de dois mundos interseccionados.
No estágio de pura consciência (pure consciousness) não haveria conteúdos mentais e a “depositioning” do eu não expressaria conteúdo algum, estágio esse relatado a posteriori por Santa Teresa D’Avila. Segundo William James haveria uma ausência de estimulação sensorial, da memória, das atividades cognitivas e de qualquer compreensão, prevalecendo um estado de consciência pura. Nos dias atuais talvez um religioso tenha muito mais dificuldade para adentrar este estado por não ter à sua disposição tempo suficiente para desobstruir os canais das decisões cotidianas. Estamos na era da imagem e dos eventos públicos e um jovem seminarista prestes a ordenar-se precisa se ocupar da roupa que usará, da
contratação da equipe de fotografia e filmagem e mesmo do serviço de buffet e do orçamento previsto por seus superiores.
Como se expressou Gaspar na posição de eu rubra: “quero ver se o retiro que vão me oferecer é dos melhores, é como uma noiva que deseja que seu dia seja perfeito. Espero que não seja meia-boca”. Entendi o que Gaspar queria dizer por saber que há retiros considerados ‘melhores’ mesmo e outros reservados àqueles nos quais a instituição não deposita tanta expectativa.
Voltando aos três estágios, todos eles diferem da meta-posição que apenas apontou para o fato de que o eu poderia se ausentar de uma posição específica para alcançar outra que visualiza as demais. A depositioning é receptiva em sua essência e como tal nomeia o inominável. Embora não necessite de espaço, a depositioning só pode ser articulada via metáforas espaciais. Veja-se como exemplo a narrativa das moradas de Santa Tereza. Depositioning expressa a permeabilidade do ser e expande as fronteiras fazendo o eu parte do outro: do mundo, da cultura, dos símbolos, da geografia. Receber o mundo e abrir mão do mundo por um valor maior acompanha a constituição do self das pessoas pesquisadas. Só se pode abrir mão daquilo que temos.
Os fatos teóricos e práticos que apresento a seguir querem mostrar que os três reis magos precisaram ter posse de seus sentimentos, de suas angústias, de suas frustrações, de sua cultura original, de suas estórias e história para então fazer uso das mesmas no modo da renúncia e no modo da doação ao outro. Usar, renunciar, doar foram gestos conscientes que trouxeram os votos de castidade, obediência e pobreza para o chão de suas vidas consagradas. De outro modo não se trataria de vidas e sim de e-vitações da vida.
É estranho e difícil trazer para a vida real e compartilhada algo deliberado na sala de um consultório de psicologia clínica. Em ambiente protegido e lúdico, o chão da clínica deve gerar roupagem e posições de eu que serão vestidos pelo cliente na festa da vida. E ainda, suporemos que uma teoria está por traz desse ‘making up’ psicológico. Ao longo desse capítulo final, o que tento é demonstrar a propriedade e significância desse ambicioso projeto.