• Sonuç bulunamadı

Gaspar havia acabado de completar 13 anos na ocasião em que sofreu o duro golpe, a descoberta de que quem era por ele considerado pai, por ser marido de sua mãe e pai biológico de seus outros três irmãos, não era de fato seu pai. Em sua ingenuidade havia perguntado aos berros: “Mãe, por que ‘tô’ com pelos no x?”. Usou o termo vulgar. Sua mãe disse que tomasse cuidado, se o pai estivesse lá tomaria uma surra. O padrasto batia na mãe e nele sempre e mesmo assim era considerado por Gaspar seu ‘pai herói’. A música cantada por Fábio Jr era sucesso na época.

As brigas, ou melhor, as cenas de violência eram muito freqüentes e, após uma desavença mais séria, sua mãe fugiu para a casa da avó materna, levando consigo os filhos. Ele chorava muito e dizia: “Quero meu pai”. Uma tia materna, indignada com o sofrimento da irmã e dos sobrinhos, disse: “Para de chorar por ele. Ele nem é seu pai!” Seu mundo caiu. Conta que não conversou com mais ninguém, ficou mudo por quase hum ano. Havia entendido tudo. Pequeno ainda, assim que aprendeu a ler havia perguntado à mãe: “Por que meu nome é diferente de meus irmãos?” E a mãe respondeu: “Teu pai não quer falar disso, fecha a boca”.

Em sua ingenuidade, havia feito a pergunta que sua inteligência pediu. A ingenuidade preponderou e a perspicácia ficou escondida. Ao não contarem, subestimando (sem intenção explícita) sua inteligência, deixaram escapar a oportunidade de legitimar sua história, de permitir que aceitasse ou não aceitasse seu padrasto, de identificar-se como filho de mãe solteira. Foi enganado por todos que temiam seu pai/padrasto que havia tirado sua mãe da condição de mãe solteira. Gaspar ainda habitava seu ventre quando sua identidade foi forjada. Mãe solteira, identidade indesejada numa família de católicos praticantes e atuantes na Igreja, adquire, a partir do casamento com o estranho/estrangeiro uma contra-posição idealizada, a de mulher casada. Sem fazê-lo de modo consciente, sua mãe vende-se

ao estrangeiro para autenticar-se junto ao grupo social. Ambas as posições: a do padrasto que restaura o equilíbrio e a da mãe, alguém culpado por ferir a moral da família se juntam as outras vindas dele próprio: o filho rejeitado pelo pai biológico, a criança ingênua que deseja ser membro legítimo de um grupo familiar, a criança rejeitada pelo padrasto (só ele e a mãe apanhavam, os demais filhos não) compõem o modo polifônico de Gaspar, que as incorpora de forma a não se cruzarem, cada posição de eu em um lugar de si. Não se permitia articulá-las numa sinfonia. Sinfonia que o identificaria para si próprio72. Ao contrário, enrijecia-se, peito duro, voz presa.

O pai herói, salvador, exercia tirania não só sobre a mãe de Gaspar mas também sobre a família caiçara em geral.Então, em plena puberdade, em momento de extrema fragilidade - mãe e filhos fora de casa, saudades do ‘pai-herói’- recebe a informação intuída e indesejada. Informação desencadeada pela indignação da tia materna, cansada de ver irmã e sobrinho sob o jugo deste intempestivo homem. Com doze para treze anos quando começava a mudar a voz, calou-se. Era um tempo em que a música cantada por Fábio Jr fazia sucesso e povoou a mente de muitos garotos que aprenderam via midia a ver no pai um herói. Nesse dia parte de seus sonhos de legitimidade caíram por terra.

Era frequente me dizer: “Você imagina em 1980, minha mãe era mãe solteira!”. Outra cicatriz, parecia que os anos 1980 estavam no século XIX. E talvez estivessem mesmo naquela cidade praiana. Como escutadora e psicoterapeuta nunca esqueci que sua voz mudou ao dizer-me a frase em um de nossos primeiros encontros. A solteirice, o passo em falso da mãe continuavam a identificá-lo mesmo no último ano de teologia, a segunda faculdade que completava: “Minha mãe era solteira quando engravidou de mim”. Minimizava a seguir dizendo que ela só tinha 16 anos e a continuidade da narrativa em geral mostrava a posição de eu filho que cuida da mãe como um irmão mais velho cuidaria de sua irmã por ser menor e por ser mulher. Já na primeira narrativa apareceram também suas críticas e certa impaciência com o descaso da mãe em relação à própria saúde. Nessa e em outras ocasiões contou pequenas estórias de falta de atenção da mãe, por ex., esquecer o horário da consulta médica ou mesmo de alimentar-se, ocupada com seu trabalho.

72 A metáfora da sinfonia retorna em meu raciocínio clínico de modo espontâneo mostrando ser a música, em sua criação ou usufruto, uma importante abertura do ser. Jacob Belzen tratou do tema em uma de suas palestras como professor visitante da PUCSP em novembro de 2011.

Desde bem criança Gaspar cuidou dos irmãos e da casa e em repetidas vezes afirmou que seus irmãos, ele e a mãe compuseram sua primeira comunidade. Observei que falava em fraternidade e não em cuidado materno ou paterno. Em várias ocasiões iniciou a sessão com uma narrativa cinzenta vivida ao longo da semana e geralmente tratava-se de algum mal estar comunitário: delação, ‘panelas’ ou mesmo qualquer forma de bullying. Na medida em que contava o fato seu rosto tomava um tom rosado, mostrando a verdadeira emoção escondida: raiva de tudo aquilo. Em primeiro lugar, do despreparo da mãe, do qual foi vítima na infância. Em segundo, da falta de união dos colegas de fraternidade, em muitos dos quais não percebia vocação alguma e sim “comodismo, pois a vida na Igreja traz benefícios” e, terceiro, do tom político das reuniões de correção fraterna. Gaspar queria muito mais e assim expressou com lágrimas nos olhos: “quero amor!”. (Balthazar havia dito a mesma frase, lembram-se?)

Aspirava por uma vida comunitária perfeita: um por todos, todos por um. Queria viver intensos sentimentos de philia, como os que havia idealizado nos encontros dominicais na paróquia. Ao completar 30 anos relembrou que 17 anos antes havia recebido sua primeira eucaristia que veio junto com a perda do pai herói após o episódio relatado acima.. Na ocasião teria ido sozinho à celebração já que a família não tinha o hábito de ir à missa. Aos domingos acordavam tarde, sempre “chumbados” pelos escândalos causados pela violência do pai (quando ainda seus pais viviam juntos) e depois, já separados, pela falta de disciplina da mãe. Nessa casa da juventude não havia ‘manhã, tarde e noite’ e sim um suceder desconexo de ações e movimentos que levaram ao resultado de que seus irmãos ‘não se deram bem na vida’. Todos apresentavam problemas insolúveis desde dependência a drogas, separações, filhos ilegítimos etc.

A família mais ampla, incluindo avós e tios maternos freqüentava a RCC e achavam que o mais importante era a oração e não os sacramentos. Sua avó rezava e ia à missa do galo no Natal. No entanto, não obrigava ninguém a ir junto: “Só me lembro dos frangos assando no forno, meus tios jogando truco e esperando a meia noite...”. Nada de celebrar o nascimento de Jesus, nascido pobre, de pai adotivo, o que veio para mostrar o divino no humano. Um vazio e uma dor.

Contou-me que recentemente o padrasto o fez saber que seus irmãos (tios postiços de Gaspar) todos tentaram ser padres em seu país de origem e a padroeira da região é a mesma da congregação de Gaspar. Contou-me ainda que a família do

padrasto, tendo se mudado para um país da América do Sul, era dos chamados festeiros, sendo considerados líderes da comunidade. Tanto Gaspar como eu achamos muito interessantes e estranhas estas ligações todas. No entanto ele não demonstrou emoção alguma em relação ao assunto e tampouco quanto às possíveis ligações espirituais entre ele e seu padrasto. Pareceu ser cético quanto ao assunto, nada disso fez com que vibrasse. Percebi rancor em sua voz.

Atualmente não conversa com o padrasto em respeito à sua mãe que sofreu muito nas mãos dele. Parece ter se conscientizado da violência da qual eram vítimas. E da dificuldade da mãe em fazer escolhas saudáveis já que sua quarta experiência amorosa resultou numa união de muitos anos com um homem doente do qual cuidou como enfermeira até sua morte. Fiquei então sabendo que o motivo da abrupta fuga da mãe para a casa de seus avós maternos (ele com 13 anos) foi a traição da mesma com o cunhado, irmão do pai. Enumerou desse modo: primeiro foi meu pai biológico, depois o padrasto, aí meu tio e no fim aquele “traste”. Este último não era pessoa ruim mas a teria “sugado” até a morte, advinda de doença anterior ao relacionamento com sua mãe.

As estórias se alternavam: ora falava da infância, ora falava de fatos vividos na comunidade. Quanto a esta última os relatos se dividiam assim: suas proezas e soluções para compras, consertos, relacionamento com fieis e, de outro lado, os desapontamentos geralmente causados por colegas e, às vezes, por padres ou superiores diretos. Segundo me contou, é um dos poucos na casa de formação que não se importa de cuidar dos idosos e fornecer-lhes cuidados paliativos para seus problemas de envelhecimento. Contava ter feito a barba de algum, ouvido as memórias de outros, caminhado no pátio interno com aqueles que ainda podiam andar. É ele também o acompanhante quando há internações hospitalares e quem permanece junto ao confrade que está em vias de morrer. Disse-me: “gosto de dar suporte a quem está para morrer”.

Segue o relato da morte da avó materna: A mesma já estava cega e talvez com alguma degeneração senil de forma que ficava o tempo todo vendo cachorros que a atacavam. Junto a seus irmãos, encenava repetidas vezes a expulsão do animal jogando pedaços de pau e gritando. Isto a acalmava. Com ela permaneceu até o último suspiro e os atendentes lhe perguntaram se era sua mãe. O fato é que os 16 anos de diferença entre ele e a mãe fazia com que parecesse serem irmãos, o que suscitou a confusão entre os funcionários. Essa falta de fronteiras geracionais o

persegue desde a infância: com sete anos cuidava da casa e fazia comida para os irmãos. Sua mãe saía para trabalhar e “esquecia que tinha filhos”. (A inversão de papeis e a não delimitação geracional apareceram também nos relatos de Melquior e Balthazar, lembram-se?).

Com 18 anos tornou-se o administrador das finanças de um casal de comerciantes que dependiam dele para tudo. Foi desse emprego que saiu direto para o seminário por não se sentir feliz. Referindo-se à traição cometida pela mãe, disse ainda: “Eta (sic) vingança mais sem graça, ele era pior que meu pai (o cunhado). Outro furo n’água de minha mãe. Tem uma cabecinha....” . Às vezes se referia ao padrasto como pai sem se dar conta da ruptura dos 13 anos. Voltava à posição de eu filho do pai herói, posição esta que lhe deu um falso e custoso conforto por muitos anos. Eu percebia claramente tratar-se de núcleo dolorido em sua vida.

Comentários clínicos: Repetia sem perceber: “Você imagina em 1980, minha mãe era mãe solteira!”, cicatriz que doía quando seu tempo psicológico estava para mudar. Observei que quando dizia isto, estava triste, desapontado, enfim amargando um conflito comunitário. Não dava para saber quem nasceu primeiro, se o ovo, se a galinha. Teria ficado triste e então teria visto algo errado no cotidiano da vida comunitária? Ou a vida comunitária teria reportado aos momentos difíceis que vivera em sua casa de infância?

De modo traumático, sua ingenuidade fora ferida. Era um menino prestes a mudar a voz aos 13 anos e recebeu a informação que temia: o pai herói não era seu pai de sangue. Calou-se. Quando saiu do silêncio, não era mais criança, havia entrado na adolescência. ‘A voz dele engrossou!’ ouviu alguém dizer, o que fez com que se retraísse novamente. Essa retração durou pouco tempo, segundo me contou, e então passou a ser ‘tagarela’, modo que o identifica até hoje. Anos mais tarde o fato se repetiria (mudança de voz) quando fazia Filosofia, o que mais adiante relatarei.

Confiou muito na vida comunitária: um por todos, todos por um. Como pensava ser sua família: cuidaria dos irmãos, da casa, para que sua mãe pudesse trabalhar e engordar o orçamento de todos. Depois seria sua vez: estudaria e a irmã faria as tarefas de casa. “Aquilo era um saco sem fundo, quanto mais eu fazia, mais eles se encostavam”. Nada se deu como Gaspar havia imaginado.

Sua família - ou a ilusão de que tinha uma família- havia se esvaído na narrativa que contou seu maior desapontamento. Havia escrito em seu caderno de memórias e certa vez o trouxe para que lêssemos juntos, apesar de eu conhecer essa passagem de sua vida. Copio a seguir seu relato ao diário73:

Meu pai e minha mãe brigavam muito. Ele batia nela e em mim também. Sempre achei que era para me educar. Achava normal. Como ele trabalhava no mar, havia duas casas. Quando ele estava era uma coisa, tudo arrumado, refeição na hora certa, crianças quietas. Quando ele ia para o mar, tudo ao contrário, sem horários, casa em desordem. Uma vez após uma briga minha mãe fugiu para a casa de meus avós. Eu chorava muito, queria voltar para a casa. Dizia que queria meu pai. Uma tia minha ficou revoltada e disse para eu parar de chorar por ele já que ele nem era meu pai. Meu mundo caiu, fiquei muito tempo calado, não falava do assunto. Quando minha mãe começou a querer voltar, eu alertei: ‘Vamos voltar mesmo? E vai começar tudo de novo?’ Ela voltou e eu fiquei em casa de meus avós. Lá passei a freqüentar o grupo de jovens e conhecer a vida de igreja. Lá me encontrei comigo e passei a ser devoto mariano.

Peço-lhe que amplie a memória e Gaspar, levantando-se da cadeira para mostrar com gestos o que ia relatar, conta:

O pé de minha irmã menor... saía sangue. Ele (o pai) jogou a gente para fora da casa, trancou a porta para bater na minha mãe. Peguei um tijolo e pensei que se eu jogasse na janela alta cairia no fogão e ele pararia de bater. Mas eu era fraco e o tijolo nem foi tão alto e caiu no pé da minha irmã que sangrou mais e ela chorava muito. Os vizinhos chamaram minha tia que era mais valente, não era igual minha mãe. Foi ela que abriu a porta e minha mãe saiu.

Pergunto se o padrasto fazia isso alcoolizado. Gaspar responde: “Não, de maldade mesmo. (com voz diferente)”. Este diálogo nosso me impressionou muito. Havia trazido o caderno para lermos juntos, fiz uma pergunta e uma nova e traumática estória veio à tona. À posição de eu organizada, sistemática se contrapôs a posição traumatizada, impotente, dolorida. A máquina começava a falhar e, com isso eu ia conhecendo seus mecanismos. Na falha do sistema é que encontrei o mais verdadeiro de Gaspar: sua sensibilidade, sua timidez, sua dor, contrapontos da eficiência, da ação no mundo, da rigidez com que denunciava os erros dos confrades.

73 Cf Belzen, 2010, p. 332. O autor afirma que para o psicólogo interessado em religião, as auto- biografias tem importância por fornecer informações sobre o desenvolvimento da religiosidade pessoal e a influência que certas formas de religião podem exercer no desenvolvimento da personalidade.