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BÖLÜM III :YÖNTEM

Fotoğraf 9. 1934 Yılına ait üç etek gelinlik

Hamlet passa a ser controlado pelo retorno do Fantasma. Para Derrida (1994), este retorno do espectro constitui uma poética particular, uma espécie de espectropoética. Nela, o sentido nunca está fechado e sua totalização é uma impossibilidade. A espectralidade passa a ser uma forma de se abordar um determinado aspecto e está associada à desconstrução porque é preciso afastar o simulacro, as aparências, as aparições e as ilusões. Para Richard Halpern (2001)

a espectropoética de Derrida trata da “...efetividade do espectro que depende de um tempo no qual a aparente solidez e a autosuficiência do presente são desfeitas pelas queixas reais do passado e do futuro, deslocando a ontologia para com o que Derrida chama de hantologie” (p. 33). A (des)articulação fantasmática de Derrida, que ele denomina espectropoética, é uma inspiração shakesperiana que permite que Hamlet retorne e ocupe obsessivamente os discursos.

A espectralidade opera através de uma lógica própria. Sendo um corpo descorporificado, nem morto nem vivo, presença que é também ausência, o espectro ocupa o entrelugar, cuja impossibilidade de nomeação desafia a semântica, a ontologia e a psicanálise. Sendo o espectro uma coisa que não é uma coisa, mas uma quase-coisa, ele nos observa, nos olha, mas não o vemos. A essa dissimetria que se instaura entre o ver e a condição de não ser visto, Derrida chama de efeito de viseira (1994, p. 22-23): quando não vemos aquele que nos olha, ficamos entregues à sua voz e acreditamos na sua palavra. Ao que ouve, só resta obedecer àquele que faz as leis. Nós apenas as herdamos. Ao obedecer à injunção do fantasma, condicionamo-nos, submetemo-nos cegamente. Derrida (1994, p. 24) discute o fato de que Hamlet obedece cegamente às ordens do Fantasma que, vestido com sua armadura, esconde sua verdadeira identidade. Hamlet quer certificar-se da identidade do espectro ao falar com Horacio, saber se era mesmo seu pai. Derrida (1994, p. 24-25) resolve o problema da identidade do Rei, ou do espírito do Rei, explicando que esta questão pode ser decomposta em três pontos. Em primeiro lugar, há o luto, cujo trabalho é identificar os restos, certificar-se de que os despojos podem ser identificados e localizados, mas sobretudo é preciso assegurar-se de que há restos e que eles são traçáveis e identificáveis. Em um segundo momento, a língua exerce papel de grande importância, pois é ela que substitui “o corpo” na esfera da linguagem, no discurso. E, finalmente, é preciso entender que há transformação, que o corpo se transforma em espírito. A coisa precisa exibir potencial de transformação.

Podemos dizer que a aparição do espectro é ambivalente, pois é aparição pela primeira vez ao mesmo tempo que é reaparição. De acordo com Derrida (1994, p. 26) cada aparição é um retorno e um evento novo, pois um espectro é sempre um retornante. Não se tem meios de controlar suas idas e vindas porque ele começa por retornar. No espírito que aparece pela primeira vez como uma segunda vez, como um re-vir, figura ao mesmo tempo algo de morto e de vivo, algo que conhecemos e que não conhecemos. Nas dobras da iteração, que desde a primeira aparição teatral já caracterizava uma repetição, os espectros e suas idas e vindas passam a configurar uma lógica da obsessão, uma obsidiologia, mais extensa e mais poderosa que uma ontologia ou um pensamento do ser, abrigando em si, mas como lugares circunscritos

ou efeitos particulares, a escatologia e a teleologia. A obsidiologia não pertence à ontologia, nem ao discurso sobre o ser do ente, nem à essência da vida ou da morte, mas a uma economia que Derrida considera categoria irredutível a tudo o que ela torna possível, a ontologia, a teologia, a onto-teologia positiva ou negativa, e que passa a ser uma dimensão da interpretação performativa, uma interpretação que transforma aquilo mesmo que interpreta (DERRIDA, 1994, p. 75). As adaptações de Hamlet se constituem em um jogo da espectralidade por tratar-se de uma obra que está no centro da literatura ocidental. Diante dela, há o furor da reapropriação, a recorrência de adaptações no teatro, que leva a uma acumulação de camadas espectrais.

Derrida nos coloca, assim, diante de uma dívida para com Marx, diante da tarefa do herdeiro enlutado, cujo desdobramento nos leva a questionar o endividamento de Hamlet e sua tarefa, havendo sempre algo de incapturável nas obras, que se movem, resistem e desafiam, semelhantes ao fantasma. A lógica da adaptação opera de forma semelhante ao movimento do fantasma, ao trabalho dos espectros. As adaptações são habitadas por Hamlet, frequentam este texto, sem necessariamente residir nele do mesmo modo que a obra original se adere a outros textos. Torna-se, portanto, o papel do leitor das adaptações de Hamlet, tal qual o do intelectual, o de identificar os lugares habitados pelos fantasmas e interagir com eles, de forma que se possa fazer emergir a(s) voz(es) do espectro.

Viria então a justiça para compensar o erro, restituir o débito, reparar a injustiça ou rearticular como é preciso a disjunção do tempo presente? Derrida entende que a justiça seja o acordo, enquanto a injustiça seria a disjunção ou o desajuntamento (p. 45). Assim, o fato de Hamlet buscar a vingança é um deslocar-se disjuntamente no ser e no tempo, de forma a provocar o mal, inevitavelmente. O desejo de vingança de Hamlet encontra-se no passado (o fantasma) ou no futuro (a promessa de retorno do fantasma), denunciando uma anacronia e sua impossibilidade de realização no presente. Daí o constante adiamento, a posposição de toda promessa ou dívida como resposta à injunção. Para Derrida, o espectro de Hamlet e de Marx está sempre no porvir, por vir e não se apresenta de outra forma senão como uma promessa, mesmo que seja uma promessa de ameaça (cf. p. 59-60). O efeito da espectralidade, dessa forma, ameaça a diferença entre o presente passado e o presente futuro, pois ela duvida da ordem tranquilizadora do presente e tudo o que se lhe pode opor. O tempo passa a figurar como uma ordem de natureza dúbia, podendo o espectro significar uma ameaça em um tempo e outra coisa, em outro:

Por que o espectro é sentido, nos dois casos, como uma ameaça? Qual é o tempo e qual é a história de um espectro? Há um presente do espectro? Dispõe

ele suas idas e vindas conforme a sucessão linear de um antes e um depois, entre um presente-passado, um presente-presente e um presente-futuro, entre um

“tempo real” e um “tempo diferido? (DERRIDA, 1994, p. 60).

Segundo Derrida, o segredo para aliar-se contra o espectro e ler a adaptação/apropriação é a “conjuração”. Este termo refere-se ao que faz surgir o sentido e o produz e que capitaliza duas ordens de sentidos diferentes. Conjurar, em primeiro lugar, significa uma conspiração daqueles que juram juntos contra um poder superior, referindo-se àquela conjuração que Hamlet invoca e que a aparição impõe para manter o sigilo (p. 61-62). Em um segundo momento, conjurar pode se referir à encantação mágica destinada a evocar um feitiço ou um espírito, pela voz e que faz vir o que não está presente no momento do chamado, mas o que realmente aparece é o seu “efeito” (p. 62). Dessa segunda possibilidade da conjuração, Derrida chama a atenção para os efeitos, para a diferença entre a essência e o efeito, o espectro, o simulacro, a que ele chama de “fantasmalização do próprio” (p. 63). Um exemplo desse “efeito” é a nossa relação como o dinheiro. O papel moeda não reflete seu real valor.

Há ainda uma terceira faceta da conjuração que pode ser entendida como uma aliança política secreta, complô ou conspiração, para tratar de neutralizar uma hegemonia ou de derrubar um poder em forma de alianças em nome de interesses comuns contra adversários políticos. Sendo assim, conjurar pode significar também exorcisar, tentar destruir e contestar uma força maligna, endemoninhada, endiabrada, um espírito malfeitor, um espectro, uma espécie de fantasma que retorna ou que ainda pode retornar, de forma a reafirmar e confirmar que o morto está de fato morto (cf. p. 70-71).