1.7. Araştırma Konusuyla İlgili Çalışmalar
1.7.1. Yüksek Lisans ve Doktora Çalışmaları
Os amadores do Club Dramático Arthur Azevedo, no final do mês de março de 1916, já anunciavam em seu jornal que brevemente encenariam A mulher soldado379. No mesmo dia, O Zuavo informou: “Subirá à cena no próximo mês rigorosamente montada a engraçada opereta “28 dias de Clarinha” ou a “Mulher soldado” que consta mais de 500 representações e representada pelas melhores companhias de operetas”380
. Cinco dias depois, 04 de abril, o grupo Arthur Azevedo comunicou que na semana seguinte começariam os ensaios da “opereta militar de grande sucesso”. A peça ganhou o adjetivo “militar” que nos aponta para uma das motivações que teria levado o grupo a encená-la. Seu enredo abordava a vida de militares, o ambiente de um quartel.
A cidade que há muito abrigava unidades do exército, de certa forma, se veria nos palcos. E os militares, alguns membros da diretoria do grupo amador, teriam a oportunidade de expor suas virtudes ao servir à pátria. Além disso, o anúncio, assim como o informe anterior de O Zuavo, também prometia sensações: a peça faria o público rir e seria montada “com o máximo rigor de encenação. Cenários de grande efeito, pintados pelo distinto
379 O Theatro, nº 2, de 30 de março de 1916 (Álbum 1, p.37). 380 O Zuavo de 02 de abril de 1916 (Álbum 13, p.17v).
conterrâneo Cap. Samuel Soares”381
. O anúncio garantia que os efeitos do cenário, as sensações que ele provocaria eram legítimas, vindas do pincel de um homem distinto, que se revelava um artista. O programa do espetáculo, publicado no jornal distribuído pelo clube
Arthur Azevedo na noite de estreia da opereta, destacou que “os cenários do 1º e 3º ato, foram
pintados especialmente para esta opereta, pelo distinto conterrâneo Sr. Cap. Samuel Soares de Almeida o qual mais uma vez revelou os seus dotes artísticos, apresentando um belo trabalho cenográfico”382
.
Prometia-se uma série de prazeres para olhos e ouvidos, ao mesmo tempo em que se expunha o poder daquele grupo, econômico, artístico e social, ao empreender espetáculo daquela complexidade. O grupo foi capaz de reunir “numerosa comparsaria”, ou seja, de envolver diversas pessoas em cena; de preparar cenários novos e figurinos confeccionados, pelo amador Altamiro Neves, especialmente para a peça. “A parte musical foi ensaiada sob a direção da eximia pianista, professora D. Balbininha Santhiago, a quem o club deve o maior realce desta peça e a quem apresenta os seus sinceros agradecimentos pela boa vontade com que o tem auxiliado”383.
Nessa mesma folha, distribuída no dia da estreia de A Mulher Soldado (12/05/1916), Theophilo Silveira escreveu um longo artigo sobre a relação da cidade com a música, citando os grandes músicos são-joanenses já falecidos e aqueles que se destacavam naquele período. O autor festejava o momento vivido em São João del-Rei, em que a música extrapolou o espaço do sagrado e ganhou o teatro, momento do grande encontro entre a música e o teatro que teria rendido alguns triunfos, como a encenação de Terra ideal, O Periquito,
Gramophone e Discos e Fitas. Tal desenvolvimento lhe permitia acreditar que também a
representação de Mulher Soldado seria um sucesso. Uma declaração como essa no material impresso distribuído no dia da estreia da peça preparava o público para “reconhecer” tal sucesso.
Silveira foi autorizado pela diretoria do clube a assistir dois ensaios da opereta e se mostrou encantado com o trabalho da “Exma. Sra. D. Balbininha Santhiago, a distintíssima professora que S. João d’El-Rey inteiro conhece e, porque a conhece, a estima, a admira,
381 O Theatro, nº 3, de 04 de abril de 1916, p.1. (Álbum 1, p.38). 382 O Theatro, nº 4, de 12 de maio de 1916, p.3. (Álbum 1, p.39). 383 O Theatro, nº 4, de 12 de maio de 1916, p.3. (Álbum 1, p.39).
respeita, acata e venera”384
. Segundo Silveira, o trabalho da pianista foi imprescindível para garantir a harmonia entre a cena e a orquestra:
(...) tal foi a perfeição com que se desempenhou desse encargo que o maestro João Pequeno pode volta-se inteiramente descansado sobre o que ia por lá, com maior empenho, à direção da orquestra e do conjunto orquestra-palco, tornando mais fortes os seus liames de solidariedade, esses esforços tendo sido coroados de magnifico êxito385.
O espetáculo, portanto, seria um grande evento, prestigiado pelo trabalho de músicos importantes da cidade: a pianista Balbininha, professora da amadora Margarida Pimentel, sua neta, que teve grande destaque encenando o protagonista de O Periquito. Muito possivelmente Balbininha era conhecida por seu trabalho como professora de música de algumas senhoritas da elite são-joanense386; e o maestro João Pequeno, diretor da orquestra Ribeiro Bastos, que teve seu retrato publicado junto ao artigo de Theophilo Silveira, sinal do prestígio que sua participação conferia ao espetáculo.
O êxito dos amadores com as apresentações de O Periquito e o sucesso que a opereta
A mulher soldado já tinha conquistado no Rio de Janeiro contribuíram para a construção, pela
imprensa e pelo jornal do clube, da ideia de que esta estreia seria um “extraordinário” espetáculo. Nesse dia, o grupo avisou em sua folha que os camarotes e cadeiras para a primeira representação e os camarotes para a segunda récita da A Mulher Soldado já estavam esgotados e que havia um pequeno número de bilhetes a venda na casa comercial do tesoureiro do clube, Oscar Ferreira. Antes da estreia, portanto, grande parte dos bilhetes já estava vendida.
384 O Theatro, nº 4, de 12 de maio de 1916, p.1. (Álbum 1, p.39). 385 O Theatro, nº 4, de 12 de maio de 1916, p.1. (Álbum 1, p.39). 386
Balbininha Santhiago aparece nas fontes como ensaiadora da parte musical e colaboradora do clube Arthur Azevedo, mas também, existem dados sobre suas apresentações juntamente com algumas senhoritas da elite nas festas das famílias são-joanenses. A festa de aniversário, em que a amadora Margarida Pimentel comemorou seus 14 anos completos, foi recheada de pequenas manifestações de talentos. O tenente Américo dos Santos fez um discurso em homenagem à aniversariante, o quinteto do cinema se apresentou junto com a aniversariante ao piano, ela também cantou Flor do mal de Luiz Moreira, a senhora Petita Silva, esposa de Benedito Silva cantou com sua “maviosíssima voz” Il Libro Santo. “A Exma. Sra. D. Balbininha Santiago fez os acompanhamentos ao piano, e a senhorita Celia Ribeiro da Silva ao violino magistralmente executado, fez dueto ao canto da Exma. Sra. D. Petita” (O Theatro, nº 7, de 21 de junho de 1916, p.1. Álbum 13, p.27). Por ocasião do aniversário do Dr. Ribeiro da Silva, também, em meio a diversas manifestações de talentos musicais, Balbininha apresenta “belíssimo dueto” acompanhando ao piano o canto da “senhorita Célia Ribeiro da Silva” (O Theatro, nº 10, de 24 de agosto de 1916, p.2. (Álbum 13, p.31).
A expectativa criada em torno dessa apresentação foi tamanha que causou grande tensão e ansiedade aos amadores na noite de estreia. Sousa Bastos, no verbete “Primeira representação”, comenta que “em Paris, as primeiras representações das peças são feitas à porta fechada, isto é, não se vendem lugares para elas, a fim de que o público se não possa manifestar hostilmente” (1908, p.116). Assim, eram convidados para as estreias homens da imprensa, familiares, escritores e artistas que assistiam a encenação gratuitamente.
Era comum, como é até hoje, que os nervos ficassem à flor da pele numa noite de estreia. Os riscos de cometer erros e de desagradar os espectadores eram maiores. No entanto, Theophilo Silveira observa na corriqueira tensão da estreia, algo de outra ordem, para ele aquela apreensão sinalizava o nível de desenvolvimento do clube dramático:
As representações da Mulher Soldado deixaram-me a impressão de que os amadores do Club Dramático Arthur Azevedo estão fazendo Arte, e muito boa Arte. Consequência dessa preocupação de fazer Arte foi o estado de espírito de todos eles no dia da primeira representação da Mulher Soldado, estado de espírito esse caracterizado por uma grande apreensão acerca do sucesso da exibição da peça, apreensão que, apesar do esforço que despendiam para o domínio de si próprios, era denunciada pela alta tensão nervosa que os assomou, a todos387.
Silveira acreditava que aquela apreensão era própria de grupos que faziam “Arte (com letra maiúscula), a boa Arte”. Para um grupo amador sobre o qual o público não tinha grandes expectativas, estrear uma peça possivelmente era mais tranquilo, pois, esperava-se do público certa indulgência ao conjunto de pessoas esforçadas, que não dominava plenamente a arte. Silveira percebe, então, que do Club D. Arthur Azevedo esperava-se mais, a expectativa gerada “acerca do sucesso da exibição” era sinal de que a agremiação teria alcançado o nível de desenvolvimento de grandes artistas. Theophilo Silveira justificou o nervosismo dos amadores:
Essa tensão nervosa, restringidas as suas manifestações pela boa educação dos amadores, exibia-se através de um fenômeno curioso, que era a
387 O Theatro, nº 8, de 13 de julho de 1916, p.1.(Álbum 1, p.42). O artigo de Theophilo Silveira foi escrito logo
após a estreia, porém, ele só foi publicado dois meses depois pela folha do clube dramático. O redator explicou no exemplar nº 7 de 21 de junho de 1916, p.2, que: “Por motivo de pequeno espaço de que dispomos fomos forçados a adiar a publicação das tiras que relativamente à Mulher Soldado nos enviou o nosso colaborador Sr. Theophilo Silveira, apesar de terem sido recebidas antes das que hoje publicamos a respeito da Terra ideal: esta [preceder eia], entretanto, se explica e se justifica pela muita consideração que nos merecem os dignos amadores do Club União Popular” (Álbum 13, p.27).
lembrança, então bem nítida na memória de todos, de ter a peça conseguido manter-se muito tempo no palco, no Rio, agradando sempre, o que a tornou objeto da curiosidade, aqui de muitos que a viram lá, determinado isso, fatalmente, um confronto, necessariamente, desfavorável aos amadores: o curso dos acontecimentos, entretanto, demonstrou, que, mesmo que tal, confronto ilógico tenha sido feito por alguém, dele não saíram mal feridos os amadores do Arthur Azevedo. Dado o estado de espírito dos amadores, essa apreensão parecia justificar-se pelo fato de que um insucesso, qualquer que fosse a sua causa, poderia, senão apagar, ao menos comprometer seriamente o nome do Club que já havia conquistado, com o Periquito, o direito de ser colocado entre os mestres nas coisas do palco. Para aumentar ainda mais a ansiedade dos amadores diversos incidentes, de alcance vário, deram-se desde a manhã do dia da representação até o momento mesmo em que ela começava: entre vários, lembrarei a moléstia de que repentinamente foi acometido o sr. Carlos Neves e que o impediria de representar, forçando o adiamento da exibição da peça, se não fosse a solidariedade de seus sentimentos com os seus companheiros, tendo entrado em cena visivelmente doente (...)388
O autor, ao mesmo tempo em que justificava as falhas da estreia, como sinal de uma competência artística, afirmava a injustiça em comparar o clube às grandes companhias do Rio, ainda que, para ele, os amadores tivessem demonstrado que eram comparáveis – “o curso dos acontecimentos, entretanto, demonstrou, que, mesmo que tal, confronto ilógico tenha sido feito por alguém, dele não saíram mal feridos os amadores do Arthur Azevedo”389.
Observamos, portanto, que amadores e público desejavam encenar/assistir no palco são-joanense o sucesso da representação que conseguiu manter-se, por longo tempo, nos palcos do Rio; desejavam que o grupo reforçasse seu direito de ser colocado entre os mestres nas coisas do palco. Desejos pelos prazeres da encenação, pelo prazer de ser equiparado à “sociedade civilizada” do Rio de Janeiro.
Após longa apreciação da estreia, Silveira conclui o artigo dizendo que nas outras duas representações da opereta não ocorreram os incidentes como aqueles da primeira exibição, “de modo que apareceram com maior fulgor a belas qualidades da peça e dos que a desempenharam, no palco e na orquestra”390. Assim a opereta A Mulher Soldado se constituía como mais um triunfo alcançado pelo clube.
A imprensa local noticiou a primeira encenação da opereta e suas reprises com bastante entusiasmo. O redator do jornal A Tribuna, de 14 de maio de 1916, deixou explícita
388 O Theatro, nº 8, de 13 de julho de 1916, p.1.(Álbum 1, p.42). 389 O Theatro, nº 8, de 13 de julho de 1916, p.1.(Álbum 1, p.42). 390 O Theatro, nº 8, de 13 de julho de 1916, p.2.(Álbum 1, p.42).
sua alegria diante da vida teatral de São João del-Rei naquele período, e parabenizou o clube
Arthur Azevedo pela estreia da opereta Mulher Soldado da seguinte maneira:
A Mulher Soldado, levada anteontem, em "première", agradou imensamente com especialidade os 1º e 2º atos que trouxeram a plateia em francas e ininterruptas gargalhadas. Foi um belo espetáculo esse que o Club Arthur Azevedo proporcionou à plateia s. joanense. Boa música, coros afinados, excelentes encenação e marcação.391
O Zuavo, publicado quatro dias depois, destacou que o Arthur Azevedo teria revelado
que possuía “elementos para montar as mais finas e custosas operetas que conhecemos, sendo de esperar-se que os seus amadores cada vez mais entusiasmados por este gênero de Teatro, nos prodigalizem constantemente sensações agradáveis em belas horas de riso e franco prazer como aconteceu nas duas representações da Mulher Soldado”392
.
O Tempo comentou a apresentação do dia 21 de junho de 1916, destacando o
desempenho da “engraçadíssima opereta” “feito com galhardia e de uma maneira simplesmente admirável”393. O Zuavo de 25 de setembro daquele ano publicou uma carta, de um de seus leitores, intitulada Au currente Calamo. Escrevendo ainda sob os efeitos da “magnífica expressão que trouxe do espetáculo levado a efeito” no dia 17, o autor da carta avaliou:
A mulher Soldado peça que foi levada à cena, com o capricho de encenação e marcação que tanto caracteriza a direção de Alberto Gomes, esteve primorosa e diga-se a bem da verdade, excedeu a expectativa de todos que tiveram a ventura de assistir à representação da interessante opereta que nos teatros do Rio tanto sucesso alcançou394.
O clube teria, portanto, alcançado as glórias das grandes companhias do Rio e recebia elogios e “calorosas”395
felicitações da imprensa e do público. A Mulher Soldado agradou “imensamente”, pois oferecia sensações prazerosas, como a oportunidade de ouvir boa música, coros afinados; de relaxar e gargalhar ininterruptamente; de contemplar as belezas do cenário e dos figurinos; e de apreciar uma encenação impecável.
391 A Tribuna de 14 de maio de 1916, álbum1, p.39v). 392
O Zuavo de 18 de maio de 1916. (Álbum 1, p.39v).
393 O Tempo, de 25 de junho de 1916. (Álbum 13, p.26v). 394 O Zuavo de 25 de setembro de 1916. (Álbum 13, p.34). 395 O Zuavo de 18 de maio de 1916. (Álbum 1, p.39v).
O sucesso dessa opereta passava, portanto, por uma relação de trocas: espectadores e amadores afetaram-se por sensações provocadas pela poética da encenação que reforçou e/ou constituiu sensibilidades. No teatro, corpos se expunham para provocar o riso, expunham medos, desejos proibidos que eram recalcados pela gargalhada. Corpos expunham novas maneiras de vestir-se, as modas de sociedades civilizadas. Expunham as belezas dos encontros, dos gestos, das palavras, do canto e da música para serem contemplados. Esses corpos eram afetados pelas salvas de palmas, pelos risos e pelos elogios do público. Espetáculos como esses se davam pela motivação dos que subiam aos palcos e daqueles que ocupavam a plateia. Os primeiros desejavam provocar o prazer e serem acolhidos calorosamente, de modo a afetarem-se no meio social a que pertenciam. Já a plateia desejava os prazeres do riso, da gargalhada, e da contemplação de belezas.
8 - OPERETAS EM CENA: A ESTRUTURA NARRATIVA DE O PERIQUITO E A