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Considerando os elementos mais relevantes para a performance desta canção, observamos uma certa continuidade nas canções até o momento, pois na primeira canção identificamos o pedal na nota lá, depois na nota fá e voltando em seguida ao lá, notamos que essas duas notas serão também importantes nesta próxima Peça pois a canção inicia com uma quinta justa sobre o fá no piano e a primeira nota na melodia da voz é a nota fá. Já podemos observar também que o ápice da canção se dará na nota lá, a mais aguda da melodia que aparecerá no meio e no final da Peça.

ambiência dada pelo poeta de uma floresta escura e sombria, trazendo à tona uma verdadeira pintura em forma de Música nessa relação texto-música.

Em Zielone slowa, Szymanowski continua a utilizar as relações de semitom como elemento importante, mas aqui de forma diferente, observamos as relações de forma mais vertical, menos linear como foi na primeira canção. Já no segundo compasso identificamos essa relação no ré bemol com o dó natural no piano e, mais à frente na melodia do soprano, temos uma frase descendente onde encontramos do, si bemol, lá (FIGURA 14).

Figura 14 - Zielone slowa - compassos 2 ao 4

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 95).

Percebemos também o pedal no fá por seis compassos, e uma ideia de sustentação dessa nota também na voz do soprano, como se melodia fosse composta por ornamentos que levam sempre a essa nota, isso acontece até o compasso 8 (FIGURA 15).

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 95).

A quinta justa formada pelo pedal em fá no piano começa a descer no compasso 7 (FIGURA 15), formando quinta entre mi e si e, logo em seguida, mi bemol e si bemol, cai mais um semitom no compasso 11 para ré e lá e no compasso 13 cai para dó sustenido e sol sustenido, chegando a dó e sol no compasso 14 (FIGURA 16).

Figura 16 - Zielone slowa - compassos 11 ao 14

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 96).

Observando que a Peça iniciou em fá e chegou a dó, poderíamos considerar uma chegada na dominante, apenas uma sugestão, sabendo que Szymanowski não compõe peças tonais mas nos dá algumas sugestões tonais dentro de suas peças.

Observamos também algumas frases com tons inteiros na linha do soprano, tanto nos compassos 4 e 5 quanto nos compassos 6 e 7. É relevante o intérprete perceber a importância que deve dar às sustentações escritas pelo compositor através das fermatas na melodia vocal, iniciando um caminho ascendente até o lá com repetidas notas fá, no grave e agudo, até chegar ao ápice no compasso 9, sendo repetido o lá no compasso 11, enquanto que o baixo no piano faz um caminho inverso, uma descida em semitons do intervalo de quinta. A voz, no compasso 11, passa novamente por uma frase em tons inteiros e termina essa primeira seção da Peça (FIGURA 17).

Figura 17 - Zielone slowa - compassos 9 ao 13

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 96).

A segunda seção da Peça Poco avvivando, inicia com a mudança de andamento e com o texto falando da água que murmura e canta nas ervas, assim como na primeira Peça há uma mudança também na textura harmônica. O intervalo de quinta justa no piano (dó – sol) aparece soando como a dominante de fá, e na melodia da voz que antes havia chegado a um lá, temos a nota mi, novamente sugerindo uma dominante.

O intérprete deve dar uma atenção especial ao intervalo de segunda aumentada que aparece logo no segundo compasso dessa nova seção (do sustenido – si bemol) remetendo o ouvinte às escalas exóticas, mudando o caráter da Peça e dando uma nova sensação musical. Na primeira seção, não havíamos encontrado essa textura mas sim escalas de tons inteiros e arpejos quase completos de acordes tradicionais, como pudemos encontrar no compasso 4, acorde de fá maior com sétima e no compasso 8, o acorde de si meio diminuto com sétima (FIGURA 18).

Figura 18 - Zielone slowa - compassos 4 e 8

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 95-96).

Salienta-se a importância do intérprete observar o intervalo de segunda aumentada para a utilização de cores e intenções particulares nesse trecho da obra, e perceber que no piano surge um tetracorde que se repete durante oito compassos, inicialmente com as notas mi, ré, do sustenido e si bemol e, em seguida, com sol sustenido, fá sustenido, ré sustenido e dó dobrado sustenido. Também aparece nesse trecho um outro pedal durante quatro compassos com mi bemol e mais quatro compassos com ré sustenido (FIGURA 19).

Figura 19 - Zielone slowa - compassos 15 e 16 / 20 e 21

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 96).

No compasso 23, a frase melódica é similar a frase do compasso 8, embora um seja um arpejo de acorde menor e outro meio diminuto podemos perceber a grande similaridade, inclusive no texto (FIGURA 20).

Figura 20 - Zielone slowa - compassos 8 e 23

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 96).

Esse momento se comporta como uma ponte para a terceira seção da Peça, observando também o baixo que vai caindo de ré sustenido para ré, a partir do compasso 23 durante três compassos, e depois de dó sustenido, no compasso 26 por mais três compassos, para dó, isso já no compasso 29 onde se inicia a seção C (FIGURA 21).

Figura 21 - Zielone slowa - compassos 25 ao 29

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 97).

No início da seção C então, veremos a quinta justa entre dó e sol no piano fazendo um paralelismo com o trecho inicial em fá e dó, que se desenvolveu cromaticamente até chegar em dó e sol, permanecendo nos compassos 15 ao 18, porém o baixo se tornou mi bemol por oito compassos, e esse mi bemol também caiu para ré, do sustenido, até chegar novamente ao dó com a quinta justa no compasso 29, bem similar ao que aconteceu na primeira seção da Peça. Essas informações tornam possível a criação de uma unidade na canção, pois embora haja três seções diferentes, o intérprete percebe elementos musicais que são inerentes a todas elas.

O soprano, a partir do compasso 15, tem uma melodia sinuosa descendente iniciando no mi e voltando a ele quatro compassos depois, em seguida imita novamente esse movimento da melodia alguns tons abaixo, iniciando em sol sustenido e voltando a essa nota também quatro compassos depois (FIGURA 22). No compasso 23, a melodia inicia sua subida deixando o ouvinte ansioso pela escuta da nota lá, ápice da Peça na primeira seção. A melodia ascende gradativamente com ré sustenido no compasso 23, depois mi sustenido no compasso 24, mi e depois sol sustenido no compasso 27 (FIGURA 23). O intérprete deve levar em consideração que Szymanowski faz intencionalmente esses desenhos melódicos ascendentes a fim de criar uma expectativa e uma lembrança ao intérprete e ao ouvinte das notas mais agudas da Peça.

Figura 22 - Zielone slowa - compassos 15 ao 19

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 96).

Figura 23 - Zielone slowa - compassos 23 e 27

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 96-97).

No più vivo, compasso 29, é o piano que vem lembrar o lá agudo da canção (FIGURA 24) enquanto o soprano inicia sua melodia em lá numa escala exótica e, logo em seguida, vai subir, a partir do compasso 37 com a nota mi, fá sustenido dois compassos depois, sol, e

enfim novamente, o lá agudo no compasso 45. Uma nota preparada desde o início da Peça que retorna nos últimos compassos.

Figura 24 - Zielone slowa - compasso 29

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 97).

Essa terceira seção tem um andamento mais rápido e possui também um pedal em colcheias curtas, dando a sensação do galopar dos cavalos e de uma certa instabilidade rítmica trazida também com a presença da hemiola a partir do compasso 39 e continuando até o compasso 44 no piano (FIGURA 25).

Figura 25 - Zielone slowa - compassos 39 e 40

Fonte: Szymanowski (c1951, p. 97).

É fundamental o intérprete observar que a Peça está claramente dividida em três seções, e na relação com o texto observar que a seção A fala da floresta escura cheia de sombras trazendo uma amplitude de espaço; a seção B por sua vez, fala da água murmurante, com uma pequena ponte a partir do compasso 23, e enfim a seção C será marcada pela figura

dos cavalos e seus galopes onde o piano e o canto devem ressaltar através das dinâmicas e marcações rítmicas, no fim o tão esperado lá agudo, ápice da Peça, deve ser interpretado como uma aproximação ao folclore polonês, ele foi inserido ao poema pelo compositor e deve ser executado de forma orgânica observando bem o sforzando e terminando precisamente com o piano.

Benzer Belgeler