3.2. Dünyadan ve Türkiye’den Seçme Sivil İtaatsizlik Olayları
3.2.1. Wall Street’i İşgal Et (Occupy Wall Sreet- Amerika Birleşik Devletleri) 72
A compreensão da relação de dominação na sociedade capitalista é procedimento complexo em razão do simulacro do papel do Estado que se apresenta como representante legítimo dos anseios do conjunto da sociedade, ocultando seu caráter classista e sua função de perpetuar as relações de produção capitalista: um Estado que encarna a aparência de imparcialidade ante o antagonismo de classes, corporifica-se na forma de uma burocracia onipotente e distante dos interesses sociais em disputa.
Como observa Poulantzas, o Estado capitalista apresenta um traço distinto dos Estados escravista e feudal, nos quais os desiguais eram tratados juridicamente de forma desigual; na esfera jurídica capitalista, os desiguais são tratados como se fossem iguais e aptos a exercer legitimamente atos de vontade. O Estado capitalista aparece como um Estado-nacional-popular-de-classe. Nele, a dominação política de classe está permanentemente ausente das instituições, uma vez que são estabelecidas a partir dos princípios de igualdade e liberdade dos indivíduos. A
legitimidade do Estado emana exatamente da soberania popular, do sufrágio, da “vontade geral”. O sistema jurídico confere racionalidade a essa estrutura, ao substituir o Direito divino dos reis. Nas palavras de Poulantzas “O Estado capitalista moderno apresenta-se, assim, como encarnando o interesse geral de toda a sociedade, substancializado na vontade desse “corpo político” que seria a “nação”. (POULANTZAS, 2008, p.115)
Poulantzas argumenta que há uma conexão objetiva entre a burguesia e o Estado. A função do Estado está circunscrita a uma instância específica, a uma estrutura regional no âmbito da totalidade social, uma vez que cabe ao Estado efetivar a “coesão da unidade de uma formação social” dividida em classes. (POULANTZAS, 1971, p.7). Portanto, o Estado é o fator de coesão de uma formação social, é o fator de reprodução das condições de produção de um sistema, que perpetua a dominação de uma classe sobre as demais. Em síntese, como constata Poulantzas, “o Estado impede que se aniquilem as classes e por via de conseqüência a sociedade”. (POULANTZAS, 1971, p.42)
Dentro desta lógica, na qual o Estado é, ao mesmo tempo, o fator de coesão de uma formação social e o de reprodução das condições de matérias de existência de um sistema econômico, o que mantém a dominação de uma classe sobre as demais, tornar-se necessário, assegurar o “consentimento dos governados”. Como afirma Chomsky “uma sociedade democrática decente deve basear-se no princípio do “consentimento dos governados” (...) e geralmente o obtém, nem sempre pela força. (CHOMSKY, 2004, p.49)
A Indústria Cultural atua nesta esfera, buscando o consentimento sem consentimento. Ela situa-se no campo da produção da consciência e da ideologia, estabelecendo a conexão mediadora entre a estrutura econômica e a jurídica/política. Fora das restrições do âmbito institucional, do jurídico e do político, a produção de idéias atua como um elemento que impulsiona a superestrutura, que, por conseguinte, provoca impactos sobre a estrutura econômica. Por excelência, é o domínio da representação de idéias, da naturalização da desigualdade, da ocultação das contradições e da justificação da racionalidade do capital. A ausência dessa mediação provocaria uma afirmação direta dos setores dominantes mediante a imposição instantânea e dura de seus interesses, aniquilando as próprias acepções de leis e de política. Sem a esfera da produção de idéias, as normas legais mais
toscas se estabeleceriam e o sistema de justificação e adequação à ordem estaria esvaziado. A dominação política ficaria exposta, o que revelaria as contradições sociais.
Sobre o processo de arranjo da coesão social na sociedade de classes, há uma elucidativa contribuição de Chomsky. Ele examina as doutrinas formuladas de modo muito conciso por Edward Bernays, em um revelador manual da indústria das relações públicas, intitulado “Propaganda”. O manual defende, explicitamente, a manipulação sob o argumento de que a “manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizadas das massas, é um importante componente da sociedade democrática”. Bernays considera necessário o “uso contínuo e sistemático da propaganda pelas “minorias informadas”, uma vez que somente elas “compreendem os processos mentais e os padrões sociais das massas”; portanto, apenas as minorias reúnem a competência de “manejar os cordões que controlam a opinião pública”. (CHOMSKY, 2004, p.60-61)
Para Chomsky, dentro dessa lógica, “a nossa sociedade consentiu em aceitar que a livre concorrência fosse organizada pela liderança e pela propaganda”; entretanto, é um “consentimento sem consentimento”. Na sua concepção os veículos de comunicação de massa se tornaram um canal de desinformação atrelado aos interesses dos grandes grupos econômicos. Chomsky demonstra esse atrelamento no processo de construção do consentimento, a partir das formulações de Bernays:
A propaganda proporciona à liderança um mecanismo para “moldar a opinião das massas”, de modo que estas „joguem as forças recém– adquiridas na direção desejada”. A liderança pode “arregimentar a opinião pública exatamente da mesma forma como um exército arregimenta seus soldados. Esse processo de “construção do consentimento” é a essência do processo democrático. (CHOMSKY, 2004. p.60-61)
Para Chomsky, os Estados Unidos podem ser considerados caso paradigmático para se compreender a construção do processo de coesão no mundo capitalista midiatizado de hoje e de amanhã, em razão, dentre outros fatores, do seu poder inigualável de manter a estabilidade de suas instituições. Mas, também, porque os “Estados Unidos estão muito próximos de uma “Tábula Rasa”. Ele considera que, nos Estados Unidos, numa dimensão inusitada, a ordem sóciopolítica foi conscientemente arquitetada. (CHOMSKY, 2004. p. 53)
No que se refere à grande imprensa no Brasil, há com freqüência a prática da manipulação na elaboração do jornalismo, o que permite identificar “padrões de manipulação”, como evidencia Perseu Abramo. Esses padrões caracterizam-se por ocultar os fatos, esvaziá-los de seus vínculos, inverter os aspectos relevantes; ressaltar o efeito em detrimento do conteúdo, substituir a informação pela opinião. Enfim: fragmenta, reordena, descontextualiza, reconstrói os fatos, atribuindo a eles outros significados. Como resultado deste processo, a realidade é:
[...] distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente, a realidade é ainda assim dividida pela Imprensa em realidade do campo do Bem e realidade do campo do Mal, e o leitor/espectador é induzido a acreditar não só que seja assim, mas que assim será eternamente, sem possibilidade de mudança!
[...] A realidade real foi substituída por outra realidade, artificial e irreal, anti- real, e é nesta que o cidadão tem que se mover e agir. De preferência, não agir”. (ABRAMO, 2003, p.34 e 37)
Deste modo, o leitor/telespectador fica impossibilitado de formar uma opinião autônoma acerca da notícia, em razão da grande imprensa ocultar elementos essenciais da composição dos fatos. Como constata Perseu Abramo, alguns fatos nunca serão veiculados pela imprensa, entretanto, outros são apresentados com freqüência. Certos grupos sociais são, recorrentemente, considerados pela grande imprensa, enquanto determinados segmentos são constantemente negligenciados, perpetuando no anonimato. De acordo com Perseu Abramo, a indução à realidade forjada pelos órgãos de imprensa – distinta e em alguns casos antagônica à realidade real – decorre de uma prática de manipulação comum a toda grande imprensa, na qual cada um deles contribui com sua parcela. Obviamente que, quanto mais poderoso for o veículo de comunicação maior será a sua responsabilidade por esta prática.
A realidade publicitária, composta por uma intensa e veloz produção visual, potencializa a técnica de manipulação mediante um universo de imagens, que ganham vida própria e produzem, a partir de elementos do real, uma realidade ficcional. Para além da leitura parcial do real, a indústria cultural fabrica uma nova realidade e os indivíduos ou pseudos-indivíduos transitam nesta esfera da realidade não-real. Neste sentido, a manipulação dos veículos de comunicação de massa transcende o verdadeiro ou falso. O fato ou o produto à venda é trabalhado para ser transmitido e recepcionado como um grande evento, ele é enaltecido como algo grandioso. O discurso grandiloqüente e o jogo de imagens, utilizado na imprensa ou
na peça publicitária, produzem o efeito de conferir por si só, confiabilidade e honestidade, ou seja, um valor intrínseco ao fato ou ao produto. Deste modo, a publicidade constrói uma visão mítica da realidade, assemelhando-se a um prognóstico, a uma profecia que se concretiza meramente como obra de persuasão e técnica do espetáculo. A realidade mitificada é tomada em lugar do real, e é assimilada como verdade, o que demonstra, o poder do conteúdo publicitário na formação da subjetividade.
3.3 O PODER E O PAPEL DA INDÚSTRIA CULTURAL NA FORMAÇÃO DA