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Uma conjunção de acontecimentos ao longo dos anos 80, contribuiu para desencadear o processo denominado por Castells de “Revolução da Tecnologia da Informação”, inaugurando uma nova fase do capitalismo internacional. Notadamente respondem por esta nova fase do capital os avanços científico-tecnológicos no campo da robótica, da microeletrônica e da telemática. A revolução tecnológica em andamento, assentada nas tecnologias da informação, introduz nova reconfiguração na base material da sociedade e modificações significativas nos vínculos entre a

economia, o Estado, a política e a sociedade. O sistema econômico continua a ser capitalista, no entanto, diferentemente dos modelos antecessores históricos, esse modelo de capitalismo é global e está fundado, em larga medida, em circuito de fluxos financeiros. (CASTELLS, 1999, p.489-503)

As características que melhor demarcam essa reconfiguração vinculam-se à intensificação da flexibilidade de gerenciamento; à descentralização das empresas e sua constituição em redes no âmbito interno e na esfera das relações com as demais empresas. Vale salientar, no conjunto destas características, a crescente supremacia do capital em relação ao trabalho, acompanhada pela perda de influência política das organizações de trabalhadores; pela exacerbação do individualismo e pela diversificação progressiva das relações de trabalho, além do ingresso maciço das mulheres no mercado de trabalho - formal e informal, via de regra em condições inferiorizadas. Caracteriza também essa reconfiguração o desmonte do Estado de Bem-Estar Social, produzindo impactos de dimensões e rumos distintos em cada sociedade, condicionados pelos diferentes direcionamentos políticos e pelo caráter das forças e instâncias políticas dos diversos países. (CASTELLS, 1999, p.19-23)

Acha-se em curso um processo de aceleração da concorrência econômica global numa conjuntura de crescente diversificação de cenários geográficos e culturais com vistas à acumulação e à gestão do capital (CASTELLS, 1999, p.19-23). Esse fluxo contribui para a inovação tecnológica, o que não representa uma novidade na história do capitalismo; a singularidade reside hoje no fato dessa inovação tecnológica se dar sem obstáculos, em razão da desregulamentação e da ausência de políticas públicas voltadas para a redução do trabalho vivo.

Tais mudanças não são somente de caráter tecnológico, mas também de cunho geopolítico uma vez que “a globalização introduz uma nova fase no capitalismo monopolista mundial” (DUARTE, 2008, p.101) na qual a principal fonte de produtividade é “a ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos”. (CASTELLS, 1999, p.35)

Os caminhos que possibilitam este transcurso são essencialmente vinculados às tecnologias da informação. A produção contínua de novos componentes tecnológicos propicia o gradual aprimoramento dos meios de geração, processamento e gerenciamento de informações, o que favorece o emprego de

formas cada vez mais sofisticadas e eficazes de otimização de extração de lucro, a partir da administração das informações disponíveis. O emprego do conhecimento e da informação na produção e distribuição de novos conhecimentos e informações gera e desenvolvem os métodos de tratamento das informações em um processo acumulativo e constante movido pela inovação tecnológica e pela maneira como é aplicada.

Nesse sentido, a confluência da progressiva importância da informação nos processos produtivos, com a crescente mercantilização dos bens culturais e com globalização econômica e a disseminação do ideário neoliberal, favorecidos pelo fim da ameaça socialista, possibilita e consolida a “aldeia global” concebida por Marshall McLuhan nos anos 40 (DUARTE, 2008, p.98). Contudo a globalização não implicou a relação de reciprocidade entre os meios de comunicação participantes do mercado mundial, visto que há uma hegemonia estadunidense na produção e transmissão da cultura de massa, segundo Duarte:

(...) em 1991 31% da transmissão televisiva na Europa eram de produtos estadunidenses; Alemanha o índice chegava 67%. Por outro lado, a esmagadora maioria dos de toda produção européia de televisão dessa época – cerca de 90% - nunca deixou seus países de origem... (DUARTE,

2008, p.98)

Deste modo, há também uma distinção essencial entre a adoção de medidas neoliberais nos países centrais e periféricos. Observa-se que nos países centrais, a desregulamentação e as privatizações pontuais vinculam-se a um projeto nacional estratégico de enfrentamento à disputa internacional entre setores cruciais do capital; nos demais, consiste em dilapidar o patrimônio público dessas sociedades, sem qualquer compensação.

Segundo Castells, o conjunto de reformas desencadeadas no final do século XX, no âmbito das instituições e do gerenciamento empresarial, tinha em vista, quatro objetivos principais: intensificar a racionalidade do capital à procura de lucro nas relações entre capital e trabalho; elevar a produtividade do trabalho e do capital; globalizar a produção, a circulação e os mercados, explorando as oportunidades das condições mais favoráveis para a extração e otimização de lucros em todos os lugares e direcionar o apoio estatal para ganhos de produtividade e competitividade das economias nacionais, freqüentemente, em detrimento da proteção social e das normas de interesse público. (CASTELLS, 1999, p.55)

Como observa Denis de Morais a indústria cultural:

Exerce o duplo papel estratégico na contemporaneidade. O primeiro diz respeito à sua condição peculiar de agentes operacionais da globalização, do ponto de vista da enunciação discursiva. Elas não apenas vendem e legitimam o ideário global, como também o transformam no discurso social hegemônico, propagando visões de mundo e modos de vida que transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas. A retórica da globalização intenta incutir a convicção de que a fonte primeira de expressão cultural se mede pelo nível de consumo dos indivíduos e coletividades. Como se somente o mercado pudesse aglutinar o que se convencionou chamar de organização societária. (MORAIS, 2002, p.1)

Como afirma Morais, concerne à indústria cultural desempenhar o papel de sustentação ideológica do capitalismo, com a finalidade de garantir a acumulação do capital. Por meio de seus instrumentos de veiculação constrói-se socialmente uma atmosfera de perspectivas propícias, convence-se parte significativa do público consumidor de que não há alternativa socioeconômica possível exceto nos marcos neoliberais. Trata-se de “fabricar o consenso” sobre a hipotética superioridade das economias abertas e globalizadas. Resta saber, então, como a Indústria Cultural “fabrica o consenso”, como ela atua na formação da subjetividade.