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Almanya’da Meydana Gelmiş Örnek Sivil İtaatsizlik Olayları

2.5. Lev Nikolayeviç Tolstoy

3.1.2. Almanya’da Meydana Gelmiş Örnek Sivil İtaatsizlik Olayları

Falar dos agentes da escola Delta, ou de qualquer outra instituição, é falar de habitus, poderosa ferramenta conceitual reinventada por Bourdieu (após o uso por Aristóteles, Durkheim e Panofsky), diante de uma necessidade empírica de apreender as relações de afinidade entre o comportamento dos agentes e as estruturas e condicionamentos sociais (Setton, 2002, p. 62).

Se retomarmos o conceito, verificamos que habitus pode ser compreendido como

um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas... (Bourdieu, 1983, p 65)

A noção de habitus remete a uma análise relacional que enfatiza o caráter de interdependência entre indivíduo e sociedade e permite, nesta pesquisa, que o “aluno desinteressado” seja encarado como um agente em ação, guiado por um conjunto de disposições incorporadas em forma de esquemas de percepção, apreciação e ação que tiveram sua origem no social e para ele retornam, numa dialética criativa, inventiva, geradora, que nada tem a ver com reprodução cega nem tampouco com produção autoconsciente. O aluno

aqui analisado configura-se, pois, como o produto do encontro entre o habitus – ao mesmo tempo memória sedimentada e sistema aberto a novas experiências – e o campo.

Como instrumento conceptual, a noção de habitus permite também examinar diferentes manifestações de indivíduos expostos às mesmas condições de existência, pois, embora concebido como princípio de correspondência (entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo), é no desajustamento que o habitus torna-se mais explícito, constituindo-se, assim, em importante ferramenta de análise. No foco deste estudo, permite perceber as clivagens no seio de uma classe que, por seu trajeto, tenderia a se relacionar com o conhecimento escolar de maneira positiva, sobretudo se considerada a particular afeição dos jovens agentes pela escola frequentada e o seu capital cultural acumulado.

Evidentemente, vários são os agentes que compõem a escola Delta; dos mantenedores aos funcionários responsáveis pela limpeza (obedecendo à escala hierárquica em termos de ocupação de cargos no quadro de funções), todos, sem exceção, participam do jogo ocupando posições e empenhando estratégias para valorizar ou fazer valer seus capitais.

Neste estudo, entretanto, os alunos foram os escolhidos como sujeitos da pesquisa e, por isso, terão o devido destaque. Os professores foram também, em alguma medida, protagonistas: a partir de suas queixas e comentários se delineou o problema de pesquisa e, posteriormente, deles partiu a indicação dos alunos a serem investigados. Por este motivo, algumas informações a seu respeito serão acrescidas aqui, com o propósito único de fornecer elementos que possam tornar mais completo o tabuleiro onde se desenrola o jogo.

A escola Delta conta com um total de 35 professores distribuídos entre as três séries do ensino médio. Quase a totalidade deles possui formação em nível de pós-graduação e uma parte significativa atua também na docência do ensino superior e em cursinhos pré- vestibulares. A maioria dos professores mora na cidade onde se situa a escola, dois deles residem na capital e outros cinco em outras cidades da região. Seu capital econômico e cultural coincide com o da maior parte do alunado, o que parece constituir um facilitador das relações intraescolares.

Os professores da segunda série foram instados a indicarem, dentre as classes da manhã (aproximadamente 160 alunos), cinco alunos que julgassem interessados e cinco que julgassem desinteressados, evitando associar o critério desinteresse a indisciplina ou baixo desempenho (Cf. Anexo 1). A segunda série foi a escolhida para a realização da pesquisa porque, segundo relatos e observações, é, dentre as três, a que apresenta maior dificuldade para o exercício da ação pedagógica. Os professores e coordenadores costumam atribuir essa realidade a fatores como: peculiaridades da fase de vida dos jovens (ao completarem 16 anos

conquistam nova posição na família, angariando maior liberdade e se deslumbram um pouco com isso); características próprias do conteúdo curricular da série, que impõe desafios maiores ao estudante; não terem mais a “surpresa” do primeiro ano quando do ingresso no colégio, no qual tudo é novo e preocupante, e não terem ainda a “faca no pescoço” que o terceiro ano apresenta devido à proximidade dos vestibulares. Ou seja, a segunda série se constituiria numa fração sem “identidade” própria e ali se encontraria, então, a maior expressão de alunos desinteressados.

Dos 16 professores que compõem o corpo docente da segunda série da escola Delta, 12 preencheram e devolveram a lista de alunos solicitada. É importante destacar algumas reações dos professores ao longo desse processo: (1) empolgação geral com a temática da pesquisa, com pronto atendimento à proposta (um ar de “até que enfim alguém está vendo e se preocupando com a realidade angustiante de sala de aula!”); (2) a maior parte deles julgou muito difícil restringir a cinco indicações os alunos desinteressados, afirmando ter sido mais fácil delimitar os cinco interessados, já que estes comporiam número absoluto bem menor.

Dois professores de Laboratório (Biologia e Química), entretanto, deram testemunho contrário, ficando bastante incomodados em restringir as indicações dos interessados. Comentado este fato em momento informal na sala de professores, surgiram algumas hipóteses explicativas: (1) no laboratório, os alunos se “camuflariam”, sabendo que são observados mais de perto e que sua participação é pontuada; (2) no laboratório, a presença reduzida de alunos (apenas 20 contra 40 nas salas convencionais) e as atividades práticas favoreceriam o “despertar do interesse”; (3) o olhar desses professores em especial para o alunado difere dos demais (um deles só vê o lado positivo do alunado e o outro ignora os desinteressados, segundo a avaliação de um colega e referendado por seu próprio testemunho: “não me ligo muito neles”).

Das 60 indicações de alunos interessados e 60 indicações de alunos desinteressados, após análise dos dados, chegou-se a um total de 30 alunos indicados no primeiro caso e 38 no segundo caso. A tabela 2 traz um quadro geral dos alunos, representados pelas iniciais de seus nomes, que foram citados pelos doze professores. Ao lado de cada nome, encontra-se destacado o número de citações que cada aluno obteve:

Tabela 2: Alunos indicados pelos professores como interessados e desinteressados INTERESSADOS DESINTERESSADOS K 9 C 9 LG 7 R 4 P 5 M 3 Ma 3 L 3 I 3 C 2 C 3 P 2 A 3 A 2 AI 2 R 2 M 2 Ak 2 R 2 MA 2 Le 2 An 2 G 1 G 1 Fe 1 GA 1 N 1 GAB 1 F 1 GI 1 V 1 B 1 AC 1 BE 1 E 1 GO 1 G 1 RA 1 Ga 1 GU 1 AL 1 ME 1 L 1 GS 1 Mar 1 F 1 Er 1 J 1 Na 1 AM 1 Gab 1 RF 1 AP 1 FA 1 S 1 AR 1 N 1 T 1 Nu 1 FE 1 FR 1

D 1 MD 1 GA 1 AD 1 K 1 CR 1 S 1 T: 30 T: 60 T: 38 T: 60

Conforme se pode notar na tabela, onze alunos foram citados como interessados por mais de um professor, e também onze alunos foram citados mais de uma vez como desinteressados. A concentração de votos nos dois primeiros colocados das duas frações fica bem caracterizada e contrasta com a pulverização observada na grande quantia de nomes que foram lembrados por apenas um professor. Se considerados os votos dos três primeiros colocados entre os desinteressados e o número total de indicados nessa fração, (em comparação à outra) verifica-se que ali incide maior diversificação e pulverização de alunos. Ou seja, interessados reuniram quantidade maior de coincidências nas indicações, o que aponta para uma maior unanimidade na avaliação dos professores e, certamente, para a subjetividade das percepções e critérios adotados. Este aspecto fica também materializado no fato de o aluno L, destacado em vermelho, receber indicação nas duas frações; embora tenha sido considerado, para efeito desta pesquisa, desinteressado pelo número maior de votos recebidos, sua citação como interessado instigou a verificação de outros elementos nas análises.

De posse da tabulação inicial, apresentada na tabela 2, decidiu-se por considerar, primariamente, aqueles alunos que tivessem sido citados por mais de um professor. A lista restringiu-se, portanto, a vinte e dois alunos: 11 interessados e 11 desinteressados. O passo seguinte foi analisar a concentração dos votos e perceber que os três primeiros colocados entre os interessados e a primeira colocada entre os desinteressados é que realmente representavam um número expressivo de citações e que, portanto, ali se concentrava o maior interesse da pesquisa. Daí por diante, buscou-se chegar a um número ideal de alunos a serem entrevistados, levando em conta alguns critérios.

A opção foi trabalhar com os quatro alunos mais votados em cada categoria (interessados/desinteressados), sendo selecionados, portanto, oito alunos para serem

entrevistados. Os critérios que acompanharam a escolha em torno do número oito pautaram-se em alguns condicionantes. O primeiro deles responde aos limites e possibilidades impostos pelo tempo de realização da pesquisa, inscritas nas condições de formação de um Doutorado. O segundo refere-se ao fato de se considerar, neste tipo de pesquisa qualitativa, pouco significativa a quantidade, já que cada um dos sujeitos, dentro de sua singularidade, apresenta elementos comuns possíveis de expressarem a relação (Cf. Azanha, 1992). Ainda assim, se sabe que o número não poderia ser reduzido ao ponto de não apresentar diferenças.

Então, numa escala de 0 a 10, o número de quatro alunos pareceu insuficiente e dez configurou-se excessivo; a média resultaria em sete que, sendo ímpar, não propiciaria uma amostragem simétrica entre interessados e desinteressados, fator considerado relevante. Entre o seis, imediatamente abaixo do sete, e o oito, imediatamente acima, este último pareceu apresentar maior possibilidade de evidências e foi, portanto, o corte estabelecido. Este raciocínio coincidiu, como se pode observar na tabela 2, com um número de três citações, considerado um mínimo razoável para classificar, no universo pesquisado, um aluno como interessado ou como desinteressado. Ainda aí, um novo desafio afigurou-se diante do empate entre quatro alunos indicados como interessados por três professores. O primeiro critério adotado rumo ao desempate foi decidir pela participação de uma menina, já que os três primeiros colocados eram do sexo masculino. O desempate entre as três meninas se deu numa segunda consulta aos professores, que acabaram por eleger Ma como a aluna mais interessada dentre elas.

As duas tabelas a seguir apresentam uma visão dos alunos indicados, por sexo. A tabela 3 traz o total de alunos citados e a tabela 4 classifica, por ordem de votação e de sexo, os oito alunos escolhidos para serem entrevistados.

Tabela 3. Totais de alunos indicados, por sexo

INTERESSADOS DESINTERESSADOS

♂ 16 20

Tabela 4. Classificação dos alunos mais votados, por sexo INTERESSADOS DESINTERESSADOS 1º lugar ♂ ♀ 2º lugar ♂ ♂ 3º lugar ♂ ♂ 4º lugar ♀ ♂

A exata inversão na proporção meninos/meninas demonstrada na tabela acima, sendo a primeira posição dos interessados ocupada por um menino e a primeira posição entre os desinteressados ocupada por uma menina, atinge frontalmente a crença do senso comum de que meninas são mais aplicadas nos estudos, mais caprichosas nas tarefas e dóceis nas relações, aderindo melhor às propostas escolares, e devendo ser, portanto, mais interessadas.

Entretanto, uma leitura mais acurada de Bourdieu, quando trata da questão da libido e da illusio, conforme exposto no capítulo anterior, fornece elementos para a análise de tal dado que emerge da realidade empírica. Afirma o autor que:

No estado atual da divisão do trabalho entre os sexos, uma vez que os móveis de interesse simbólico tais como honra, glória ou celebridade lhes são prioritariamente propostos, a ação educativa destinada a aguçar a sensibilidade a esses móveis acaba se exercendo de modo privilegiado sobre os meninos: especialmente estimulados a adquirir a disposição para entrar na

illusio originária cujo lugar é o universo familiar, eles serão, por conta disso, mais sensíveis à sedução dos jogos sociais que lhes são socialmente reservados e que possuem como móvel de interesse uma ou outra dentre as diferentes formas possíveis de dominação. (Bourdieu, 2001, p. 203)

Estimulados a participarem dos jogos sociais, os meninos se apresentariam mais aguerridos e em melhores condições de enfrentar as leis de concorrência que regulam os campos; dispostos, portanto, a embarcarem nas lutas por posições e a disputarem o poder. Nesse sentido, a posse do conhecimento escolar se reverte em importante aliada e, numa trajetória ascendente, materializa a oportunidade para alcançar o almejado êxito social. Mais preparados, então, pela imersão na illusio originária, os rapazes sairiam na frente no jogo escolar, sendo o reconhecimento de sua honra o principal motor das ações.

A questão do reconhecimento como elemento essencial dos jogos sociais fez-se também presente na reação dos alunos ao serem convidados a participarem da pesquisa. A maneira como foi conduzido o convite, decerto contribuiu para o resultado obtido. A todos os alunos participantes foi dito que se tratava de uma pesquisa de Doutorado em que se pretendia

compreender melhor a relação do jovem aluno com o conhecimento escolar. E que, por meio da reflexão proporcionada pelos resultados de tal pesquisa, e a partir do conhecimento acumulado no meio acadêmico, pretendia-se alcançar melhorias na educação do país. Os alunos foram então convidados a participar de uma “importante empreitada”. Justificando a escolha de seus nomes, foi explicado que os professores da segunda série foram chamados a indicar dez alunos que, em seu julgamento, poderiam contribuir com ideias, críticas, opiniões sobre o sistema escolar. Ao saber que foram citados pelos professores, os quatro alunos “desinteressados” expressaram um sorriso maroto de quem sabe o porquê (evidentemente pela não adesão às propostas escolares), mas que se sente, de alguma forma, valorizado por ter sido lembrado (uma forma de reconhecimento). A adesão dos quatro alunos foi imediata e, até, empolgada, o que superou as expectativas que projetavam alunos mais desmobilizados, sobretudo pela forma como foram descritos pelos professores. No momento do convite, fez-se também referência ao Trabalho de Iniciação Científica que os alunos realizam ao longo do segundo ano na escola Delta, o que facilitou muito a sua compreensão sobre o que era uma pesquisa de campo, pois eles mesmos já haviam participado de semelhante processo, solicitando a participação de colegas em suas próprias pesquisas, tendo clareza, portanto, do que se tratava.

Vencidas as etapas de convite aos alunos para participarem da pesquisa, agendamento das entrevistas, assinatura de autorizações, realização da entrevista piloto e ajustes no roteiro de entrevista, que pode ser observado no Anexo 2, ao longo de três meses foram efetuadas as oito entrevistas (sessões de aproximadamente 1h30min), com foco na trajetória escolar e ambiência familiar dos alunos.

Resumos das oito entrevistas, entremeados por algumas falas literais, são apresentados a seguir. O intuito é contribuir para uma caracterização dos agentes e uma visualização de seu posicionamento na escola, na família e no ambiente social mais amplo, sem, contudo, aprofundar ou esgotar as análises possíveis. Pretende-se, assim, completar o mapa que se vem desenhando, situando um aluno existente (portador de uma história que lhe angariou um conjunto de disposições), num plano real, circunscrito a condições objetivas, capturando sua posição em determinado ponto de um trajeto que expressa uma conjuntura (encontro entre

habitus e campos).