A escola Delta atende exclusivamente ao ensino médio (condição que a diferencia das demais) e está instalada na cidade há pouco mais de trinta anos.
Foi fundada e ainda é mantida por professores. Por ocasião da fundação da escola esses professores atuavam em universidades e em cursinhos pré-vestibulares e, ali, detectaram o que entendiam por lacunas no ensino de base, abraçando o desafio – segundo declaração coligida em documento da época da fundação – de criar uma escola que não somente sanasse as falhas percebidas, mas que também oferecesse ao aluno um ambiente no qual se sentisse respeitado em sua juventude e onde a liberdade fosse instrumento educativo no processo de afirmação da identidade e de desenvolvimento da responsabilidade e da autonomia. Estimular o espírito crítico, preparar o jovem para a Vida, “negando, assim, todo o aparato de automatização reinante na maioria das escolas”, foram os principais pilares da filosofia expressa no documento que lançou a escola na cidade no ano de 19809.
Desse ideal nasceram, por exemplo, iniciativas como manter os portões abertos durante todo o período de aula e oferecer disciplinas optativas voltadas, sobretudo, às artes como meio de expressão e formação humana. Segundo relatos, a preocupação de apoiar o jovem no momento da escolha da carreira, auxiliando-o num processo de autoconhecimento e garantindo-lhe os instrumentos necessários para ingressar nas universidades mais concorridas do país, também sempre esteve presente entre os professores mantenedores. A primeira turma formada em 1982 trouxe como resultados diversas aprovações nas melhores universidades públicas, marcando o início de uma trajetória que tornou a instituição reconhecida, não somente na cidade, mas em toda a região.
Cabe, aqui, um importante parêntese: no trajeto percorrido após a fundação, além do ensino médio, o grupo então composto por 13 professores-mantenedores instituiu também o ensino fundamental e o infantil, dividindo-se em dois subgrupos que dirigiam cada segmento. No ano de 1992, porém, houve uma cisão, ficando o ensino médio juridicamente separado do segmento que abrangia o fundamental e o infantil e sob a responsabilidade de 6 professores-
9 O documento citado não será referenciado nem comporá o corpus do material empírico a fim de garantir a preservação da identidade da escola.
mantenedores. Decidiu-se, entretanto, por razões de marketing, manter ambas as escolas sob a mesma insígnia. Então, embora pertençam a proprietários distintos, tenham direções pedagógicas inteiramente independentes, os dois segmentos muitas vezes ainda são confundidos como sendo uma única escola tanto pela comunidade local como pelos próprios alunos e familiares, o que se poderá notar mais adiante nos discursos dos alunos entrevistados. É importante que se destaque, pois, que o que se designa por escola Delta neste texto refere-se especificamente ao segmento do ensino médio, campo empírico do estudo.
Prosseguindo então na caracterização da escola Delta, pode-se apontar um outro elemento que a diferencia das demais escolas de ensino médio aqui referidas. Trata-se do fato de que ela não adota sistema didático de ensino (apostilas), desenvolvendo o conteúdo curricular do ensino médio ao longo de três anos e por meio de livros didáticos e métodos escolhidos por cada professor. Também não há instrumentos de seleção na entrada e tampouco as turmas são divididas tácita ou explicitamente por níveis de desempenho. A divisão procura atender aos critérios: equilíbrio entre o número de moças e de rapazes; distribuição entre as classes dos alunos que chegam das outras escolas em grupos já formados; indicação de três colegas da preferência do aluno para compartilhar a mesma turma (sendo que a escola assume o compromisso de atender a, pelo menos, uma indicação). Como se trata de uma escola apenas de ensino médio tem a peculiar característica de receber alunos de diferentes instituições de ensino, o que torna o ambiente bastante diversificado e projeta a necessidade de desenvolver estratégias específicas para equalização das mais variadas orientações didáticas recebidas pelo alunado em suas escolas de origem.
As Disciplinas Optativas, já mencionadas, ocorrem no período oposto ao em que o aluno estuda (há turmas matutinas e vespertinas) e são de sua livre escolha. Têm o formato de cursos bimestrais, nas mais variadas áreas do conhecimento (de Noções de Direito, passando por primeiros Socorros, até Circo, Culinária e Dança de Salão), e, embora estejam incluídas na mensalidade, não têm presença obrigatória nem contam com avaliações formais. O aluno pode, portanto, optar por cursar ou não tais Optativas e, uma vez que decida frequentá-las, pode escolher o curso que for de seu interesse dentre os vários ofertados a cada bimestre.
A escola conta também com aulas de Laboratório e Disciplinas Complementares para desenvolver seu currículo. Há Laboratórios de Matemática, Física, Química e Biologia e em cada uma dessas aulas (que ocorrem durante o período escolar), metade da turma participa por vez, formando-se pequenos grupos que trabalham executando experimentos em bancadas. O intuito é desenvolver o conteúdo escolar de forma mais concreta, auxiliando o aluno na compreensão das aulas teóricas. As Disciplinas Complementares fazem parte da matriz
curricular oficial do Colégio, estando entre as seis aulas diárias e cumprindo exigências formais como avaliações e controle de frequência, por exemplo. A ideia é que nelas o aluno tenha acesso a conteúdos formativos julgados essenciais para o cumprimento da proposta filosófica que embasa a escola. Saúde e Sexualidade e Educação Ambiental são dois exemplos destas disciplinas, ainda hoje presentes na escola Delta. Filosofia e Sociologia sempre constaram do currículo desta escola em forma de Disciplinas Complementares, antes mesmo que a legislação educacional passasse a exigi-las.
Quanto aos portões abertos, cabe uma explicação um pouco mais detalhada, uma vez que é uma situação bastante citada pelos alunos nas entrevistas e que se constitui em elemento diferenciador da escola com grande peso no processo de escolha das famílias que ali matriculam seus filhos. A ideia dos portões abertos esteve presente desde a fundação da escola. Por meio desta iniciativa, os professores fundadores pretendiam, mais do que preparar os jovens para a vivência de um futuro próximo (os portões abertos das universidades), abrir um canal de comunicação que pusesse os assuntos liberdade, escolha e responsabilidade na ordem do dia. Deixando os portões abertos durante todo o período escolar, não impondo, portanto, a presença do aluno em sala de aula de forma coercitiva, os professores pretenderam, ainda, dar outra conotação ao trabalho com o conhecimento. Ou seja, o aluno deveria estar em sala de aula por interesse em aprender. Com o passar dos anos, o crescimento da escola (de um prédio a três) e as transformações sociais como um todo, medidas auxiliares foram incorporadas pela escola para que os portões se mantivessem abertos, evitando que a proposta afugentasse os pais ciosos da segurança dos filhos. Dentre elas, um controle de presença em sala de aula mais rigoroso e comunicado aos responsáveis com certa periodicidade, partilhando com a família as condutas dos jovens e o desenvolvimento desse processo de autonomia. Outra medida foi a contratação de profissionais de segurança que têm por função observar e acompanhar a movimentação nas imediações da escola, relatando à Direção quaisquer situações que escapem à normalidade. Quando o aluno é notado fora de sala em período de aula recebe a intervenção de algum funcionário/educador da escola (orientadores, diretores, inspetores, porteiros), mas sempre no sentido de conversar e orientar. Somente quando reincidências passam a ser frequentes, é que a família do aluno é acionada, e mesmo assim, após se compartilhar a intenção desta medida com o aluno envolvido na situação.
Esta e outras iniciativas da escola Delta, como a adoção de apenas uma camiseta com pequena logomarca como uniforme obrigatório (vestes de baixo, calçados e agasalhos são totalmente liberados), são elementos citados positivamente pelos alunos, que se consideram
respeitados em sua individualidade e liberdade. Como se poderá notar na fala dos entrevistados, a contrapartida é um ambiente amistoso, de relações horizontais que de certa forma parecem aliviar um pouco a pressão, o clima de tensão que a própria estrutura e o currículo do Ensino Médio instauram per si.
Peculiaridades do trabalho desta escola fazem com que apenas a indiferença esteja presente e não a hostilidade sentida, segundo o depoimento de professores, em outras escolas privadas que atendem à mesma camada social. São formas alternativas de controle que redundam num afrouxamento das pressões externas. As relações de poder estão postas, mas a serviço de uma filosofia educacional que, sem dúvida, segue na contramão das demais escolas que se posicionam no espaço da cidade.
Este conjunto de elementos que caracterizam a escola Delta, denominados por ela como os seus “diferenciais” são, na verdade, sinais de proximidade entre os valores da escola e o da elite intelectual da cidade, com quem ela se propôs a trabalhar desde a fundação. A
marca da cultura, que se expressa já em sua fundação por professores universitários reconhecidos na cidade, transpira também na decoração dos corredores do prédio composta por reproduções de pinturas clássicas (todas trazidas pelos proprietários de suas viagens ao exterior, sendo que dois deles realizaram seu doutorado na França), e passa, ainda pelo “batismo” das classes com nomes de expoentes da história, da música, das artes ou das ciências. O intento de formar o homem por inteiro e moldar um estilo de vida por meio da aquisição de uma cultura geral constitui uma nítida indicação de superioridade da escola Delta no espaço escolar e é capitalizada pelos porta-vozes do colégio em sua divulgação.
Almeida (2009) é quem identifica e revela esses sinais de proximidade entre os colégios que pesquisou e os meios intelectuais, políticos e financeiros da cidade. Ao descrever uma das três escolas de elite da cidade de São Paulo que fizeram parte da pesquisa, a São Tomás, a autora reúne os seus sinais distintivos em torno do que ela chama de “negação da escola”. Seriam aspectos do trabalho desenvolvido pela escola que transformariam a socialização no interior do São Tomás em uma experiência vivida sob o signo da negação de seus aspectos mais escolares, por meio do incremento de iniciativas que evitem a separação entre os saberes trabalhados na escola e os saberes mais legítimos valorizados nos espaços de produção cultural (no mais das vezes, os mesmos espaços dominados pelas famílias dos seus alunos) (p. 93-94). A realidade é bem particular e peculiar, mas alguns dos elementos identificados como sinais pela pesquisadora no São Tomás são bastante próximos do que se observou na escola Delta.
Todos os sinais distintivos do Delta, e que criam uma espécie de solidariedade e sentimento de pertença entre os agentes, também falam a favor de uma não-escola. A ocupação do espaço, por exemplo, não obedece ao uso racional das demais escolas que competem com ela no cenário. As atividades precedem a organização do espaço e intencionam mesmo que o jovem aluno se movimente entre os três prédios que compõem o complexo: há os laboratórios, o barracão onde as aulas de Artes acontecem (espaço semiaberto devido ao trabalho de escultura em cimento celular), a quadra de esportes, os centros de informática, os anfiteatros, a biblioteca, a sala de dança de salão, a sala de teatro, as mesas e bancos de madeira (com pichação liberada) que servem desde aos grupos que realizam trabalhos, até à hora das refeições e aos namorados, e há a rua (ah! A rua!), espaço neutro entre os prédios. Mais que uma proposta pedagógica que remete à peripatética, esses usos do espaço impelem a uma relação livre e desinteressada com a cultura, e somados a outras iniciativas já mencionadas, como as Optativas, por exemplo, contribuem para “o quase esquecimento dos constrangimentos que definem a relação pedagógica como uma relação necessária, mais do que desejada” (Almeida, 2009, p. 98).
Outro aspecto revelador da não-escola é a recusa da urgência expressa, sobretudo, na maneira como o Delta faz o arranjo de seu conteúdo programático: contra tudo e contra todos ele continua a distribuir as matérias de ensino ao longo dos três anos, e a utilizar uma divisão do conteúdo entre as séries pautada numa sequência que julga a mais adequada, considerando a estrutura de cada disciplina, sem se submeter totalmente às divisões efetuadas pelos livros didáticos. A “não-pressa” é também afirmada na inclusão de temas não exigidos pelo vestibular e em encontros culturais e trabalhos de iniciação científica inseridos por professores que se disponham (e para tal são incentivados) a incrementar a formação geral dos alunos. O discurso intraescolar reforça que a intenção maior é formar “cabeças pensantes” e não simplesmente treinar alunos para passar nos vestibulares; o importante seria formar uma capacidade de compreender o mundo e atuar sobre ele, reunindo recursos culturais para uma atuação diferenciada nas futuras carreiras escolhidas.
É, como também afirma Almeida (2009) sobre o São Tomás, por meio dessa capacidade de se perceber e se fazer perceber como detentor dos critérios de excelência dominantes nesse espaço escolar que se afirma a posição dominante do Delta. Ao se fundar sobre as marcas do trabalho com a cultura legítima e do respeito à juventude – materializado no estímulo à liberdade –, o colégio permite que os alunos passem a se enxergar como detentores legítimos desses valores, sendo esse um dos elementos fundantes da crença na superioridade das qualidades que possuem (efeito de consagração).
A satisfação do aluno para com a escola Delta se expressa na avaliação institucional realizada todos os anos no início do quarto bimestre. Neste instrumento, o aluno pode avaliar o curso desenvolvido em cada disciplina, a escola em seus aspectos mais gerais e, nos espaços abertos a observações, pode manifestar suas ideias, contentamentos e descontentamentos. A tabela a seguir demonstra em porcentagens o grau de satisfação dos alunos em relação à escola, por série, no ano de 2011, ano base de realização da pesquisa.
Tabela1. Grau de satisfação em relação à escola Delta (2011)
O seu grau de satisfação em relação à escola
Ótima Boa Regular Fraca
1ª série 59% 38% 3% 0%
2ª série 47% 47% 5% 1%
3ª série 58% 38% 4% 0%
A totalização das colunas ótima e boa traz a marca de 97% de satisfação com a escola na 1ª série, 94% na 2ª série e 96% na 3ª série. Analisando as tabelas dos últimos 10 anos (período de realização desta pesquisa de avaliação institucional), pôde-se observar que a porcentagem se mantém praticamente inalterada em todo o período. Para além de uma expressão numérica, a pesquisa traduz muito do clima de satisfação observado nos corredores e no interior das salas de aula.
Evidentemente este não é o único e talvez nem o mais decisivo fator a pesar na escolha dessa escola pelas famílias da região. Sabe-se, entretanto, que o jovem nesta faixa de escolaridade interfere bastante neste processo de escolha e que uma rede de relações instaurada entre eles (antes no “corpo a corpo”, agora no plano virtual) garante a divulgação dos elementos satisfatórios aos olhos dos jovens. Algumas das famílias efetivamente compartilham dos princípios filosóficos da escola Delta e a elegem por coadunar com os valores educacionais que cultuam; outras decidem por ela pelo chamado “ensino forte” (por longo tempo tomado por slogan no material publicitário) que garantirá o sucesso do filho no mercado de trabalho; outras, ainda, pretendem dar continuidade à tradição da família: pais, tios, irmãos e/ou demais parentes, passaram por lá e hoje são profissionais bem sucedidos. Fato é que, excetuando a escola citada anteriormente, que integra uma rede nacional e é “líder no mercado”, e apesar da atual política financeira da escola Delta, que optou por diminuir as
faixas de desconto nas mensalidades, reduzindo o número de alunos matriculados, ela é a mais numerosa escola privada de ensino médio da região.
O destaque dos aspectos distintivos que dão prestígio à escola Delta e a posicionam de forma dominante no campo escolar da cidade não tem o intuito de idealizá-la. Por certo, é “interessante” para a escola Delta ser “interessante” para os alunos e mantê-los, em alguma medida, satisfeitos no ambiente escolar. Seu êxito neste intento não significa, porém, que a ação pedagógica ali desenvolvida pelos agentes investidos da autoridade pedagógica deixe de representar o pleno exercício da violência simbólica (talvez, até, em seu mais alto grau de mascaramento!), sem que isso seja produto de uma razão autoconsciente.
Fato é que o encontro entre uma escola que trabalha com um arranjo diferente (e satisfatório!) de práticas e alunos portadores de capital cultural não resulta totalmente em atitudes de interesse pelos estudos, e isso só pode indicar que há outros elementos que exercem força nesta relação. Muitas análises possíveis se afiguram a partir daqui.