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brasileiros, na década de 1940. Seu formato, forma de financiamento e modo de gestão espelham as visões políticas sobre a representação de interesses vigentes à época. A situação atual, em muito diferente, deve igualmente ser considerada como referência para que se possa definir um novo papel para a organização.

Os dois mandatos do Presidente Fernando Henrique Cardoso tinham como uma de suas promessas a revisão do legado de Vargas. Sem discutir a extensão e a importância das demais reformas empreendidas no período, mormente no âmbito da economia, o fato é que para as organizações do Sistema S manteve-se o modelo

praticamente inalterado, atrelado a outro modelo que igualmente não sofreu alterações significativas, o da estrutura de representação sindical.

A partir do exposto no item anterior, e das considerações sobre o ambiente institucional brasileiro resultante da década de 1990, consideramos que adoção do discurso e das práticas da responsabilidade social pelo SESC é uma estratégia apropriada para:

1) reafirmar a importância da organização junto à opinião de seus stakeholders (sociedade, empresários, trabalhadores no comércio e nos serviços, e representantes sindicais);

2) através de uma prática de responsividade, manter conexões com as demandas e opiniões de cada um destes grupos, de maneira a antecipar e prover respostas a cada uma delas;

3) criar uma cultura interinstitucional que estimule a criação de redes de cooperação entre as forças do mercado, da sociedade e do governo, permitindo a negociação de conflitos e a articulação conjunta para o alcance de objetivos comuns.

A adoção da responsabilidade social pelo SESC seria realizada com os seguintes objetivos estratégicos:

Angariar Legitimidade frente à Sociedade

O primeiro ganho para o SESC ao adotar a postura de responsabilidade social é o de atenuar a imagem de organização associada mais aos interesses particulares de um único setor econômico-social do que aos do país como um todo. Uma vez atrelado à estrutura corporativa de representação de interesses, pesa sobre o SESC a acusação de prestar maiores benefícios aos representantes patronais, aos dirigentes das entidades, ou

ainda ao seu próprio corpo burocrático. A afirmação da responsabilidade social frente aos interlocutores da organização constituiria uma defesa dos valores professados, ainda que genericamente, pela sociedade.

Embora a afirmação de valores e o discurso da responsabilidade social possam, para algumas organizações, ser desprovidos de intenções e resultados reais – acusação que de resto pode ser feita a qualquer das empresas socialmente responsáveis –, o fato é que trazem para o plano da interlocução com a sociedade as questões substantivas, que ganham legitimidade correlata às instrumentais. Neste sentido, mesmo que para a maioria dos atores sociais não seja possível constatar e avaliar se de fato uma empresa que se apresenta como socialmente responsável realmente o é, constitui fato relevante a

empresa se apresentar como tal, uma vez que incorre no risco de um desgaste maior caso seja desmentida. Sendo assim, a afirmação da responsabilidade social constituiria para o SESC um ganho inegável de legitimidade frente à sociedade, desde que, naturalmente, houvesse efetiva aplicação de suas práticas.

Contornar Problemas de Escala: Valores em Lugar de Serviços

A missão do SESC foi definida amplamente: promover o bem-estar dos trabalhadores do comércio e dos serviços, assim como o da coletividade. A amplitude da acepção de bem-estar levou a organização a atuar em diferentes áreas. Depois da ênfase inicial no campo da Saúde, ao longo dos anos o SESC estendeu suas práticas aos campos da Educação, da Assistência, do Lazer e da Cultura. Tanto a abrangência dos campos de atuação como a própria natureza da prestação de serviços – que exige atendimento presencial, além de instalações adequadas e acessíveis à clientela –, levou a incontornável incompatibilidade entre os recursos disponíveis e a finalidade de oferecer serviços ao universo de beneficiários em tantas áreas distintas.

Para contornar essa que pode ser entendida como uma deficiência da organização, é possível enfatizar seu caráter de agência social, isto é, de organismo promotor do bem-estar geral. Através da atuação pautada em valores, estaria assim difundindo essa prática junto aos demais atores sociais. Em particular junto aos empresários, sindicatos patronais e demais associações de representação de interesses, o SESC poderia atuar no

apoio, na qualificação e no incentivo às suas ações sociais, tomando por base a qualificação de seu corpo técnico, a sua inserção no território, e a capilaridade de sua atuação.

Angariar Representatividade junto ao Empresariado

Um outro objetivo da adoção da responsabilidade social seria o de ampliar no SESC o papel de representante da ação social do empresariado. Como assinalado anteriormente, uma parcela significativa da classe empresarial afirma contribuir ou realizar este tipo de ação. A identificação com o movimento de afirmação de valores e ações substantivas constituiria para o SESC uma forma de angariar novas bases de legitimidade, justamente junto àqueles que se afirma serem os seus financiadores.

Contribuir para o Desenvolvimento

Ao endossar o movimento da responsabilidade social e trabalhar para a sua disseminação junto aos empresários em particular e à sociedade em geral, o SESC estaria contribuindo para o desenvolvimento social e econômico do país. Esta afirmativa é feita com base no argumento defendido por Zairo B. Cheibub e Richard M. Locke, que afirmam ser a sociedade civil fortalecida uma condição favorável à ação empresarial. Segundo os autores, numa sociedade civil forte "os fluxos de informações são mais ágeis, diversificados e desenvolvidos", "as possibilidades de mediação para conflitos entre os atores sociais são mais fortes", "as chances de se compartilhar os riscos na

produção de bens coletivos e na utilização conjunta de recursos escassos são maiores" (CHEIBUB & LOCKE, 2001, p.336). Em contrapartida, numa sociedade civil fraca são mais freqüentes os resultados de soma-zero, nos quais pelo menos uma das partes envolvidas fica insatisfeita, quando não todas.

Concepção semelhante é encontrada em trabalho de David Skidmore, em que o autor se reporta a estudos que postulam o adensamento da sociedade civil como promotor do desenvolvimento: "Nessa visão, a auto-organização da sociedade civil é indispensável ao sucesso do desenvolvimento econômico, complementando os papéis desempenhados pelo Estado e pelo mercado" (SKIDMORE, 2001, p.131). Para fundamentar esta argumentação, o autor recorre ao conceito de capital social, entendido um recurso coletivo de normas de confiança e reciprocidade e redes de cooperação, recurso que é patrimônio dos integrantes de uma coletividade24.

A postura responsável de uma organização frente à sociedade não assegura o fortalecimento da sociedade civil ou a geração de capital social, mas é uma forma de contribuir para tanto, em termos globais e no longo prazo. Como afirmam Cheibub e Locke:

Portanto, mesmo não sendo de seu interesse imediato, o adensamento da sociedade civil é do interesse estratégico, esclarecido e a longo prazo, das empresas. Essa é a razão para que elas promovam e apoiem ações, programas e atividades que expressem responsabilidade social (CHEIBUB & LOCKE, 2001, p.338).

Sendo o SESC uma organização de caráter nacional, com potencial e condições de atuação e interlocução junto a empresas, governos, sindicatos patronais e de trabalhadores, e demais organizações da sociedade civil25, poderia exercer papel significativo de promoção e adensamento dos laços de confiança e cooperação da

24 A relação entre desenvolvimento econômico e a existência de capital social numa sociedade pode ser vista em

PUTNAM, 1996; FUKUYAMA, 1995; KLIKSBERG, 1999.

sociedade civil, e assim contribuir para o desenvolvimento nacional, conjugando atenção simultânea a questões sociais e econômicas.

CONCLUSÃO

O panorama brasileiro nas últimas duas décadas foi marcado não só pela redemocratização e pela elaboração de uma nova Constituição, mas também pelas reformas realizadas com vistas a uma nova inserção na economia mundial.

A experiência e as análises sobre essas mudanças apontam para o descarte de apriorismos no desenho da institucionalidade brasileira. Para cada afirmação peremptória – indicando ora o Estado, ora o mercado, ora a sociedade civil como referências preponderantes – seguiu-se uma argumentação, ou uma experiência marcante, relativizando, matizando, contextualizando, contestando essas primazias.

No caso brasileiro, até mesmo a crítica ao corporativismo, que pareceu ser uma unanimidade – seguidamente identificado com o atraso e a manutenção das estruturas

oligárquicas, com o rent-seeking, com a busca de privilégios particularistas – teve que ceder em ímpeto devido não somente ao forte enraizamento da estrutura corporativa na arquitetura de poder brasileira, mas também às demonstrações que sua estrutura fora

capaz de renovar-se e contribuir com as transformações necessárias ao país.

Essas demonstrações ficam claras a partir da leitura dos trabalhos de ADDIS & GOMES (2001), de CAPELLIN et al. (2001), mas não exclusivamente. Podem também ser depreendidas de exemplos emblemáticos da colaboração dada pelo Sistema S às articulações entre governo, sociedade e agentes econômicos. O Projeto Análise de

Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) é um desses casos, em que todos os órgãos do Sistema S, ao lado de organismos federais como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), buscam em todo o país garantir padrões de qualidade na cadeia de produção alimentar, em toda a sua extensão, desde o setor primário até o consumidor final, passando pelos setores de transporte e armazenagem, transformação e comercialização.

Um outro exemplo que merece ser citado é o da participação do Sistema S nos esforços de capacitação e qualificação dos trabalhadores brasileiros tal como prevista no

Plano Nacional de Educação Profissional (PLANFOR), lançado em 1996. O Plano previa "sete grandes conjuntos de agências formadoras", um destes conjuntos composto por "escolas do Sistema S (SENAI/SESI, SENAC/SESC, SENAR, SENAT/SEST, SEBRAE)" (BRASIL, 1996).

Nestes casos, ficam evidentes as virtudes da abrangência geográfica, da

capilaridade, da flexibilidade operacional (suportada por um corpo técnico profissionalizado) e das conexões horizontais que esses órgãos do Sistema S têm ou podem ter com as demais instituições do país. Fica claro que podem manter como uma das suas missões o papel de qualificadores da produção e de representantes do empresariado.

Esta e outras provas de vitalidade do corporativismo podem ser tomadas como indicação de o quanto são desaconselháveis as formulações categóricas acerca dos papéis desempenhados pelos atores da cena política, feitas sem considerar o dinamismo próprio destes agentes, detentores de subjetividades não definíveis a priori. São também indícios de que os relacionamentos institucionais e as redes de cooperação formadas ao longo da existência por essas organizações são patrimônios significativos, que podem ser mobilizados para a o provimento de bens coletivos26.

Os capítulos anteriores pretenderam demonstrar que a adoção pelo SESC da responsabilidade social pode consistir numa forma 1) de demonstrar permeabilidade da instituição ao contexto e às maiores urgências nacionais; 2) de assegurar a continuidade

dessa permeabilidade, através do recebimento e da atenção às demandas dos

stakeholders – população, governo, empresários, sindicatos e trabalhadores. Neste sentido, a administração do SESC receberia o ganho que advêm da gestão orientada para os stakeholders: manter a atenção voltada para os públicos que têm ou podem ter influência sobre a organização, de maneira a poder administrar estas influências, antecipando-se ao incremento de ameaças ou potencializando as oportunidades ainda não identificadas.

Num ambiente de clareza dos papéis institucionais e de cooperação sinérgica, seria não só compreensível, mas também desejável, que o SESC permanecesse atendendo aos interesses corporativos, mas não se reduzisse apenas a essa dimensão. Os exemplos aqui mencionados sobre parcerias ou iniciativas de maior âmbito social e nacional são evidências que demonstram sua capacidade de se adaptar a novos desafios. O trabalho também sinaliza que o SESC, a exemplo de todo o Sistema S, poderia atuar de forma mais efetiva em ações que tivessem como fulcro central contribuir proativamente com as questões sociais de maior relevância do país.

Finalmente, é legítimo esperar do SESC uma maior atuação no campo social, pois poucas instituições no Brasil desfrutam de um capital tão grande e qualificado. Apesar dos questionamentos que recebe devido às contradições próprias do modelo que lhe deu origem, o SESC tem enraizamento social, forte institucionalidade, quadros preparados, presença nacional, conexões estreitas com o poder político e econômico e interface com um importante conjunto de trabalhadores. Tudo isso o qualifica para uma ação social de maior porte, que pode inclusive servir de referência e estímulo para que empresas e

26 John DURSTON (1999, p.103), em artigo publicado na Revista da CEPAL, discute a possibilidade de construção de capital social comunitário, abordando os resultados de um programa de apoio a pequenos produtores em oito municípios da Guatemala. Ao final do artigo, apresenta 11 medidas para desenvolvimento do capital social. Embora a experiência seja aplicada a um determinado meio rural, marcado por relações acentuadamente clientelistas, algumas dessas medidas podem ser significativas para discutir suas possibilidades

empresários individualmente se sintam mais responsáveis pela solução de problemas que atingem a toda a sociedade.

Tão importante quanto isso é que essas ações sejam orientadas pelas noções de responsabilidade e transparência, de modo a fortalecer valores e práticas que irão consolidar uma sociedade brasileira mais apta a enfrentar os desafios que se lhe apresentam.

de fortalecerem o capital social nacional. Em particular, aquelas que visam à identificação e reforço de normas e práticas de confiança, reciprocidade e cooperação já existentes no seio da comunidade.

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