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8.3. Veri Birleştirme

8.3.1. Veri birleştirme nasıl yapılır

Após a primeira experiência na criação de HQtrônicas, que relatarei no tópico 5.3.1, buscando diversificar e ampliar o leque de suportes abarcados pelo dinâmico universo da Aurora Pós- humana, desenvolvi o roteiro de uma história em quadrinhos que despertou o interesse do notório quadrinhista Mozart Couto. O trabalho foi então desenhado por ele, vindo a ser publicado em outubro de 2003 pela editora paulistana Opera Graphica na forma de um álbum de 80 páginas intitulado BioCyberDrama, contando com uma longa introdução , na qual detalho o universo em que se desenvolve a história, além de um posfácio, no qual explico a origem dos nomes dos personagens do álbum, quase todos inspirados em ciberartistas e cientistas envolvidos com o tema do pós-humano.

O álbum narra o dilema de Antônio Euclides, um jovem "resistente" que aos poucos vai sendo seduzido pelas promessas de vida eterna ou plena oferecidas pelas culturas predominantes desse universo futurista, os tecnogenéticos – seres híbridos de humano com animal, e

extropianos – ciborgues com a consciência de um humano transplantada em um chip. Antônio se depara com a grande questão de sua vida, qual opção deve fazer: tornar-se extropiano, tecnogenético ou continuar resistente. A história se passa em uma das grandes cidades-estado chamada Thule, contando com cerca de 500 mil habitantes, localizada próxima a uma floresta preservada nas cercanias do antigo Planalto Central Brasileiro, local dominado por um dos grupos extropianos mais fortes do planeta. Esse domínio resulta em uma crescente tensão entre extropianos e tecnogenéticos. Esses últimos chefiados por Rosen, um tecnogenético radical extremamente agressivo e adepto de uma política violenta contra o domínio extropiano. Isso resultou na criação de uma guerrilha urbana, baseada em táticas de terror, mantendo a cidade em um constante clima de tensão, devido aos atentados quase diários sempre objetivando alvos extropianos, mas com resultados imprevisíveis, tirando também vidas de tecnogenéticos e resistentes.

Apesar das táticas violentas de Rosen, os governantes extropianos preferem manter a calma e tentar resolver as divergências de forma diplomática, mas essa postura pacífica tem desagradado muitos grupos extropianos, que preferem a tomada de uma atitude mais enérgica contra o radicalismo tecnogenético, gerando ainda mais tensão. Transformando toda a cidade em uma zona de guerra “velada”.

Em meio a essa guerra de classes e espécies, subsiste na cidade uma população considerável de resistentes. Cerca de 90 mil habitantes pertencem a essa espécie, constituindo uma das maiores populações resistentes em uma cidade-estado do planeta no Século XXX. Essa população fora ainda maior, mas a onda de atentados tem gerado um êxodo gradativo dos humanos. Os líderes resistentes têm tentado insistentemente diminuir esse processo de evasão, de outra forma terão menos representatividade no conselho administrativo de Thule, podendo perder muitos dos benefícios arduamente conquistados por eles. Além disso, existe na cidade uma luta ferrenha entre extropianos e tecnogenéticos para conquistarem novos adeptos entre os resistentes humanos. Isso resulta em fortes campanhas de ambos os lados, na tentativa de seduzir os jovens resistentes a aderirem a uma das tecnoculturas dominantes. Em meio a toda essa turbulência vive Antônio Euclides, um jovem resistente de 25 anos de idade, filho de uma família de resistentes de classe média – a mãe é professora na única Universidade Resistente de Thule, e o pai artista plástico. Antônio é rodeado de amigos tecnogenéticos e extropianos, estando cada vez mais fascinado pelos princípios e conceitos que envolvem essas duas tecnoculturas. Ele desistiu da graduação em História que cursava na Universidade Resistente por achar a abordagem teórica e os métodos de ensino ultrapassados diante das tecnologias extropianas. Além disso, uma de suas principais amigas é Orlane, uma jovem tecnogenética que aos poucos vem lhe apresentando as “maravilhas” de seu tecnoculto. Antônio tem um romance desde a pré-adolescência com a jovem resistente Michelle, mas este romance está abalado pelo desinteresse de Michelle por extropianos e tecnogenéticos. Ela adotou uma postura radical em defesa da humanidade e da cultura Resistente, o que desagrada seu namorado. Ela também se afastou de Antônio para fazer um longo estágio em outra cidade-estado. Os pais de Antônio Euclides desaprovam o seu interesse pelas tecnoculturas dominantes, mas preferem dar-lhe o livre-arbítrio para escolher o seu destino. A história do álbum retrata um momento turbulento na vida de Antônio, suas dúvidas e conflitos diante da iminente escolha que deverá fazer e que definirá o seu futuro.

Em BioCyberDrama, homenageei muitos artistas, cientistas e filósofos de vanguarda que trabalham utilizando-se das novas tecnologias, constantemente refletindo sobre temáticas ainda tabus para vários campos do conhecimento, suas obras funcionam como premonições do porvir e suas especulações não são limitadas por barreiras éticas, morais ou religiosas. Estas experiências estão difundidas por todos os campos da arte, dos mais tradicionais como pintura, escultura, e literatura, às performances, à música, ao cinema, e às histórias em quadrinhos, e elas percorrem questões de forma e conteúdo. Os nomes da maioria das personagens foram inspirados nesses artistas e cientistas pós-humanos, essa homenagem é explicitada no posfácio do álbum, em que incluo uma breve biografia de todas as personalidades que inspiraram minhas personagens. Abaixo relaciono algumas das personagens principais do álbum às personalidades reais que homenageam:

Orlane – Melhor amiga tecnogenética de Antônio. O nome reverencia a artista francesa Orlan,

que realiza operações plásticas no rosto e corpo selecionando trechos de obras primas da arte como modelos para essas cirurgias, que são transmitidas via Internet como performances.

Tetsuo – Outro amigo tecnogenético de Antônio. O nome refere-se ao filme homônimo do

diretor japonês Shinya Tsukamoto, clássico do cinema Cyberpunk, uma experiência visual radical e visceral, em que podemos vislumbrar uma das expressões mais fortes da fusão entre carne e metal, homem e máquina.

Rosen – Líder tecnogenético radical. Referência a Joseph Rosen, herói Cyberpunk, cirurgião

especializado em reconstrução do corpo, ele investiga: biônica, interface homem-máquina, implantes de nervos artificiais, simulação de operações à distância e transplante de extremidades como braços e mãos.

Ed Kak – Extropiano Iniciado que tenta convencer Antônio a aderir à Extropia. Homenagem ao

ciberartista brasileiro Eduardo Kac.

Gigero – Personagem que assiste à transbiomorfose junto com Antônio. Homenagem a

H.R.Giger, artista suíço criador dos chamados Biomecanóides.

Trent – Resistente que como Antônio, quer tornar-se extropiano. Referência a Trent Reznor,

músico mentor do Nine Inch Nails, banda de metal industrial cibereletrônico, criando parte da trilha sonora desse momento conturbado de pós-humanidade. Misturando ruídos industriais a guitarras distorcidas, criando vídeo clipes polêmicos onde funde questionamentos sobre sexo, morte, Deus e tecnologia, como o censurado Happiness in Slavery.

Stelarco – Coordenador da visita ao Extropycenter. Homenagem ao ciberartista australiano

Stelarc.

Moravechio – Líder extropiano. Homenagem a Hans Moravec, diretor do laboratório de

robótica da Universidade Carnegie-Mellon, guru do movimento The Extropy.

Grof – Líder tecnogenético. Homenagem ao psiquiatra tcheco Stanislav Grof um dos

pesquisadores de ponta da consciência, fundador da psicologia transpessoal, autor do livro A Mente Holotrópica, em que nos apresenta uma nova teoria para a psique humana, desafiando algumas noções fundamentais da psicologia tradicional.

Gandraus – Humano resistente, pai de Antônio Euclides. Homenagem ao artista brasileiro das

histórias em quadrinhos Gazy Andraus, que realiza um trabalho vanguardista, no qual incorpora a essência da cultura oriental, criando HQs de inspiração Taoísta, rompendo com todos os conceitos tradicionais da sintaxe dos quadrinhos.

Antônio Euclides – O nome e sobrenome de nosso personagem principal é uma homenagem

a um dos episódios de resistência ao poder estabelecido mais pungentes da trajetória do Brasil, a história do Arraial de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro, contada no impressionante relato Os Sertões de Euclides da Cunha.

BioCyberDrama foi bem recebido por público e crítica especializada. O álbum foi indicado aos prêmios HQMIX de melhor roteirista (Edgar Franco) e melhor edição especial nacional de 2003 e recebeu o prêmio Ângelo Agostini de melhor desenhista de 2003, concedido a Mozart Couto. O trabalho sugeria, ao final, a possibilidade de criarmos uma continuação e devido ao seu sucesso, optamos por transformá-lo em uma trilogia. O segundo álbum, BioCyberDrama II, nos mesmos moldes do primeiro, já está concluído e no momento da finalização dessa tese prestes a ser publicado. BioCyberDrama III, que fecha a trilogia, está sendo elaborado.

BioCyberDrama II dá continuidade à saga de Antônio Euclides e seus dilemas pós-humanos, o segundo

álbum apresenta uma cidade com a tensão política ainda maior e muitas novas personagens, algumas delas homenageando ciberartistas brasileiras como Suzete Venturelli e Diana Domingues. A seqüência que reproduzimos abaixo apresenta uma performance da respeitada artista tecnogenética “Diana Dom” (juntamente com seus golens orgânicos) presente nas páginas iniciais de BioCyberDrama II.

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