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VATANDAŞLARIMIZLA İLGİLİ MEVZUAT VE UYGULAMA DEĞİŞİKLİKLERİ İLE ÖNEMLİ MAHKEME KARARLARI DEĞİŞİKLİKLERİ İLE ÖNEMLİ MAHKEME KARARLARI

Ulusal Emeklilik Kasasınca (ONP) Türkiye’de ikamet eden kişilere yapılan sosyal güvenlik ödemeleri (vatandaşlık durumu

1.7.6. VATANDAŞLARIMIZLA İLGİLİ MEVZUAT VE UYGULAMA DEĞİŞİKLİKLERİ İLE ÖNEMLİ MAHKEME KARARLARI DEĞİŞİKLİKLERİ İLE ÖNEMLİ MAHKEME KARARLARI

Em 1831, a Lei de 07 de novembro declarou livres todos os escravos vindos de fora do Império. Essa lei não foi capaz de terminar com o tráfico atlântico. Pelo contrário, nunca se importou tantos escravos como nas décadas de 30 e 40 do XIX. O

269 FLORENTINO, Manolo. Em costas negras... p. 42. 270 FLORENTINO, Manolo. Em costas negras... p. 43.

significado dessa lei foi observado, posteriormente, quando escravos africanos, se comprovassem ter chegado ao Brasil após 1831, conseguiam sua libertação, após longo processo jurídico. Apesar do pequeno número de escravos beneficiados por tal medida, foi a primeira vez que a liberdade pôde ser alcançada de outra maneira que não a concedida pelo senhor, pois, até então, a alforria oferecida espontaneamente ou comprada pelo cativo, ao final, dependia sempre do proprietário.

A Lei de 1831 sofria críticas, como as de Rebouças, deputado pela Bahia, em discurso proferido na Câmara dos Deputados, em 1837. Para ele, o tráfico continuou existindo como contravenção, privando a Fazenda Pública da cobrança dos direitos de importação dos africanos, além de prejudicar a cobrança de impostos pelo comércio de fazendas e outros produtos, brasileiros ou não, que se fazia de um para outro lado do Atlântico. Na realidade, de acordo com a interpretação de Rebouças, a lucratividade dos importadores de escravos de má-fé aumentou ainda mais, pois se livraram do pagamento das taxas alfandegárias.271

A situação dos africanos contrabandeados para o Brasil, a partir de novembro de 1831, determinava, para eles, duas situações: serem escravizados ilegalmente ou serem apreendidos pelo poder público. Sendo a segunda opção, os africanos deveriam ser interrogados, batizados, se ainda não o tivessem sido, e colocados em depósito – normalmente as casas de correção – sob a responsabilidade de um curador.272 A partir daí, se abriam várias discussões. A primeira se deu acerca do sustento dos africanos livres. O deputado Luiz Cavalcanti afirmava que essas despesas deveriam ser pagas por meio do montante arrecadado com as multas aplicadas aos traficantes. “Entretanto, deliberadamente ou não, a quantidade de processos instaurados na justiça brasileira para julgar contrabando de africanos após 1831, é ínfima”.273 De acordo com Beatriz Gallotti,

aproximadamente 11.000 africanos foram emancipados e postos sob a custódia do governo brasileiro entre 1831 e 1856 por terem sido trazidos ilegalmente ao país. De acordo com acordos internacionais, eles tinham que servir por 14 anos como “criados ou trabalhadores

271 RODRIGUES, Jaime. O infame comércio: propostas e experiências no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). Campinas: Editora da UNICAMP/CECULT, 2000. p. 91.

272 RODRIGUES, Jaime. O infame comércio... p. 185. 273 RODRIGUES, Jaime. O infame comércio... p. 130.

livres” e para isso foram distribuídos entre instituições públicas e concessionários particulares.274

Ainda de acordo com Gallotti, mais de 80% dos africanos livres foram concedidos a particulares. De maneira geral, faziam o serviço doméstico. Os homens cultivavam roças e trabalhavam como cocheiros, enquanto as mulheres cuidavam das crianças de seus concessionários. Alguns eram alugados ou podiam viver sobre si e pagar o jornal semanalmente. A concessão de africanos livres se dava por favorecimento político a funcionários do governo imperial ou membros da elite política.275 Em nenhum momento se pensou em preparar esses emancipados para uma liberdade de fato.

Sob a justificativa de que os africanos necessitavam de um “período de aprendizado”, foram mantidos pelo governo imperial brasileiro sob tutela por décadas.276 Não podiam deixar seus locais de trabalho sem autorização e não recebiam salários. Na prática, sua vida não se diferenciava da dos demais escravos. Inclusive, na grande maioria das vezes, trabalhavam ao lado destes, sem nenhum privilégio. Tal situação demonstra a resistência do governo e da sociedade brasileira em garantir não somente aos africanos, mas aos negros em geral, a plena liberdade.

Em 1837, foi elaborado um projeto de lei para ser discutido no Senado, sobre a revogação da lei de 1831. “Nesse projeto, os africanos livres que houvessem sido comprados como escravos ficariam impossibilitados de reverter sua situação e reivindicarem a condição de livres, porque os senhores que os houvessem comprado ficavam a salvo de qualquer ação penal”.277 Na ocasião, a utilização dos africanos livres em obras públicas também foi motivo de discussão. Holanda Cavalcanti sugeria a proibição do uso desses africanos livres em obras públicas, como uma das formas de

274 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. Revisitando o problema da “transição para o trabalho livre” no Brasil: a experiência de trabalho dos africanos livres. In: GT Mundos do Trabalho – Jornadas de História do Trabalho – Pelotas, 6-8/11/2002. p. 01.

275 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. Revisitando o problema da “transição para o trabalho livre” no Brasil... p. 2-4.

276 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. Revisitando o problema da “transição para o trabalho livre” no Brasil... p. 1.

acabar com o tráfico,278 informando-nos que essa prática podia, ao invés de coibir a importação de africanos, incentivá-la. Outro ponto de controvérsia era o artigo da lei de 1831 que estabelecia a reexportação dos africanos ilegalmente importados. Essa possibilidade não se realizou, pois se justificava que, além do custo e risco da viagem, aqueles seriam re-escravizados assim que chegassem à África.279 O projeto de lei não foi aprovado, mas demonstra a intensa discussão sobre a destinação dos africanos aportados no Brasil na década de 30 do oitocentos.

Em 1851, há a supressão do tráfico africano, como consequência do acirramento da pressão inglesa. A partir dessa data, a população escrava passa a diminuir, pois não é capaz de se manter somente através do crescimento natural. A grande mortalidade infantil, maior número de homens, uso do castigo físico, trabalho esgotante, roupas, alimentação e habitação deficientes, cuidados médicos pouco eficientes podem ser considerados, entre outras, como razões para a inviabilidade da sustentação da mão-de- obra cativa via crescimento natural. Essa impossibilidade de sobrevivência e reprodução é prova da dureza da escravidão brasileira. A visão dos proprietários era eminentemente empresarial. A busca pelo lucro a curto prazo e a facilidade de compra de mão-de-obra cativa faziam com que a manutenção da vida do escravo fosse desconsiderada.

Com o fim do tráfico, a falta de mão-de-obra torna-se mais evidente, principalmente nas províncias do sudeste, cuja cultura do café se intensifica. Estas passaram a resolver o problema de abastecimento de trabalhadores com o comércio interprovincial. Ao se comparar a situação do Brasil com o sul dos Estados Unidos, no século XIX, observamos que, naquele país, fatores como o final precoce da importação de escravos africanos e a estabilidade econômica da região possibilitaram às famílias escravas viverem numa mesma propriedade por várias gerações, daí decorrendo alta taxa de crescimento vegetativo.280 No Brasil, os casamentos de escravos, mais comuns em Minas e São Paulo, eram praticamente inexpressivos em outras regiões. É preciso considerar, entretanto, que, ao nos referirmos ao casamento, no Brasil, estamos considerando o rito sagrado do matrimônio católico, enquanto, nos estudos sobre a

278 RODRIGUES, Jaime. O infame comércio... p. 90. 279 RODRIGUES, Jaime. O infame comércio... p. 109.

280 Cf. GUTMAN, Herbert G. The black family in slavery and freedom: 1750-1925. New York, USA: Vintage Books, 1976.

família escrava norte-americana, são considerados os casais que vivem conjugalmente. Os ritos de casamentos em países de tradição protestante são particulares, assistidos por um pastor da própria comunidade escrava, pelo proprietário ou, então, se resume a uma festa que tem o papel de tornar pública a vida conjugal do novo casal. No Brasil, como nos demais países católicos, o casamento é precedido de um processo mais lento, onde os noivos devem comprovar terem sido batizados e não terem impedimentos para que o sacramento seja realizado. No Capítulo III, tratamos do comportamento dos casamentos entre escravos no decorrer do século XIX.

Para se reverter o quadro da falta de mão-de-obra no Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, foi proposta a imigração chinesa, europeia e africana, através de leis de locação de serviços para se incentivar a colonização estrangeira. Entretanto, como eram extremamente duras, não foram capazes de promover a vinda desses indivíduos em número significativo, apesar das várias medidas de incentivo patrocinadas pelo governo central e provincial.

Apesar do grande número de livres pobres vivendo no interior do Brasil, não houve política para inseri-los como trabalhadores rurais, principalmente no sudeste. No norte e nordeste, eles foram absorvidos primeiramente, pois, nessas regiões, a economia voltada para o comércio local fez com que a escravidão declinasse mais rapidamente. Nesse aspecto, Minas Gerais se diferencia, pois, mesmo nas regiões em que a economia não está baseada na exportação ou no comércio interprovincial, a mão-de-obra escrava continua dominante, como veremos adiante.

O comércio de escravos interprovincial foi tão cruel quanto o atlântico. O deslocamento de grande número de cativos para a região cafeicultora do sudeste possibilitou a transformação das províncias do norte em um sistema de trabalho eminentemente livre, além favorecer sua inserção no movimento pró-abolicionista, pois se tornaram independentes do trabalho escravo.

Durante a década 1860, desenvolve-se um movimento emancipacionista significativo no Brasil, que culmina, em 1871, por pressão internacional, a partir da libertação de escravos em outros países. Além disso, decisões particulares, como a dos beneditinos, em 1864, iniciam processos voluntários de libertação de escravos (até certo ponto, pois já havia a pressão social sobre os setores religiosos, administrativos e internacionais).

A Guerra do Paraguai paralisa o andamento das discussões políticas, mas dá início a algumas ações, como o decreto de 1866, que libertava escravos do Estado para servirem no exército, incentivava o alistamento voluntário, fornecia títulos de nobreza a proprietários que fornecessem escravos para o exército, ou mesmo a oferta, em 1867, de 100 contos para a compra da liberdade de escravos que fossem lutar na guerra contra o Paraguai.

Em 1868, escritores, políticos liberais, estudantes e população urbana informada iniciam forte oposição ao ministério conservador de D. Pedro II. Em 25 de agosto de 1869, foram proibidos os leilões públicos e comerciais de escravos e a venda separada de marido e mulher ou da mãe e seu filho menor de 15 anos. Em 1870, há a proliferação de clubes emancipacionistas, frequentes reuniões pró-abolição e o início do jornalismo antiescravista. Esse ano também presencia o final da Guerra do Paraguai e o início do processo abolicionista em Cuba e Porto Rico. No Brasil, intensifica-se a pressão por medidas que ao menos indicassem, para uma data futura, o final da escravidão.

Podemos concluir que, até 1871, o foco de atenção permaneceu sendo os africanos chegados ao Brasil após 1831. Os escravos crioulos ou nascidos no Brasil só passarão a ter a atenção do poder público a partir da Lei do Ventre Livre (1871) e dos Sexagenários (1885).

A presença de grande número de africanos no país era motivo de preocupação na época, determinado pelo medo da “haitização”, ou seja, da rebelião dos negros, como ocorrera no Haiti, em 1804, quando da conquista de sua independência e estabelecimento da abolição da escravatura. Além disso, o discurso político – “travestido” de científico – higienista, que pregava a formação da família disciplinada, e que considerava a presença dos africanos nos “lares” brasileiros favorecedora da corrupção dos costumes e a proposta de nação europeizada baseada no “clareamento da raça” brasileira justificavam todo o debate em torno da presença e a condição dos africanos no Brasil nas décadas de 30 e 40 do XIX.

Em 28 de dezembro de 1853, o imperador, na figura de seu ministro e secretário de Estado dos Negócios da Justiça, José Thomaz Nabuco de Araújo, declara que os africanos livres arrematados por particulares ficariam emancipados depois que tivessem prestado serviços por quatorze anos e se assim o requeressem. Deveriam, então, passar a residir em lugar designado pelo governo e tomar “ocupação ou serviços mediante um

salário”, ou seja, seu trabalho seria arrendado por particulares ou pelo próprio governo para execução de obras públicas. O africano deveria requerer carta de emancipação ou ressalva de serviços e comprovar o tempo trabalhado através de testemunho próprio ou de outras pessoas, na maioria das vezes, africanos livres. Entretanto, para que recebessem sua carta de emancipação do chefe de polícia, foi montado um esquema burocrático extremamente complexo, o que nos mostra a resistência dos proprietários em se desfazerem de sua mão-de-obra já instituída. O requerimento era apresentado através de advogado ou promotor público. Em seguida, o curador era notificado, as testemunhas ouvidas. “Com os autos conclusos, o curador dava seu parecer, para só então o juiz de órfãos dar o veredicto. Julgado procedente o requerimento, o presidente da Província era notificado para determinar o local de residência daquele recém- emancipado”.281 Em 1864, com o Decreto nº 3.340, o direito à emancipação se estendeu aos africanos livres que prestavam serviço em estabelecimentos públicos. Podemos observar a presença desses africanos, livres ou emancipados, em Ouro Preto. A Lei Rio Branco, nº 2.040, ou do Ventre Livre, como ficou conhecida, outorgada pela Princesa Isabel, em 28 de setembro de 1871, reitera o estabelecimento dos africanos aportados no país após 1831 como libertos, no parágrafo 1º do art. 6º: “Serão declarados libertos os escravos pertencentes à nação, dando-lhes o Governo a ocupação que julgar conveniente”.282 No art. 8º da mesma lei, observamos a preocupação do governo em identificar os cativos, mandando-se realizar, até o prazo de um ano, matrícula de todos os escravos existentes no Império, com o nome, sexo, estado, aptidão para o trabalho e filiação de cada um, se fosse conhecida.

A escravidão, no Brasil, foi uma instituição que se mostrou extremamente vital até o fim, e, até a década de 1870, os movimentos de oposição a ela podem ser considerados fracos.

O debate sobre o comércio internacional de africanos para o Brasil se dava em vários níveis. De um lado, havia a pressão inglesa, se posicionando contra desde que proibira o tráfico de africanos para suas colônias. Por outro lado, havia o interesse dos

281

BERTIN, Enidelce. Os africanos livres e a luta pela liberdade em São Paulo no século XIX. XXIII Simpósio Nacional ANPUH. História: Guerra e Paz. Anais... Londrina, 2005. p. 01. In: http://www.anpuh.uepg.br/xxiii-simposio/anais/textos/ENIDELCE%20BERTIN.pdf

comerciantes de escravos e dos fazendeiros brasileiros, que tinham nos cativos a base de sua mão-de-obra. Devemos considerar, também, o debate político e jurídico no qual pessoas do governo e juristas defendiam ou condenavam a escravidão, contrapondo, dessa maneira, liberais e conservadores que se revezavam no poder. Por fim, não podemos desconsiderar a opinião pública, que vai se constituindo numa força de mudança a partir da segunda metade do século XIX. A escravidão vai perdendo sua legitimidade à medida que intelectuais, jornalistas, advogados e as camadas médias urbanas passam a ver a escravidão como sinal de falta de civilidade e de atraso social.

Entre idas e vindas, a legislação do período nos mostra como essa questão complexa vai delineando seu caminho, no sentido de não lesar os proprietários e de não desestruturar a base social e econômica do país, ou seja, a libertação dos escravos deveria ser feita a longo prazo, causando o menor abalo possível. Isso aconteceu, até certo ponto!