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Devido ao processo escravocrata iniciado no período colonial, o Brasil recebeu grande quantidade de mão de obra negra oriunda do continente africano. Os portugueses colonizadores do Brasil perceberam, na utilização da mão de obra escrava negra, a solução para alcançar prosperidade da política mercantilista da época. Conforme Ribeiro:

Aproveitando-se da experiência que já possuíam com escravos africanos em suas colônias nas ilhas atlânticas, os portugueses passaram gradativamente a importar escravos africanos para o Brasil a b fim de utilizá-los nas plantações de cana de açúcar. O açúcar já era um dos principais produtos exportados pelos portugueses de suas colônias para o mercado europeu, e a sua produção poderia ser bastante lucrativa no Brasil. Para tanto, foi indispensável o uso de escravos africanos como mão de obra. (RIBEIRO, 2012, p. 84).

A princípio a mão de obra escrava negra foi utilizada para o trabalho nas lavouras de cana de açúcar e, posteriormente; em outras atividades econômicas como a

mineração e a cafeicultura. A priori o trabalho compulsório realizado pelas pessoas negras desterritorializadas do continente de origem, a África. Esse trabalho foi justificado por fatores que abarcam desde a condição de inferioridade cognitiva associada aos negros, como também pela presença da escravidão no continente de origem dos escravizados.

O processo de escravidão brasileira foi marcado pela desumanização, tortura e maus tratos. Os negros escravizados estavam fadados a todo tipo de exploração, além disso, viviam em constante vigia por serem mercadoria muito valiosa na época. Sendo assim, concomitantemente ao processo de cerceamento da liberdade, alguns negros escravizados empreendiam a fuga rumo a comunidades localizadas nas matas distantes das fazendas dos senhores do engenho. A fuga foi uma das formas de resistência encontrada pelo escravo negro ao regime de opressão na qual se encontrava.

Segundo Fiabani (2005), durante a escravidão, muitos cativos fugiam para o sertão brasileiro, mas para esse autor, as fugas não se destinavam apenas aos lugares de difíceis acessos, há casos de cativos que se deslocaram para leprosários a fim de se esconderem. Outros cativos descolavam-se para os centros urbanos e se diziam libertos, viviam semiescondidos em meio à população urbana majoritariamente negra. Era comum, também, localizarem-se próximo à cidade, assim, conforme Campos (2007), ocupavam áreas como encostas de morros, principalmente as compostas por cobertura florestal. Ainda segundo esse autor, nas matas da Tijuca e Andaraí no Rio de Janeiro havia muitos quilombos (mocambos).

Formaram-se as comunidades chamadas quilombos, para Campos (2007), o nome quilombo era dado pelos de fora, os membros dos chamados quilombos denominavam o local de mocambo ou cerca, de acordo com a região de origem há outras denominações. Neste trabalho, optou-se pelo uso do termo quilombo para referir- se ao fenômeno que ocorreu em várias partes do Brasil.

De acordo com Amantino (2003), a vida no Brasil escravista estava marcada pela presença dos grupos quilombolas que aterrorizavam grande parte da população, como a Coroa Portuguesa. Inúmeras foram as tentativas de exterminar os quilombolas, utilizavam-se as milícias, os capitães do mato, alguns índios aliados, a Guarda Nacional, e o Exército. Porém, não conseguiram extirpá-los.

Uma das razões para a permanência dos quilombos na sociedade brasileira está relacionada à rede que tal grupo estabelecia com outras pessoas escravizadas, com senhores de vendas e grupos indígenas. Amantino (2003) destaca que, nas

documentações, as vendas aparecem para além da especificidade econômica. Assim, apresentavam-se como locais onde outras relações eram estabelecidas. Na ocasião, obtinha-se informação sobre amigos, expedições organizadas para exterminá-los, como também, eram locais onde se negociava o excedente que alguns quilombolas obtinham em ataques.

Para Nascimento (1985), a presença de quilombos no Brasil é datada de 1559, em documento oficial, porém, apenas em 1740, por meio da consulta do conselho ultramarino ao rei de Portugal, essa instituição passa a ter significado. Dessa maneira, o

quilombo foi definido, formalmente, como “toda habitação de negros fugidos, que

passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem

se achem pilões neles” (LEITE, 2000, p.336). Em relação ao conceito do quilombo

historicizado, a denominação associada a espaços de fugas foi um elemento importante na concepção e na manutenção do que seriam grupos de negros que não se encontravam sobre o domínio do escravizador.

Segundo Moura (1989), os membros dos quilombos organizavam ataques que consistiam em mortes aos opositores ao quilombismo, roubos de armas, de alimentos. Muitos senhores de engenho foram mortos, têm-se, como exemplo, a morte de Manuel Francisco Xavier, proprietário da fazenda Freguesia no Rio de Janeiro em 1838. Esse senhor foi morto por escravos negros liderados por Manuel Congo. Diante da vitória, começaram o empreendimento de ataques às fazendas vizinhas, porém as autoridades intervieram com envio de tropas que combateram os quilombolas e os aniquilaram. Diante das inúmeras fugas para os quilombos e dos ataques empreendidos pelos quilombolas, houve a formulação de alvará de 07 de março de 1741, que mandou

marcar com a letra “F” na testa de todo negro que fosse encontrado após sua fuga e em

caso de reincidência deveria cortar uma das orelhas.

Ainda de acordo com Moura (1989), os quilombos não eram formados por bárbaros, os ataques aconteciam, mas à medida que crescia procurava organizar-se internamente. Esse autor apresenta alguns aspectos da organização dos quilombos, quanto ao tamanho, variavam, havia pequenos e grandes, mas todos seus habitantes buscavam fugir da condição de escravos. O quilombo representava um modo de protesto organizado que variava de tamanho e possuía particularidades e sua essência estava alicerçada na negação do sistema. Tal compreensão é extremamente importante para justificar a existência dos quilombos no Brasil. Somente nos quilombos, os escravizados adquiriam o status de homens livres, pois a situação na qual se

encontravam não lhes permitia serem arrendatários, posseiros ou meeiros. Quanto à questão da posse da terra, perpassa pela lógica da não possibilidade de adquiri-la enquanto escravos, assim, diante da impossibilidade de comprá-la, apropria-se e a ocupa.

Conforme Moura (1989), apenas no quilombo o então escravizado conseguia alcançar a plenitude da liberdade, pois, mesmo quando forro, muitas vezes era obrigado a prestar serviços ao antigo senhor. O quilombo constituía outra possibilidade de manifestação humana, negava-se a monocultura de exploração a favor da policultura para o consumo. Em relação ao modelo econômico adotado, também havia variações de acordo com a região em que se encontravam. Segundo Freitas, há sete tipologias:

a) os agrícolas que permaneceram por todas as partes do Brasil; b) os extrativistas, característicos do Amazonas, onde viviam de drogas no sertão; c) os mercantis, também na Amazônia, que adquiria, diretamente de tribos indígenas, as drogas para mercadejá-las com os regatões; d) os mineradores, em Minas Gerais, Bahia, Goiás e Mato Grosso; e) os pastoris, no Rio Grande do Sul, que criavam o gado nas campanhas ainda não apropriadas e ocupadas por estancieiros; f) os de serviços, que saíam dos quilombos para trabalhar nos centros urbanos; e, finalmente g) os predatórios, que existiam um pouco por toda parte e viviam dos saques praticados contra os brancos. (FREITAS apud MOURA, 1989, p. 32).

Alguns quilombos possuíam uma característica peculiar à época que se refere à economia policultura, distributiva e comunitária. Assim conseguiam abastecer todos os membros da comunidade, havia trocas dos excedentes, mas priorizavam-se os membros. Amantino (2003), em seu artigo intitulado “Sobre os quilombos do sudeste brasileiro

nos séculos XVIII e XIX” aborda que várias documentações sobre os quilombos

apresentam aspectos da sua reprodução associada à existência da agricultura para a subsistência e o excedente era comercializado na vizinhança. Além disso, os membros apresentavam grau de parentesco, com hierarquia definida entre os membros, havia a presença de liderança. Essas condições eram encontradas em quilombos que se mantiveram por um maior período de tempo. A autora trabalha com uma diferenciação dos quilombos em autossustentáveis e quilombos dependentes. Segundo a autora, tal

classificação é necessária para que as análises não se configurem em “estudo de caso”,

porém reconhece que o procedimento pode limitar a análise em se tratando de quilombos.

Amantino explica que os quilombos classificados como autossustentáveis

possuíam “a presença de uma economia baseada na agricultura e/ ou na pecuária, capaz

de sustentar seus membros; a existência de uma liderança política reconhecida e estável;

e a realização de trocas comerciais com a sociedade do entorno” (AMANTINO, 2003,

p. 237).

Os documentos também apresentam a presença de lideranças para conduzir os quilombolas, caso ocorresse algum ataque e para se defenderem. Alguns mapas da época que representam alguns quilombos demonstram a configuração espacial das casas das lideranças. Conforme os documentos compostos por mapas, verificou-se “Casas de Audiência com assentos (quilombo da Samambaia), Casa do Conselho (Rio da

Perdição) e Casa do Rei (Braços da Perdição).” (AMANTINO, 2003, p. 242). Essas

denominações eram dadas pelas expedições de ataques, sendo assim não se pode afirmar a que tipo de organização política se referiam.

Outro aspecto importante refere-se à consciência do papel que cada pessoa tinha dentro do quilombo. A maioria das pessoas nos quilombos era formada por escravos fugidos, que queriam escapar da escravidão. Sendo assim, podiam ser identificados como grupo formador de comunidades, visto que se uniam para fugir da condição de escravo.

Já os quilombos classificados como dependentes:

Incluíam os quilombolas que não queriam ou não conseguiam garantir por si mesmos a sobrevivência do grupo. A principal característica, nesse caso, é não haverem gerado condições para o estabelecimento de uma produção autônoma. Por isso, necessitavam promover razias, praticar assaltos a fazendas e vilas próximas, bem como nos caminhos e estradas. Esses quilombolas não possuíam liderança viviam nas matas com população pequena. (AMANTINO, 2003, p. 237).

A maioria dos quilombos brasileiros era dependente, de acordo com os documentos, possuíam estrutura menor, com poucos membros e, para sobreviver, praticava roubos. Não possuíam a prática de cultivo para a subsistência, pois eram nômades, dispersavam-se com muita facilidade. Esses quilombolas tinham muita facilidade em se esconder nas matas, dificultando a captura pelas expedições. Umas das dificuldades em capturá-los deveu-se à associação dos quilombolas aos garimpeiros clandestinos, aos homens livres e pobres, aos bandidos. O que se tornava muito difícil distinguir os quilombolas dos outros segmentos da sociedade. Conforme Amantino

(2003), a rede desses segmentos era tão intensa que as autoridades os julgavam da mesma maneira.

2.2 DA INVISIBILIDADE AO RECONHECIMENTO CONSTITUCIONAL