A dívida contraída é paga, no decorrer da viagem, através de um desconto gradativo, na medida em que as peças vão sendo vendidas. Ao final de cada dia de trabalho, o redeiro-vendedor presta conta ao proprietário ou ao encarregado informa a quantidade de peças vendidas e, a cada peça, corresponde um desconto no valor atual (2004) de R$ 2,00. Este procedimento é notificado em um caderno, chamado “registro25”. Dessa maneira, cada peça vendida corresponde ao desconto já firmado entre o redeiro-vendedor e o redeiro-proprietário ou o encarregado. O ‘‘ vale’’ é descrito por Gerôncio da seguinte forma:
A gente faz um vale assim, entendeu? Por exemplo: eu não estou devendo nadinha, nè? Aí a pessoa chega e diz: quer viajar mais eu? Eu digo vou! – Quer quanto de vale? - Me arrume aí mil reais, quinhentos seiscentos, aí ele me empresta o dinheiro, sabe? Aí eu pago com o registro, entendeu?
De acordo com o senhor Cícero, a utilidade do ‘‘vale’’ é colocada da seguinte forma:
24 Termo utilizado para designar aquela pessoa que dar um jeitinho para os redeiros trabalharem em lugares proibidos e não serem pegos pelos guardas municipais.
25 O registro é um assento de todas as peças vendidas pelo redeiro. A cada rede vendida equivale um desconto de R$ 2,00 a R$ 5,00 (2002-2004) que é controlado pelo dono; na ausência deste o responsável por tal registro é o corretor. Muitos redeiros saldam sua dívida utilizando somente o registro.
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é para as despesas de casa e pras farradinhas, brincar. Agora, primeiramente é a despesa de casa, que é o principal de tudo; que tem gente que vai gastar, nada sobra, e hoje em dia na vida é tudo difícil, né? Eu só gosto de uma brincadeirinha quando sobra26.
Essa dívida contraída é reconhecida por toda a comunidade de origem do redeiro – vendedor. Como se pode perceber, ela promove desde o abastecimento do lar até as “farradinhas”, apreciadas pelos redeiros, seja no seu espaço de origem (Patos-PB), seja nos lugares de transitoriedade, ao efetivarem as vendas das redes. O valor do vale é concedido e definido pela confiança de que é merecedor o vendedor. Afinal, ser “bom pagador” é uma das variáveis responsáveis pela construção da honra de um redeiro em Patos-PB. Assim, a quantia a que corresponde o “vale” varia com a “honradez” do vendedor. Ou seja, se um vendedor eventualmente “manchar” sua própria imagem, o valor que tem determinado vendedor será, também, reduzido diante do fornecedor do “vale”; pois a atribuição é feita a partir da confiança que o redeiro-vendedor mantém diante de todos. Existe vendedor que, ao fazer o acordo, pede uma determinada quantia; o valor solicitado pode subir ou baixar; tudo depende do quanto cada vendedor vale para o proprietário. Durante a pesquisa me foi possível observar várias negociações para aquisição do “vale”. Certa vez, um redeiro-vendedor, ao firmar o acordo, solicitou do redeiro-proprietário R$ 2.500,00; o dono das redes ofereceu para o vendedor o dobro do valor solicitado. Quando isso acontece, há uma demonstração de que aquele vendedor tem, por parte do proprietário das redes, todo crédito moral e econômico. Em outras ocasiões, observei redeiro-vendedor solicitar R$ 500,00 e o redeiro-proprietário falar que só podia “arrumar” a metade. O “vale” vale a confiança, a credibilidade que cada redeiro representa na condição de se mostrar como um “bom-vendedor” ou “mau-vendedor”.
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O “vale” vale a aquisição de prestígio junto à comunidade pelas quais transitam os redeiros, como também a manutenção desse grupo, e de todo o grupo familiar. De acordo com uma informante, “sem o vale, o ramo de rede não tava com nada” (Edjane, residente no São Sebastião – 28 anos – esposa de redeiro-proprietário).
Nesta afirmativa, a informante explicita que o “ramo de rede” possível é aquele que se faz à base do “vale”, no contexto em que os redeiros pesquisados se inserem. A rigor, o “vale”, trata-se de um mecanismo importantíssimo que foge a formas convencionais (acordos firmados no papel assinado, etc), e que se caracteriza como mecanismo que viabiliza uma troca comercial, e não propriamente uma dádiva. Pode-se dizer que, de certo modo, essa relação em que se insere o “vale” se aproxima daquelas relações analisadas por Mauss, norteadas pela dádiva.
3.6. O desconto no “registro”
O Redeiro denomina de “registro” a prestação de conta que é feita no caderno, este procedimento é mais um mecanismo utilizado pelo redeiro para controlar as vendas das redes. Dessa maneira é feito o registro da quantidade de redes que cada vendedor consegue vender por dia, mês e por toda a viagem. No “registro” cada peça vendida corresponde a um desconto que sofre uma variação de R$ 2,00 a R$ 5,00 (2002-2004), de viagem, de caminhão, o acordo se dá do valor que terá o “registro” entre os redeiros e sempre antecede as viagens. Uma vez determinado o valor do “registro” segue toda a viagem aquele valor, não há, portanto, uma variação de abatimento.
O “registro” é um abatimento feito no final de cada dia de trabalho e funciona da seguinte forma: ao final de cada dia de trabalho, o redeiro presta conta ao redeiro- proprietário ou ao encarregado da mercadoria; se, por exemplo, o redeiro vendeu seis redes o desconto será registrado no caderno de seis redes e na frente dessa quantidade é anotado o valor correspondente a essa quantidade de redes vendidas; se o valor do
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“registro” é de R$ 2,00, nesse caso específico o desconto pelas seis redes vendidas é de R$12,00 que será abatido no valor do “vale” daquele redeiro que prestou conta naquele dia. Gradativamente, vão sendo descontado o ganho dessas vendas no valor do “vale que o redeiro firmou com o dono antes da viagem, quando ainda se encontrava na sua cidade de origem”.
O “registro” registra todo o desempenho do corretor, pois lá está registrada a quantidade de redes vendidas, o valor já pago do “vale”, a quantia que ainda resta para tal corretor pagar ao dono e diz muito além desses aspectos objetivos, pois expressa toda confiabilidade, dignidade e principalmente a honradez do redeiro.
Conforme pude perceber, nos registros de alguns redeiros há uma variação enorme de comportamentos e atitudes frente às vendas no processo da comercialização: há aqueles casos em que o redeiro faz “registro” diário das peças de redes vendidas, registro de quantidades de redes vendidas que se fazem em torno de dez redes vendidas por dia; enquanto que há casos de redeiros que seguem-se dias sem prestar conta de uma só rede vendida, e quando presta conta é de uma ou duas e esse procedimento não é diário, isso ocorre até por semana. Quando isso acontece todos os demais vendedores ficam sabendo e comentando sobre aquele redeiro que não está prestando conta de redes vendidas, se está ou não vendendo e se está onde ele está utilizando o dinheiro ganho com a venda da rede.
Há casos em que o redeiro consegue pagar o seu “vale”, ainda, no início e ou até a metade da viagem; quando isso acontece, o “registro continua sendo feito; então a anotação é feita de forma diferente: para cada peça de rede vendida é colocado no caderno a palavra “a ver”; que quer dizer que aquela quantidade de redes vendidas o redeiro vai ver em forma de dinheiro.
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Quando acontece do redeiro ter “a ver” no seu “registro” há uma demonstração pública do quanto ele é considerado “um bom vendedor”, “um bom redeiro”; então nesses casos tudo ou quase tudo é negociado com aquele vendedor, pois ocorre entre eles o reconhecimento do seu “bom desempenho”.