Aprender a
Sobre este posicionamento é oportuno trazer mais uma vez um dado da pesquisa de Cruz (2011, p. 75) quando entrevistou uma professora formada no Curso Normal e na Faculdade de Pedagogia na década de 1960 em São Paulo, pois sua fala se reporta a deficiência do Curso Normal no domínio de alfabetizar as crianças. Como se trata de uma pessoa do Curso Normal em outro estado, se comprova que este problema atinge dimensões amplas e se caracteriza também como uma deficiência na organização curricular como enfatizado a seguir:
eu cheguei chorando em casa depois de seis meses dando aula. Eu era uma das melhores alunas do Normal. Tinha tirado 10 em didática, 10 em metodologias, 10 em prática ... e não conseguia dar aula!!! Só 12 alunos de uma classe de 23 estavam conseguindo aprender a ler. Eu não me conformava de ter estudado tanto, de ter feito um curso excelente e não conseguir alfabetizar.
Retomando o final da citação de Lima (1966, p. 19) “[...] haja vista a incapacidade nacional do magistério alfabetizar as crianças” além dessa deficiência de se estender para o Brasil nessa modalidade de ensino o problema ainda se tornou maior, pois quando se pensa na formação de professores em nível superior essa dificuldade também perdurou mostrando a fragilidade de todo o processo de formação para o magistério no Brasil. Dessa forma, considera-se elucidativo e enriquecedor trazer à tona os depoimentos de duas alunas que cursaram o Ensino Normal e a Faculdade de Pedagogia, na década de 1950 e 1960 respectivamente, em São Paulo, que também foram fontes de análises da pesquisa de Cruz (p. 2011, p. 74-75).
Eu não sabia o que eu ia fazer da minha vida porque, naquela época, quem passasse em primeiro lugar na Escola Normal ganhava a “cadeira prêmio”. Eu ganhei a “cadeira prêmio” e fiquei afastada, comissionada, para fazer o Curso de Pedagogia na USP. Terminando o curso, eu tinha que assumir a “cadeira prêmio”, e eu não sabia o que fazer com as criancinhas. Eu entrei em pranto e desespero... É verdade!
Terminei a Escola Normal e, imediatamente, eu ingressei no Curso de Pedagogia da USP. Meses depois, eu recebi um prêmio pelo meu desempenho durante todo o Normal. Chamava-se “cadeira prêmio” que o governo do Estado concedia aos melhores alunos da Escola Normal. [...] Fui, então, escolher o meu lugar no sistema público e fiquei assustada porque me deram uma 2ª. série de alunos repetentes, que não sabiam ler. Ninguém me ensinou a alfabetizar... Eu não sei. Eu não posso dizer que não tive aula sobre alfabetizar. Mas eu era boa aluna, aprendia o que me ensinavam e, quando comecei a trabalhar, eu não sabia alfabetizar.
As falas anunciam problemas ocasionados entre o distanciamento da prática e da teoria, enfatizando-se mais o problema da ausência da prática que teve uma continuação mesmo
quando foram criadas as primeiras faculdades para a formação de professores. Em momento oportuno se trará a discussão Dio IEC/EN ter uma formação mais prática com maior carga horária para a prática de ensino em detrimento da faculdade que terá uma formação mais teórica, embora nos últimos anos tenha aumentado a carga horária referente à prática de ensino.
Somente em caráter informativo a primeira faculdade surge em São Paulo, de Filosofia, Ciências e Letras (Decreto nº 6.283 de 25 de janeiro de 1934). Posteriormente, mas na mesma década é criado o curso de Pedagogia51 e de didática e o grau de licenciado seria conferido apenas a quem cursasse os dois. (CRUZ, 2011). Assunto que não será aprofundado nesse trabalho, mas que merece ser assinalado porque mostra que a criação das primeiras faculdades brasileiras não sanou o problema já vivenciado no curso normal.
Em relação ao ensino normal e nível superior, atualmente se percebem muitas mudanças no sentido de melhoria na formação do professor baseada na articulação do binômio teoria e prática, como também o aumento da carga horária dos estágios e mais oportunidades do professor em formação poder ter contato com experiências nas modalidades que poderão a vir trabalhar: Educação Infantil, Ensino Fundamental I e Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Considera-se relevante atualizar algumas informações referente ao currículo utilizado no curso normal no ano de 2014. O currículo do curso normal integrado está distribuído em 4 (quatro) anos, estruturado da seguinte forma:
Base Nacional Comum: Língua Portuguesa - 560h/a; Educação Física -160h/a; Matemática – 480 h/a; Física – 120h/a; Química – 120h/a; Biologia – 120h/a; História – 120h/a; Geografia – 120h/a; Filosofia – 40h/a; Sociologia – 40h/a. Parte Diversificada: Arte – 40h/a; Língua Estrangeira (Inglês) – 120 h/a; Língua Estrangeira (Espanhol) – 80 h/a; Literatura para Educação Infantil (80 h/a; Ensino da Língua Portuguesa – 80h/a; Ensino da Matemática – 80h/a; Ensino da História (80 h/a); Ensino da Geografia – 80 h/a; Ensino das Ciências Naturais – 80 h/a.
Gestão Pedagógica: Didática Geral – 80 h/a; Fundamentos de Estrutura e Organização da educação Básica – 40 h/a; Fundamentos de Filosofia e História da educação Infantil e Ensino Fundamental – 40h/a; Fundamentos de Sociologia e Antropologia da Educação - 40 h/a; Fundamentos do Desenvolvimento Infantil – 80 h/a; Fundamentos da Educação Especial – 40 h/a; Fundamentos de Psicologia da Educação – 80 h/a; Brinquedos e Brincadeiras
51 “O curso de Pedagogia teve por finalidade primeira formar bacharéis e licenciados, de acordo com o modelo já mencionado 3+ 1: três anos de bacharelado e um ao de licenciatura, sendo esta realizado no curso de Didática”. (CRUZ, 2011, p.36).
na Educação Infantil e no Ensino Fundamental – 40 h/a; Ensino da Educação Especial – 80 h/a; Psicomotricidade.
Prática de Ensino e Estágio Supervsionado – 800 h/a. Ressalta-se que devido a
diferença de tempo de aula menor no turno noturno de 50 para 40 minutos, a carga total do curso totaliza: diurno – 4.000 e noturno – 3.200.
Em relação às disciplinas apresentadas se percebe um avanço na distribuição das cargas horárias, principalmente, no tocante à prática de ensino que se considera de extrema relevância para a formação do profissional, sobretudo, do professor que é o formador de todos os profissionais, que em cada função específica ocupará um papel na sociedade, portanto, estarão também conduzindo teorias e práticas que influenciarão na vida cotidiana da sociedade.
Vale citar que no IEC/EN funcionam também dois cursos de formação continuada que fazem parte da Escola Normal, onde atualmente funciona o CREACE. Os dois referidos cursos têm carga horária de 800 h/a distribuídas em um ano.
O primeiro que iniciou suas atividades foi o Curso de Formação em Educação
Especial na Perspectiva de Inclusão, com a seguinte matriz curricular: Fundamentos de
Educação Especial e de Inclusão – 40 h/a; Fundamentos Psicopedagógicos – 40 h/a; Fundamentos Didáticos Especiais e Organização do Trabalho Pedagógico – 80 h/a; Desenvolvimento Infantil e Noções de Genética – 120 h/a; Pesquisa Educacional – 40 h/a; O Lúdico e Arte na Educação Inclusiva – 80h/a; Psicomotricidade – 40 h/a; Fundamentos Teóricos- Metodológicos da Deficiência Intelectual no Cotidiano Escolar – 40 h/a; Fundamentos Teóricos- Metodológicos da Deficiência Auditiva no Cotidiano Escolar e Noções de Libras – 40 h/a; Fundamentos Teóricos- Metodológicos da Deficiência Psicomotora/Deficiência Múltipla – 40 h/a; Fundamentos Teóricos- Metodológicos da Deficiência Visual/Cegueira e Noções de Braille no Cotidiano Escolar - 40 h/a; Prática de Ensino Supervisionado e a Formação Ética e Política do profissional da educação Especial numa Perspectiva Inclusiva.
Em 2012 a partir do projeto52 “Cursos de Formação para o Magistério e Gestão Escolar” que compreendiam a educação infantil, série iniciais do ensino fundamental e EJA em que esta pesquisadora foi coordenadora, juntamente com uma equipe em que duas das
52 “Cursos de Formação para o Magistério e Gestão Escolar”. Descrição: Projeto que objetiva a implantação de Cursos de Formação Continuada com duração de 1 ano e carga horária de 1.000 h/a para o magistério nas áreas de Educação Infantil, Séries Iniciais do Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos - EJA. Na área de Gestão Escolar: Curso de Coordenação Pedagógica. (2008).
participantes, uma foi diretora em 2012/2013 e a outra é atual diretora, elaboraram a matriz curricular do segundo curso de formação continuada.
Somente em 2014 puderam ofertar um dos cursos e optaram pelo curso na área de educação infantil, reformularam a matriz curricular do projeto original e, atualmente, se tem a primeira turma piloto do Curso de Formação Continuada em Educação Infantil na Perspectiva
de Inclusão, funcionando com 26 alunos e com a seguinte estrutura curricular: Fundamentos da
Educação Infantil e Inclusão – 40 h/a; Pressupostos Biopsicossociais da educação – 80 h/a; Conhecimentos Didáticos Pedagógicos da educação Infantil – 120 h/a; Abordagem Psicossocial Linguísticas do processo de Alfabetização – 80 h/a; Conhecimento Lógico Matemático na educação Infantil Natureza e Sociedade – 40 h/a; Tecnologias Assistivas – 40 h/a; Psicomotricidade e Lúdico – 80 h/a; Arte e Musicalidade – 80 h/a e Estágio Supervisionado: Prática Pedagógica e Iniciação a Pesquisa – 160 h/a.
Uma questão que merece atenção é o fato de que desde a elaboração do projeto original a pesquisadora (organizadora do projeto) e ter feito apologia a importância da pesquisa na formação dos professores incluindo-a na matriz curricular para que o interesse por este campo fosse despertado por ter a pesquisa muito a acrescentar na formação de um docente crítico e reflexivo, a partir das experiências trazidas da prática e repensadas com a teoria.
Em relação aos dois cursos de formação continuada mencionados, nas áreas de educação especial e educação infantil considera-se uma boa formação com carga horária bem expressiva, o dobro de muitos cursos de especialização, mas percebe-se 3 (três) entraves: a falta de divulgação e a presença de professores temporários, não no sentido do conhecimento, mas no tocante à inconstância trazendo sempre a ideia de “recomeço” a cada troca de profissional e, por fim, o fato de ser totalmente presencial e diário dificultando e ao mesmo tempo privilegiando poucas pessoas que dispõem de tempo nesse mundo em que o tempo parece diminuir a cada dia com tantas atividades que se envolve cotidianamente.
E aqui me refiro exatamente ao tempo vivido no mundo, que não é representado pela dimensão espacial, mas o tempo histórico vivenciado por cada um em seu dia. (HEIDEGGER, 2004). Caso fosse a distância, por exemplo, esse aspecto seria bem amenizado uma vez que permitiria o aluno a usar a autonomia de estudo de acordo com seu tempo.
Na próxima sessão serão abordados os aspectos didáticos e pedagógicos do curso destacando-se: as aulas e recursos didáticos, a prática de ensino das normalistas e a avaliação da aprendizagem