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BM VE AB FONLARI, YURT DIŞI FONLARI

Ao que pude constatar, não é o uso de drogas, mesmo se for freqüente e acentuado, que classifica o redeiro como mau-vendedor ou bom-vendedor. O que determina a honra ou a desonra desses redeiros é o cumprimento ou não da dívida que eles contraem ao combinar a viagem. Quando o redeiro é identificado como um mau- vendedor, isso compromete a sua permanência no grupo e a sua reputação na sua cidade de origem e também na de transitoriedade, pois em muitos casos o dono das redes deixa esse redeiro no meio do mundo. Quando isso ocorre, em Patos todos os outros donos de redes ficam sabendo. Ao estar informado sobre tal ocorrência o dono não fornece o crédito para o mau-vendedor.

Na comunidade de origem do redeiro há o reconhecimento público por parte, principalmente, dos fornecedores de leite, pão, carne e do bodegueiro com quem a família se abastece de alimentos e o próprio redeiro faz suas farrinhas de bebedeiras; do quanto esse redeiro pode passar a descumprir com algumas regras impostas, que quando cumpridas favorecem o crédito moral e econômico do redeiro e de todo seu grupo familiar.

Ao contrário do que ocorre ao mau-vendedor, o bom-vendedor, recebe todas as honrarias do dono das redes, dos seus colegas de ramo e de toda a comunidade de origem e das que transitam vendendo redes, junto aos credores, tais como: o leiteiro, o açougueiro, o pãozeiro, o bodegueiro, o lojista e aos diretores de escolas. Ao bom- vendedor tudo é garantido no sistema de trocas: o vale, a viagem, a alimentação, o aumento do vale em meio à viagem, passagens para que a família o visite onde quer que eles estejam vendendo suas redes. Todas as trocas são possíveis. Tudo pode ser trocado. Como me relatou Ana que sempre que seu marido (considerado bom – vendedor) está no Rio de Janeiro, ela vai passar uma temporada com ele (em torno de quatro a seis meses).

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Socorro também me falou que todo verão ela deixa seus três filhos em casa e vai passar alguns meses com seu esposo, onde quer que ele esteja, até pro exterior.

Para o bom-vendedor, tudo ou quase tudo é trocado e acrescido, trocam-se as formas de negociação, as moradias, o tipo de alimentação, a posição social que este vendedor ocupa no ramo e na comunidade em que mora, pode ser acrescido sua habitação até as esposas, pois é recorrente entre esses bons-vendedores manterem mulheres fora do casamento.

É recorrente entre esses homens haver uma melhoria de vida, que se percebe ao conquistar dentro do ramo uma certa confiança e crédito junto ao dono. Quando isso acorre, esses bons vendedores costumam trocar seu modo de viver, incorporando novos hábitos alimentares, nova formas de vestir e morar, o que leva conseqüentemente ao novo estilo de vida. Essa nova forma de viver é demonstrada pelo redeiro e por sua família como um aspecto honroso que eles costumam manter diante da comunidade. Em uma das vezes em que fui à casa de Socorro, ela fez questão que eu conhecesse toda a casa, me levou a cada cômodo, descrevendo cada ocasião em que comprara determinado móvel. Toda a mobília foi-me apresentada com um certo prazer e orgulho, pois até pouco tempo (em torno de seis meses), toda sua família teve que morar em Belo Horizonte34, para o marido se erguer, pois, nesse ramo, a estação do ano determina o período de boas vendes de rede, e o inverno não é uma estação boa para se vender esse tipo de artigo.

Aconteceu com Edílson o que acontece com alguns redeiros: no inverno, com vendas fracas esses homens são forçados a vender o que eles compram pra casa no verão, como eletrodomésticos, terrenos, carros, etc. Vendo-se sem condições financeiras de permanecer na sua cidade de origem, eles migram e permanecem por mais tempo em

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uma determinada cidade com toda a família, até equilibrar as coisas (Edílson)35. De acordo com Socorro, eles gostam mesmo é de Patos, mas vez por outra é preciso dar um

tempo fora. Quando acontece de sair de Patos para morar em outro lugar, as famílias vão com um certo pesar, pois para eles Patos é que é a cidade de se morar: é calma, os

meninos vão pra festa sem medo, todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda (Socorro, 40 anos, residente no bairro da Liberdade). Quando acontece do redeiro, a exemplo do que fez Edílson: levar toda a família para morar em outro estado para equilibrar o orçamento, eles procuram carros de redes que estejam vendendo bem (capas de carro, chapéus, entre outros artigos). Esses homens levam toda a família com o intuito de economizar mais, pois segundo eles, quando todos estão num só lugar as despesas são menores; para eles, no momento em que vão e deixa a família em Patos tudo fica mais difícil para organizar as contas que têm com o padeiro, com o açougueiro, com o leiteiro, com o bodegueiro, enfim, com todos aqueles que formam a rede de endividamento.

Assim como o crédito, a confiança e o respeito podem dizer da grandeza do trabalho do redeiro. A fofoca também revela aspectos das relações sociais que se estabelecem entre eles, seja em Patos seja em outros lugares em que vendem as redes. Entre eles a fofoca tem um caráter disciplinador, regulador e informativo, servindo como sustentáculo às trocas que são efetivadas dentro desse universo. Sabe-se quem conseguiu pagar ‘‘vale’’ e, conseqüentemente, quem pode ter crédito para poder manter sua vida e viajar. Sabe-se quem comprou o quê, quem está devendo o mercadinho, ou a escola do filho.

Essa fofoca, bastante recorrente entre os redeiros, envolve o relato de fatos que podem se apresentar como reais ou imaginários sobre o compromisso que o redeiro tem a

35 Nesse caso, quase sempre procuram, nessa outra cidade, contato com outros redeiros, que, como ele, estão vendendo outros artigos “bons para serem vendidos”, naquela época do ano.

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priori com o patrão e a posteriori com outras instituições (mercadinho, bares, botecos, bodegas, escolas, etc) que lhe abrem créditos na comunidade de origem.

Entre eles, a fofoca fortalece os laços de identidade comunitária. Todos se reconhecem nos casos citados. Estes representam, de certa forma, histórias comuns de pessoas que vivem situações com um certo grau de semelhança muito próximo de suas experiências, o que de certa forma serve para mensurar o aspecto honroso de cada redeiro.

A fofoca entre eles tem também uma função educativa. As histórias de redeiros que foram abandonados no meio do mundo recaem sobre eles, principalmente os mais jovens, como uma forma de apreender os comportamentos que integram esse universo. Também um outro aspecto dessa função pode-se perceber na transmissão do saber “ser redeiro”, nas histórias contadas pelos redeiros aos filhos, utilizadas para ensinar os mais jovens o modo como eles têm que se comportar dentro desse ramo.

Para o redeiro é muito importante manter sua honradez intacta, pois é dela que ele pode ou não continuar mantendo o crédito, tão necessário à sua vida familiar, comunitária e social. É preciso que sua identidade esteja diretamente associada ao emblema de ser um bom-vendedor, ao qual, como já citei anteriormente, tudo ou quase tudo lhe é disponibilizado. Por isso é muito importante que esse redeiro, independente do lugar em que esteja, zele sempre pela sua reputação, já que esta está diretamente relacionada aos caracteres como: respeito, prestígio, confiança, etc.

Entre os redeiros, a reputação está diretamente associada ao pagamento da sua dívida. Isso é de grande importância, pois a honra do redeiro depende do reconhecimento público de que ele é cumpridor de suas dívidas, da capacidade de vender muito, da coragem de entrecruzar territórios (independente do que vai vender ou em que período essa venda se efetue).

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A reputação desses homens torna-se importante também porque ela distingue o

bom-vendedor daquele mau-vendedor, independente do espaço em que estejam, do valor que conseguir da dívida e da freqüência com que eles podem ou não visitar suas famílias no decorrer de uma determinada viagem.

O mau-vendedor é capaz de desonrar a si próprio e ao grupo. Algo que deve ser respeitado é o segredo do valor de cada peça a ser vendida. Quando o mau-vendedor vende uma rede por um preço inferior ao que é merecido, vendida por todos no grupo, os outros redeiros lhe atribuem o conceito desprezível e reconhecido por todos dentro do “ramo”. Esse mau-vendedor é identificado como um sapo, um cururu, pois de acordo com os bons-vendedores, o sapo é aquele que além de não vender bem, quando vende uma peça é por um preço tão baixo, que escracha36. De acordo com Jailton, o mau-

vendedor só sabe escrachar com o ramo, ele não vende nada. Entra no ramo só pra acabar com o ramo, só vende escrachando.

Ao contrário, o bom-vendedor é considerado por todos os seus companheiros de

ramo um homem sábio, honrado. O fato de ele guardar todos os segredos do ramo, tais como vender ganhando, vender num preço que cubra os gastos de cada saída para a praia, o parque ou a praça, garante a ele atributos como máquina, braúna. Esse bom- vendedor é definido pela honra, e esta está expressa no pagamento da dívida que ele mantém com o dono das redes. O seu maior prêmio é o reconhecimento público de ser um homem capaz de obter mais crédito, mais confiança, mais respeito e honrarias.

3.12. A convivência dos redeiros no espaço de trânsito

36 Termo utilizado dentro do ramo de rede para identificar vendas baixas; quando a rede é vendida por preço muito inferior ao seu valor já determinado pelo dono das redes, que é o mesmo valor que será cobrado no registro (desconto do vale). Popularmente, no “mundo do redeiro” escrachar, quer dizer “vender barato”.