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Foram mencionadas diversas atitudes consideradas importantes que os estudantes desenvolvessem. Um dos informantes mostrou que

[...] se a interação é harmoniosa com o corpo docente, a Biblioteca Escolar poderá cooperar na formação de várias atitudes: o hábito de utilizar a informação, o de pesquisar, o hábito de usar a Biblioteca, o gosto pela leitura, além do desenvolvimento do pensamento crítico (D 2/39).

Pretendeu-se desenvolver capacidade de socialização (D 9/229), bem como atitudes e comportamentos exigidos para sua concretização.

A alteridade é praticada a cada encontro semanal. Várias vezes observamos as crianças conversando em baixo tom de voz e tratando-se com respeito mútuo. Um dos participantes certa vez comentou: ‘a biblioteca é muito legal e agradável. Aqui as pessoas são educadas e se respeitam’ (D 10/240).

Respeito mútuo e capacidade de trabalhar em grupo apareceram em alguns relatos, sendo um dos objetivos de um projeto de leitura “aprimorar a habilidade de trabalhar em grupo” e “saber ouvir” (D 16/1). Em outro, verifica-se que “os alunos [...] descobrem o valor do trabalho em grupo e do voluntariado” (D 14/155) ao participarem de atividades oferecidas na biblioteca.

Houve informantes que mencionaram atitudes de responsabilidade social relacionadas especificamente ao espaço da biblioteca.

[...] a biblioteca é um lugar para todos estudarem, lerem ou fazerem a tarefa e, portanto, é necessário manter silêncio para que ninguém seja prejudicado na sua atividade. [Os funcionários] orientam os alunos... a guardarem as mochilas num determinado canto da sala, com o intuito de acostumá-los com as demais bibliotecas públicas, nas quais não se pode entrar com nenhuma bolsa. Além disso, procuram manter a ordem dos livros, das carteiras, chamar atenção para que as crianças não corram etc. Tenta-se, na verdade criar um hábito nos alunos de como cuidar desse ambiente que é de todos e que deve servir para o desenvolvimento de todos (D 10/242, 243).

Na 1ª série vou receber os alunos aqui; os professores vão trazê-los para que eles conheçam esse espaço, para que eles conheçam o acervo que eles têm à disposição, a dinâmica de funcionamento. Por que ele vai estar aqui, mas vão ter outras pessoas aqui também, então ele vai ter que saber como é que ele tem que ficar aqui: não pode ficar correndo, não pode comer, não pode trazer garrafinha de água... (E 2/6).

Eles estão aprendendo a usar mais a biblioteca. Antes tanto faz comer, tanto faz beber, eles não tinham certos cuidados; hoje alguns alunos já estão entendendo quando eu digo que na biblioteca não pode comer doce. Agora silêncio, silêncio, minha biblioteca não é não, por que primeiro é uma biblioteca escolar. Só quando eu vejo que têm alunos estudando e outros que o barulho tá demais, aí eu chego e digo ‘Vamos maneirar, tem professor trabalhando, tem aluno trabalhando’ (E 3/5).

[...] aquela visita orientada a gente tem todos os anos com os meninos... então eles aprendem a coletivizar a biblioteca, o que eles podem fazer lá dentro, a maneira como eles podem fazer, porque até que eles podem fazer tudo, mas com respeito (E 1/12).

Isso era feito de forma natural e democrática, como se pode observar pelas falas a seguir.

E até mesmo agora que eles já estão chegando na outra biblioteca eles já vêm com aquela consciência e têm esse deslumbramento da biblioteca grande, das estantes grandes, que eles podem andar no meio dos livros. Então é uma coisa mágica pra eles. Então o primeiro momento também a gente faz um treinamento. Aí já é um treinamento diferente, faz uma visitação pela biblioteca, explica que quando – porque na infantil eles vão com o professor, então tem aquele momento só deles – na central não; ele vai encontrar um aluno de 3º ano que vai ser o dobro do tamanho dele, então que tem que aprender a conviver com essa diferença, que o aluno maior ele está ali para estudar, então ele não pode às vezes conversar mais alto, ele tem que respeitar o espaço do outro. Então, é um aprendizado muito grande, essa diferenciação de público dentro da mesma biblioteca, a gente aprende, faz com que eles aprendam, não só dentro de biblioteca, porque eles levam pra vida, levam pra sala de aula, pro pátio mesmo... (GD 2/ 25).

Legal é discutir também o regulamento com as pessoas. Nós fechamos um acordo. Tem um combinado que nós fazemos todo começo de ano com os meninos. ‘Não pode isso, isso pode, assim que funciona’. Fizemos um combinado entre os professores, com o grupo, discutimos o regulamento. Então as pessoas têm um privilégio com relação aos outros usuários – número maior de livros para empréstimo, prazo maior – e dentro daquilo a gente tenta trabalhar com limites.... vai regulando as coisas (GD 4/30).

Alguns bibliotecários envolviam os pais, percebendo sua influência no reforço das atitudes que queriam inculcar nos estudantes.

Então, no primeiro dia de biblioteca dos alunos a gente faz um folderzinho mesmo, por mais que eles não consigam ler ele vai levar pra casa e o pai vai tomar conhecimento de todas aquelas normas, o que pode, o que não pode, porque ele também ajuda e até efetiva mesmo; quando a gente fala alguma coisa pro aluno, o pai já sabe porque ele já leu aquilo que já foi mandado para casa (GD 2/24).

Percebeu-se o empenho em desenvolver atitudes de responsabilidade sobre o uso coletivo da biblioteca e, ao mesmo tempo, garantir a simpatia dos usuários. Por exemplo, entender a necessidade da devolução do livro emprestado era o objetivo do Dia do Perdão que, “de uma forma humorística”, procurava fazer com que “os leitores em atraso sejam alertados da importância da devolução do livro” (D 2/34). Outra estratégia era premiar o leitor responsável e comprometido com as regras da biblioteca.

Os meninos estavam atrasando muito a devolução dos livros. Então, quem não tem uma suspensão ganha uma cesta quando fecha a fichinha de todos os livros – que é um bom leitor – com certificado assinado por mim e pelo diretor da escola, como ‘leitor nota dez’, pra levar pra casa com os livrinhos, com bombonzinhos, com umas balinhas, com os brindes de editoras que a gente consegue (E 4/9).

O atraso na devolução dos livros e a conseqüente cobrança de multa se mostraram aspectos conflitantes para alguns dos participantes do grupo de discussão.

Essa questão da multa eu tinha uma resistência muito grande na questão de pagar. Tanto que na escola também era solto... Então o aluno ficava com o livro o ano inteiro e no final do ano ele devolvia o livro ou não (GD 2/30).

Entretanto, ela era potencializada para ensinar a responsabilidade pelo material emprestado.

Essa questão de sumiço de livro, a questão da multa, os meninos têm que pagar a multa, eles têm que ter noção, se eles perderem eles têm que repor... Você tem que fazer projeto pro menino entender a multa. Os meninos ficavam assim ‘De onde inventaram esse dinheiro da multa? Porque que eu tenho que pagar? Eu já tive um treinamento só de multa. Falei pra eles ‘A gente não quer que vocês paguem multa. A gente quer que vocês se responsabilizem pelo que vocês estão levando. Vocês têm que ser educados aqui. Você quer pagar multa pelo resto da vida, de um carnê? Então começa aqui com um real’. ‘De onde surgiu esse um real? ‘Foi a Biblioteca Nacional que criou, estipulou. Então todo mundo segue a Biblioteca Nacional’. A gente nem sabe se é isso [risos generalizados] ‘Foi a Biblioteca nacional, cobra lá. Todo mundo segue a Biblioteca Nacional’ (GD 3/29).

O desenvolvimento de atitudes de respeito aos livros foi relatado por um dos participantes do grupo de discussão.

Eles também têm uma pastinha que é preparada, que também eles colorem, que eles carregam o livrinho, que eles têm o maior cuidado... Então a gente percebe que eles levam isso pro dia a dia deles, pro momento com eles. E cobram de pais, porque agora tem hora que aparece pai lá ‘Ah vocês falaram que não pode comer em cima do livro, né? Pois é, minha filha me deu uma bronca outro dia porque eu estava comendo e contando história pra ela’. Então assim é muito interessante você ver que às vezes você influencia sem querer até na família, no dia a dia mesmo, porque ele leva aquilo a sério (GD 2/24, 26).

Uma peça teatral foi feita especialmente para “educar e conscientizar o aluno para o bom manuseio do acervo bibliográfico”, evitando a depredação (D 4/91). Atitudes de respeito para com a biblioteca deviam ser desenvolvidas, segundo um dos participantes, no início do processo de escolarização:

Temos observado que quanto mais cedo as crianças criam o hábito de usarem adequadamente a biblioteca, ficam mais responsáveis quanto à conservação e devolução do livro (D 7/173).

Assim, havia atividades específicas para que os usuários aprendessem a valorizar o livro como objeto, ação legítima, pois, no Brasil, a precariedade das coleções costuma ser realidade em muitas bibliotecas e a responsabilidade de manter o acervo é do bibliotecário, sendo que a danificação resulta em problemas gerenciais e financeiros, além do prejuízo para o próprio usuário, já que não há, geralmente, garantias de reposição dos exemplares danificados. Assim, havia atividades para conscientizar sobre a importância de cuidar dos livros e ensinar o manuseio correto desses objetos.

Os alunos, em grupos de salas de aula, são convidados a participarem, na biblioteca de uma análise do estado de conservação de livros infanto-juvenis. Através de diálogo entre bibliotecário e alunos são procuradas saídas para evitar a depredação do acervo e buscar a conscientização para um bom manuseio do acervo bibliográfico. Alunos da 4a. série apresentam a peça infantil O contador de estória, de autoria do bibliotecário, para os alunos do Ensino Fundamental. Esta peça educa e conscientiza o aluno sobre a importância do universo e do manuseio de obras literárias (D 4/91).

E uma coisa que a gente separou também são os livros danificados, molhados, mofados, arrancados e grampeados e aí a gente vai mostrando pra eles e vai explicando essa importância (GD 2/24).

Em outra biblioteca também havia atividades ligadas à preservação e à conservação do acervo (“visitas a biblioteca, campanhas com slogans, trabalho com monitores em sala de aula com propostas e sugestões, distribuição de marcadores e mensagens” (D 2/34-35)), resultando na redução do índice de livros desaparecidos, na melhor conservação dos livros devolvidos e na participação de alunos no serviço de reparar livros da biblioteca (D 2/34-35).

Atitudes positivas com relação à pesquisa foram mencionadas em alguns relatos. Pretendia-se que os estudantes entendessem “o significado e a importância de uma pesquisa escolar” (D 17/1), que desenvolvessem “o gosto à investigação e o desenvolvimento de habilidades críticas à informação e ao conhecimento [...]” e se tornassem “leitores críticos, reflexivos e orientados para a pesquisa (D1/1,7).

Concretiza-se, assim, a pretensão do bibliotecário de colaborar na formação de cidadãos, fazendo da biblioteca espaço público e democrático (MORIGI; VANZ; GALDINO, 2002, p. 145).