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No dia do acidente a equipe do eletricista Sr “C” trocava cabos dentro de um condomínio residencial. Após a retirada da linha antiga, por volta das 17h43, Sr “C” tinha iniciado a fixação dos cabos no primeiro poste. A atividade era realizada com pressão de tempo uma vez que a presença de árvores entre o primeiro e o segundo postes atrasara a equipe.

Até o momento, a equipe teve acesso e considerou duas versões para o ocorrido. De acordo com a primeira, quando o Sr. “C” já prendia parcialmente o novo cabo a ser instalado no primeiro poste da seção, teve seu trabalho afetado pela intervenção de colegas da equipe que, com a ajuda do braço do caminhão munck passaram o mesmo cabo por cima das árvores localizadas entre o primeiro e o segundo poste da seção. A tensão a que a fiação era submetida teria balançado o poste em que estava o Sr C, quebrando a cruzeta situada logo acima do ponto em que ele trabalhava desencadeando a queda de cabo de linha primária energizada sobre a sua perna.

Na segunda versão, o cabo substituto já teria sido passado sobre as árvores e estaria sendo tracionado por catraca usada por colega eletricista que estava no quarto poste situado à distância. Esse eletricista não teria sido avisado que os cabos estavam presos em galhos das árvores. Ajudantes da equipe teriam agido desprendendo os cabos dos galhos, dissipando a tensão em movimento ondular atingindo o primeiro poste quebrando a cruzeta e derrubando o fio energizado da linha primária.

Ambas as versões têm o mesmo desfecho: quebra da cruzeta e queda do cabo energizado no corpo do Sr. “C”. Ao perceber a iminência de choque elétrico o eletricista tentou descer da escada, soltou o primeiro talabarte do cinto de segurança e saltou para trás. No entanto, ficou preso pelo segundo talabarte e caiu sentado sobre os cabos de telefone situados logo abaixo. Neste ponto, o cabo da linha energizada (primária) atingiu o trabalhador provocando choque elétrico que entrou pela face anterior de sua perna esquerda e saiu na região das nádegas em contato com a fiação telefônica, provocando queimaduras gravíssimas e posterior amputação da perna atingida.

A descrição do sistema revela contribuições de outros componentes para o acidente. A rede é dotada de sistema automático de desligamento/religação que opera com lógica de minimização do tempo de interrupção do fornecimento de energia para a sociedade. Eletricista de linha viva informa presença do Religamento Automático (RA) há 25 anos e destaca:

sua função é a de religar uma rede de energia (15 kv), quando por algum motivo ela se desliga... Ele também acompanha o que esta acontecendo na rede devido sua calibragem previamente ajustada para aquela rede... Seus mecanismos podem ser eletro mecânico caso dos mais antigos e os mais novos micro processados.

O RA é formado por dois elementos: o primeiro é o religador45 que é peça fechada

eletromecânica composta por pequenos transformadores de correntes, tensão com contatos elétricos de abertura e fechamento do circuito elétrico (15 kv). O segundo é o relé de comando, equipamento que processa dados recebidos via os transformadores de corrente e tensão. Estes dados são micro processados pelo relé e caso atinja os valores de carga definidos no pré-ajuste, envia sinal elétrico para o religador abrir ou fechar. Um eletricista experiente comenta que:

Devidos aos seus pré-ajustes instalados nos relés de comando... ele pode desligar a rede de 15 kv... Quando fechamento de um curto circuito na rede a frente, isso acontece quando uma árvore toca na rede (curto circuito fase a terra) pois a arvore é considerada fuga a terra. Com ventos fortes uma fase toca em outra (curto circuito fase a fase). Em casos de abalroamento de postes e a rede sai do isolador ou cai ao solo (curto circuito Fase a terra). Carga alta (caminhões ou tratores) bate na rede (curto circuito fase a terra ou fase a fase). Também esse equipamento pode atuar quando houver algum vazamento de corrente nas estruturas onde são instaladas as redes primarias (15 kv). Descargas atmosféricas. E também bloqueio para linha viva (Isso acontece, pois os transformadores de correntes e tensão enviam sinais [leitura] elétricos e são confrontados com os ajustes instalados, dependendo desse confronto de dados o relé de comando envia sinais elétricos para desligar e religar o religador. O segredo está nos ajuste do relé de comando (sensibilidade), pois cada rede (localidade) tem um ajuste particular.

Concomitantemente ao choque sofrido pelo Sr. “C”, o sistema desligou e religou três vezes, aumentando a gravidade dos ferimentos sofridos. Só após o desligamento de toda a área da rede que o trabalhador pode descer da escada, receber os primeiros socorros e ser conduzido para assistência de saúde.

Normalmente todo religador está programado para tentar religar 2 ou 3 vezes caso haja algum problema na rede... se o defeito continuar ai sim ele desliga... e não religa mais, necessário inspecionar toda a rede ou consertar a rede antes de autorizar seu religamento novamente ... o religamento pode ser via sistema remoto ou no local. (eletricista experiente)

45 O Religador tem a função de religar uma rede de energia (15 kv), quando por algum motivo ela se desliga. Também acompanha o que está acontecendo na rede, pois é calibrado previamente para as necessidades da mesma. Seu processamento pode ser eletro – mecânico como é o caso instalado nos sistemas mais antigos, ou micro processado instalados nas redes mais novas. Todo religador é formado por dois elementos: (1) o próprio religador, que é uma peça fechada que contém pequenos transformadores de correntes e tensão e os contatos elétricos de abertura e fechamento do circuito (15 kv). Estes componentes são quase todos eletromecânicos. (2) O outro elemento é o relé de comando que gerencia e processa dados recebidos dos transformadores de corrente e tensão. Os relês são micro processados e enviam sinais elétricos para o religador disparando os comandos de abrir ou fechar o circuito.

Essa característica do sistema já contribuiu para o aumento da gravidade de outros acidentes envolvendo redes de distribuição de energia e, do ponto de vista da segurança, pode ser apontada como falha de concepção uma vez que, em nome da minimização da interrupção do fornecimento de energia, aumenta a gravidade potencial de lesões em casos de acidentes. Merece destaque o fato do religador ter sido mantido ligado em área em que sabidamente estava ocorrendo intervenção de manutenção, ou seja, em que a ocorrência de acidentes como o aqui discutido será seguida de religação que pode ensejar novo choque e aumento da gravidade potencial das lesões sofridas pela vítima.

Pós Acidente o Sr. “C” permaneceu em coma por 40 dias e precisou ser transferido para hospital especializado em tratamento de queimados.

Entre as consequências de curto e médio prazo desse acidente é possível destacar: a) O Sr C permaneceu em coma alguns dias em coma e na evolução teve o membro inferior esquerdo amputado na região acima do joelho. b) Recém-casado e com filha pequena fica incapacitado e passa por dificuldades financeiras, sociais e familiares.. c) Com apenas 15 dias de registro em carteira passa a receber benefício do INSS calculado pelo seu rendimento básico perdendo complementos salariais de horas extras e de Participação nos Lucros e Resultados - PLR Sr. d) O Sr C restringiu contato com amigos parando jogar futebol e praticar skate, esporte no qual vinha participando de campeonatos regionais e tinha esperanças futuras de competir profissionalmente. e) Sem assistência psicológica para lidar com a nova condição corporal e de funcionalidade passa a enfrentar dificuldades também no relacionamento conjugal.

Benzer Belgeler