Segundo Souza (1999), a Polícia Militar de Minas Gerais vem, desde a década de 80, passando por uma séria crise financeira, acarretada pelo baixo investimento do Estado e pela ausência de uma política eficaz na contenção dos aumentos das taxas de criminalidade e na garantia de segurança. Essa falta de investimento refletiu-se, nos anos 90, numa frota de veículos parcialmente estragada e parada no pátio da instituição, na insuficiência de equipamentos de comunicação e segurança para toda a tropa, e em um reduzido quadro de pessoal, ainda insatisfeito e desmotivado pelos baixos salários.
A insatisfação e a desmotivação dos policiais culminou num movimento que marcou a história da organização: a greve dos praças em 1997. Souza (2001) afirma que esse movimento trouxe à tona uma série de insatisfações relacionadas não somente à questão salarial, mas também à modificação do Regulamento Disciplinar (RDPM) com maior valorização dos praças. A autora sugere que a politização dos praças não alterou apenas a imagem interna da Polícia, mas também refletiu-se nas relações de trabalho dos policiais, os quais se mostraram como sujeitos com direitos políticos, não mais aceitando ser submetidos a um processo de socialização que mais se parecia com um adestramento para a docilização de seus corpos.
Em concordância com as reivindicações dos policiais, Soares e Sento-Sé (2001) argumentam que de nada adiantam esforços de modernização logística, aquisição de equipamentos, recuperação de instalações, implantação de novos recursos e aproximação
dos policiais com as comunidades, se não houver um tratamento especial para esses profissionais, no que se refere à concepção do trabalho do policial e do treinamento que devam receber. Para os autores, a redefinição dos métodos de treinamento deve envolver a noção de que o profissional de polícia deve ser um servidor público altamente qualificado e valorizado por seu trabalho, e deve enfocar três aspectos cruciais da atividade de policial: o policiamento operacional, para dar respostas rápidas a demandas localizadas; a atividade investigativa, de responsabilidade da Polícia Civil; e o policiamento comunitário, estratégia fundamental tanto para a eficiência quanto para a aproximação entre Polícia e comunidade.
Souza (1999) afirma que a polícia comunitária surge nesse contexto e é interpretada como uma fonte alternativa e viável para canalizar recursos para a organização policial, sem querer com isso diminuir o interesse político da organização em resgatar sua legitimidade com os cidadãos.
Segundo Cruz (2005), as novas tendências das organizações policiais quanto à sua estruturação e produção do serviço de polícia procuram a superação do modelo tradicional e, em geral, envolvem a aproximação com a comunidade. No modelo tradicional destacam- se aspectos como: policiais periodicamente transferidos para novos setores ou serviços, a falta de informação para os policiais que operam nas ruas, relações de formalidade com a comunidade, e prevalência de ações reativas e repressivas. Essas estratégias tradicionais, segundo Skolnik e Baley (2001), não reduzem o crime nem tranqüilizam a população. Sua real efetividade depende da maior proximidade entre a Polícia e a sociedade.
Na aproximação da Polícia com a comunidade, Monjardet (2003) ressalta como necessária, aos policiais que agem nos bairros a delegação formal da autoridade decisional de que precisam para agir, ou seja, devem ter autonomia prática e capacidade para decidirem prioridades locais, horários de trabalho mais bem adaptados à situação local e às
demandas do público. Além disso, os policiais devem ter um papel direto de animação, de conselho e de apoio às associações de bairro, assegurando a liderança e o controle.
Mas Rosenbaum (2002) reconhece que o policiamento comunitário ainda está na fase de desenvolvimento da conceitualização, às voltas com algumas questões básicas sobre o papel apropriado da polícia na sociedade e sobre as reais diferenças entre a polícia comunitária e aquilo que a polícia tem tradicionalmente feito. Segundo o autor, o conceito de policiamento comunitário tem sido usado e abusado pelos chefes de polícia e políticos que o tem empregado para justificar todo e qualquer programa. Nesse sentido, Rosenbaum (2002) indica os elementos centrais que envolvem esse tipo de policiamento: a) a definição mais ampla de trabalho de polícia; b) o reordenamento das prioridades da polícia, dando mais atenção ao crime leve e à desordem; c) um enfoque na solução de problemas e prevenção, mais do que no policiamento direcionado ao incidente; d) o reconhecimento de que a comunidade executa um papel crítico na solução dos problemas da vizinhança; e e) o reconhecimento de que as organizações policiais devem ser reestruturadas e reorganizadas para encorajar um novo tipo de comportamento policial.
Dentro do processo de reestruturação da Polícia Militar, destaca-se o ingresso de mulheres em seus quadros. A introdução do policiamento ostensivo feito por mulheres na Polícia Militar de Minas Gerais foi uma ocorrência marcante, porém não foi pioneira no Brasil. Segundo Listgarten (2002), a Polícia Feminina no Brasil foi criada com base na experiência européia e americana, na qual se constatou o satisfatório desempenho feminino na solução de questões relacionadas a missões assistenciais e de polícia preventiva. Partindo dessas experiências, manifestou-se a proposta de criação da Polícia Feminina no Brasil, em 1953, no I Congresso de Criminologia e Medicina Legal.
A primeira polícia feminina uniformizada foi criada no estado de São Paulo, em 1955, por intermédio do Decreto nº 24.548, o que foi posteriormente seguido por outros estados brasileiros: em 1977, no Paraná, em 1980, no Amazonas e, em 29 de maio de 1981, em Minas Gerais. Pelo decreto nº 21.336, foi criada a Companhia de Polícia Feminina, vinculada ao Comando do Policiamento da Capital (LISTGARTEN, 2002).
Foram recrutadas moças de idade entre 18 e 25 anos, com formação secundária, altura acima de 1,56m e solteiras. Após 6 meses de curso, 116 graduandas formaram-se na posição de 3º sargento PMFem. Ainda segundo Listgarten (2002), a Companhia de Policiamento Feminino tornou-se responsável pelas atividades de policiamento ostensivo feminino da capital, o que foi definido na Resolução nº 920 de 10 de setembro de 1981.
A criação da Companhia de Polícia Feminina, segundo Pereira (1981), surgiu para diversificar e engrandecer a corporação, bem como para torná-la mais versátil no sentido de suprir algumas limitações do policiamento ostensivo, como a necessidade de atuar em ambientes onde só era permitida a entrada de mulheres ou em locais com grande afluxo de crianças, mulheres e idosos (feiras, escolas, parques, etc). Pode-se inferir, nesse caso, que a utilização do policiamento feminino teve um caráter estratégico no sentido de transformar a percepção que a população tinha acerca da PMMG, como se insinua no trecho a seguir:
A Companhia vem tornar a Polícia Militar mais versátil enquanto mais dócil, sem ser menos coerente com o modo de conduzir suas obrigações legalmente instituídas. Vem ela [a policial], garbosa e disciplinada, minorar as dificuldades do policiamento ostensivo (...) E com a utilização do policiamento feminino, a Polícia Militar descortina um novo horizonte, aumentando, conseqüentemente, sua operacionalidade e o índice de segurança da população mineira. (PEREIRA,
1981, p.1)
O novo horizonte que se descortinava naquele momento muito já se transformou. Atualmente, já há mais de 800 mulheres trabalhando na Polícia Militar de Minas Gerais,
ocupando posições tanto no nível operacional, como na área de saúde, na banda de música, e no setor administrativo. No caso específico do Oitavo Comando Regional de Polícia Militar, em 2004, havia 137 mulheres policiais atuando no operacional em diversas patentes, conforme mostrado nos apêndices A e B. É esse contingente feminino que se constituiu nos sujeitos centrais desta pesquisa, imerso nas especificidades da organização que ora se apresenta.
Sobre a adoção do policiamento feminino, Calazans (2003) destaca que, ainda que as mulheres fossem identificadas com um novo modelo de polícia, percebe-se que a instituição entrou no processo de feminização sem promover um processo de construção, ou discussão, apenas aderindo a uma tendência no mundo do trabalho. Para a autora, a instituição não estava preparada para receber as mulheres. Tampouco havia um contexto de estratégias à mudança.
O aparelho de segurança pública do Brasil, segundo Soares e Musumeci (2005), mesmo com a redemocratização política do país, não passou por nenhuma transformação profunda e nem por nenhuma mudança de paradigma de sua estrutura ou cultura institucional. Por esse motivo, não se pode associar a incorporação de mulheres nessas organizações a um processo mais amplo de reformas, como verificado em outros países. Para as autoras, tratou-se mais de uma tentativa de se enxertar uma amostra de novidade na velha instituição, principalmente, em áreas mais sensíveis para a imagem social da PM, como se fossem um elemento de marketing que refletiria uma reforma cosmética que, sem alterar paradigmas, indicasse um movimento de mudança e modernização. As policiais, portanto, foram inseridas em um campo organizacional de poder marcado por uma cultura institucional hegemônica e por práticas tradicionais de policiamento que exaltavam um viés bélico, como foco quase exclusivo na ação reativa e repreensiva, com baixíssimo
investimento em inteligência, pouco ou nenhum treinamento dos agentes em técnicas de mediação de conflitos e sem muita ênfase no uso comedido da força e da autoridade.
Calazans (2004) reforça que, no Brasil, a filosofia tradicional de policiamento é movida pelo espírito belicoso do Exército Nacional e por ideologias machistas, o que limitou e deu pouca visibilidade para a inserção feminina. Os tratamentos para essa inserção nos estados brasileiros encontram-se nas mais diversas formas, manifestos por meio de restrições legais e informais. Em dados publicados por Musumeci e Soares (2004), retratam-se os limites de contingente impostos ao ingresso de mulheres nas Polícias brasileiras. Em 2003, verificaram um contingente de 24.315 mulheres diante de 322.274 homens na ativa, o que correspondia a uma participação feminina de 7% nas Polícias Militares brasileiras (Anexo D).
As autoras constataram também que a proporção de oficiais no efetivo feminino é ligeiramente maior do que no masculino, o que pode estar relacionado com políticas de confinamento das policiais femininas a atividades internas. Por outro lado, o acesso das oficiais às posições mais elevadas do oficialato (coronel, tenente-coronel e major) ainda é extremamente limitado em todo o país. Musumeci e Soares (2004) verificaram que a maior participação feminina no círculo de oficiais é nos postos de tenente. Entre as praças, não se encontrou essa mesma tendência, constatando mulheres em todas as graduações, visto que as promoções de praças se dão, normalmente, por tempo de serviço e as de oficiais combinam o critério de antigüidade com o de merecimento.
À exceção de São Paulo, nas demais PMs do Brasil, o ingresso de mulheres se deu somente a partir do final dos anos 70 e no início dos 80, coincidindo com a fase de abertura política e de redemocratização do país. Esse fato acrescentou ao policiamento feminino outros propósitos, como o de modernizar as PMs e de “humanizar” sua imagem social
marcada pelo período da ditadura (MUSUMECI e SOARES, 2004). Contudo, mesmo com o seu ingresso na organização há mais de 20 anos, as autoras destacam a falta de dados específicos sobre as mulheres policiais e a ausência de um planejamento racional para a sua incorporação e de uma avaliação da experiência de absorção do contingente feminino.
De acordo com Lima (2002), a polícia feminina foi idealizada para ser um conjunto de assistentes sociais fardadas, com benefício para o marketing da corporação, pois as mulheres foram mais uma exigência social do que uma demanda institucional.
Pela falta de definição exata do que seria sua função na corporação, aquelas que já conviviam em casa com o ambiente militar (eram filhas, parentes de militares) tiveram mais facilidade em se adaptar à organização, mas as que não tinham esse precedente, iam aprendendo com a própria experiência. Nesse processo de socialização na Polícia Militar, as policiais novatas foram desconstruídas como mulheres e construídas como policiais militares femininos. Dentro desse processo, havia restrições de caráter pessoal, tais como contenções de matrimônios e de natalidade antes de decorridos dois anos após a conclusão do curso (LIMA, 2002).
O processo de inserção da mulher na Polícia, segundo Calazans (2004), relaciona-se a quatro aspectos: 1) momentos de crise das forças policiais, como guerras ou queda na credibilidade; 2) existência de uma cultura policial feminina identificada com formas preventivas e menos truculentas de policiamento; 3) necessidade de equiparação de oportunidades entre homens e mulheres como conseqüência de ações antidiscriminatórias; e 4) a atribuição de funções específicas, burocráticas ou associadas a extensões do mundo doméstico para as mulheres policiais. Para a autora, a entrada de mulheres na Polícia ocorreu simultaneamente à valorização do trabalho em equipe, da capacidade de resolução de conflitos e de inovar, uma vez que os policiais se defrontam com novas situações em que
não é tão necessária a força física, tais como a redução de situações potencialmente violentas e o atendimento a coletivos que exigem tratamento diferenciado.
Calazans (2004) acredita que, à medida que surgem novas concepções de segurança pública levando a alterações nas ações de Polícia, associadas à crescente feminização do mercado de trabalho, forma-se no imaginário dos gestores de segurança pública e da população em geral a suposição de que há um “novo” lugar para as policiais femininas. As mulheres chegaram às instituições policiais em um momento de mutações, precarização e de globalização do mundo do trabalho e encontraram na Polícia Militar uma estrutura vertical, pautada pela divisão hierárquica do trabalho e um modo totalizante de mediação das relações. Nesse contexto, as lutas de poder na organização passaram a ter mais uma fonte de referência: o gênero dos trabalhadores.
Como afirmam Soares e Musumeci (2005), a presença de mulheres tanto na Polícia Civil quanto na Militar, muitas vezes, ainda reproduz os padrões de dominação vigentes na sociedade, com mulheres ocupando cargos de menor importância, com acesso limitado aos postos de comando e desempenhando funções mais desvalorizadas, tipicamente associadas ao mundo doméstico, como secretárias ou assistentes sociais. Isso acontece porque numa carreira altamente hierarquizada como a de militares, ainda leva algum tempo (e alguns esforços adicionais para superar as barreiras explícitas e implícitas que dificultam as promoções femininas) para que um número expressivo de mulheres atinja os escalões mais elevados da hierarquia. Contudo, uma vez que elas comecem a ter acesso aos cargos de comando, o que já vem ocorrendo gradualmente, as autoras acreditam que pode emergir de forma mais nítida um lugar e um perfil de policial militar feminina que verdadeiramente promova a valorização das diferenças de estilo, habilidade, postura e perspectiva.
Martin (2001) ressalta que o status da mulher na Polícia atualmente é incerto. Algumas barreiras ao seu acesso à profissão têm sido quebradas e o número de mulheres policiais tem aumentado gradativamente. Contudo, seu crescimento na carreira ainda é limitado. Mas a visão da autora também é otimista acerca do seu movimento de ascensão, mesmo que vagaroso, para posições mais elevadas na hierarquia, servindo como exemplo para outras mulheres.
5. O TRABALHO FEMININO NO POLICIAMENTO OPERACIONAL DA