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Os policiais militares ingressam na Polícia Militar como praças, ou como oficiais, em concursos públicos diferenciados. Ao ser aprovado no concurso para praça, o futuro soldado é matriculado no Curso Técnico de Segurança Pública (CTSP) com duração de 18 meses em horário integral. O curso realiza-se em espaços da própria PM em companhias- escolas distribuídas nas sedes das Regiões Militares de Minas Gerais e, segundo Souza (2001), representa formalmente a iniciação do indivíduo na cultura militar.

Para o acesso a cargos superiores, os praças podem participar de outros cursos internos na PM, conforme preencham os pré-requisitos. Entre esses cursos estão o Curso de Formação de Cabos (CFC), o Curso Especial de Formação de Sargentos (CEFS) e o curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS). Souza (2001) entende esses cursos como parte do reforço na introjeção de conhecimentos e valores da organização.

O acesso dos praças ao oficialato, entretanto, é bem mais limitado, o que denota a forte separação entre as classes na Polícia. A opção para os sargentos que querem se tornar oficiais é concorrerem em concurso público para oficiais, em condições iguais com os civis, ou fazerem concurso interno para o CHO, Curso de Habilitação de Oficiais, que é um curso muito concorrido e com poucas vagas para quem tem mais de 15 anos como praça e quer ser oficial.

Muniz (1999) comenta que a socialização da cultura militar é mais forte no ciclo dos oficiais do que no dos praças. De fato, o tempo de formação dos oficiais é bem maior que o dos praças. O CFO, Curso de Formação de Oficiais, atualmente, tem a duração de três anos em regime escolar integral com atividades escolares extraclasse inclusive aos sábados, domingos e feriados. Muniz (1999) acredita que os maiores representantes da cultura policial são os oficiais, responsáveis por sustentar as tradições policiais militares e de reproduzirem de forma mais explícita e convicta a personalidade policial militar. Após o CFO, os oficiais passam também por outros cursos para galgarem posições da hierarquia militar, os Cursos de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO), com nível de pós-graduação em Segurança Pública e, para ascenderem a coronel e assumirem funções e cargos próprios de comando e Estado-Maior, o CSP-CEGESP, Curso de Especialização em Gestão Estratégica de Segurança Pública.

Souza (2001) destaca que a vigilância exercida sobre o aluno cadete no CFO é intensa e o tempo livre concedido a eles é mínimo. Essa espécie de enclausuramento por que passam os faz distinguir entre dois mundos: o militar (interno) e o civil (externo). O processo de socialização os faz sentir que o mundo interno é o ideal, enquanto no mundo externo, há desordem e falta de seriedade. Além disso, a necessidade de estarem à disposição 24 horas por dia, remete à idéia que são objetos de propriedade da organização.

De acordo com Brito e Brito (1996), o processo de socialização de recrutas tem como principais símbolos cultuados as divisas de autoridade e a farda, além de envolver alguns ritos de passagem de civil para militar. Entre esses ritos, destacam-se o de isolamento, que é a separação do recruta de seu “mundo civil”; os de regulação, que utilizam punições como a prisão temporária em casos de desobediência; os de despojamento, como os “rancas”, com uso de pressão física e psicológica como forma de indução de humildade; e o de agregação do recruta à organização, representado por sua formatura.

Entre os símbolos da Polícia Militar, a farda é apontada por Soares (2001) como o de maior representação. Ela se relaciona ao mito da indestrutibilidade ao fazer com que os policiais se sintam como super-homens, como imortais. A farda separa os militares daqueles que não o são: os civis, muitas vezes vistos também como os “inimigos” que, em casos de guerra (greves, distúrbios, protestos), devem ser coibidos.

Um dos ritos que se destaca no processo de socialização na Polícia é a Jornada de Instrução Militar (JIM), também conhecida como “ranca”, praticada pelas polícias de vários estados. Albuquerque e Machado (2001) consideram a JIM como uma expressão da tensão existente na Polícia Militar entre a implementação de um novo quadro curricular e de uma

nova mentalidade voltada para a modernização, e a reprodução de valores tradicionais relacionados ao militarismo.

A JIM envolve a vivência de imersão dos alunos e alunas da Academia de Polícia, durante alguns dias, em algum local isolado de mata ou campo sob a orientação de instrutores oficiais e praças. Essa forma de treinamento conjuga técnicas de sobrevivência na selva com ensinamentos antiguerrilha num ritmo estressante, baseado em táticas que estimulam a ansiedade e o medo e produzem um estado psicológico de absoluta alerta emocional.

Apesar de se tratar de apenas uma atividade extracurricular da formação dos policiais, treinamentos como a JIM visam a transmitir uma identidade profissional militarista, ao mesmo tempo em que invertem e debilitam os conteúdos do novo currículo oficial da Academia e da modernização da identidade da organização. Segundo Albuquerque e Machado (2001), a JIM valoriza o perfil do policial “selvático”, herói e guerreiro que ultrapassa seus limites, uma postura violenta e antidemocrática que se acredita necessária à manutenção da ordem pública. Porém, para que essa identidade da selva surja, ela deve se opor à identidade que no novo currículo, tenta-se sustentar sobre o novo perfil do policial, baseado em disciplinas ligadas à administração, à teoria das organizações ou à psicologia social, tais como liderança, trabalho em equipe e processos democráticos de gestão.

A esse respeito, Muniz (1999) afirma que os policiais em seus primeiros dias de trabalho nas ruas aprendem que devem esquecer o que aprenderam na escola e nos manuais e se permitirem produzir alguns “arranhões” no código disciplinar.

A cultura da organização militar, para Listgarten (2002), é marcada por mitos que configuram uma idéia de superioridade do policial em relação ao ambiente que o cerca.

Para a autora, o herói é o modelo, o ideal a ser buscado pelo policial militar, vinculado intimamente ao elemento virilidade. Nesse contexto, cabe ao policial militar demonstrar coragem e aversão ao medo.

A própria canção da Polícia Militar (MARCO FILHO, 1995, p.98) em alguns de seus trechos, exalta esses valores de heroísmo, força e virilidade cultuados na organização.

Somos a aurora, Rútila chama, Luz que derrama Felicidade, Brados de outrora, Paz, liberdade Por isso honremos Nossos varões, Pelas ações, Já consagrados. Fortes marchemos, Eia, soldados!

Os passos desses heróis São faróis

Que segurança nos dão E razão,

Nós seguiremos e cada vez mais Paz queremos em Minas Gerais

Essa noção de superioridade entre militares e civis pregadas pelos dogmas da Polícia, contudo, vem se transformando. Souza (2001) verifica, atualmente, uma mudança na percepção dos civis por parte dos policiais militares, relacionada à lógica de se clientelizar o cidadão propagada pelo mercado. Por essa lógica, o civil deixa de ser visto como um “inimigo” para ser um cliente, cujos interesses relativos à segurança pública devem ser atendidos pela PM. Para a autora, se antes havia maior preocupação com o cumprimento do Regulamento Disciplinar, hoje existe uma grande atenção à prestação de serviços. Souza (2001) atribui essa mudança a um indício de que a PM esteja se voltando para uma abordagem mais policial do que militar à questão da segurança pública. De fato,

percebem-se mudanças em curso na Polícia Militar advindas de diversos fatores, entre eles, a necessidade de modernização da organização.