A organização em mutirões e o trabalho comunitário das famílias assentadas em Três Irmãos motivaram a busca por alternativas que ajudassem no desenvolvimento do Assentamento. Do recurso financeiro oriundo do projeto da Cáritas Brasileira sobrou certa quantia cuja forma de utilização foi discutida em assembléia realizada na sede da Associação. Dentre as proposições feitas, uma foi aprovada: a criação de um banco de estocagem de sementes dentro da comunidade que pudesse garantir a todos os assentados o acesso a esse insumo natural de forma livre, gratuita e a qualquer período do ano.
4.1 A origem do Banco de Sementes Comunitário do Assentamento Três Irmãos
Para falar do BSC de Três Irmãos, considera-se importante deixar claro o significado dos bancos de sementes e a importância das sementes nativas também denominadas de sementes crioulas, tradicionais ou “sementes da paixão”. As sementes tradicionais são sementes adaptadas às condições naturais do seu ambiente de origem daí sua grande diversidade.
Então, determinada região tem sua semente porque chove mais, chove menos. Então, ela é resistente àquela condição. Por isso, o grande achado das sementes nativas é essa característica: são sementes locais e adaptadas a cada realidade (declaração de Emanoel Dias da Silva, engenheiro agrônomo e assessor técnico do Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas às Comunidades - Patac)91
91 Cf. Saiba mais sobre os bancos de sementes. Disponível em:
http://www.revistaforum.com.br/noticias/2009/02/13/saiba_mais_sobre_os_bancos_de_sementes/? sms_ss=blogger&at_xt=4cf8050b4e65e685,0
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Outro aspecto interessante das sementes nativas é que elas atendem tanto às preferências culturais como, os gostos das famílias.
No caso dos Bancos de Sementes existem dois tipos: os Bancos de Sementes Comunitário (BSC) e os Bancos de Sementes Familiares (BSF). Para Paula Almeida (2002)92, o BSC constitui o que ela denomina de “estoque extra”. Neles as famílias depositam uma parte de sua colheita para utilizar na safra seguinte. Ela observa, ainda, que o banco de sementes é uma experiência de solidariedade, pois os associados depositam sempre uma quantidade a mais de sementes do que tomaram emprestado, para que outras pessoas da comunidade possam se integrar ao mesmo. Além disso, são espaços de recuperação das sementes nativas que estão ameaçadas devido ao uso das sementes melhoradas e das transgênicas nos roçados.
Na Paraíba, por exemplo, já foram resgatados mais de 210 tipos de sementes, depois dos bancos de sementes [...]. A iniciativa de formar o banco parte da própria comunidade, com o apoio de organizações não-governamentais, igrejas ou sindicatos. Para começá-lo, os agricultores e agricultoras precisam de um aporte inicial de sementes que varia de comunidade para comunidade e, também, da necessidade de cada família. “Tem lugares em que a terra é pequena e os agricultores plantam pouco, consequentemente, eles vão precisar de uma quantidade menor de semente comparado aos que têm um espaço maior para plantar”, explica Almeida. As variedades de sementes também mudam de banco para banco. Em geral, eles começam com um ou dois tipos de sementes. As mais comuns são as de feijão e milho. Mas, existem bancos com mais de 10 variedades (Almeida, 2002).
A idéia de se construir um Banco de Sementes Comunitário (BSC) no PA Três Irmãos foi de Chico Salú, que havia conhecido uma experiência de estocagem de sementes no final da década de 1950, no estado do Ceará a qual tinha como finalidade atender às necessidades de plantio e consumo de toda uma
92 Paula Almeida é agrônoma e assessora técnica da Assessoria e Serviços a Projetos em
comunidade. Isso chamou sua atenção, porque ele só conhecia esse tipo de experiência no âmbito das casas de família e destinada apenas ao uso familiar93.
Comenta-se que os primeiros registros de BSC no Brasil surgiram na década de 1970, mas, de acordo com o depoimento de Chico Salú, os camponeses do estado do Ceará já conheciam esta experiência desde o final da década de 1950, o que leva a crer que os BSC podem ser bem mais antigos.
De acordo com Almeida e Cordeiro (2001), a experiência dos Bancos de Sementes Comunitários surgiu através da ação da Igreja Católica, junto às Comunidades Eclesiais de Base (CEB‟s) em diversas dioceses e paróquias do Nordeste. Para os autores, o Banco de Sementes Comunitário foi um dos meios encontrados pelos agentes da Igreja Católica para minimizar os impactos causados pela escassez de sementes nos períodos de plantio e reduzir a dependência dos camponeses em relação aos grandes fazendeiros e políticos.
Chico Salú, em seus depoimentos, tratou a origem do BSC de Três Irmãos, como se fosse um “romance”. A história a seguir, relata como se deu o primeiro contato dele com esta experiência:
A história desse Banco de Sementes é quase um romance. Vem dum tempo que não existia Banco [de sementes], nem notícia, que a gente nem conhecia. Em 1958, eu estava trabalhando no Inhamuns94. Eu trabalhava em açude, fazendo construção de
açudes com jumentos. O cabra com cem, cento e tantos jumentos, num açude trabalhando, era que nem formiga de roça. Eu trabalhei muito. Em 1958 eu passei o ano todo trabalhando no Inhamuns, Tauá, Parambú, Cariús, Catarina. E lá, chegou um dia, eu andando mesmo atrás de uma “empeleita”95, cheguei numa
casa e estava tendo uma reunião. Em 1958 o tempo era ruim também. Estavam nessa reunião, assim, umas dez pessoas. E eu passei um pedaço da tarde lá e fiquei observando. Aí, peguei a especular deles e eles disseram: “Aqui é um banquinho de sementes que nós temos, esse ano foi seco”. Naquele tempo eles guardavam nos litros de vinho Dom Bosco. Tudo cheio de feijão, milho e arroz que era para em 1959 estarem prevenidos - “Nós
93 A estocagem de sementes dentro das casas é uma tradição camponesa antiga, que até hoje é
preservada. A partir das reservas colocadas em litros (geralmente de vinho), eles tinham (e ainda têm) acesso às sementes durante todo o ano, usando-as nos períodos de plantio ou de escassez de alimentos.
94 O Sertão de Inhamuns é uma das microrregiões do estado do Ceará pertencente à mesorregião
dos Sertões Cearenses. Sua população foi estimada em 2005 pelo IBGE em 144.364 habitantes e está dividida em seis municípios. Possui uma área total de 11.692,761 km².
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temos esse banco de sementes e não podemos acabar com ele não” - E eu fiquei com aquilo na cabeça. Eu digo: “E como é que vocês fazem?” – e eles: “A gente leva, e quando é no fim que colhe, traz. Se levar 10 litros, traz 12”. Isso em 1958, e nós fundamos o daqui, em 1992 (depoimento de Chico Salú durante entrevista realizada em 31 de julho de 2010).
Este conhecimento, compartilhado por Chico Salú com os demais assentados, obteve a aprovação dos membros da Associação Comunitária, e assim, deram início à criação do Banco de Sementes Comunitário (BSC) em agosto de 1992. Para isso, decidiram que o BSC ficaria em um quarto (espécie de depósito), localizado por trás da sede da Associação. Após esta decisão, foi organizada uma comissão para efetuar a compra de dois silos e das primeiras sementes a serem armazenadas, conforme explana Chico Salú:
(...) Aí nós compramos em Cajazeiras 20 sacos de milho, 10 sacos de feijão, 10 quartas de arroz, sei que deu 2.250 quilos. Começamos daí, com a proposta do cabra levar dez litros e pagar com doze. Quem não pagasse no primeiro ano e deixasse para o ano seguinte, pagava com vinte e quatro, mas nunca aconteceu não. (depoimento de Chico Salú durante entrevista realizada em 31 de julho de 2010).
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Fig. 15-. Chico Salú durante uma reunião Fig. 16 - Chico Salú repassando seus co- na Associação do Assentamento Três Ir - nhecimentos sobre os cuidados com as se- mãos. mentes.
Após a compra das sementes, foi necessário pensar sobre novas dinâmicas que pudessem estimular o desenvolvimento do Banco. Assim, os assentados se organizaram em mais um mutirão. Duas vezes por semana, encontravam-se para fazer trabalhos comunitários no roçado da Associação, localizado na área de massapê. Esta atividade tinha a finalidade de juntar as famílias para a limpeza da terra, o plantio, a colheita, a separação e secagem das sementes, a fabricação de silos, a organização do BSC. Nesse processo, as sementes produzidas eram direcionadas para o Banco de Sementes, onde eram estocadas e disponibilizadas durante todo o ano para a própria comunidade.
No primeiro ano, apesar do crescimento do estoque, percebeu-se certo desinteresse por parte dos assentados que trabalhavam como voluntários no roçado comunitário, os quais, às vezes, faltavam ou desistiam de participar das atividades. Isso motivou os associados a buscarem um meio de estimular o trabalho comunitário através do compartilhamento da produção entre eles. Assim sendo, ficou acordado que, 40% da produção seria estocada no BSC e os 60% restantes seriam divididos entre os 18 trabalhadores que participaram do mutirão. Cerca de setenta e quatro sacos de milho foram colhidos, dos quais 30 sacos ficaram no BSC e 44 com os trabalhadores. Com isso, eles garantiram a semente para o plantio, consumo familiar e para vender; além disso, ajudaram, de forma coletiva, no aumento do estoque do Banco e descobriram que um bom desempenho do BSC poderia beneficiar toda a comunidade.
Sendo assim, o Assentamento Três Irmãos passou a ser a primeira comunidade a desenvolver uma experiência de Banco de Sementes Comunitário no Alto Sertão da Paraíba, coordenado pelas próprias famílias assentadas. Um passo muito importante para os camponeses que (re)encontraram nas antigas práticas de estocagem de sementes, uma alternativa para fortalecer as suas relações com o território de esperança, construído a partir do esforço e da esperança em adquirir melhores condições de vida, e também, minimizar os impactos causados pelas limitações climáticas de semiaridez e pelas condições de subordinação aos patrões, prefeituras, políticos e grandes empresas, às quais estavam submetidos.
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