Após alguns dias e novas pesquisas, verificou-se que a palavra celular já era auto-explicativa, ou seja, no momento em que uma pessoa entrasse numa loja da Claro Celular e visse, em exposição, dezenas de celulares para vender, a palavra celular perderia sua importância. Passou-se então a levar em
consideração um aspecto técnica de grande importância para o mercado: o sistema digital.
Até então, sua concorrente, a CRT Celular, estava apenas começando a operar no sistema digital, pois iniciara suas operações com o analógico e passara a ter os dois sistemas convivendo simultaneamente. Porém, como o sistema digital ainda era muito deficiente, surgiu, no mercado, o preconceito de que celular digital não seria de boa qualidade – e que bom mesmo seria o velho e confiável analógico.
Apesar do preconceito, a Claro decidiu trocar seu sufixo: de Claro Celular passou para Claro Digital, com o objetivo de sinalizar que dispunha de uma tecnologia mais avançada. Entretanto, para uma população avessa a mudanças, como a gaúcha, apresentar-se somente como digital acabou sendo mais um problema no nascimento da Claro, ainda que nada comparável ao grande entrave criado pela Telefônica: a cobertura.
Simultaneamente ao nome Claro Digital, foi escolhida uma mascote: não um cachorro, que poderia parecer óbvio, por representar fidelidade, ser prestativo e demonstrar estar sempre disposto a servir, mas o animal que mais fala, que é o Papagaio.
Com o surgimento da idéia do Papagaio, nasceu, também, a incerteza dos executivos canadenses, depois que, estudando um pouco mais nossa cultura nacional, eles descobriram que o Papagaio era freqüentemente associado a falcatruas e espertezas. Após um certo período, longas reuniões e uma boa dose de argumentação, conseguiu-se convencer os canadenses de que isso não era ruim, isso era a pura essência do Brasil, segundo Mário de Andrade, em Macunaíma39.
39 Mário de Andrade, autor de Macunaíma, em prefácio que nunca chegou a publicar com o livro,
conta como ocorreu a descoberta da personagem: “O que me interessou por Macunaíma foi
incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim, porém
A empatia da mascote dependia de como fosse apresentado o Papagaio: ele poderia ser uma figura positiva ou negativa, mas o certo é que se deveria forjar uma personagem com credibilidade e, naturalmente, com a simpatia que qualquer Papagaio já possui na cultura nacional. Lembre-se que o mais famoso Papagaio do Brasil é Zé Carioca, de Walt Disney, mas também há um outro Papagaio no imaginário do povo brasileiro, que é aquele tipo engraçado, presente nas piadas (nas anedotas, quase sempre ele leva vantagem e sai vitorioso, utilizando, muitas vezes, a esperteza típica do brasileiro).
Há, ainda, outro Papagaio famoso, hoje, que é o da apresentadora Ana Maria Braga, da Rede Globo, o Louro José, que conquistou a simpatia do telespectador e, principalmente, das crianças, embora ainda não existisse na época do lançamento da Claro. Ficou tão famoso que, mais tarde, viria a ser um dos principais motivos para inviabilizar a introdução do Papagaio no plano nacional, depois que a Claro se tornou a marca de um conglomerado de operadoras sob o mesmo controlador.
A utilização do Papagaio da Claro Digital, para ancorar o lançamento de seu serviço de telefonia móvel, foi uma questão bastante difícil de se tratar, no âmbito das reuniões na empresa, porque os bilhões de reais investidos em rede, estrutura, contratação de pessoal e marketing não poderiam, no pensamento de vários executivos, ser traduzidos apenas por uma figura que beirava o infantil. Ou seja, além do nome Claro Digital, foi difícil aprovar o Papagaio como âncora e protagonista da campanha de lançamento da empresa.
a minha conclusão é uma novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional. Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo iminente, ou consciência de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg. E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem caráter (Gozei)” .
A área de marketing da empresa terminou por vencer o embate, convencendo os executivos mais reticentes a aceitar o Papagaio como símbolo da Claro Digital, no seu lançamento. Um último problema enfrentado foi relativo ao aspecto físico da mascote.
Enquanto a agência DCS sugeria que a mascote fosse de pelúcia, os executivos canadenses, fascinados com o Brasil, exigiam que o Papagaio fosse verdadeiro, com penas e tipicamente brasileiro, tropical. Isso poderia, na opinião dos criadores da agência, tirar-lhe muito, em termos de empatia, se comparado com os tipos ao estilo Muppet Show, os tradicionais bichos de pelúcia que se popularizaram, também no Brasil, através do programa “Vila Sésamo”, da Rede Globo, na década de 1970.