As décadas de 50 e 60, caracterizadas por um forte fluxo migratório campo- cidade e pela expansão das indústrias multinacionais, colocam as cidades, de modo geral, e Porto Alegre, em particular, na busca da modernidade.
Este período pós-guerra caracterizou-se, de acordo com Moreno (2002), por uma renovação urbana cujos planos diretores e o planejamento urbano, como um todo, tinham por objetivo exercer um controle sobre a cidade. A Carta de Atenas23, divulgada no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, de 1933, ainda, é, nas décadas de 50 e 60, fonte inspiradora para os urbanistas e planejadores urbanos. Para Le Courbusier (1947, referido por BENEVOLO, 2003), um de seus principais idealizadores, o ideal de Cidade Funcional deveria contemplar quatro funções, ou seja, habitar, trabalhar, cultivar o corpo e o espírito e, por último, circular.
Vesentini (1986, p. 150-1), analisando a construção da cidade de Brasília faz várias referências à Carta de Atenas, onde Brasília “expressa uma ideologia de salvação, um racionalismo messiânico que pretende anunciar uma nova era”. Segundo o autor, “para os adeptos da Carta de Atenas, o futuro pertence à ciência e
23Conforme Benevolo (2003), a Carta de Atenas foi um documento assinado por um conjunto de arquitetos, entre eles, o suíço Charles Édouard Jeanneret (Le Corbusier), também, um de seus idealizadores. Para os signatários da Carta, a arquitetura tinha por papel inovar, atuar como vanguarda. Para tanto cabia aos responsáveis pelo planejamento urbano (os arquitetos) “criar cidades” onde não só a dicotomia campo/cidade fosse superada, mas, também, a graduação entre as funções produtivas e residenciais fosse superada. Nesse momento, os arquitetos, associados ao pensamento de artistas, como Mondrian, combatem o espontaneísmo e a desordem, e querem superar a separação entre arte e técnica, pregando a planificação “criadora” do urbano, na busca do equilíbrio. Os arquitetos que neste momento estão vinculados a esta proposta pensam a cidade a partir de unidades elementares que podem ser ampliadas, como o quarto e a casa. A resultante deste contexto, nos anos 70, foi uma cidade de perfil homogêneo, onde as máquinas como os automóveis tinham a prioridade. Na obra deste autor, a referência de data em relação a Le Courbusier, aparece somente no corpo do texto, não trazendo o autor, ao final, a referência completa de onde suas análises foram construídas.
à técnica”, onde a arquitetura, como a “chave de tudo [...] assumiria um papel de vanguarda na construção do futuro” (VESENTINI, 1986, p. 150-1).
As propostas oriundas desta nova abordagem do urbano, apesar de ter suas raízes na década de 30 do século XX, ainda, fizeram eco ao longo das décadas seguintes, nos planejamentos urbanos desenvolvidos nos anos 60 e 70.
A cidade de Porto Alegre, ao longo de seu processo de formação, desenvolveu-se principalmente em direção ao norte, estimulada pela implantação das indústrias e pela ligação com o restante do país. Além das chácaras, a chamada Zona Norte de Porto Alegre desenvolveu-se pela fixação de uma base industrial cuja origem remonta aos imigrantes alemães, no bairro Navegantes. A desvalorização das áreas desta porção da cidade, por serem facilmente inundáveis, provavelmente, contribuiu para uma pequena presença de residências, por isso, disponibilizando grandes terrenos, o que era imprescindível para a indústria.
O primeiro grupo a se instalar na região foi, em 1914, a empresa A. J. Renner & Cia, a qual passou por sucessivas ampliações de sua área, estendendo-se em direção às ruas São José e Frederico Mentz, entre outras, ampliando o caráter industrial da Zona Norte e atraindo novas indústrias e, ao mesmo tempo, estimulando a concentração populacional. Spalding24 (1953, p.68) comenta que “a pequena fábrica instalada nos Navegantes tornou-se desde logo fator importante, porque foi atraindo elementos humanos” e, mais adiante: “Em 1933, as instalações ainda mais se ampliaram tomando, as construções, conta da quadra entre as ruas Frederico Mentz, Lauro Mueller, Beirut e São José”.
24 O livro de Spalding, Monografia de Porto Alegre, não apresenta numeração nas suas páginas, por isso a paginação apresentada neste trabalho resultou de uma contagem efetuada pela autora.
Nesse contexto de expansão industrial, a cidade de Porto Alegre cresce em direção ao norte, consolidando a ocupação entre os eixos das avenidas Farrapos e Assis Brasil, surgindo além dos bairros operários, São João, Passo D’Areia e Vila do IAPI, o Lindóia onde foi construída a empresa Matarazzo.
A concentração populacional induzida pela base industrial favoreceu, segundo Corrêa (1989a), um outro agente do espaço urbano, os promotores imobiliários que, naquele momento, início da década de 50 do século XX, tinham à sua frente grandes vazios nas áreas urbanas.
Porto Alegre estendeu-se cada vez mais em direção aos arraiais do passado, para o subúrbio, agora, bairro, inserido na lógica da cidade pela descentralização cada vez mais urgente como forma de distribuir atividades, descongestionar fluxos e acelerar a cidade.
Quando o Shopping Center Iguatemi de Porto Alegre é lançado para a conquista de lojistas, muitas qualidades são associadas ao novo empreendimento, como a sua localização e acessibilidade, a sofisticação e modernidade da estrutura, a experiência do Grupo Jereissati e, para este momento de análise, a funcionalidade do projeto.
Localizado praticamente na porção central do terreno, embora um pouco deslocado no sentido da atual Av. Nilo Peçanha, a chamada do material publicitário distribuído aos futuros lojistas, naquele período, apresenta nas suas páginas internas um destaque para o aspecto funcionalidade (Figura 9).
Figura 9 – Um projeto funcional
Acompanhados da planta que mostra um desnível no terreno, além da perspectiva do shopping, pequenos textos explicativos dão conta dos principais aspectos referentes a essa qualidade. A primeira delas diz respeito à otimização do espaço na relação oferta e procura. A existência do desnível no terreno foi aproveitada para a construção de dois níveis de vendas, os quais apresentam-se superpostos, embora operassem como andar térreo.
Contornado por uma grande área de estacionamento, o acesso ao interior do shopping, de modo geral, ocorre pelas suas extremidades, ou pela sua porção central, fazendo com que, nós consumidores, circulemos por praticamente todas as lojas conforme indicam as setas representadas em vermelho na Figura 9.
Além dos acessos para o público se constituírem de grandes aberturas, as quais nos convidam a entrar, as atividades de estocagem e (re)estocagem, bem como de expedição de produtos, são feitas por acessos diferenciados, longe do olhar, pois estão “protegidos” pela própria estrutura do shopping.
Nas extremidades do Shopping Center Iguatemi, e praticamente na porção central, localizam-se as lojas âncora, como podemos observar nas plantas representadas pela Figura 10, sendo que inicialmente o shopping tinha como lojas- âncora, ocupando dois níveis, Lojas Sandiz, C&A e Lojas Renner. Já a Lojas Grazziotin ocupava o nível da Av. Nilo Peçanha e o Supermercado Real o da Av. João Wallig.
Figura 10 – Dois níveis em um só
Fonte: Empresa (1982, p. 18)
As lojas âncora atuam dentro da estrutura de um shopping center como grandes consumidoras de espaço e, portanto, acabam orientando a organização espacial das demais lojas. Apesar desta característica, estas lojas são muito
importantes no contexto da estrutura maior, uma vez que possuem um público fiel e numeroso. Nesse sentido, tais lojas garantem a presença de um grande número de consumidores que ao menos entrarão no shopping e circularão por seus corredores e lojas.
Em dezembro de 2005, foram desativadas as cinco salas de cinema vinculadas ao Grupo Severiano Ribeiro, localizadas no terceiro piso, na face voltada para a Rua Carlos Lecori, dando lugar à expansão das Lojas Renner25 fortalecendo a sua condição de âncora.