2.1 U luslararası Hukukta Devletlerin Tanınması
2.2 Tanınmayan Devletlerin Durumu
Ao assumir o poder em 1930, Getúlio Vargas estabeleceu uma política inovadora em várias áreas, com a criação de Ministérios como o do Trabalho, o da Educação e Saúde, e o da Indústria e Comércio. A comunicação também foi incluída neste processo, com a adoção de medidas que visavam a sua regulamentação. A urgência com que foi tratado o assunto, a decisão de publicar o primeiro Decreto destinado a regulamentar as atividades de radiofonia ainda no primeiro ano do Governo Provisório, e, ainda, a quantidade de normas promulgadas sobre a matéria, entre 1931 e 1936 foram elaborados dois Decretos e quatro Portarias, indicam a importância que esta questão assumiu no novo contexto político.
A comissão responsável pela elaboração do Decreto, designada por Getúlio Vargas, era composta pelo Ministro da Viação e Obras Públicas José Américo Almeida, pelo Ministro da Educação Francisco Campos, pelo Ministro da Guerra José Fernandes Leite de Castro e pelo Ministro da Marinha Conrado Heck. A escolha das pastas que atuaram na definição dos parâmetros da radiofonia nacional mostra que este veículo de comunicação continuava sendo considerado como uma questão que envolvia a ordem, a segurança pública, a defesa nacional e a educação.
O Decreto 21.111 de 1º. de Março de 1932 é um marco na história do radio brasileiro. Pela primeira vez, uma legislação no Brasil regulamentava tal atividade de forma detalhada. Por meio deste instrumento legal, foi estabelecido um padrão para uma série de aspectos como, por exemplo, a função do speaker, a potência de transmissão, as formas de concessão de estações e a propaganda. O anúncio da convocação da comissão gerou grande ansiedade no mundo rádio:
Acaba de ser nomeada pelo Snr. Ministro da Viação uma commissão de technicos civis e militares, para elaborar a lei e o regulamento do emprego civil das communicações radio-electricas.
Pesada é a tarefa imposta à Comissão, taes os interesses em jogo e que tanto contribuíram para que no governo passado, se arrastasse, em discussões estéreis atravez do Congresso, um projecto de lei sobre a matéria (Antenna, março de 1931, p.467).
Os intelectuais que participaram da implantação da radiofonia no Brasil lutaram por uma regulamentação que proporcionasse o maior controle possível sobre esta atividade, e sempre defenderam a instituição de um padrão para a linguagem
radiofônica e o controle das atividades realizadas no estúdio. Sob esta perspectiva, a legislação correspondeu aos anseios.
Qualquer que seja o ponto de vista em que se encare o problema das radiocommunicações no paiz, sente-se como uma imperiosa necessidade o inteiro e absoluto controlle do Governo sobre esse serviço, controlle que só poderá se efficiente, dando a União o direito exclusivo de sobre elle legislar (Antenna, março de 1931, p.467)
A forma autoritária como foram elaboradas as leis sobre a radiofonia no Brasil não gerou um clima de protestos. É interessante destacar que, neste período, Getúlio Vargas desfrutava do apoio de grande parte da intelectualidade. Bomeny (2001) lembra que o Estado advindo da Revolução de 1930, chegou com propostas políticas para áreas até então pouco amparadas, como educação, saúde e cultura. Desta maneira, conseguiu envolver estes sujeitos, sendo possível afirmar que estes atenderam ao chamado de Vargas para colaborar com o regime. Dentre os intelectuais que atuaram no mundo da radiofonia e que contribuíram diretamente com o governo, é possível citar Roquette- Pinto, que organizou a Revista Nacional de Educação do Ministério da Educação, financiada pela Comissão Federal de Censura; e Genolino Amado e Ilka Labarthe, redatores do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Labarthe dirigiu a seção de rádio do Departamento Nacional de Propaganda.
As discussões sobre as dimensões técnica e educacional refletiam o clima de disputas no qual se inseria a questão do rádio neste período. De um lado, estavam os intelectuais que defendiam a radiofonia voltada à educação e à cultura, mas que careciam de meios financeiros para a implantação de estações dotadas de recursos tecnológicos mais avançados. Do outro, se situavam os produtores e revendedores de peças e aparelhos de rádio, que possuíam as condições técnicas e o capital para instalação de emissoras ultrapotentes, mas que desejavam um outro modelo de radiodifusão, mais comercial, baseada na informação jornalística e na diversão.
O Decreto 21.111 de 1º. de Março de 1932 procurou contemplar interesses de educadores e empresários: o critério de concessão para novas estações, assim como de renovação da licença para emissoras já existentes, obedeceria tanto a exigências educacionais como técnicas. Com esta determinação, o Governo Provisório objetivava conquistar o apoio de várias classes. O artigo 11 estabeleceu: Poderão as estações de
rêde ser instaladas pela União ou, mediante concessão do Governo Federal, por sociedades civis, companhias ou empresas nacionais idôneas, observadas todas as exigências educacionais e técnicas que forem por ele estabelecidas.
A questão educacional do rádio passou a ser de responsabilidade do recém- criado Ministério da Educação e Saúde, ao qual caberia inicialmente a orientação e a fiscalização sobre o assunto. O Decreto não determinou os parâmetros educacionais que a programação deveria seguir. De forma imediata, foi instituído apenas o controle sobre as informações veiculadas:
A pessoa que se utilizar de radiodifusão para conferências, palestras, aulas ou discursos, ou para transmitir ou comentar notícias ou escritos, ficará responsável por esses atos, na forma da lei que reger a liberdade de pensamento, devendo para esse efeito, preceder a todas as irradiações a indicação do nome da mesma pessoa.
Por outro lado, o Decreto estipulou várias exigências técnicas. Neste período, a tecnologia rudimentar de que dispúnhamos era o principal empecilho ao desenvolvimento da radiofonia. O raio de alcance dos sinais ainda era muito limitado, e as interferências entre as diferentes faixas de frequencia eram corriqueiras. As medidas técnicas regulamentadoras tinham como objetivo não apenas solucionar alguns problemas que prejudicavam as transmissões, como também repassar os custos desta reformulação para as emissoras.
Dentro de um prazo de dois anos contados da data de publicação do Decreto, as emissoras deveriam remodelar suas instalações, com o fim de manter a estabilidade das
freqüências nos limites que forem determinados e a pureza das irradiações bem, como localizar, si preciso for, as suas estações de maneira que estas não perturbem a recepção das irradiações de outras cogêneres (artigo 53). Para cumprir estes requisitos
técnicos, elas deveriam instalar antenas mais potentes, alterar a localização destas para diminuir as interferências, adquirir equipamentos que melhorassem a qualidade do sinal, manter material e pessoal qualificado para garantir a melhor execução possível dos
serviços. As estações que não conseguissem seguir estes parâmetros poderiam ter suas atividades suspensas pelo Estado. A orientação técnica ficaria a cargo da Comissão Técnica de Rádio, composta por três técnicos em radioeletricidade, à qual caberia a elaboração de pareceres sobre a qualidade das transmissões de broadcasting.
Todas essas inovações representavam um grande desafio, principalmente para as sociedades com propósitos de transmissão da cultura, cujo princípio consistia em auferir seu principal sustento das mensalidades e contribuições de seus sócios. A potência mínima de antena passaria a ser de 6 Kw. Para ter dimensão do investimento necessário à adaptação às novas condições, vale lembrar que a Rádio Sociedade funcionava com uma antena de 1 Kw e a Radio Club irradiava suas programações com a antena de 500 kilociclos. Em 1936, as emissoras atuantes sob a forma de sociedades redigiram um documento solicitando a prorrogação do prazo estipulado para atualização dos seus equipamentos, por falta de condições para cumprir tais exigências.
Em contraponto, as estações patrocinadas por empresas comerciais já eram inauguradas com equipamentos ultrapotentes que, por isso mesmo, superavam as exigências impostas pelo governo ao funcionamento das emissoras. A Rádio Jornal do Brasil, por exemplo, estreou com uma antena de 13 Kw de potência. A Rádio Nacional, do grupo A noite, contava, desde sua inauguração, com duas antenas de 25Kw e 50Kw. No entanto, é importante ressaltar que, devido à extensão e à geografia do nosso território, a potência do equipamento nem sempre era garantia de boas transmissões, mostrando que a questão era bem mais complexa do que propunha o governo:
A PRE8 não dá o esperado
Estamos seguramente informados que a PRE 8 ñao impressionou bem os ouvintes da cidade de Salvador.
A notícia de sua inauguração fartamente diffundida em todos os jornaes, alvoroçou os curiosos do radio daquella cidade, tal como devia ter feito aos de muitas outras. Esperavam todos uma estação mais forte que as melhores das já existentes.
Mas oh! Desilusão! A Rádio Nacional não deu o esperado: entrou apenas com a intensidade da PRB 7 que fica bem aquém da mais forte – a Rádio Jornal do Brasil. Ainda se intensidade se conservasse sempre a mesma já seria para louvar: a Rádio Educadora PRB7 é uma estação bem aproveitável para os baianos de Salvador. Mas o volume da Radio Nacional cae constantemente, chegando até a desapparecer. Na festa da inauguração, por exemplo, o ministro Capanema e outros homens ficaram falando sozinhos.
A resolução de tais problemas técnicos não era simples. As ondas médias, adotadas neste período, já davam ensejo, naturalmente, a muita interferência entre as estações de uma mesma região. O aumento gradativo do número de emissoras acarretava um comprometimento cada vez maior da qualidade das irradiações, o que chegava a inviabilizar o serviço em algumas áreas. Para amenizar a problemática que, aliás, também atingia outros países, foram fixados canais que determinavam a área em que cada emissora poderia emitir seus sinais. Por meio de acordo firmado entre os países da América do Sul9 em abril de 1935, o continente passou a contar com 96 canais para serviços de radiodifusão, assim divididos:
47 classificados como “exclusivos” e 49 como “communs internacionaes”. Os primeiros são utilisaveis, cada um, por uma só estação, sem limite maximo de potencia, enquanto os últimos podem ser utilisados, indistinctamente, por todos os paizes signatários do pacto, tanto unicamente por uma estação, cada um ou simultaneamente por mais de uma estação desde que, no segundo caso a potencia não seja de molde a causar interferência nas estações que funcionem na mesma freqüência (Carioca, 16/05/1936, p.42).
Os critérios adotados para a distribuição dos canais exclusivos foram: a extensão territorial, o tamanho da população, a configuração geográfica e a importância adquirida pelos serviços de radiodifusão. O Brasil recebeu o mesmo número de canais que a Argentina: 13. Esta decisão foi tomada devido ao estágio pouco avançado da nossa radiofonia. A divisão gerou sérios problemas, que se estenderam por longos anos:
Fácil será avaliar a difficuldade que se apresenta para provermos o nosso vastíssimo território de estações que attendam ás necessidades de toda a população, sem levar em conta as separações que devem ser mantidas entre as estações.
A radiodifusão entre nós se estabeleceu de maneira muito irregular, sem um plano previamente organisado, pelo qual fossem as estações distribuídas equitativamente por todo o paiz com limitação de numero em cada localidade, segundo sua importância, e consequentemente melhor aproveitamento das frequencias.
Como era natural, as primeiras estações, salvo poucas excepçoes se installavam nos dois centros de maior cultura, Distrito Federal e capital do Estado de São Paulo (Carioca, 15/5/1936, p.42)
Nas revistas especializadas em rádio, as seções destinadas aos comentários de ouvintes eram repletas de relatos sobre as dificuldades causadas pelas constantes
interferências entre as emissoras, o que, muitas vezes, tornava quase impossível compreender o conteúdo da mensagem irradiada:
A única estação nacional que se podia ouvir bem aqui em Manáos, seria a PRF5 que faz a Hora do Brasil na faixa de 31 metros. Acontece, porém, que a estação colombiana “Laboratorios Fuentes” em Cartagena, tem freqüência igual a PRF5, anullando completamente as irradiações feitas pelo Departamento de Propaganda. Em Manáos, não são ouvidas as estações de ondas médias, devido á forte inducção produzida pela Usina de Luz, cuja corrente contínua é de 220 volts e a iluminação publica é arco- voltaico. Quando os jornaes cariocas annunciam que “fulano” vae falar pelo radio para todo Brasil, os amadores desta cidade têm que procurar logar distante para ser nistallado um receptor de bateria, se quizerem ouvir as emissoras de ondas medias, grandemente pertubadas pelas descargas elétricas, mais freqüentes no Amazonas que em qualquer região.
Josué Silva – Manáos (Carioca, 11/09/1937, p.45)
As propagandas de equipamentos de rádio desse período também refletem as dificuldades enfrentadas pelos ouvintes para sintonizar, de maneira satisfatória, a emissora desejada. Neste sentido, como é possível observar na ilustração abaixo de uma propaganda de equipamento veiculada nesse tempo, as fábricas usavam como estratégia de venda, acessórios capazes de sintonizar com precisão as estações, com a promessa de acabar com ruídos e interferências que atormentavam o cotidiano dos adeptos à radiofonia.
Fon fon, 21/11/1936, p.4
O direito de propaganda comercial durante a execução de programas foi o tema do artigo 73. É interessante lembrar que a propaganda já era um recurso utilizado pelas
Sociedades de Rádio na década de 1920, com o objetivo de cobrir os déficits do orçamento: A Radio Sociedade vive da contribuição de seus sócios, das casas e
instituições que contribuem para o fundo de Broadcasting e, actualmente do serviço de publicidade inaugurado como derradeiro recurso para enfrentar as dificuldades que se accumulam (Electron, agosto de 1926, p.4). Conscientes da necessidade dos recursos
advindos dos reclames para manutenção das estações, só restava como estratégia aos educadores combater o caráter comercial das programações. Desta forma, condenavam as estações que veiculavam atrações com o propósito recreativo, com a finalidade de conquistar a audiência com facilidade, sem o compromisso de transmitir o conteúdo pautado em aspectos culturais e científicos.
Como vimos, o Decreto estabelecia que o tempo destinado aos reclames não deveria exceder 10% do período total da irradiação. O anúncio não deveria ultrapassar trinta segundos, e não era permitida a reiteração de palavras e conceitos. O assunto foi alvo de extenso debate publicado em jornais e revistas. Como deveria ser veiculada a propaganda? Até que ponto ela prejudicaria a finalidade educacional do rádio?
O artigo intitulado Quando o rádio deixará de ser uma tortura? reflete a preocupação com tais questões:
O governo deve intervir na defesa do programma educacional brasileiro com apello ao Ministro José Américo
Uma das bellas características do ministro da Viação é da sua sensibilidade aos reflexos do mundo intelectual, tão grande talvez como essa de quem tem dado provas diante dos embaraços da arte popular, occasionados pelos encargos inexplicavelmente onerosos do uso e do gozo de certos serviços públicos. É provável, no entanto que as questões que, de qualquer modo bastam a absorver uma administração renovadora como essas relativas a nossa marinha mercante, às concessões ou contratos da Light, às causas da Central e dos Correios e Telegraphos lhe hajam desfalcado o vagar necessário para o exame de ordem educacional e premente da actividade das nossas companhias ou empresas de radiodiffusão. Ninguém ignora que os privilégios criados em beneficios dessas iniciativas que se vem sucedendo encontram seu fundamento superior, social e político na necessidade e obrigação, que decorrem do poder publico de se valer desse precioso e moderno instrumento de propaganda incomparável na sua extensão e instantaneidade transmissiva para a obra educacional do povo. Foi para que, amparadas essas empresas, exoneradas dessas exigências maiores do fisco, pudessem todas emular no propósito de diffundir a cultura, literária, musical e scientifica que o governo lhe concedeu todos os favores da lei. No entanto desrespeitadas as condições estipuladas, algumas sociedades de rádio desde logo empenharam em corromper estas finalidades superiores transformando-se às vezes em organizações de exploração comercial mais aprestadas em transmitir annúncios e propagandas do que em proporcionar às populações brasileiras espetáculos de gosto e arte, educando-os na apreciação de programmas escolhidos. Para se assegurar o êxito dos annúncios o caminho que se encontrou foi o da exploração do maogosto e de todas
as manifestações de uma pseuda arte lisonjeira de instinctos menos nobres das camadas baixas (O Globo, 22/01/1934, p.1).
Para se adequar às exigências legais e, ao mesmo tempo, chamar a atenção do ouvinte, os speakers recorriam a estratégias inusitadas.
Realmente, a radio-diffusão, pela influencia que vem exercendo na vida moderna, não pode prescindir desse saber fazer e saber dizer.
Refiromo-nos aos annuncios dramatisados, dialogados, e o que é peor em voz de falsete, séria ou jocosa, em termos da gyrias e inovações de mao gosto, que vem surgindo em algumas estações paulistas.
Exemplos? Eil-os:
1) Xi...i... i... bum! Bilhete vendido, etc.
2) A “Casa Palma” (e o speaker bate mais palminhas) é isto ou aquillo.
3) Os homens tossem espalhafatosamente e o speaker ligando o acto a palavra, tosse faz barulho, limpa a garganta, “faz que escarra”... (horrível!) e continua “as mulheres tossem discretamente cul,cul,cul... mas todos usam xarope de abobora B. Junior...
4) Você está alinhado, que bicho! Já sei que fez seu terno no “alfaiate tal”. 5) De repente, no estúdio, ouve-se barulho de tosse. Todos tossem e o speaker
pergunta: “Quem está tossindo aí? Use isso ou aquilo”.
E assim por diante. Há speakers que cantam como galo, miam como gato, para annunciarem remédios para aves ou animaes domésticos.
(Carioca, 18/07/1936, p.44-5).