Os acadêmicos concebiam a Rádio Sociedade como um grande laboratório. No ambiente da emissora estes estudiosos compartilhavam suas experiências, vulgarizavam o conhecimento científico meio de palestras e debatiam suas idéias, sendo aquele o espaço físico planejado para tais atividades. Havia biblioteca, laboratório e sala para cursos e conferências. As questões da radiofonia eram tratadas como assuntos de ciência. Com pouco conhecimento sobre a prática de transmissão, os cientistas recorriam aos livros importados, ou às próprias pesquisas nos campos da física e da eletricidade para resolver problemas de ordem prática. Os estatutos da Rádio Sociedade previam a realização de projetos de pesquisa na área de T.S.F., concomitantemente ao funcionamento da emissora:
grupar e promover mutuas relações entre os estudiosos, amadores e interessados na T.S.F. (radiotelephonia, radiotelegraphia e assumptos correlatos), facilitar o estudo e a prática dos methodos, progressos da T.S.F., vulgarisando-a mediante conferencias, publicações, concursos públicos, demonstrações praticas quaisquer outros meios lícitos, obter dos poderes públicos medidas convenientes, manter em sua sede uma biblioteca, sala de cursos e conferencias, um laboratório de ensaios scientificos e uma estação emissora (broadcasting) devidamente autorisada pelo Governo para irradiar conferencias e concertos divulgando assumptos de interesse scientifico, literário ou artistico, a hora legal, o boletim do tempo, etc (Radio, outubro de 1923, p.1)
A sede era vista como um espaço coletivo que deveria ser freqüentado pelos sócios. Para a realização das atividades de laboratório sobre o rádio, havia plantões para orientar os amadores:
Para attender aos sócios, associados e outras pessoas que desejam informações sobre a construcção, concertos e defeitos de apparelhos e outras nidicações, diariamente, das
17 às 18 horas, na sede da Radio Sociedade estará um membro da Comissão Technica, obedecendo ao seguinte plantão: 2ª Alloysio de Mattos, 3ª Heron Jacques, 4ª Dulcídio Pereira, 5ª Jorge Leuzinger, 6ª Carlos Lacombe e sabbados J. Jonstskoff (Radio, 04/1924, p.1).
Os experimentos faziam parte do cotidiano da Rádio Sociedade, e se destinavam a responder a inúmeras questões, tais como: qual seria o melhor tipo de instalação? Que tipo de material causaria menos interferência? Como produzir baterias mais baratas? Este clima de laboratório gerava um grande entusiasmo entre os intelectuais.
É fora de dúvida o micróbio abominável está se alastrando assustadoramente entre os amadores que freqüentam assiduamente a Radio Sociedade, e contra o qual, o Professor Roquette-Pinto procura um serum preventivo pelo menos.
Há dias discutiam ardorosamente sobre o calculo da seção de um fio, o Leuzinger, Jonotskoff e o Lacombe. Os professores Allyrio e Dulcídio foram chamados a dar opiniões.
-Eu desconfio, disse este ultimo, que conductor cobre bem o effeito desejado, mas lá tão longe...naturalmente dilata. De mais a si o cabo não é soldado é preciso agir com facto, sobretudo quando o aparelho não está são.
O Professor Allyrio pedindo ao seu colega que lhe ceda a palavra, afirmou que estas coisas em algo dão.
O desastre foi tremendo, e o professor Costa Lima reclamou que nem um nem outro liga a acção prophylatica do Dr Roquette-Pinto (Radio, jun 1924, p. 38).
Os diretores da PRA2 faziam grandes investimentos na vulgarização do conhecimento sobre o rádio. Havia várias colunas de revistas e jornais especializadas no tema: Rádio de O Jornal, Radiotelephonia do Jornal do Brasil sob responsabilidade de Dulcídio Pereira, Para calouros, Perguntas e respostas em Rádio e Para os que começam em Antenna. É possível perceber que essas seções têm um formato parecido, que, aliás muito se distancia do padrão das revistas da década de 1930. Na década de 1920, a programação é anunciada de forma discreta, e não há muitos detalhes sobre as atrações.
Ao analisar o conteúdo das colunas sobre radiofonia, é possível conceber a importância das questões técnicas durante esse período. A coluna Accesorios das
installações de T.S.F., assinada, por Dulcídio Pereira, assim anunciava seus propósitos:
Nesta secção os leitores encontrarão expostas de um modo elementar e absolutamente pratico indicações sobre os aparelhos e absolutamente pratico indicações sobre os
apparelhos que constituem os acessórios indispensáveis nas installações de T.S.F. bem como conselhos sobre a escolha de montagens mais convenientes.
Ella se destina aos amdores que desejam adquirir as noções de elctricidade indispensáveis ao entendimento das questões da T.S.F.
Basicamente, era este o tipo de informação que compunha as colunas, publicadas quinzenalmente ou mensalmente, no caso das revistas, e três vezes na semana, no caso dos jornais. Questões técnicas, tais como métodos de montagem de aparelho, e formas de obter melhor recepção eram temas de Radio. Em geral, as reportagens eram ilustradas com desenhos e esquemas para facilitar o entendimento dos leitores.
(Electron, novembro de 1926, p.)
Outro aspecto interessante das colunas de radiofonia é a linguagem empregada: note-se o uso de termos técnicos e cálculos complexos, que não colaboravam com a vulgarização do conhecimento sobre o rádio, ainda que este fosse o objetivo anunciado.
(Electron, setembro de1926, p.7)
Até 1927, o rádio ainda estava na fase do encantamento com o equipamento. O que realmente chama a atenção dos amadores, muito mais que a programação, é a possibilidade de ouvir sons de lugares distantes, e a preocupação em melhorar a performance da aparelhagem. As crônicas sobre os radio-ouvintes fazem transparecer este aspecto : O rádio só é perverso quando a gente está com visitas. Não há meio de se
apanhar nada! Mal a visita a visita vae embora, ouve-se tudo. Nova Zelandia, KDKA, Londres, Torre Eiffel. Buenos Aires, então é sopa! Pelo menos é isso que nos dizemos no dia seguinte ás visitas de véspera (Radio, maio de 1926, p.33).
A oportunidade de acesso a estações internacionais causava tanto entusiasmo entre os ouvintes que as revistas publicavam tabelas com os horários em que se poderia captar um sinal de recepção mais nítido.
(Radio, novembro de 1926, p.14)
As seções de cartas de leitores demonstram outra dimensão da realidade dos ouvintes no Brasil: o aparelho era importado e não dispunha de manual de orientação acessível aos seus compradores, que, muitas vezes, não sabiam qual seria o tipo de tecnologia mais adequado às suas necessidades. Não raro, as pessoas ignoravam o tipo de onda que poderia ser acessada na sua região, curta ou longa, conhecimento indispensável para a compra do receptor. Na maior parte das vezes, o resultado era desastroso:
É muito commum se encontrar pelas fazendas do interior do paiz, magníficos receptores atirados a um canto sem prestabilidade alguma, empoeirados e desmantelados, apezar de terem custado aos seus possuidores sommas mais ou menos respeitáveis.
Os donos de taes apparelhos são os maiores propagandistas contra o Radio. Verdadeiros radiophobos (Electron, 1/11/1926, p.25).
Outro fator que sobressai nas cartas dirigidas a essas colunas são os indícios das dificuldades e do cotidiano daqueles que se propunham a acessar a radiofonia. A conservação era dispendiosa e necessitava de cuidados constantes, de acordo com o cronista: Mas não pensem que o Rádio é uma coisa assim tão barata. Elle é como os
automóveis. O preço da compra é mínimo. A conservação é que um caso serio para quem ainda não está acostumado com a criação de Packards ou Rolls Royces! (Radio,
maio de 1926, p.33). As seções estão repletas de orientações para baratear a manutenção do aparelho.
Pela leitura de sua carta parece que os ruídos que se ouve em seu apparelho deverão ser causados por contactos mau apertados nas diversas ligações. É preciso corrigir cuidadosamente todos os circuitos apertando os parafuzos e verificando todas as soldas refazendo as que parecem duvidosas (Electron, 16/10/1926, p.16).