1. BÖLÜM: PERFORMANSA DAYALI ÜCRET SİSTEMİ
1.5. Sağlık Kurumlarında Performansa Dayalı Ücret Sistemi
1.5.4. Türkiye ve Dünya’da Sağlık Kurumlarında Performansa Dayalı Ücret
Não obstante as transmutações do mundo do trabalho, fomentadas pelas novas particularidades de objetivação do capitalismo, defende-se que na sociedade atual o trabalho mantém papel de centralidade na vida adulta, considerando seu caráter de proporcionar diferentes formas de sociabilidade (Antunes, 2005, 2006; Ribeiro, 2010). Em sua forma mais elementar de ação, permite não só transformar a natureza e se autotransformar mas, como produto e produtor, modificar as relações dentro da sociedade (Dejours, 2004, 2007; Ribeiro, 2010). Diferentes áreas, como a Sociologia (Antunes, 2005; Dubar, 2005), a Psicologia do Trabalho (Dejours, 1994, 2004, 2007), a Psicologia da Orientação Profissional (Bohoslavsky, 1977/2007; Coutinho, Krawulski, & Soares, 2007; Guichard, 2005; Ribeiro & Uvaldo, 2011; Savickas, 2005) concordam que o
trabalho participa da construção da subjetividade humana, incluindo os processos de formação da identidade. Frente às teses que apregoam sua finitude para a vida humana, analisa Antunes (2005, p. 13):
[...] o trabalho permanece como referência central, não só em sua dimensão econômica, mas também quando se concebe o trabalho em seu universo psicológico, cultural e simbólico, fato perceptível quando se analisam as reações daqueles que vivenciam cotidianamente o flagelo do desemprego, do não-trabalho, do não-labor.
Ribeiro e Lehman (2006) destacam o papel que a atividade do trabalho mantém sobre os processos da construção da subjetividade, entendendo-a como um processo “artesanal” que se inicia nos espaços potenciais possibilitados pela família, mas que não se encerra jamais, contribuindo para alimentar no homem a sensação de incompletude e a busca por soluções. O ser humano não nasce “sendo”, mas “torna-se” à medida que vai se constituindo em sua subjetividade, através de experiências e relações, ao longo do tempo e do espaço, na vida privada e pública, no ócio, no lazer e no trabalho. Os processos que envolvem a construção da subjetividade humana, portanto, são profundamente influenciados pelas articulações dinâmicas, dialéticas e intermináveis que ocorrem entre a biografia de cada pessoa e seus contextos sociais e culturais, e que se alteram ao longo da história. Desse modo, considerando os processos de interdependência entre homem e meio, necessariamente a subjetividade também vai sendo modificada e construída na vivência do trabalho (Dejours, 1994, 2004, 2007).
O ato do trabalho engendra processos relacionais entre indivíduo e sociedade onde se criam experiências, objetivas e subjetivas, e novas necessidades, embora sempre assumam peculiaridades em cada contexto social. Tais processos sustentam a vida em sociedade, ao mesmo tempo em que abrigam sujeitos individuais que agem sobre o mundo de forma a apreendê-lo e a transformá-lo. Para Veronese (2006) é exatamente por isso que o trabalho e suas relações revelam tanto sobre os “jeitos de ser” de cada indivíduo em sociedade.
Winnicott (1975a), como mencionado, ao assinalar o entrelaçamento homem-contexto, descreveu o conceito de espaço transicional como sendo uma zona intermediária, entre mundo objetiva e subjetivamente percebido, onde a criança realiza a experimentação de um viver criativo. Este conceito permite compreender que na vida adulta essa área, representada psiquicamente, está localizada no espaço potencial que une e separa indivíduo e sociedade. Essa zona intermediária, onde ocorrem as experiências culturais, configura-se como o lugar em que o indivíduo pode “ser” e “atuar” de modo singular na construção de sua identidade e na criação de um mundo compartilhado (Winnicott, 1975b). A condição do indivíduo de ser criador e
criatura é também expressa por meio de seu trabalho (Dejours, 2004, 2007; Ribeiro, 2009; Schmidt, 2004). Partindo desse referencial, Schmidt (2004) destaca a importância do trabalho enquanto meio de possibilitar a sustentação de identidades, “jeitos de ser e de existir” em sociedade. É vital não só para a sobrevivência, mas como forma de contribuir para a construção do mundo e garantir um “lugar” de existência neste. Não é à toa que diante da falência da confiança no trabalho enquanto espaço potencial de experimentação, surgem padrões de funcionamento mental de mera adaptação e submissão, sem possibilidades de atuação criativa, sendo comum sentimentos relacionados à solidão, desamparo, desespero e sensação de desenraizamento. Sentimentos também identificados em situação de desemprego (Dejours, 2007; Schmidt, 2004) e, muitas vezes, na experiência da aposentadoria (Costa & Soares, 2009).
Por um viés winnicottiano, assim, o trabalho pode ser compreendido em seu aspecto psicossocial como equivalente ao jogo da criança ocorrido no espaço transicional (Winnicott, 1975a, 1975c), onde as expressões simbólicas e criativas auxiliam na construção de sua identidade pessoal e do mundo ao redor. Esta analogia entre criança-jogo e homem-trabalho, pode ser apreendida da Teoria Psicodinâmica do Trabalho, proposta por Christopher Dejours (Veronese, 2006). Na concepção do autor, o trabalho reúne a oportunidade de experiência do contato do “si mesmo” com a realidade, situação que implica tanto no engajamento corporal, como também na mobilização do pensar e do sentir. O ato de trabalhar exige a capacidade do homem de interpretar e reagir às situações e, também, de criar estratégias de enfrentamento frente ao impacto causado diante de suas limitações, sempre emergidas no contato com a realidade (Dejours, 2004, 2007). Para o autor, o indivíduo busca a autorrealização no trabalho, mas também o prazer por se sentir contribuindo para a construção do mundo, embora seja inevitável o hiato existente entre o que está prescrito e aquilo que, no contato com a realidade, se efetiva no trabalho (Dejours, 2004).
Esse reconhecimento, pelo sujeito, da distância existente entre a prescrição e a realidade, revela-se sob a forma de um fracasso do conhecimento, da técnica, do saber-fazer, gerando sofrimento psíquico. Embora esse sofrimento produza uma ruptura na ação, isso não necessariamente se traduz no “fim do processo” que integra a subjetividade do homem ao seu trabalho, pois pode se tornar o novo “ponto de partida”, a origem da condição do pensar na busca de novos meios para transformar o mundo (Dejours, 2004).
Trabalhar supõe antes de tudo poder tolerar esse sofrimento até que a via para superar o obstáculo tenha sido encontrada. É preciso experimentar, tentar, de novo fracassar, meter-se em becos sem saída. Porque afinal é da capacidade de suportar o sofrimento e da obstinação que vem a solução. É da capacidade do sujeito tolerar esse
sofrimento que depende o talento para encontrar soluções e novos caminhos para superar os obstáculos que o real opõe à realização da tarefa (Dejours, 2007, p. 18).
O trabalho assim põe à prova a subjetividade humana e neste sentido a mesma sempre se transforma. Trabalhar, portanto, não se reduz a produzir mas implica involuntariamente na constante transformação do eu, participando da construção das identidades. Nesse processo dinâmico, o reconhecimento do meio social mantém extrema importância (Dejours, 2004, 2007).
No que se refere à importância do trabalho sobre os processos da construção da identidade, Bohoslavsky (1977/2007) destacou o que denominava como a identidade ocupacional. Para construir este conceito, amparou-se tanto na concepção de Erikson (1950/1998) de que a identidade pessoal se constitui ao longo do desenvolvimento psicossocial do indivíduo; como nas fases do desenvolvimento vocacional de Super (1957). Para Bohoslavsky (1977/2007) a identidade pessoal e a identidade ocupacional têm suas origens no esquema corporal, ou seja, na autopercepção do indivíduo a partir das relações dialéticas estabelecidas com o meio. Sempre influenciada pelas expectativas (internas, da família e da sociedade) de desempenho de papéis relacionados ao trabalho, a formação da identidade ocupacional configura-se com um processo dinâmico, que se relaciona diretamente com a possibilidade de o indivíduo ter integrado suas diferentes identificações, reconhecendo em si o que é “capaz de fazer”, “de que modo” e “em que contexto”. O processo de aquisição da identidade ocupacional ocorre, na visão do autor, ao longo de toda a vida, envolvendo diferentes momentos do desenvolvimento do indivíduo e a sua relação com a vida ocupacional, incluindo desde o brincar na infância, seguido da fase dos investimentos nos estudos e, na vida adulta, o investimento no trabalho.
Por esta perspectiva, Bohoslavsky (1977/2007) apoiou-se no modelo de Donald Super12 que previa o desenvolvimento vocacional ocorrido segundo estágios. Na primeira fase do desenvolvimento até os 14 anos (Crescimento) ocorreria a Escolha Fantasista. Assim, inicialmente há o predomínio das fantasias em função das necessidades básicas da criança (por meio do brincar) depois, com o tempo, ela adquire a capacidade de se referir aos seus “gostos”, demonstrando interesses por determinadas atividades e pessoas. Em função da escolarização, os adolescentes passam a reconhecer em si determinadas habilidades. Nessa
12 Em um primeiro momento, a ênfase dos estudos de Super (1957) recaía sobre o desenvolvimento da carreira profissional
(“Teoria do Desenvolvimento de Carreira”), porém a partir de reformulações que culminaram com a “Teoria ao Longo da Vida e dos Espaços de Vida” – “Life-Span, Life-Space Theory” (Super, 1990), o autor passou a considerar uma articulação mais complexa entre a construção da carreira e os diferentes papéis sociais exercidos no curso da vida (Oliveira, Melo-Silva, & Coleta, 2012).
etapa do desenvolvimento, a construção do autoconceito assenta-se basicamente sobre os processos de identificação. A segunda etapa, que se estende dos 15 aos 24 anos (Exploração), caracteriza-se pela Tentativa de escolha, quando o autoconceito não é só sustentado pelas identificações, mas pelo desempenho de papéis. Inicialmente ocorre a fase das tentativas, quando escolhem papéis ainda com base em suas fantasias. Em seguida, há um período de transição, quando são capazes de ponderar sobre seus interesses, mais pautados em dados realísticos. A partir daí, ocorrem ensaios em relação às áreas de interesse. Bohoslavsky (1977/2007) aponta que, a partir deste período da vida, surgem as “crises vocacionais”, sobretudo nos momentos de transição como, por exemplo, da universidade para o mercado de trabalho. A Escolha Realista ocorreria no que corresponde às etapas seguintes do desenvolvimento (Estabelecimento, Manutenção e Declínio). Incialmente, identificam-se as experimentações dentro das áreas de atuação profissional, incluindo escolha de cursos, estágios ou tipos de trabalho. Segue-se a fase de estabilização, quando a partir da confiança no que vem sendo construído, a pessoa atua com mais segurança e criatividade. Depois, inicia-se um processo de desaceleração e de preparação para a aposentadoria. Na concepção de Bohoslavsky (1977/2007) só se pode pensar que o sujeito tem uma identidade ocupacional quando o mesmo se torna capaz de integrar todas as suas diferentes identificações e autoconceitos.
Bleger (1977/2007, p. XXV) enfatiza a grande contribuição de Rodolfo Bohoslavsky pelo fato do referido autor defender a importância das investigações e práticas no campo da Orientação Profissional se preocuparem em “formar sujeitos com identidade. E não modelados pela adaptação a um sistema alienado – o que se faz (trabalho) deve coincidir com o que se é”. Em formulações posteriores, Bohoslavsky (1983a, 1983b) explicita a necessidade de a área considerar mais criticamente o quanto os modos de produção e o sistema social se impõem ao sujeito e como este sustenta, transmite e dialeticamente o transforma, sendo, portanto, responsável pela construção desta realidade. Em sua perspectiva, os estudos e práticas da área não devem sustentar projetos profissionais que negligenciem o contexto histórico e social, bem como os mecanismos ideológicos subjacentes. Questionando as implicações dos sistemas produtivos sobre as relações de trabalho, convoca a área a pensar na importância de se auxiliar o homem na transformação do mundo por meio de seu trabalho, sempre com comprometimento e responsabilidade social e política (Bohoslavsky, 1983a, 1983b).
Em concordância com os apontamentos de Rodolfo Bohoslavsky a respeito da postura ética e socialmente comprometida que a área deve preservar ao considerar o contexto
histórico, convém ponderar que diante das transformações vertiginosas do mundo do trabalho, alguns conceitos e noções, inclusive propostos pelo próprio autor por volta da década de 1980, necessitam de ser repensados e, talvez, ressignificados. Na época em que desenvolveu seus estudos e práticas, projetar-se no futuro para aquele adolescente implicava em pensar sobre o desempenho de certos adultos, uma vez que o jovem pensa no futuro procurando personificá-lo a fim de torná-lo palpável, concreto (Bohoslavsky, 1977/2007). Entretanto, como sugerem Bauman (2001) e outros pensadores pós-modernos, será que diante de uma era cujo tempo presente se mostra fluido, imprevisível, é possível pensar em “quem ser”, ou mesmo, planejar e estabelecer projetos? Outro sociólogo Sennett (1999/2006) chama a atenção para o quanto a ênfase na flexibilização e no investimento em trabalhos de curto prazo dificultam que as pessoas possam estabelecer relações significativas e construir uma biografia coerente.
Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos? As condições da nova economia alimentam, ao contrário, a experiência com a deriva no tempo, de lugar em lugar, de emprego em emprego (Sennett, 1999/2006, p. 27).
Em sua visão, diante das novas formas de relação com o trabalho, a formação do caráter do trabalhador vem sendo corroída, visto que esse processo envolve qualidades estáveis que sempre ajudaram os homens a se associarem uns aos outros, como a confiança, a lealdade, o comprometimento, a cooperação, sustentando assim suas identidades (Sennett, 1999/2006). Na mesma direção, considerando que o trabalho exerce função constitutiva do caráter, e mais amplamente da sociedade, Siqueira (2009), ao analisar a sua formação frente às mutações do mundo do trabalho, destacou a vulnerabilidade subjetiva do homem atual também em função do descrédito às leis que se mantinham como referenciais importantes para a construção da identidade e da alteridade.
A respeito das contradições inerentes na relação entre homem e trabalho na atualidade e o quanto isso repercute diretamente na subjetividade e nos processos de construção das identidades, Coutinho, Krawulsky e Soares (2007) e Coutinho (2009) apontam para a importância de se pensar quais articulações ainda são possíveis de serem realizadas entre o conceito de identidade e de trabalho, tendo em conta o atual contexto tão transitório e descontínuo. Os autores sugerem como possível saída a articulação entre os conceitos de identidade e o de identificação, a fim de reiterar a ideia de processualidade que marca a formação da identidade. Convém retomar que o conceito de identificação, a partir da perspectiva freudiana, prevê um processo psicológico no qual o
indivíduo “apreende” do outro, em suas relações objetivas e subjetivas, e a partir de suas experiências com este modelo, o sujeito se transforma ininterruptamente. Nesse sentido, Coutinho, Krawulski e Soares (2007) consideram que é a partir dos processos identificatórios, os quais se mantêm em constante mudança, que emergem as possibilidades de identidade e que se expressarão nas relações com o mundo. As autoras também dialogam com conceitos do sociólogo português Santos (2005 citado por Coutinho, Krawulski, & Soares, 2007), analisando a identidade sustentada a partir das “identificações em curso” constituídas pelas diversas experiências e relações durante a vida, e que vão se transformando sempre em busca de se manter uma coerência com a construção de uma biografia própria.
A relação entre trabalho e identidade, também é analisada pelo sociólogo francês Claude Dubar, que procura ultrapassar a polarização muitas vezes existente entre as análises preponderantemente essencialistas, focalizadas nas dimensões individuais e psicológicas; e aquelas investigações muito relativistas, que desconsideram a identidade biográfica, ocultando singularidades e diversidades (Dubar, 1998). O autor considera as dimensões sociais e individuais, objetivas e subjetivas, ao propor que as “formas identitárias” articulam-se e se alicerçam em dois processos principais. Um deles, entendido como biográfico, sustenta a “identidade para si” (identidade biográfica) a qual é reconhecida pela reconstrução subjetiva que o sujeito faz de si ao contar sua história. Esta identidade é construída com base no que é almejado pelo indivíduo, ou seja, em suas expectativas e idealizações (“aquilo que eu devo ser”). O outro processo é relacional e sustenta a “identidade para outrem” (identidade estrutural) a qual reconhece o indivíduo em seu campo social de referência, assinalando “quem ele deve ser”. Tais processos articulados geram contradições, conflitos, crises com os quais todos se deparam e o que, muitas vezes, pode se traduzir em posicionamentos de mera reprodução ou, ao contrário, de construção (Dubar, 1998, 2005). Esse jogo entre os processos relacionais e biográficos pode ser reconhecido nas relações com o trabalho e nas trajetórias que os indivíduos desenham ao longo da vida. Mais recentemente, Dubar (2011) analisa que as crises de identidade relacionadas à área do trabalho não são novas porém a “[..] exigência desse novo individualismo performático e desse duplo vínculo (“torne-se autônomo”), desse culto ao desempenho e da competição (“seja o melhor”), dessa singularidade distintiva (“seja você mesmo”)” (Dubar, 2011, p. 180) são determinações que desencadeiam novas crises e muito sofrimento entre as pessoas que podem não encontrar outras formas, além da via do trabalho, de restabelecer a autoestima e o reconhecimento do outro, tão indispensáveis à saúde.
Tendo em conta as influências recíprocas entre as relações de trabalho e a subjetividade (incluindo a construção das identidades) considerou-se importante discutir como o campo da
Orientação Profissional tem considerando a construção das trajetórias de carreira diante das atuais exigências de um mundo do trabalho flexibilizado.
2.3 A área da Orientação Profissional e a construção das trajetórias de carreira na