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Entrevista sobre Acervo do MISBH Entrevistada: Soraia Nunes Nogueira Entrevistadora: Camila Cristina da Silva

Data: 28/10/2016 Duração: 24m42s

C: Soraia, primeiramente eu queria saber qual a sua formação.

S: Eu sou formada em Artes, com habilitação em Cinema de Animação; sou mestre em Arte e

Tecnologia da Imagem, na linha de preservação. Meu projeto é sobre colecionismo cinematográfico e envolveu essas questões de preservação. E o doutorado também em Arte e Tecnologia da Imagem sobre restauração em animação, não “de” animação, mas “em” animação. Tudo pela Escola de Belas Artes da UFMG. E sou também especialista em Artes Visuais pelo SENAC.

C: Quanto tempo você trabalha aqui no MIS e que cargo você ocupa?

S: Eu entrei aqui depois de dois anos do concurso, em 2010, e estou aqui até hoje. Nunca mudei

de instituição dentro da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. O cargo é de técnico de nível superior em Artes Visuais.

C: Falando um pouco sobre a política de acervo, já foi finalizada, já foi implementada, fiquei sabendo que ela foi publicada, não? E o plano de trabalho foi totalmente estabelecido?

S: Sim.

C: O que mudou no seu trabalho, especificamente, com a modificação do CRAV para MIS?

S: Continua a falta de dinheiro, continuam as dificuldades. Sinceramente, nada. Para mim não

alterou nada porque o acervo continua o mesmo, de audiovisual. Desde que eu entrei, havia muito descaso da própria Fundação, em relação ao antigo CRAV e, aos poucos, veio uma gestora e a Fundação começou a olhar para nós. Mesmo assim, acho que ainda falta muito para ela nos apoiar, por exemplo, com divulgação e uma série de coisas. Em relação ao passado e

187 agora, estamos conseguindo executar mais projetos, tudo que antes não conseguíamos, era muito mais difícil.

C: E com a criação do MIS Cine Santa Tereza? Ele já está alcançando um braço de difusão desse acervo? O que mudou?

S: Foi muito bacana para essa questão de divulgação, de ter outro espaço para exposição, para,

vamos dizer, dar “saída” ao acervo. Mas eu acho que também dificultou porque você não pode criar instituições sem dar suporte de funcionários, estrutura, de mobiliário, de tudo, inclusive sem ter dinheiro. Isso está acarretando problema sério de sobrecarga de trabalho. Eu não entrei no revezamento para o trabalho lá porque, para mim é muito difícil, onde eu moro tem que pegar até Uber. Final de semana então com o MOVE... Acarretou isso, o revezamento da equipe aqui com a equipe de lá, ter que suprir essas necessidades de horário. Havia a necessidade de abrir mais sessões de cinema, que é interessante até porque o público vem requisitando e pelos projetos que vêm dando muito certo, mas a equipe não tem tempo porque não é só ir lá e trabalhar.

C: A equipe é pequena para os dois espaços.

S: Exatamente. E não é só o trabalho de lá. Nós temos que executar e resolver muita coisa daqui.

Em relação a isso, complicou bastante mas é um espaço muito interessante.

C: Eu queria que você falasse um pouco sobre o Projeto Preservando a Animação e como foi estabelecido o diálogo com a Escola de Belas Artes para a execução desse projeto. S: Eu entrei no doutorado lá na Escola de Belas Artes em 2011, justamente com foco na

preservação em animação. Como minha formação e minha vida acadêmica sempre foi lá, inclusive com orientação do professor Luiz Nazario, com alguns projetos voltados para a preservação. Como eu trabalhava aqui com preservação, eu criei um projeto que fosse juntar o útil ao agradável, que servisse ao MIS e ao trabalho daqui, que na época ainda era CRAV. Eu ganhei Bolsa Sanduíche, acabei indo para a Itália. Depois de um ano e com orientações do Nazario, meu projeto teve uns ajustes, que foram pertinentes e necessários e foi fechado na questão dos paralelos, convergências e divergências entre o restauro fílmico e os processos de animação. Quando eu apresentei isso para o Nazario, nem ele nem alguém da área de preservação e restauração achavam que tinha alguma coisa a ver, mas acabei mostrando que tinha. Eu fui para a Itália, fiquei um ano com Bolsa Sanduíche, como essa pesquisa tinha muita coisa a ver e ia trazer benefício para o MIS, eu inclusive ganhei licença remunerada. Com o

188 retorno, fiquei mais seis meses de licença para terminar – um direito do servidor público -, terminei e, durante esse período, pensei porque tem muito a ver com minha pesquisa, as dificuldades e a falta de um trabalho efetivo na questão da preservação da animação tanto dos filmes quanto dos artefatos de animação.

C: O que entrelaça as suas duas pesquisas: a de mestrado e a de doutorado.

S: Justamente porque eu vi a dificuldade e a pontualidade de alguns trabalhos no mundo, por

exemplo, na Cinemateca Francesa, logicamente, nos Estados Unidos, onde se concentra o maior número de acervos de animação, principalmente porque eles já têm essa linha de produção industrial do cinema principalmente de animação com o Disney. Tem uns 94, se não me engano, acervos de animação, comparando com o mundo que são um, dois, três por país. Enfim, com isso, surgiu essa minha ideia de criar esse projeto para que eu pudesse aplicar, desenvolver, explorar isso. Ao longo do meu projeto de doutorado e quando eu estava lá na Itália, eu fui coletando muitas coisas inclusive de cartazes cinematográficos que eu sabia que eram pertinentes, necessários para nós desenvolvermos, para trazer informações para aqui sobre scanner digital de filmes para crescer e complementar o trabalho do MIS daqui. Com isso, antes de eu viajar para a Itália, eu já estava organizando o I Seminário de Preservação, quando era CRAV ainda. Eu saí antes de ter o seminário e a equipe continuou a finalização do seminário. E, como já teve este, já estava programado para ter outro esse ano. Para variar, não tinha verba nenhuma para esse ano e tínhamos que executar. Na reunião de equipe, fomos sugerindo. Victor inclusive sugeriu fazermos um seminário sobre a preservação do carnaval e eu apresentei esse, que já estava todo formalizado. Acabamos optando por isso porque havia esses parceiros que poderiam acrescentar muito para esse tipo de evento. Inclusive, se não me engano, nessa reunião, já tínhamos um retorno muito interessante do MIS Cine Santa Tereza de sessões de cinema de animação que lotaram. Por isso, resolvemos fazer isso. Os parceiros – Anima Mundi, a Escola de Belas Artes, entre outros – foram escolhidos porque têm relevância em relação à história do cinema de animação, à abertura de escolas aqui no Brasil, inclusive de preservação audiovisual, criando acervos de animação. Até agora, logicamente, nenhum deles fez um trabalho voltado diretamente para a restauração de artefatos e de pesquisas, para dedicar um lugar para acervos de animação. Eles são importantes nessa área. Tentamos também com o Anima Mundi, mas por questão de verba de edital, esse ano eles não vieram para Belo Horizonte. Inclusive, na época do meu doutorado, eu fui ao Rio de Janeiro, conversei com o pessoal e eles já têm uma ideia de

189 criar um museu da animação, mas, por enquanto, acho que está parado também. E o outro era a Escola de Belas Artes, principalmente porque além do acervo, também foi um dos núcleos de produção de animação na década de 1980, 1990 quando o National Film Board vem implantar esses núcleos profissionalizantes e de ensino de animação no Brasil. E a Belas Artes foi um dos únicos que vingou, chegando a virar um curso de graduação de Cinema de Animação, incluindo aí pesquisas de mestrado e doutorado que vêm sendo desenvolvidas. Então esse diálogo foi muito interessante e aberto, principalmente foi parte dos professores, que são feras tanto quanto à pesquisa quanto a serem profissionais de animação na prática. E tem uma história muito interessante para contar, para colaborar.

C: Você tem ideia de novos projetos nessa área para o MIS?

S: Tenho, já tem alguns engatilhados. Esse período está muito complicado por causa da crise,

políticas e outras questões. Já temos um histórico de dificuldade financeira e agora, parece, está pior. Mudança de governo... Desde que eu entrei, não consegui aplicar muita coisa à restauração, que acho que é uma coisa que tem a crescer e colaborar demais na área de preservação, criando, aqui em Minas Gerais, o MIS como uma referência disso. Então um desses projetos que entramos e um dos tópicos que colocamos para que ele fosse selecionado, foi o curso de capacitação – eu fiz o planejamento de aula, que eu daria -, incluindo três turmas: uma para os funcionários do MIS, outra para o Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte e outra para o público externo. E que dará espaço para conscientização. Esse é um dos projetos que falo que é linha base, o principal, que estou esperando acontecer. A CAPES, justamente por causa da Bolsa Sanduíche, vem me acompanhando, tem documentações que preciso dar o retorno. Depois que finalizou esse projeto da Bolsa Sanduíche, eles mandaram e-mail solicitando que enviasse projetos que pudessem colaborar para eles estarem divulgando. É o que eu pretendo fazer. Eu falei que, até agora, eu não tive trabalho efetivo na área de restauração fílmica porque envolve tudo, desde educação de cor, de som, de estudos que eu queria passar muito para a equipe desenvolver isso, mas que fiz algumas palestras voltadas para isso. Antes de eu sair da licença, eu fiz uma palestra no Projeto Audiovisual em Debate, que eu falei dessa questão da preservação de animação. Sexta-feira passada, tivemos encontro do REMIG, que foi inclusive para discutir essas questões do digital e do analógico e eu trouxe também, principalmente com minha pesquisa, essas questões, comparando a evolução do analógico para o digital, mas no âmbito da preservação fílmica, do audiovisual. Tanto é que o Yuri Mesquita falou da preservação de

190 documentos do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte e a Renata Baracho, que é professora de Arquivologia da UFMG. As apresentações dos dois foram fantásticas, o pessoal inclusive também gostou muito da minha, que foi um campo novo para eles. Que é o que eu falo, nós temos que trazer essas questões, divulgar, discutir, ter esses cursos, que acho que estão faltando inclusive no próprio CECOR. Eu sempre bato na tecla, o pessoal de lá é muito competente, reconhecido, mas falta abrir um pouquinho o campo e começar a assumir que tem a preservação do audiovisual e que cabe a restauração digital e eu tenho três argumentos muito claros com relação a isso. Falta isso para eles porque são um lugar de referência, não só daqui, mas do Brasil e do mundo, com trabalhos maravilhosos. Então eu acho que peca isso no CECOR, nas escolas, com a formação em educação patrimonial de preservação no Brasil como um todo e na Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, eles discutem isso, mas tem que parar de discutir e colocar em prática.

C: Você acredita que essa multidisciplinaridade da equipe do MIS tem sido essencial para a criação de projetos para fazer a manutenção do acervo?

S: Com certeza. Por exemplo, Rafael Rajão, que saiu daqui, era ótimo com projetos. Tanto é que

esse projeto espanhol do ADAI, que lidou com os acervos de cartazes de filmes, que ele formalizou. Cada um tem uma função específica que vem colaborando.

C: E é uma das poucas instituições que tem pessoas com várias formações.

S: Sim. Uma coisa que eu sinto muita dificuldade é que, por causa do cargo, eu sinto um pouco

de preconceito. Por exemplo, meu cargo é de Artes Visuais. Eu venho de uma faculdade de Cinema de Animação, não que eu seja profissional, mas muito a partir de meu conhecimento adquirido por pesquisas de mestrado e doutorado, tenho base para discutir questão de documentos, de gestão de documentos, que vão além... Às vezes, por causa do serviço público, ficamos amarrados na questão da formação e não te dá margem, às vezes, para você trabalhar com outras coisas. No meu cargo, por exemplo, não está como restauradora, mas eu falo sobre essa restauração digital, condições de conservação e restauração digital e física também de filmes, de película. Eu estou falando isso com relação às minhas capacidades, não desmerecendo outros profissionais que são fundamentais para desenvolver o trabalho do MIS.

C: Você já falou sobre a sua experiência de intercâmbio. Eu queria saber o quanto a sua experiência enquanto animadora, vinda do curso de Cinema de Animação, auxilia no trabalho com o acervo do MIS e como ela viabiliza outros projetos?

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S: Não só com o trabalho do MIS, meu projeto, por exemplo, do doutorado, logo quando eu

voltei do intercâmbio muitas coisas desses softwares de edição, essa parte prática me deu bagagem para trabalhar com isso. Lógico que eu fui estudando para desenvolver mais. Essa questão de animação é até um tema que eu abordo e foco muito na tese de doutorado, que o animador tem um pacote enorme que vai da sua formação, dos princípios de animação, de tudo que envolve animação, para trabalhar com isso, mas o que faltava, e eu tive no período do mestrado e do doutorado, essas bases teóricas de preservação. Então colaborou e vem colaborando enormemente para o acervo desde as questões teóricas até as questões práticas, de editar um vídeo mais voltado para a preservação; tratamento das imagens do acervo dos cartazes. Me deu uma margem enorme para trabalhar com isso.

C: Quais as dificuldades que você tem em seu cotidiano de trabalho com relação à manutenção desse acervo? Você já falou de algumas, que a equipe é pequena, que fica sobrecarregado...

S: A questão de equipamentos, tanto digitais, de softwares, hardwares, de montagem do

equipamento de som antigo analógico. Adquirir um scanner digital porque com esse equipamento será possível fazer restauração digital, captar áudio, que é um campo específico do audiovisual que é pouco explorado nos acervos e que falta dedicar mais a isso. Tem uma referência fantástica, que me ajudou demais no doutorado, que é o José Luiz Sasso, não só como restaurador de som, mas como profissional que faz trilha sonora e fez muitos filmes importantes da história do cinema brasileiro. Então é algo que falta nos acervos. As dificuldades aqui são principalmente essas, a falta de dinheiro, a falta de comunicação, que é terrível...

C: Você acompanhou um pouco da ABPA na CINEOP, do Plano Nacional de Preservação Audiovisual. Como você acha que isso facilitaria esses projetos?

S: A partir do momento em que você já tem um plano, como diretrizes bem fundadas por uma

grande parte de profissionais que lida, já trabalha e tem experiências nessa área, fica muito mais fácil. Acho que a Laura Bezerra falou que é muito mais fácil você ter isso e cobrar do que não ter nada e cobrar, sem ter uma base. Então isso facilita demais e, acho, vai ajudar demais essas questões, nem que seja para mudar alguma. Por exemplo, “precisava disso...”. Já tem um início, uma base para começar a cobrar, para criar outras ações voltadas para isso, diante do governo e de outras instituições, ações, políticas, voltadas para a preservação audiovisual.

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