Quaisquer sistemas de leis de contratos objetivam, em última instância, facilitar o processo de trocas, e para cada um desses sistemas podem desenvolver-se formas particulares de governança. Com base nesse pressuposto, WILLIAMSON (1975, 1990 e 1996) define (i) o enquadramento das formas clássicas do contrato e de governança com o mercado; (ii) a presença de formas híbridas e de estruturas de governança trilateral; (iii) o enquadramento das formas relacionais de governança bilateral e de governança unificada.
Pela orientação legal clássica, a identidade dos agentes no processo de contratação é uma condição restrita ou irrelevante. Os acordos são fundados em regras legais, documentos formais e em contrapartidas que podem vir a ser exaustivamente prescritas. Os contratos clássicos orientam-se para tipos recorrentes e/ou ocasionais de transação de componentes, serviços ou produtos do tipo standard. Dadas a natureza do objeto transacionado e a presença de um conjunto amplo de opções de fornecimento, o mercado atua de forma eficiente no controle de possíveis comportamentos oportunistas por parte dos agentes econômicos. Isso porque é facilitada, a qualquer uma das partes, a decisão em continuar ou não o relacionamento, dada a natureza não estratégica do objeto da transação ou devido às opções disponíveis de fontes alternativas de suprimentos.
O contrato do tipo neoclássico avança em relação ao tipo clássico, uma vez que reconhece melhor os impactos da racionalidade limitada dos agentes e a natureza incompleta dos acordos contratuais. São assim enquadradas as transações ocasionais que envolvem níveis medianos ou intensos de investimentos em ativos específicos. Essa estrutura de governança - e talvez aqui se possa pensar em termos de uma forma institucional intermediária ou híbrida – tem na arbitragem e nas reconhecidas “terceiras partes” um caminho para a resolução de disputas e para a avaliação da performance dos agentes. Distancia-se assim da orientação restritiva das cortes judiciais ou das decisões litigiosas, que tendem geralmente a não prezar, antes de tudo, a perspectiva de continuidade dos contratos.
Já os contratos relacionais identificam-se com formas quase administrativas que viabilizam a gestão das transações. Caracterizando a forma relacional, há o interesse das partes em construir e manter uma estrutura especializada de governança, necessária às transações recorrentes de produtos não-standardizados e demandantes de investimentos específicos, ou de conteúdo idiossincrático. Nesse caso, a opção da compra pelo mercado será altamente duvidosa e perigosa, sobretudo em condição de incertezas, de especificidade de ativos e de transações recorrentes ao longo do tempo.
Um detalhe importante distingue os contratos: existem as formas bilaterais e as formas unificadas de governança. Nas formas bilaterais de governança, há autonomia das partes e menor especialização de ativos.
Na governança unificada, as transações são removidas do mercado e são totalmente internalizadas, como acontece nos processos radicais de verticalização. Os custos de transação são substituídos por custos administrativos, e esse procedimento confere à empresa verticalizada um espaço mais amplo de manobras em relação a várias questões, como política de preços, decisões relativas à quantidade e à freqüência da produção, objetivos de redução drástica dos custos de produção, entre outras.
As diferenças entre contratos do tipo clássico, neoclássico e relacional, bem como suas interfaces com os diferentes modos e estruturas de governança, podem ser visualizadas na FIG. 12.
Características do Investimento Frequência Governança Mercado Governança Mercado Governança Trilateral Governança Bilateral Governança Unificada Não-Específico Misto Idiossincráticos
Compra de equipamentos standard Compra de componentes standard Compra de equipamentos customizados Compra de componentes customizados Verticalização Construir uma planta industrial Ocasional Recorrente FONTE
De acordo com o modelo da teoria dos custos de transação, os ativos são específicos a uma transação quando, ao ocuparem posição diversa da que tiveram inicialmente, sua realocação em outros contextos mostra-se problemática sob o prisma da produtividade. Assim sendo, compreende-se que existam: (i) investimentos em ativos específicos de
tipo físico, os que se referem a equipamentos, máquinas, dispositivos e instrumentos de
trabalho; (ii) investimentos em ativos específicos do tipo locacional, ou de tipo geográfico, fundamentais, por exemplo, ao êxito do JIT externo ou à formação de outras competências em bases locais; (iii) investimentos específicos em ativos humanos, caracterizando situações em que a contratação de trabalhadores no mercado externo de trabalho não se mostra uma alternativa muito desejada pela empresa, diante dos investimentos que realizou anteriormente em seu capital humano. Daí os investimentos estratégicos das firmas em práticas permanentes de treinamento, que podem apresentar forte conteúdo idiossincrático.
É importante compreender a natureza diversificada dos contratos e a influência dos ativos nas formas ou estruturas de governança, partindo-se do pressuposto de que o critério para se organizarem transações comerciais perseguirá sempre, mesmo que não exclusivamente, a economia de custos de produção e de transação. Isso porque as estruturas de governança fazem parte de um problema de otimização de resultados, em
que a passagem de um modelo contratual a outro sinaliza inovações institucionais importantes sob o prisma da eficiência e da competitividade das empresas.
Por fim, deve-se ressaltar que a teoria dos custos de transação pode viabilizar uma análise mais precisa da interface entre variáveis contratuais e o princípio da segmentação de fornecedores, tais como o nível de investimentos em ativos específicos; a freqüência das transações e a criticidade das mesmas; o objeto da relação e a duração dos contratos; o número de fornecedores contratados e a intensidade de uso de salvaguardas ou de estruturas especializadas de governança (WILLIAMSON, 1975 e 1985).
Uma outra contribuição dessa teoria está em permitir, mesmo que de forma indireta, a análise de um “percurso evolutivo” para as tratativas contratuais entre empresas, quando estas decidem perseguir as metas da produção enxuta (lean production) e a construção de arquiteturas organizacionais em rede para sustentar suas estratégias de inovação e de produção, bem como suas políticas de suprimentos. Portanto, paralelamente aos esforços voltados à construção de parcerias para certos tipos de contratos, no caso de acordos contratuais não estratégicos (geralmente envolvendo a transação de objetos de menor valor agregado ou não relacionados às competências centrais da contratante) estaria em curso uma reorganização das estruturas de relacionamento ao longo da rede de suprimentos, isto é, de relações de mercado (arm’s length) a relações de quase mercado (quasi market relationships). Nesse movimento em direção a estruturas de governança de quase mercado, custos de transação relativos às operações tradicionais de
arm’s length estariam sendo reavaliados em relação a formas menos custosas de
relacionamento, com benefícios sistêmicos para a maior competitividade das redes, sobretudo no que se refere à continuidade dos investimentos em ativos e à impulsão da inovação.
2.1.2. Uma compreensão ampla dos custos de transação a partir da dinamização