1.10. Darbe Kültürü
2.1.2. Türk Milliyetçiliği ve Turan İdeali
Desde então, no entanto, muita coisa mudou na configuração do romance e também no que diz respeito aos romances de cunho historiográfico. Entretanto, é equivocado o pensamento de que tais transformações são fruto apenas das ideias ditas pós-modernas. A pesquisa em questão apontou, na análise de Guerra dos
mascates, de José de Alencar, e Memorial do convento, de José Saramago que
inovações consideradas neste como sendo de seu tempo, já haviam sido apresentadas por aquele no século anterior.
Não se quer aqui afirmar que o autor brasileiro se antecipou aos pós- modernos, mas apontar algumas incongruências das novas terminologias dos romances de cunho historiográfico as quais não levaram em consideração que certas mudanças não são atuais e que têm um rastro que já se configurava no passado.
José de Alencar trabalhou com o Norte e o Sul do país, com o passado e a época em que viveu; com cada elemento formador da raça brasileira e com sua cultura. Seguia um ideal, ou melhor, um plano, pois que foi concretizado e não ficou estacionado no mundo das ideias. E, para atingir esse fim preestabelecido, combinou a arte com o dado histórico, bem de acordo com a divisão que havia feito para o Brasil: “um estético, de valor necessariamente pedagógico; e outro positivo, a reclamar medidas práticas, a requerer a deliberação de homens empenhados e cônscios de suas obrigações, tanto no parlamento como na pele do cidadão comum” (PELOGGIO, 2006, p. 211-212).
Com a intenção de resgatar um passado desconhecido para a maioria dos brasileiros, criando, assim, uma identidade comum, buscou-lhes uma origem na raiz que os unia. Tal e qual Balzac, registrou em suas páginas os costumes humanos sem, contudo, fugir à arte. Não foi o primeiro a trabalhar com uma mescla de formas discursivas, entretanto, soube fazê-lo de maneira bastante capaz e peculiar. Seus romances históricos apresentam essa identidade comum, através do índio, primeiramente, e também do mestiço. Com efeito: encontrou ele no mito a força que precisava para unir as raças e valorizar o elemento natural da terra.
A técnica foi bastante pessoal, visto que não seguiu nenhuma corrente historiográfica em voga no seu tempo, fugindo dos grandes feitos e tentando recriar os pequenos quadros da sociedade brasileira com suas belezas, mas com suas dificuldades também, ainda que não muito acentuadas – afinal, não se intenta, nesta pesquisa, retirar José de Alencar de seu período histórico e estético. O que a historiografia não oferecia, ele “inventava”, com a grande capacidade imaginativa de romancista. Andou, por conseguinte, na contramão do “progresso” das teorias da história, que se profissionalizavam cientificamente, não havendo lugar para especulações imaginativas.
O historiador de então aparecia como um homem neutro, positivo, que se recusava a olhar o mundo com os “olhos d‟alma”, como o fez José de Alencar, o qual identificava no homem o anseio pela criação a partir do passado. Assim, não se contentou apenas com o presente; apropriou-se das reminiscências possíveis sem, contudo, fugir das necessidades da época em que vivia e de seu plano nacionalizador em literatura, norteador de sua obra.
Entretanto, não se limitou a crer no romance histórico como uma mera forma artística. Sempre que pode, provou ser verdadeiro seu argumento, seja criando notas, seja falando por meio dos personagens; e baseado-se também em cronistas dos tempos coloniais, recriando, assim, o passado, ou antes dessacralizando a história, projetando nela o presente do próprio autor. Por conta dessa visão subjetiva, tem certa aproximação com o pensamento presentista de Croce, isto é, por considerá-la como um produto do espírito, a defender um olhar contemporâneo sobre os fatos do passado.
Em relação a essa postura alencarina, há quem a veja como sendo própria de sua veia de historiador, como é o caso de Pedro Calmon; e há quem defenda que o romancista cearense estava para além da limitação da realidade, não
podendo, por isso, ter escrito romances históricos, pois estes exigiam “paciência” na tentativa de imitar o passado, à qual Alencar teria renunciado em favor da imaginação. Um dos defensores da criatividade sem limites de Alencar é Augusto Meyer, que nega a veracidade dos elementos da narrativa alencarina em prol da fantasia do escritor:
Eu por mim confesso humildemente que não vejo indígenas na obra de Alencar, nem personagens históricas, nem romances históricos; vejo uma poderosa imaginação que transfigura tudo, a tudo atribui um sentido fabuloso e não sabe criar senão dentro de um clima de intemperança fantasista. Poeta do romance, romanceava tudo. Se teve a intenção de criar o nosso romance histórico, ficou só na intenção, e de qualquer modo não lograria fazê-lo, pois era demasiado genial para poder adaptar o seu fogoso temperamento a um gênero tão medíocre, que pede paciência aturada na imitação servil da crônica histórica, pouca imaginação criadora e acúmulo de minudências pitorescas [...] (MEYER, 1964, p. 13-14).
Fazendo a separação entre a imaginação e o trabalho historiográfico, como se um impossibilitasse o outro, Meyer não reconhece As minas de prata como um romance histórico, pois não valoriza sua base histórica, apesar de elogiar a criatividade do romance:
Em As minas de prata, a fantasia insofrida faz da tênue sugestão apanhada na crônica histórica um trampolim para as mais desencadeadas improvisações romanescas; é, decerto, esse estranho livro, cheio de altos e baixos, mistura de não sei quantas coisas, um verdadeiro filme romanceado e uma obra-prima do romance gratuito (MEYER, 1964, p. 14).
Interessante observar que cerca de um século depois, outro romancista também teve rejeitado pela crítica (e por si mesmo) o título de romancista histórico. Acerca dessa postura em José Saramago, vejamos o que diz Leyla Perrone-Moisés:
Quando se fala em “romance histórico”, tem-se habitualmente, como modelo a ficção do século 19. É evidente que os romances “históricos” de Saramago são muito diferentes dos romances históricos do século 19, tanto nos seus projetos como em sua escrita. [...] Embora seja mestre em dar vida e ação aos dados documentais, em reconstituir ambientes e personagens de épocas passadas, também é mestre na desconstrução de todo realismo, pelos voluntários anacronismos, pelas bruscas mudanças de enunciador e de tom, pela mistura de registros altos e baixos, pela introdução de eventos fantásticos na trama oficial ou cotidiana, pela ironia e pelo humor de seus autocomentários. Muitos desses procedimentos são conquistas da técnica romanesca de nosso século que Saramago utiliza com maestria (PERRONE-MOISÉS, 1999, p. 101).
A riqueza da imaginação de ambos e as técnicas – antecipadas de um e atuais de outro, considerando os períodos em que viveram – foram essenciais para que lhes fossem negados essa função de romancistas históricos e reconhecidos apenas como romancistas de grande imaginação.