O capitalismo, como sistema econômico vigente, possui como característica central a produção e a introdução de inovações. Assim como o capitalismo, a economia evolucionista apresenta transformações e cria mecanismos, para que a produção e a inovação industrial estejam sempre envolvidas em um processo de evolução criativa (ALBUQUERQUE, 1998).
As patentes objetivam atribuir direitos e deveres dentro de um sistema que pode e deve se auto ajustar. Na prática dos países tais sistemas de inovação materializam-se no depósito de patentes. No Brasil, é o Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) quem regula as ações que envolvem a proteção industrial. Os aspectos relacionados às legislações patentárias são moldados em cada país, mas seguem orientações da Convenção de Paris desde 1880. É importante destacar que o Brasil está distante da fronteira tecnológica internacional, fazendo muito sentido analisar o tema patentes como uma construção institucional que garante a apropriabilidade dessa mercadoria intangível que é a informação e o conhecimento (ALBUQUERQUE, 1998).
Nesse contexto, a informação é matéria-prima, atua como produto e como insumo na descrição do registro de uma patente, essa valorização da informação está fortalecida em nosso contexto atual, em que vivenciamos a era da informação. Contudo, a informação possui um caráter intangível que dificulta sua posse plena. A informação, nesse contexto econômico, é vista como mercadoria e não como bem público livremente disponível. A apropriação da inovação como parte da dinâmica tecnológica do capitalismo remete-se às oportunidades tecnológicas e às condições de apropriabilidade que são específicas a cada paradigma (ALBUQUERQUE, 1998).
O relatório da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) publicado em agosto de 2016 apresenta um ranking para o índice global de inovação, nele o Brasil ficou em 69º entre os 128 países pesquisados. Essas economias representam 92,8% da população mundial e 97,9% do Produto Interno Bruto (PIB global), a Suíça lidera o ranking das economias mais inovadoras do mundo (OMPI, 2016).
Diante do exposto, as especificidades patentárias em países periféricos, apresentam inovações fundamentalmente incrementais e ainda sofrem com o depósito de patentes estrangeiras que podem restringir o desenvolvimento pleno em determinadas áreas. O simples fato de ter a posse de uma patente não é suficiente para manter uma barreira à entrada, quando o seu proprietário não realiza os investimentos e nem desenvolve as capacitações organizacionais necessárias, quando outro tem vontade e condições de fazê-lo (ALBUQUERQUE, 1998). O sistema de patentes foi criado para avançar a competitividade e
o benefício social, ao incentivar a divulgação pública das invenções em troca de um monopólio estritamente limitado. As invenções, bem como as informações técnicas, podem ser usadas em qualquer lugar, desde que o monopólio da patente não esteja em vigor ou que a proteção não tenha sido solicitada no país em questão.
No INPI são depositados por volta de 23 mil patentes ao ano por estrangeiros enquanto nos EUA são depositadas por volta de 400 mil patentes por ano (OMPI, 2008). Tais números revelam que mais de 350 mil patentes depositadas nos EUA anualmente podem ter seu conteúdo produzido, usado e vendido licitamente no Brasil, uma vez que a proteção patentária tem validade somente nos territórios onde foi concedida. Assim, quando o assunto é patentes é imperioso lembrar que a ciência financiada por fundos públicos é um passo importante no caminho para o desenvolvimento de tecnologias que podem melhorar a sociedade. No entanto, nem sempre a relação entre o progresso da ciência e o seu impacto é muito clara (LENS, 2014).
A nanotecnologia ilustra bem este caso, já que nos últimos anos grandes investimentos foram realizados para o progresso das pesquisas na área. Entretanto ainda não trouxeram os resultados esperados com relação a transferência de tecnologia. O número de publicações aumentou significativamente, mas o número de patentes concedidas ou até mesmo solicitadas ao INPI não pode acompanhar tal crescimento por motivos aparentemente óbvios, pois uma vez que o conhecimento está publicado, já não poderia ser protegido.
Nessa linha de raciocíonio pode-se também questionar se patentes em nanotecnologia, protegidas apenas no Brasil, teriam realmente condições de atender aos propósitos dos investimentos realizados, ou seja, tornar a indústria brasileira mais competitiva no mercado internacional, pois raras são as patentes brasileiras com abrangência mundial.
Uma consulta rápida ao INPI, com o termo nano* nos resumos das patentes, retornou 1.964 patentes em todo o período que compreende os anos 1991 e 2016. Ao se refazer a busca utilizando o filtro “apenas patentes concedidas”, neste mesmo período, encontrou-se 153 patentes, o que representa 7,8%. Ou seja, como há casos em que se leva 12 anos para concessão de um pedido de patente12, ainda não é possível se pautar nas informações de concessão. Com a busca nano* nos títulos na base do INPI é possível perceber que de 2006 até 2016 foram depositadas 1.306 patentes, mas destas, apenas 9 estavam concedidas até a data da busca (11/10/2016). Dentre as diversas razões para este baixo resultado, uma delas é
12 Patente número PI 0215135-9 B1 MÉTODO PARA PREPARAR UMA DISPERSÃO ESTÁVEL DE NANOPARTÍCULAS
DE CARBONO EM UM LÍQUIDO. Data do Depósito: 06/12/2002 - Data da Publicação: 04/01/2005 - Data da Concessão: 16/12/2014.
devido ao fato de que muitos pesquisadores publicam artigos científicos com os resultados de suas pesquisas e só depois solicitam patenteamento.
Sobre as características dos documentos de patentes salienta-se a sua classificação, eles são classificados de acordo com diferentes sistemas, dependendo da autoridade responsável pela concessão da patente. O sistema de classificação mais importante é a Classificação Internacional de Patentes (IPC) da WIPO. Introduzido em 1968, o IPC é usado por todos os escritórios de patentes em todo o mundo, alguns dos quais também utilizam um sistema de classificação nacional. O IPC tem uma estrutura hierárquica e subdivide-se em secções, classes, subclasses, grupos e subgrupos. É um dos sistemas de classificação mais preciso disponível, o IPC atualmente divide a tecnologia em cerca de 70.000 sub-áreas (WIPO, 2016).
O sistema de classificação de patentes facilita o arquivamento e recuperação destes documentos. Por exemplo, verificar o estado da arte de uma tecnologia seria praticamente impossível sem classificação, porque a busca com palavras-chave muitas vezes pode produzir resultados imprecisos e incompletos, devido ao idioma no qual os documentos de patentes são escritos e os termos utilizados13.
Nas análises de patentes, é importante reconhecer as famílias de patentes para verificar os países onde há proteção para uma mesma invenção. Há várias limitações para buscas efetivas sobre tecnologias, dentre elas tem-se a fase de sigilo (18 meses da data de depósito) dos documentos, pois qualquer base de dados ou ferramenta de busca utilizada vai recuperar apenas documentos que já tenham sido publicados. Outra limitação é a diversidade de fontes de informação que deverão ser consultadas para atestar que não há anterioridde (Escritórios nacionais e internacionais, bases de publicações científicas, dentre outras).
Na base do EPO (Escritório Europeu de Patentes tradução da sigla em inglês) o número do documento da patente pode ser utilizado no campo de busca para encontrar a família da patente. Essa opção é útil quando se quer informações para exploração ou identificação de mercados, por exemplo.