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4. BÖLÜM

4.4. Türk Kamu Mali Yönetim Sisteminde Yeniden Yapılanma Süreci, Performans

Do exposto até aqui se pode perceber pelo menos dois pontos em que foram feitas sinalizações acerca da descrição levinasiana da subjetividade. Seja tomando as ligações de Lévinas com a fenomenologia, na direção de uma redução ética, ou tomando sua herança parricida em relação a Heidegger, percebeu-se, em primeiro lugar, uma subjetividade passiva de uma exterioridade não abarcável pela consciência intencional e, desta forma, para uma demanda de reconhecimento para com o Outro que não faz sistema comigo, que não se pode efetivamente conhecer.

Neste ponto, a subjetividade é posta, sobretudo, como passividade, como atravessamento do Outro no Mesmo na forma de vestígio. Em segundo lugar, percebeu-se também uma subjetividade que não está dentro do jogo totalizante do ser, mas que aponta para a ruptura: subjetividade como “resistência à totalização”. Tal separação é sinalizada pelo corpo numa radicalização da “encarnação” do problema humano.

É hora de seguir nessas duas trilhas abertas: subjetividade como passividade, e subjetividade como separação, começando pela última.

Vemos pois que duas instâncias principais de ruptura da totalidade precisam ser conjugadas: o eu como Mesmo, na direção da separação – ou seja, que escapa ao círculo ontológico que referencia o Eu na totalização – e o eu receptivo e bondade tocado pelo infinito de outrem, abrindo o Desejo e a transcendência (PELIZZOLI, 2002, p. 74).

Pode surpreender àqueles que conhecem Lévinas apenas por ser o pensador da “alteridade radical”, que a subjetividade seja posta como um “princípio de separação” e “egoísmo do eu”, marcado como psiquismo: “ser eu, ateu, feliz, criado – tudo isso são sinônimos” (LÉVINAS, 2008, p. 141). O psiquismo é ruptura, é resistência, é satisfação em si: “o papel original do psiquismo não consiste de facto em refletir apenas o ser. É já uma maneira de ser, a resistência à totalidade” (LÉVINAS, 2008, p. 41, grifo do autor). Há ainda um caminho a ser traçado a partir desta consideração do eu como separação, até aquela apontada nos seguintes termos: “comer, comprazer-se em comer, comprazer-se em si, é repugnante; mas a fome do outro é sagrada” (LÉVINAS, 2007, p. 82). Permaneça-se nesse primeiro momento do ateísmo originário do eu egoísta, no qual o comprazer-se em si, é um princípio de ruptura com a totalidade.

Nesse contexto, a análise levinasiana do psiquismo aponta para uma separação não-relativa da subjetividade. O Outro só poder ser Outro “em relação a um termo cuja essência é permanecer no ponto de partida [...] ser o Mesmo, não relativa, mas absolutamente” (LÉVINAS, 2008, p. 22).

Lévinas fala de um termo que se satisfaz nas suas necessidades: “vivemos de „boa sopa‟, de ar, de luz, de espetáculos, de trabalho, de ideias, de sono, etc” (LÉVINAS, 2008, p. 100). Mas, esse “viver de”, não aponta para um conteúdo do qual “dependa” a felicidade, não se trata de uma causa para a qual a felicidade seria o efeito: “os conteúdos de que vive a vida nem sempre lhe são indispensáveis para a manutenção dessa vida [...] Ou, pelo menos, não são vividos como tais” (LÉVINAS,

2008, p. 101). Lévinas está a falar que a própria necessidade é sentida como gozo ou fruição pela possibilidade de satisfação. Os “alimentos da vida” estão à disposição do eu, ou pelo menos são uma “possibilidade” ao eu e, como tais, felicidade na necessidade. O eu se compraz no egoísmo de suas necessidades.

Mais uma vez se vê uma reviravolta nas considerações levinasianas em torno da temática da intencionalidade. Como já se disse, a intencionalidade em Lévinas assume um caráter muito mais “corporal”, muito menos racional e teorético do que na proposta husserliana. A consciência intencional aqui é “prazer”, prazer da vida, prazer de um ser que se satisfaz nas suas necessidades, porque capaz de “morder o mundo” e, pela transmutação do outro em mesmo, fruir a vida. “Vivemos na consciência da consciência, mas esta consciência da consciência não é reflexão. Não é saber, mas prazer e, como diremos em seguida, o próprio egoísmo da vida” (LÉVINAS, 2008, p. 102).

A todo o momento se está a descrever que a vida que vivemos é vivida a partir de uma “separação” não-relativa, que mais a frente será posta em outros termos, mas que se fique com esta por enquanto. “Aquilo de que vivemos não nos escraviza, antes é objeto de nossa fruição” (LÉVINAS, 2008, p. 105). Dado que não há escravização para com a exterioridade, dado que o eu se compraz em suas necessidades pela possibilidade de satisfação, se pode afirmar que a subjetividade é princípio de separação, é ruptura.

É também nesse contexto que se pode afirmar o ateísmo originário do eu enquanto separação. Lévinas fala de um ateísmo do eu sem entrar em contenda com Deus. Aliás, para ele, tal ateísmo originário, mais um símbolo da “separação”, é sinal de glória para o criador:

Vive-se fora de Deus, em si mesmo, cada qual é ele próprio, egoísmo. A alma – a dimensão do psíquico -, realização da separação, é naturalmente ateia. Por ateísmo, entendemos assim uma posição anterior tanto à negação como à afirmação do divino, a ruptura da participação a partir da qual o eu se apresenta como o mesmo e como eu.

É certamente uma grande glória para o criador ter posto em pé um ser capaz de ateísmo (LÉVINAS, 2008, p. 46).

A dimensão da fruição, do egoísmo, da necessidade em que se compraz é, sobretudo, a dimensão da separação. Lévinas está a falar de um termo que é “solidão por excelência. O segredo do eu garante a discrição da totalidade” (LÉVINAS, 2008, p. 109). Vê-se a distância que ele assume aqui para com o

pessimismo que, via de regra, caracterizou alguns pensadores existencialistas. Em Lévinas, se pode desesperar da vida porque ela é naturalmente felicidade: “desesperar da vida só tem sentido porque a vida é, originalmente, felicidade. O sofrimento é uma falta da felicidade e não é exacto dizer que a felicidade é uma ausência de sofrimento” (LÉVINAS, 2008, p. 105-106).

Esta ordem da separação, do eu egoísta que se satisfaz nas necessidades, como se disse, visa romper com o sentido de totalidade e sistema que animou toda a filosofia desde os gregos. É assim que Pivatto (2009, p. 84) afirma que “Lévinas não titubeia em pôr em xeque toda a cultura ocidental, melhor, toda a herança da tradição grega, inclusive suas bases milenares sobre as quais se edificaram os ideais do ser, do poder e do saber”. Pela subjetividade enquanto separação, Lévinas aponta um rompimento não passível de ser abarcado pela ordem da totalidade e do ser.

Está-se a falar na necessidade na qual se compraz o eu egoísta, separado, bem diferente da ordem do Desejo. É exatamente a entrada na ordem do Desejo que sinaliza o campo da “conjugação” levantada por Pelizzoli (2002, p. 74) entre o eu como Mesmo, na direção da separação, que foi apresentado acima, e o “eu receptivo e bondade tocado pelo infinito de outrem, abrindo o Desejo e a transcendência”.

Antes de entrar nessa dimensão do Desejo, e na subjetividade caracterizada como passividade, cumpre evitar qualquer apropriação indevida da descrição levinasiana acerca da subjetividade como separação, por qualquer ideia de indivíduo livre e soberano, sujeito de sua vontade, tão afeto ao pensamento liberal e marcante na ideologia do Capital Humano. Nada seria mais estranho à Lévinas. É preciso afastar essa apropriação indevida, já que é essa ideia “atômica” do indivíduo que se relaciona diretamente com aquele processo de “psicologização política do trabalho” aventada a partir da obra de Eduardo Crespo. A subjetividade em Lévinas, ainda que princípio de separação e ruptura, não endossa o processo de psicologização pós-moderno e isso há de ficar ainda mais claro quando ela for posta como “passividade” irredutível face ao Outro. Esse primeiro momento da separação é um intervalo no qual se constitui a passividade.

Pelizzoli (2002, p. 26), numa tentativa de contextualização do pensamento de Lévinas, o coloca no rol dos desconstrutores e pós-metafísicos e justifica sua posição pela “enormidade da crítica à identidade do sujeito autônomo e livre, em

vista de um ponto de partida heterônomo”. O próprio Lévinas tenta desconstruir a ideia do indivíduo livre e soberano em diversas passagens apontando para a fragilidade do conceito “homem”:

A consciência de si, ela mesma, desintegra-se. A psicanálise atesta a instabilidade e o caráter falacioso da coincidência consigo no cogito [...] A coincidência consigo na consciência onde o ser é, desde Descartes, mostra- se ao Outro (e, a seguir, ao próprio sujeito), como exercida ou trabalhada por pulsões, por influências, numa linguagem que compõe uma máscara chamada pessoa, a pessoa ou ninguém, a rigor, um personagem dotado de consistência puramente empírica (LÉVINAS, 2009, p. 71-72).

Portanto, nada há que se associar entre a ideia do eu separado, princípio de ruptura com a totalidade, com qualquer antropologia do “eu livre”, “soberano” e “psicologizado” dos discursos do bom comportamento no trabalho. Na verdade, tal visão de ruptura só pode ser melhor compreendida, se se trouxer à discussão a outra dimensão da subjetividade. Se nesse primeiro momento, qualquer soberania e psicologização do eu pode ser rechaçada pela percepção da “máscara chamada pessoa”, mais ainda quando se tiver em conta a passividade absurda na qual o eu se encontra diante do apelo moral do Outro, inscrição de um traumatismo na subjetividade. Aí, o eu é completamente refém.