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A segunda temática que aparece com maior frequência é a de preços e serviços, em que se encaixam também os textos sobre comércio, área vista como afetada positiva e negativamente pela Copa do Mundo: é uma oportunidade que pode ser perdida devido aos
impacto na economia cearense?; O que se pode destacar na área ambiental? Houve parceria com catadores e moradores?; O que a senhora destaca ainda como positivo?
feriados, medida paliativa necessária para o bom funcionamento da mobilidade. Nesse ponto, o discurso dos jornais também não é unificado. Mais um trecho de Mobilidade e segurança preocupam ilustra essa visão. Nele, o cotidiano da cidade é visto como um obstáculo:
Embora aguardem na vinda de um número expressivo de turistas durante a Copa do Mundo, representantes da indústria, comércio e setor de serviços do Ceará temem que problemas enfrentados diariamente pela população da Capital sejam um entrave para o aproveitamento das oportunidades desejadas.
Outro trecho que transmite ideia semelhante é de Turista leva imagem positiva do CE. Como medida temporária, os feriados têm uma dupla face: minimizam os problemas, mas criam novas dificuldades:
“Os feriados prejudicam a cidade, pois o turista não tem acesso a equipamentos culturais, patrimoniais e históricos da cidade. Além disso, há também um certo exagero nos preços cobrados por diversos produtos e serviços, o que reflete não só na imagem que os turistas têm de Fortaleza, mas também do próprio fortalezense, que acaba pagando mais caro’, coloca Maria Cleide Bernal [Doutora em Planejamento Urbano e Regional do Departamento de Teoria Econômica da Universidade Federal do Ceará, a fonte especialista].
No trecho acima, é também mencionada a questão dos valores dos produtos e dos serviços prestados. Ambos os jornais preocupam-se em saber dos preços cobrados aos turistas, que parecem não perceber o encarecimento comentado pela fonte, como visto em
Turistas já invadem a cidade, também do Diário do Nordeste:
Quanto aos preços, a [Maribel, a turista] costarriquense diz ter se surpreendido, não pelo aumento sentido pela população local, e sim por achá-los baratos [...] Assim como Maribel, os londrinos têm achado os preços consideravelmente baixos. ‘Bem, as bebidas são mais baratas. Já a comida, notamos que é sutilmente mais barata. Julgando que se trata de uma Copa, confesso que achávamos que seria bem mais caro’, diz Ed.
A mesma contradição entre o que dizem os moradores e o jornal e o que os turistas percebem aparece também no jornal O Povo: Preços são considerados acessíveis, de 5 de julho, trata do comércio na Avenida Monsenhor Tabosa, área próxima à orla turística que conta com lojas de diversos segmentos. Essa e outras notícias trazem citações diretas e indiretas de turistas que não reclamam dos preços e chegam a considerá-los baratos. Vendedores ambulantes escutados pelo jornal, porém, admitem aumentar o preço de seus produtos quando percebem que os clientes não são nativos:
‘Eles (estrangeiros) passam aqui morrendo de calor e só querem se refrescar. Pagam até R$ 5 em uma garrafa de água ou numa latinha de cerveja gelada’, comemora o ambulante Raimundo Marcos, que não tem problemas em afirmar que cobra mais caro para quem é turista. ‘A gente tem que dar um jeito de tirar o nosso, né?’, pontua. E esse é o pensamento da maioria dos ambulantes que está na fan walk. Se perguntados sobre o preço em qualquer língua estrangeira, eles não hesitam em aumentar os valores dos produtos. Uma simples água de coco chega a custar até R$ 10, enquanto uma garrafinha de água, uma latinha de cerveja ou refrigerante eram ofertados a R$ 5.
Veremos mais adiante que uma das principais características atribuídas ao fortalezense (e ao cearense de modo geral) é a hospitalidade, o fato de receber bem quem nos visita. Entendemos, no entanto, que, ao cobrar mais caro de turistas, os vendedores agem de maneira contrária a isso. O anfitrião, na tentativa de se dar bem, acaba prejudicando seu visitante. Em outra ocasião, o cidadão local une a busca pelo lucro ao bem-estar do turista, como é o caso das bicicletas adaptadas que levavam os turistas ao estádio86. Os moradores do entorno da Arena Castelão foram vistos como beneficiados87, por perceberem a oportunidade e buscarem formas para se aproveitar dela. É o caso da notícia Tem de tudo no acesso ao Castelão88, de 24 de junho, também d’O Povo, que corrobora com a visão da Copa como
oportunidade de comércio:
Os quilômetros de percurso da fan walk da Arena Castelão se transformaram em uma grande oportunidade para os comerciantes de Fortaleza. Sabendo da euforia e das necessidades dos torcedores às vésperas dos jogos da Copa do Mundo, os vendedores aproveitam para transformar o corredor de acesso ao estádio em uma grande feira.
Fontes ligadas ao comércio viram a Copa como uma influência não apenas para as vendas, mas também para a qualidade do atendimento. O trecho de O que a cidade está aprendendo com o mundial ilustra bem essa questão, vista como uma das transformações proporcionadas pelo megaevento. Os turistas “exigentes” fazem com que os lojistas se preparem melhor, o que dá a entender que essa melhora não é vista como necessária quando os clientes são apenas os moradores locais:
86 Era proibida a entrada de veículos a uma distância de três quilômetros da Arena, e os torcedores eram
obrigados a percorrer o caminho a pé, muitas vezes sob sol forte. Moradores do entorno do Castelão criaram os bicicletáxi para tirar proveito da situação.
87 Apesar de vê-los como beneficiados por essa perspectiva, os jornais apontam a falta do direito de ir e vir
livremente no entorno do estádio.
88
Como outras notícias relacionadas aos aspectos mais positivos e de interesse humano da Copa, esse texto traz um título de linguagem mais informal, característica das soft news. Essa é uma ocorrência comum no corpus analisado.
Para Cid Alves, presidente do Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de Fortaleza (Sindilojas), a Copa não proporcionou apenas o aquecimento das vendas, mas está transformando a forma como o comerciante cearense lida com seus produtos e com sua forma de atendimento. ‘A vinda de turistas faz a qualidade do nosso comércio se elevar e o consumo de produtos também. Mas essas pessoas que poderão passar a frequentar o país no futuro são muito exigentes. As lojas se prepararam para receber mais público. Houve treinamento para recepcionar em outros idiomas’, afirma Cid.
A fonte menciona ainda um dos pontos da preparação para receber os turistas: a busca por uma comunicação mais eficiente, traduzida no investimento em outros idiomas. Veremos, quando tratarmos da categoria de hospitalidade e recepção, que ambos os jornais veem este como um dos pontos falhos da cidade, tanto em serviços públicos quanto privados, que é compensado pela hospitalidade do povo.
Pontos turísticos ainda são pouco procurados, de 24 de junho no DN, indica que o comércio e os serviços turísticos compreendem que o tipo de turista da Copa do Mundo é diferente daquele dos períodos de alta estação em Fortaleza. É um visitante que tem o jogo como prioridade e que muitas vezes acompanha a seleção de seu país por várias cidades, ficando pouco tempo em cada uma delas. A visita aos pontos turísticos fica em segundo plano. Os centros de artesanato, por exemplo, tinham uma expectativa que não foi alcançada. Nesse sentido, percebemos que, apesar de o número de turistas que passam pela cidade na Copa ser alto e concentrado em um curto período de tempo, eles não se comportam como turistas habituais. Desse modo, a justificativa do turismo para a realização de megaeventos perde um pouco de sua força.
Outros textos também tratam de investimentos feitos na prestação de serviços turísticos, como é o caso da reportagem A Copa de 2014 fora da Arena Castelão, de 12 de junho:
Muitos taxistas passaram por cursos de língua estrangeira e estão aptos a atender os visitantes. [...] A hotelaria, por exemplo, investiu na melhoria dos quartos e outros espaços comuns, além de priorizar os treinamentos em língua estrangeira. Bares, restaurantes e barracas de praia investiram em mão de obra, estrutura, cardápios bilíngue e pratos diferenciados.
O texto do Diário do Nordeste traz dados sobre a expectativa de gastos dos turistas, além de funcionar como um guia de turismo, apontando o que o visitante pode conhecer pela cidade. É também um dos exemplos que ilustram o tom mais presente no corpus: apesar dos problemas, Fortaleza é uma cidade capaz de receber grandes eventos. O trecho abaixo compara ainda a Copa do Mundo com um espetáculo teatral. Caracterizar o
megaevento como “espetáculo do entretenimento” é comum, e o jornal reproduz a ideia. A escolha pelo termo “percalço” minimiza e qualifica os obstáculos como contratempos:
Apita o árbitro. Abrem-se as cortinas. Os artistas da bola entram em cena. Começa, hoje, o maior espetáculo da Terra em 12 metrópoles brasileiras. A capital cearense quer mostrar que percalços são comuns em grandes eventos, mas a festa está garantida na Arena Castelão e nos quatro cantos da cidade. A melhor Copa do Mundo de todos os tempos passa por aqui.
Como outros textos do suplemento Turismo, do Diário, a reportagem adota um discurso quase publicitário, também próximo aos releases de assessoria de imprensa. A frase final do trecho anterior, por exemplo, assemelha-se a um slogan. O parágrafo citado ainda dá
a entender que a “festa” é o aspecto mais importante da Copa do Mundo. Outro ponto a se
mencionar sobre a linguagem do parágrafo é a escolha pela expressão “quatro cantos da
cidade” para ampliar o campo de ação do megaevento, que na realidade é reduzido à zona
turística de Fortaleza. Essas escolhas ajudam a homogeneizar a Fortaleza sede da Copa do Mundo.
O principal exemplo do tom adotado pelo suplemento Turismo é Praia do Futuro é atração imperdível, de 3 de julho. O adjetivo “imperdível” caracteriza a aproximação de
discursos, que também fica evidente no trecho a seguir:
Para o período da Copa do Mundo, a dica é escolher entre aquelas que possuem o Selo de Qualidade em Serviços do Sebrae, pois são sinônimo de ambiente limpo, seguro e com serviços diferenciados. Uma boa opção é a barraca Marulho, que passou recentemente por transformações para chegar ao patamar de qualidade desejado (grifo nosso).
Os diversos adjetivos e a menção específica e nominal a uma barraca se juntam a
outros termos utilizados ao longo da notícia, como “estrutura de barracas de praia sem igual no mundo inteiro”. Há uma citação indireta da dona da barraca, que também é a presidente da
Associação de Barracas do estado, fonte ouvida em outras matérias. As barracas da Praia do Futuro, que ocupam terrenos da União, fazem parte dos atributos de Fortaleza como uma cidade-mercadoria para o consumo dos turistas, uma vez que oferecem serviços de lazer e de gastronomia e são vistas como um diferencial – não são comuns em outras cidades litorâneas
que competem com Fortaleza, como Recife. Além dos “comerciantes de ocasião” do entorno
da Arena, as barracas de praia são apresentadas como o setor que mais lucrou com a vinda de turistas.
Dessa categoria, outro texto chama a atenção. É Pontos continuam ativos no mundial, de 4 de julho, do Diário do Nordeste. Apesar de prostituição e exploração sexual serem fatores que impliquem em uma imagem negativa da cidade – Fortaleza é conhecida por eles –, o texto não trata a atividade de forma negativa, mas sim pelo viés econômico, de mais um serviço oferecido na cidade que foi influenciado pela Copa do Mundo. A expressão
grifada mostra que esse é um “serviço” típico da cidade. A reportagem ainda traz dados de
faturamento, fala dos preços cobrados e do público-alvo:
A escolha de Fortaleza como uma das sedes da Copa do Mundo movimentou de forma incomum uma série de serviços na capital cearense. Com os tradicionais pontos de prostituição, principalmente na área da Praia de Iracema, não foi diferente. Personagens que compõem a cena noturna ao longo da Avenida Abolição e ruas próximas, as prostitutas garantem que o período do campeonato de futebol ajudou a melhorar o faturamento nos programas (grifo nosso).
Quando se trata de preços e serviços, não há um discurso unificado de fontes, o que se traduz em um discurso fragmentado dos próprios jornais. Como são ouvidos setores influenciados de forma diferente e fontes com opiniões diferentes, as representações da Fortaleza da Copa, nesse aspecto, seguem linhas distintas. Para alguns a Copa do Mundo se mostrou positiva; para outros, não trouxe o resultado esperado. A menção aos investimentos no serviço turístico indica que a cidade preparou-se de forma específica para o megaevento – embora tenha havido o esforço tanto do setor público quanto do setor privado, segundo o jornal, em alguns pontos ele não foi suficiente.